Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 22 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 21 — O Beato Romano

O Beato Romano

 

 

UM ANO E UM MÊS vivi no Bom Jesus das Almas. Podia ser pior. Siá Mena me paparicava porque eu era um moço prendado. Inventei um caso de doença (mal do fígado) para explicar as minhas esquisitices, de não sair, não fazer visitas, não jogar baralho com os camaradas da botica — camaradas que, aliás, eu não tinha. Não possuir espingarda de passarinhar. Não namorar, não querer saber de bailes. Freqüentemente havia bailes na vila, nas casas de família, festa de aniversário, casamento, batizado. Embora os casamentos se celebrassem longe, em outra vila, onde havia vigário. Os festeiros do Bom Jesus iam esperar os noivos ou o neófito, com o cortejo de pais e padrinhos, na rua de entrada da vila.

Conforme a importância dos festeiros, podia até haver foguetório. Mas isso só uma vez na vida e outra na morte, já que no Bom Jesus não havia fogueteiro. E a pólvora custava um horror de cara.

Siá Mena tinha me arranjado um quartinho, com janela dando para os seus canteiros. Ela cultivava arnica, arruda, manjerona e as ervas que usava na cozinha. E tinha ainda uma roseira e um pé de bogari.

Ali, na janela, à claridade do sol, eu lia o que conseguia encontrar. Siá Mena teve a idéia de procurar quem fosse dono de algum livro. Descobriu um Santuário doutrinal nas mãos dos herdeiros de uma avó portuguesa, que trouxera o livro do reino, uma espécie de calendário piedoso; cada dia do mês trazia a história do santo desse dia, bem contada e estudada, até com referências históricas. Ao fim da vida do santo, vinham as reflexões espirituais, para proveito do devoto. Dois grossos volumes me deram leitura para muito tempo. Os donos tinham dito que eu podia ficar com o livro como se fosse meu; guardei os dois volumes então, na minha mesa de cabeceira, marcando com uma tirinha de papel o santo da data: e eu tomara a obrigação de o ler toda manhã. E não seria obrigação, antes devoção; pois que naquelas ‘lendas douradas’, como dizia o autor, encontrei muito sofrimento parecido com o meu, muita tentação, muita queda. Embora, também, muita virtude heróica, que eu jamais igualaria. Descobri, ali, que a principal qualidade do santo é a fortaleza.

Durante a minha inteira temporada no Bom Jesus, uma única vez consegui pôr as mãos num jornal do Rio de Janeiro. Um Jornal do Commercio, preciosidade que passara por não sei quantas outras mãos, até chegar a nós. Dava notícias da saúde do jovem Imperador, das manobras da tropa de linha; da ópera cantada por uma soprano italiana que arrasava corações, na Corte. “O espetáculo será honrado com a presença de Sua Majestade e Suas Altezas Imperiais.” Parecia novidade vinda de um mundo tão distante quanto o da vida gloriosa dos meus santos, no Santuário doutrinal.

Siá Mena pediu o jornal para guardar no baú, junto com outros números mais antigos. Dizia:

— Eu não sei ler, mas pra mim, isso é relíquia.

Outro livro descobri: A história de João Brandão, um bandido famoso do reino. Várias páginas faltavam, mas sempre se podia imaginar o texto perdido. Para arrematar, o homem mais rico da vila (solicitado por Siá Mena que demonstrava o maior orgulho ante as minhas leituras: “Só tenho medo é que tanto livro não vá acabar com a saüdinha dele!”) consentiu em me emprestar um exemplar de Os lusíadas. Relíquia também. Nele estudara o seu único filho, assassinado no Recife, quando seminarista. Siá Mena o conhecera:

— Era um Padrequinha entusiasmado, todo metido na política. Se não morresse de um tiro de bacamarte, como morreu, na certa ia morrer mais tarde, enforcado, como o Frei Caneca, coitadinho. Esse, sim, foi um santo.

