Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 11 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 10 — Marialva

Marialva

 

MEUS IRMÃOS saíram cedo, boa coisa não foram fazer. E ainda mais levando os cabras, tudo armado. E por cima recomendando que a gente ficasse em casa, fechada, sem abrir a porta pra cristão nenhum. E se por acaso tivesse mesmo que falar com alguém, dizer que eles foram buscar um gado, ali perto, e já voltam.

Acho que eles só inventaram essa saída porque a Firma não está. Quando ela disse que ia dormir na vila, visitar a cova do pai que faz quinze anos de defunto, bem que eles olharam um pro outro e o Irineu até piscou. E olha que a Firma ainda recomendou ao Tonho, não se esquecesse de mandar buscar a vaca que pariu no mato, não fosse o bezerro caroar.

Eles todos saem, só eu fico, neste degredo. Trancada neste sítio velho, estas Marias Pretas dos meus pecados, este buraco do cão. Que foi que eu fiz pra me trazerem presa? Tenho ódio do Tonho. É um que, se eu fosse a morte, matava. Do Irineu não digo tanto; no tempo de nós meninos, ele gostava de mim. Me levava pra enxotar as cabras do roçado, pra catar ninho de periquito em casa velha de cupim. A gente trazia os bichinhos, pelados, pra criar com pirão de leite. Mas vinha a Firma, denunciava da gente ao Tonho e ele nos obrigava a dar os periquitos aos moradores. Senão ele matava. E matava mesmo, eu vi o Tonho torcendo o pescoço de um periquitinho já emplumando.

O pior foi que eu e o Irineu crescemos, e hoje ele mudou muito. Se botou rapaz, mandou fazer roupa pela costureira da Vargem da Cruz e sai se esquipando no cavalo, lenço no pescoço, banha de cheiro no cabelo, namorar lá na vila. Arrastar a asa à tal de prima do Limoeiro, que o povo falava tanto mal dela; mulher que anda a cavalo escanchada feito homem. Tão danada, que não teve medo de ficar sozinha com as cunhãs, no Limoeiro, mesmo depois que houve duas mortes na casa dela. Sem contar com a morte da própria mãe, a coitada de Titia, enforcada por si mesma. Sabe-se lá como isso aconteceu.

Diz o povo da vila que foi doença dos nervos. Titia estava sozinha no quarto, deu nos nervos, fez a loucura. Será?

Tudo isso acontecendo no mundo e eu aqui. Trancada dentro desta casa, desde que puseram Valentim pra correr.

Que será dele, que será feito de Valentim? Decerto vagueia pelas estradas, até acabar de cumprir a promessa. E depois? Engraçado, agora que ele está longe, andando nem sei por onde, o que dele me lembro melhor não é a feição nem a fala, é a rabeca. Aquele choro fino e rouco de rabeca: xem.. em.. em.. xem-em-em.

A música vinha de fora, da estrada, e eu cheguei na porta, curiosa. Lá estava ele montado numa burra magra, com a mão esquerda empunhando a rabeca, na direita o arco de tocar. As rédeas no arção da sela, tão mansa era a burra que andava pelos caminhos por si mesma, enquanto ele tocava.

E, quando me viu, o homem tirou o chapéu e disse:

— Ô de casa!

Eu respondi:

— Ô de fora!

Ele deu as boas-tardes, perguntou pelo dono da casa e eu expliquei que os donos da casa andavam fora, dando campo num gado. Mas ele podia falar comigo, que era dona da casa também.

Aí o moço se apeou da burra. Eu já tinha visto que era um rapaz moreno claro, cabelo escorrido, bigode nenhum. Mas com uns olhos verdes agateados — imagine, iguais aos meus!

Ele talvez reparou na mesma coisa, porque jogou o chapéu no chão, passou o arco da rabeca para a mão esquerda e me estendeu a direita dele:

— O meu nome é Valentim Pereira, seu criado.

E eu ia respondendo “criado seja de Deus”, como me ensinaram, mas senti a língua presa. E ele continuou:

— Tão moça e já casada?

Eu me sentia cada vez mais encabulada, mas consegui firmar a voz:

— Aqui mofa também a esposa do meu irmão Tonho, que toma conta da casa; e ela hoje está fora. Mas os donos mesmo somos eu e meus dois irmãos. Nós não temos pai nem mãe.

E aí olhei pra ele:

— Nem eu sou casada.

O moço, por sua vez, me encarou bem nos olhos; continuava me segurando a mão, até que eu puxei. E ele disse:

— Não tome por atrevimento. Quando eu vi a cor dos olhos da senhora, levei um susto. O povo sempre me diz que nunca viu olho agateado da cor do meu; mas os olhos da senhora são da mesma cor, iguais, iguais.

