Memorial de Maria Moura
Cap. 6 — Irineu
Irineu
FIQUEI PENSANDO. A minha cabeça dava volta, dava volta. A gente está no seu direito. Eu estou no meu direito; pelo menos dois terços daquele sítio são meus — e dos meus irmãos também. Mas isso se verá depois, é outra questão entre nós. E a Firma sendo maninha, a Marialva não casando, eu é que posso ter família e herdar dos outros. Ninguém pode negar que o sítio do Limoeiro é terra nossa, herança da nossa avó Joaninha, por morte de seu finado marido, o Marinheiro Belo. Morto o marinheiro e depois a velha, a herança tinha que se dividir em três partes: a do finado nosso pai, a da Titia e a do Embarcado. A nossa é nossa — minha, do Tonho e da Marialva. Essa, já se pode dizer que vai acabar moça velha. Vive encostada na nossa casa. E tem lá o ditado: quem come do meu pirão, leva do meu cinturão. Tem que fazer o que se mandar.
A parte do Embarcado meu pai comprou, é sabido de todos. Não sei se passou dinheiro entre os dois. Creio que só uma quantia pequena — bolacha quebrada — o que meu pai arranjou, vendendo um lote de gado. Diz que o Embarcado chiou: não embolsou nem a décima parte do valor. Também pra que ele queria? Ia morrer de beri-beri, passado um ano. Na verdade, tudo que levasse, ia ser um desperdício de dinheiro.
De qualquer maneira, a compra foi feita e a parte dele é nossa. Só resta agora aquela jararaquinha de rabo fino, que não tem moral pra reclamar de nada. Se ficar ali, vai ser igual à mãe, arranja logo um comborço e lá se vai o Limoeiro embora. Aí se começa uma guerra e sabe lá como é que acaba.
O melhor mesmo é passar a mão na prima, dizer que eu roubei a moça pra casar — e com o consentimento dela! Deposito nas Marias Pretas, sob a guarda da minha cunhada — que pode ser o diabo encarnado, mas não se pode negar que é mulher séria. O Tonho e a Firma assumem a responsabilidade pela moça. Ela pode chorar e reclamar nos primeiros dias, mas acaba se dando por feliz.
O Tonho diz sempre que eu posso ser safado, mas sei lidar com mulher. Pegando ela na cama, é o que me basta.
Bem, o Tonho deve estar pensando como era de ser bom pra ele se fosse o encarregado de amansar a prima. Mas, e a Firma? O que me salva é a Firma. Matar o Tonho, ela não mata. Mas à Maria Moura, com certeza acabava com ela, depois de lhe quebrar os dentes ou ferrá-la com ferro em brasa.
Aquela Firma não é uma mulher, é uma onça. O pobre do Tonho que o diga. Ai, enganar a Firma, só se ele fosse feiticeiro. E logo com a prima, novinha, bonitinha, os peitinhos empinados. E morando dentro de casa, ainda mais! Não, posso ficar descansado. Rival, no Tonho, eu não vou ter.
O diabo é que a Maria Moura, apesar de nova, não vai dar facilidade. Ela tem um jeito de encarar a gente que parece um homem, olho duro e nariz pra cima, igual mesmo a um cabra macho.
Meio solto na sela, acompanhando com o corpo a marcha do animal, eu continuava medindo as dificuldades.
Difícil mesmo vai ser passar a mão nela. A cabrita é capaz de se defender até de faca. A maneira dela é de mulher que carrega punhal no corpete; ou não seria tão atrevida. Com ela eu preciso tomar chegada por trás, prender os braços dela com toda a força dos meus, deixando a mão livre pra ir alisando os peitinhos, a barriguinha; falando bem baixinho no ouvido, pra ela se acalmar. Mulher não resiste a carinho bem feito. Se ela for bater com salto do sapato nas minhas canelas, aí o jeito é derrubar. Cair-lhe por cima, e seja então o que Deus quiser.
Prestei atenção na cara do mano. Vai morrer de inveja. Mas antes morrer de inveja do que morrer nas unhas da Firma. Ele se treme todo quando ela lhe bota aqueles olhos duros de gavião. Mulher de bigode, que é que se pode esperar? O besta do meu irmão se embelezou com os quatro vinténs do dote, que o sogro prometeu, e afinal, quando o casamento já tinha mais de ano, o velho bateu a bota. Do dinheiro não se viu nem um xis. Só um terreno velho sem açude, pra repartir com onze irmãos! A Rubina disse que o mano pegou a gata sem a prata — mas aquilo é lá gata, é onça velha, a chamada onça tigre... criada em furna, nos serrotes, capaz de acabar com um homem só com a patada...
... O bom vai ser a gente chegar lá de noite. Não mora homem nenhum dentro de casa, só a prima e as cunhãs. Eu sei, me informei bem.
O Tonho assusta ela com a arma, eu venho de investida. Domino a bichinha de entrada. Pego nos braços, vou com ela até o cavalo, monto e boto a menina na lua da sela...
Tem uma coisa: este cavalo pisado que estou montando não vai poder com nós dois. Assim que eu tiver domado a jaguatirica, o Tonho manda pegar o alazão que a gente viu hoje de manhã, comendo milho de mochila, na sombra do jucá.