Esse Lusíadas era um volume gasto e maltratado. Repassei todos os cantos do Poeta, decorei alguns, recordei muitos deles que eu analisara, quando também aluno do seminário.

Antes de devolver o Camões ao seu desconfiado dono, copiei, em algumas folhas de papel destinado às minhas cartas, alguns dos cantos que mais me falavam ao coração. Como Inês de Castro e Os Cinco da Inglaterra. Assim os pude reler depois, quando o velho, afinal, perdeu a cerimônia e me cobrou de volta o ‘manual’, como dizia.

Quem passasse na rua, vindo pelo lado direito, conseguiria me avistar, sentado ao pé da janela, com o livro exposto à claridade. A cerca da horta era baixa, a janela alta, e eu não me escondia tanto assim. Afinal, naqueles meses todos, nunca tinha encontrado um conhecido. E além do mais, na feira, eu me expunha para todo mundo e ninguém me reconheceu.

Então, numa manhã de quinta-feira, estava eu lendo o meu santo do dia: “A Beata Michelina, viúva”, quando bateram palmas à porta e eu ouvi uma voz de homem perguntar:

— É aqui que mora o moço que escreve carta?

Fui me levantando, guardei o livro. A menina bateu na minha porta. Com ela vinha um homem, via-se que era um cavaleiro: de botas e espora chilena, tinindo no ladrilho. Trazia o chapéu na mão e falou com cortesia:

— Vocemecê é que é o escrivão da feira?

Eu achava graça nesse título de ‘escrivão’, que me davam, mas concordei que era. E ele:

— Não sei se o senhor trabalha fora da feira. Mas careço de fazer uma carta com toda urgência. Poderá me atender aqui?

Eu respondi que não era meu costume trazer freguesia para casa; mas, sendo caso de urgência...

Mandei que ele se sentasse na minha cadeira da janela e puxei o tamborete (o da feira) para defronte da mesa; lá eu tinha papel, pena e tinta. Tirei do bolso o canivete, aparei direito a pena de pato (com que me abastecia abundantemente Siá Mena), arrumei diante de mim umas folhas de papel:

— Estou às suas ordens.

O homem rodava o chapéu na mão, meio indeciso:

— É uma carta para o meu patrão. Bem, não é patrão propriamente. Mas é ele que me adianta o dinheiro para comprar os gêneros nas feiras de lá de baixo. Trago a mercadoria pra cá e, com o apurado, compro os couros de boi e criação pra vender lá. Às vezes levo uns queijos de coalho do sertão que o povo lá de baixo aprecia muito.

— E como é o nome desse seu patrão?

— José Perciliano.

Escrevi no papel o nome do homem depois da data, lá em cima. O visitante parecia distraído ou concentrado. As contas dele deviam estar difíceis. Por fim, ditou:

“Meu compadre Perciliano...”

Mas de repente parou, me olhou bem de frente e falou mais alto:

— Foi o bigode! O que me enganou foi o bigode!

Me mirou, virando a cabeça para um lado e outro; ao final, se expôs ele mesmo ao meu olhar e pediu:

— Olhe pra mim! Olhe bem pra mim! Não se lembra de quem eu sou?

Eu, realmente, não me lembrava. A cara me parecia conhecida mas naquela vida que eu levava, de feira em feira, o que era para mim uma cara?

O homem, então, impacientou-se e me disse com voz segura:

— Padre José Maria, vocemecê não está reconhecendo o seu amigo Julião?

Eu saltei do banco, na defensiva. Quase virei o tinteiro:

— Aqui não tem nenhum Padre José Maria. O meu nome é José de Sousa Lima.

Mas eu devia estar sem sangue no rosto, a mão trêmula e o ar assustado; o que o homem tomou decerto por uma confissão.

— Padre José Maria! Eu não estou aqui pra denunciar do senhor. Vocemecê batizou meu filho, ensinou catecismo a ele e às minhas meninas. A gente se chamava de compadre.