Eu estava com a cara em fogo, pessoa nenhuma nesta vida nunca tinha me falado assim.

— Alguém que repare nos meus olhos é só pra dizer que eu tenho olho de gato. Como dizem os meus irmãos quando querem me aperrear.

O moço riu-se:

— Pois não se importe mais. Olho verde é bonito. As pessoas estranham porque é raro. Eu gosto da cor dos meus olhos, e me gabava de nunca ter encontrado olhos iguais, em lugar nenhum.

Parou, riu-se de novo:

— É como se a gente fosse uma espécie de irmãos. Se tirassem os olhos de um e botassem no outro, ninguém dava pela troca...

E, nesse dito dele, eu ri também, e perguntei que é que ele queria com o dono da casa.

O visitante foi até junto da burra, tirou um saco que vinha pendurado do arção da sela, do saco puxou com cuidado um registro de santo, num quadro. Era a figura do Senhor do Bonfim.

Valentim (não era assim que ele disse se chamar?) Valentim beijou o vidro que protegia o santo e virou-se para mim:

— Estou cumprindo uma promessa. No fim do ano passado corri um grande perigo e me vali do Senhor do Bonfim. Prometi que ia passar um ano, batendo de porta em porta, de casa em casa, pedindo esmola pelo amor de Deus.

Me estendeu então o quadro e disse, sério:

— Dona, me dê uma esmola pelo amor de Deus!

Eu me sentia ainda mais afogueada, gaguejei “Com licença!” e me virei para entrar em casa.

— Vou lá dentro, ver o que eu tenho. Minha cunhada é que guarda o dinheiro, a chave.

Ele me tocou na manga, de leve:

— Não se importe — qualquer moeda de cobre serve. Tem gente que me dá só um dérreis. O importante é que eu peça “pelo amor de Deus”.

Aproveitei de ir lá dentro, cheguei na cozinha, pedi à Rubina:

— Faça um chá de canela e traga no alpendre. Tem um moço aí que veio visitar os meninos.

Fui no meu quarto, peguei a bolsinha no baú, achei duas moedas de vintém. Fiquei com vergonha, mas era só o que eu tinha; também pra que eu queria dinheiro — gastar com quê? Mas agora era capaz de dar tudo no mundo pra ter uma moeda de prata e levar para o rapaz. Voltei para o alpendre:

— Desculpe, é só o que eu tenho comigo, estes dois vinténs. Minha cunhada...

Ele me cortou a palavra, estendendo a mão para receber os cobres:

— Eu não disse que não se preocupasse com a quantia? O que vale é ser pedido pelo amor de Deus.

E aí, me olhou de novo, me encarando com aqueles olhos verdes ‘iguais aos meus’ e, de novo também, sorriu:

— ...e ser dado de coração.

Eu não agüentei o olhar dele por muito tempo, baixei a vista e respondi, ainda assustada:

— Foi dado de coração.

Mostrei o banco comprido do alpendre, perguntei se ele não queria descansar um pouco, tomar um chá.

Valentim se encaminhou até a burra, levantou o coxim velho que cobria a sela, mais velha ainda, tirou do bolso do coxim um saco de couro e guardou dentro dele os dois vinténs, com o maior cuidado, como se guardasse ouro. Nunca eu tinha visto alguém dar tanto valor a dois vinténs. Ele arrumou de novo o coxim na sela e veio se sentar no banco:

— Há que ter o maior cuidado. É o dinheiro do santo.

— Não mistura com o seu?

— O meu? Que meu? O meu é quase nenhum. Toda semana procuro trabalho, dou uns dois, três dias de serviço, ganho o almoço e ainda me pagam com um litro de farinha, uma rapadura, um pedaço de carne-seca... É raro me darem dinheiro.

— E onde o senhor dorme?

— Quando me deixam, armo a tipóia num alpendre ou numa casa de farinha. Mas já tenho dormido muita noite debaixo mesmo de um pé de pau.

Nesse instante chegou Rubina com a caneca de chá. Ele bebeu devagar em goles pequenos, como se quisesse fazer o chá render. Me deu a impressão de que estava com fome. Rubina deve ter pensado a mesma coisa, porque perguntou sem rodeios, enquanto esperava de volta a caneca:

— Vocemecê aceita um pedaço de queijo?

Ele aceitou sem acanhamento e a Rubina voltou logo, trazendo um prato com uns pedaços de queijo, umas quatro bolachas grandes e outra caneca de chá.

Valentim pôs o prato e a caneca na ponta do banco e começou a comer o queijo, devagar, devagar, as bolachas, de uma em uma, entremeando com os goles de chá.

Nós duas olhávamos o moço comendo. E aí, me virei para Rubina e contei a ela a história da promessa, rematando:

— E tem que pedir “pelo amor de Deus”, senão não vale.