Eu me deixei cair no banco, derrotado. Ele continuou:

— Aquele sucesso horrível que aconteceu na Fazenda Atalaia, eu sempre achei que era uma história mal contada. O compadre não é homem para executar aquilo a sangue frio. Desonrar a mulher, fazer um filho nela e, pra completar, assassinar o marido.

Cobri o rosto com as mãos e não pude segurar o choro.

Compadre Julião ficou esperando com paciência até que eu me acalmasse um pouco. Afinal falou:

— Veja se se lembra de mim: eu sou o Julião Tropeiro, minha casa fica perto do Matadouro; tem um capinzal na baixada, no quintal, se lembra? que é para sustentar os meus animais...

— Me lembro! Sua mulher é a Doninha, gostava de me servir tapioca com um café especial pra mim, quando eu passava por lá...

Suspirei:

— O que não estará ela pensando agora de mim!

— O povo mais ruim fala, fala, levanta esses falsos todos. Mas resta ainda muita gente que queria bem a vocemecê. E essa gente acha que a culpa não foi só sua. Aquela Dona Bela era muito falada...

Eu levantei a mão:

— Deixe em paz o nome dela, pelo amor de Deus!

— ... e aquele Anacleto sempre foi um bicho peçonhento...

Ficamos calados um momento, eu andando pelo quarto, Julião olhando para mim. Por fim, ele continuou:

— Naquela noite das mortes, teve gente que saiu lhe caçando, para acabar com o compadre também. A Dona Eufrásia, essa foi pra defronte da igreja, queria botar um cadeado na porta, para impedir o senhor de entrar lá. Ficou berrando que a igreja estava profanada. Só a sua presença, lá dentro, já tinha sido um pecado mortal. Olhe, a velha estava mesmo tão danada, que chegou a oferecer um prêmio para quem trouxesse o senhor arrastado, morto ou vivo. Só lhe chama “o Padre das três mortes”, espalhando que foi o vigário sozinho que matou os três.

Eu olhei para ele, espantado:

— Prêmio? Dessa eu não sabia!

— Pois saiu muita gente querendo ganhar esse dinheiro. A pé e a cavalo. A sorte é que ninguém teve a capacidade de lhe encontrar. É, e então deram para espalhar que vocemecê tinha pauta com o cão. Seria de tal jeito que, quando a perseguição chegava perto, o Padre se virava num pé de pau, num cachorro, até numa raposa, que é bicho amaldiçoado...

Eu, horrorizado, continuava olhando o Julião:

— Meu Deus!

E o compadre continuava:

— Se dizia também que, àquelas horas, o padre já era morto e enterrado, debaixo do chão. Ou que os negros da Dona Belinha tinham lhe matado para vingar a Sinhá e o Sinhô deles. Ou que o padre ganhou a estrada, montado num cavalo roubado!

Eu não queria trair a Iria, contando o que ela fizera por mim e divaguei um pouco:

— Compadre, não me lembro de nada daquela noite, de uma certa hora em diante. Só me lembro de quando parei o cavalo na porta da fazenda, entrei pela casa correndo e encontrei a moça na cama, esfaqueada, toda nua, coberta só com o próprio sangue. O Anacleto estava ajoelhado no chão, com a cabeça enterrada no colchão. Mas assim que ele escutou os meus passos, avançou pra mim feito um tigre, de faca na mão. Me cortou todo no braço (levantei a manga, mostrei as marcas). Olhe a cicatriz! Uma das facadas me cortou o tendão e ainda hoje não mexo com dois dedos da mão esquerda. Foi aí que peguei o tamborete e atirei na cabeça dele.

Tomei fôlego e encerrei, com voz rouca:

— Só fiz me defender.

O Julião não tirava de mim aqueles olhos espantados.

— Depois, eu não me lembro de nada. Caí desmaiado. Tinha perdido muito sangue, me esconderam em alguma cafua, por uns dias. E aí um negro velho, que eu nem conhecia de antes, vinha me botar uma banha quente nos cortes e cobria com folhas de saião ou pimenteira, nem sei; e não era só o braço que estava ferido, mas também o ombro, que aquele desgraçado rasgou por aqui (e mostrei de novo a cicatriz) descendo do ombro até o peito. Quando o golpe mais fundo sarou, o negro velho me acordou uma noite, me botou na estrada e me mandou tomar caminho. Não sei quantos dias tinham se passado.

Ignoro se o Julião me acreditou. Não me perguntou que negro velho seria esse. Se sentiu que havia ali algum segredo, respeitou.

— E o compadre foi dar aonde?

— Também nem sei. Saí andando estonteado; mas sentia, apesar da cabeça zonza, que precisava me afastar dali. O velho tinha me dado um saquinho com farinha e rapadura e, por uns dois dias, eu tive o que comer. Andava de noite e de dia; se apontava alguém no caminho eu me escondia no mato, até a pessoa sumir. Em certos lugares, teve gente que me acudiu. Um casal novo, a moça me tratou o braço e o pescoço feridos. Depois em outros lugares... Ninguém escutara nada a respeito dos crimes da Fazenda Atalaia; eu tinha andado muito e as notícias custam a chegar por ali... E muito menos saberiam da minha cabeça a prêmio, oferecido por aquela velha ruim — o que eu também só fui saber hoje.

— Ela ofereceu um conto de réis!

— Valha-me Deus! Um conto de réis!

— Pois é. Deus parece que gosta de dar dinheiro a quem é malvado. Mas pelo menos ela não teve a satisfação de pagar o prêmio a ninguém! Mas, como foi que vocemecê chegou a vir morar aqui, compadre?

— Ah, como lhe disse, andei muito, compadre Julião. Penei muito. Depois que melhorei, arranjava trabalho, ficava uns dias, uns meses até, num lugar; de repente me dava medo de ser descoberto, e eu anoitecia, não amanhecia mais ali. Fui servente de pedreiro, caixeiro de bodega, professor duns meninos. Acabei chegando aqui, neste Bom Jesus das Almas, e me fiz escrivão de feira... E agora você me achou.

 

Ficamos calados, depois que eu disse isso, Julião, que parecia meio tonto diante das minhas desventuras, quis voltar atrás na história. Deu um suspiro fundo, botou a ponta do dedo no meu joelho:

— Mas, falando de novo no dia da desgraça, meu compadre. Eu sabia, o meu coração dizia que o caso só podia ter sido assim como vocemecê contou... A morte do Anacleto, muito bem. Mas a morte da moça prenha, não acreditei um instante, que fosse pelas suas mãos. Nem aquela história do Padre ter pauta com o cão...

Sorriu meio encabulado por brincar com coisa tão séria:

— Só se o cão era o tal do negro velho!

Eu sorri também, enxugando os olhos:

— Também não podia ser... Ele não era coxo e, a toda hora, estava falando em “Nossunhô Jesus Cristo...”

 

Aproveitando a pausa mais leve, cheguei à janela, olhei a rua para além dos canteiros verdes, vi umas pessoas passando, me virei para o Julião:

— E agora, meu compadre, que é que você quer fazer de mim?

Julião levantou-se num rompante que quase derrubou a cadeira:

— Eu? Eu sou ninguém pra mexer com vocemecê? Eu não sou soldado de polícia nem delegado; e, como já lhe disse, sempre achei a história daquelas mortes muito mal contada.

Chegou perto de mim, me olhou bem nos olhos:

— Escute, compadre. As coisas agora, na Vargem da Cruz, estão muito mudadas, desde que chegou o vigário novo. Que por sinal é um Padre velho, meio surdo, homem de muito boa paz. Apareceu lá bem um ano depois da vossa partida. Não quis escutar os relatos do povo, disse que já sabia de tudo, tinha lido num escrito que o delegado mandou para as autoridades do governo e para o bispo. Ralhou com as beatas logo no primeiro sermão da missa de domingo; disse que ninguém ali era juiz para julgar os pecadores. E repetiu aquele dizer de Nosso Senhor Jesus Cristo — “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra!” Na sexta-feira seguinte rezou uma missa especial por alma dos defuntos da Atalaia. E voltando a falar em atirar a primeira pedra, disse que o que queria era botar uma pedra em cima daquela desgraça. “Peço que só recordem este triste caso para rezar uma Ave Maria pelos mortos que se foram e pelos vivos que ficaram penando.” As beatas se alvoroçaram, feito um bando de marimbondo assanhado. Nenhuma delas ficou gostando dele: de saída já não tinham simpatizado com o velho. E punham-se a se lembrar de vocemecê, gabando como era bonito e delicado... Só as mais danadas diziam que padre pune sempre uns pelos outros e que o vigário velho estava no papel dele, defendendo o Padre Zé Maria...

Eu escutava calado, não interrompi nenhuma vez o relato de Julião sobre os acontecidos em Vargem da Cruz. Me pusera andando pelo quarto, depois voltei a me sentar:

— Então, agora, já está tudo calmo em Vargem da Cruz?

— É, o povo já se desvaneceu quase todo daquele alvoroço do primeiro tempo. Um que outro ainda fala — mas como de águas passadas.

— Escute, compadre, o que foi feito do menino de... dela, o Zequinha?

— Pelo que ouvi dizer, a tia dela, a Dona Pite, da Fazenda Noruega, é que ficou com a criança. A Dona Eufrásia ainda achou que o direito era dela e ainda levou o menino para o Remanso. Mas o bichinho gritava e chorava o dia inteiro, não deixava a velha nem chegar perto dele. Aí a Dona Pite, quero dizer, a Dona Floripes, foi procurar o juiz e o homem deu o direito a ela, que era tia da parte da mãe, que foi assassinada. Pela parte da família do Anacleto não podia mesmo ser, que era ele o assassino. A Fazenda Atalaia, a casa da rua e a loja, ficaram para o menino. Anda tudo meio abandonado, é uma pena. Mas bem de órfão, já se sabe, ou é largado ou roubado...

Eu já não podia mais falar, não podia mais agüentar aquela agonia. Voltei pra junto da mesa, perguntei a ele:

— Compadre, você queria mesmo escrever aquela carta? Ou foi só um pretexto pra falar comigo?

— Credo, compadre, eu já não disse? Eu vim aqui por causa da carta, mesmo. Já tinha visto vocemecê de longe, me pareceu conhecido. Mas só aqui dentro, quando nos demos de cara, eu descobri quem era!

— Pois então vamos começar de novo essa bendita carta:

“Meu compadre Perciliano...”

E ele ditou:

“Os couros aqui andam caro, não é mais o preço do ano atrasado que eles cobravam. Mas também eu subi o preço da farinha e a rapadura e ficou uma coisa pela outra...”

Fiz a carta toda, passei para o papel as contas do apurado que o Julião tinha de cabeça; assinei por ele, preparei o sobrescrito, mas a cabeça andava muito longe, o coração me batia aos pulos ou parava de repente.

Pronta a carta, Julião quis ir embora, tinha o portador esperando. Mas prometeu voltar breve, pra gente conversar mais, combinar como seriam as coisas, daí para diante.

— E quando eu vier de volta, porque ainda vou mais para cima, atrás de comprar os couros, é que eu torno a lhe procurar. Raro é o ano em que eu não venho aqui, no Bom Jesus das Almas.

 

Ah, mas isso era o que o Julião pensava. Assim que ele abalasse com o comboio, eu ia tratar de ganhar a estrada. Sentia pena, porque já estava acostumado com o povo da terra, ia me fazer muita falta Siá Mena. Mas Julião era falador e, nem que fosse para me defender, não seria capaz de guardar o segredo do meu paradeiro. Eu não dava um mês, iria aparecer no Bom Jesus gente da Vargem da Cruz, querendo escrever carta comigo. A polícia acabava vindo também, no rastro deles. E com a agravante de que eu ignorava (meu Deus, perdoai-me!) que me culpavam pelas três mortes!