A velha não tirava os olhos da visita, muito curiosa, e acabou perguntando:

— Que perigo seria esse tão grande que vocemecê passou, pra pagar com uma promessa tão dura? E durante um ano inteiro?

Valentim parou com a bolacha no ar:

— Tirar esmola é mesmo muito ruim, quando se pede a certa gente. Tem casos em que eu preferia até tomar à força, ou mesmo roubar, em vez de pedir. No começo eu quase morria de vergonha. Agora já me acostumei mais.

Mas o que a Rubina queria saber era a explicação da promessa. E insistiu:

— Deve ter sido mesmo um perigo muito importante.

Valentim acabou a merenda, pediu pra dar de beber à burra, eu gritei para o moleque trazer um balde de água; ele levou a água para a burrinha, tirou-lhe a brida, afrouxou-lhe a cilha, esperou que ela bebesse. Só então voltou a se sentar na ponta do banco.

Teve que começar pela história dele, para poder explicar a promessa.

Era filho da Província do Rio de Janeiro, onde se criou. Com o pai, a mãe e um tio, formavam um grupo de saltimbancos, andando de feira em feira, divertindo o povo e ganhando uns tostões. O pai, português, fazia mágicas e sortes de toda espécie, ajudado pela mãe. O tio era levantador de peso e o número principal dele era se pôr de quatro pés, com a barriga para cima; e aí dois homens da assistência eram convidados para botar uma laje (em geral de uma arroba de peso e uns dois palmos de cada lado) em cima da barriga dele.

— Aí eu venho com uma marreta e bato na laje que está na barriga do tio, até quebrar.

Eu fiquei apavorada:

— Então era isso que o senhor fazia?

— Bem, eu toco a rabeca enquanto meu pai faz as sortes de mágica e o tio levanta os pesos. Meu pai foi que me ensinou a tocar e ele tocava também para mim, enquanto eu trabalhava. Porque eu sou mesmo é trapezista, perito em salto mortal. E também danço na corda bamba.

Rubina teimou:

— E aí?

— ...aí, nós estávamos dando um espetáculo na feira de Nazaré das Piranhas; o tio já tinha quebrado a pedra, os velhos já tinham virado água em vinho, tirado vintém de orelha de menino, bandeiras de uma caixa vazia — essas mágicas — quando chegou a minha vez. Bem, a gente armava na praça um cavalete de quatro braças de altura, pra pendurar o meu trapézio. Naquela noite eu subi pela corda e estava lá em cima me balançando; ia dar uma pirueta de duas voltas, quando a almanjarra do trapézio começou a estalar. Meu pai e meu tio correram, ficaram segurando com toda a força que tinham a perna do cavalete, que se lascava. Mas não teve salvação: a madeira acabou se partindo e eu me despenquei, com trapézio e tudo, da altura das quatro braças. Me estatelei no chão, caindo de cabeça para baixo. Ainda hoje não sei como é que eu não quebrei o pescoço. Nessa hora da queda, minha mãe gritou: “Valei-me Senhor do Bonfim!” ao me ver como morto, embolado na areia. E o Senhor do Bonfim acudiu, diz ela. Eu não me lembro de nada. Quando tornei a mim, estava deitado numa cama, numa casa perto da feira, meu tio me apalpando os ossos para ver o que estava quebrado. Por fim, ficou tudo em duas costelas partidas e o ombro deslocado. O tio, que tinha prática de osso quebrado, me enfaixou as costelas e deu um puxão no meu braço que quase me mata de dor; mas me botou a junta do ombro no lugar. Foi quando eu ainda estava desacordado que minha mãe fez a promessa por mim: se eu escapasse com vida ia passar um ano pedindo esmola para o Senhor do Bonfim — “e pelo amor de Deus”. Escapei, mas passei mais de seis meses para me dar por bom. Aí, os velhos trocaram a madeira do cavalete por esta burra, pagaram cinco tostões pelo registro do santo, já com a moldura e o vidro; e me puseram na estrada, para cumprir a promessa. Faz agora dez meses que eu comecei a penitência: já estou quase no fim.

A velha Rubina quis saber para onde se botava ele. Valentim se levantou, pegou no chapéu, na rabeca e estendeu a mão:

— Deus pague a vocemecês.

E eu, que não queria que ele fosse, puxei assunto:

— O senhor não quer esperar pelos meus irmãos? Eles podem dar mais.

Ele olhou bem pra mim e disse:

— Então eu vou, mas eu volto. Assim lhe vejo outra vez. Adeus, olhos verdes!

Botou o chapéu, montou, foi embora. Rubina me olhou de perto, deu uma risadinha:

— Olhos verdes! Os dele também!