Memorial de Maria Moura
Cap. 34 — Maria Moura
Maria Moura
JÁ NA VÉSPERA, à noite, quando veio para as despedidas, eu tinha sentido Duarte diferente. Mais carinhoso, mais macio e também mais atrevido, exigindo aos sussurros certas liberdades que nunca tinha tomado antes. E de certo modo parecia triste, o que achei natural, em vista da separação. Me beijava demorado — ele que não era muito de beijo. Me acarinhava o corpo todo: logo na entrada do quarto quis que eu deixasse a candeia acesa, coisa que a gente não fazia nunca. “Quero te olhar bem, Sinhazinha.” Mas nos outros dias era ele quem apagava a candeia, receoso de que alguém chegasse de surpresa e nos descobrisse juntos. Isso, aliás, era o que eu pensava. Pois o que ele dizia sempre, meio sorrindo, era: “Comigo, amor sempre é melhor no escuro...”
Ou, quem sabe, talvez nunca se sentisse seguro do seu direito de me ter nos braços. Pois se podia, por um lado, ser meu primo, pelo outro lado era o filho da Rubina.
Mas nessa noite de adeus ele não tinha pressa, se demorava em “cada pedacinho de você, pra me lembrar em caminho”.
Três vezes se despediu, três vezes voltou da saída, pra me abraçar de novo. Até que eu me levantei, fui com ele junto à porta e agarrados, de pé, eu mesma dei nele o beijo da despedida.
Mas antes que eu corresse o ferrolho ele ainda se voltou e me disse:
— Cuidado com esse cabrito amarelo. Ele não presta!
E eu, com a mão no fecho da porta, respondi:
— Não precisa ter ciúme. Eu só gosto de homem como você. Aquilo é um criançola.
Mas o fato é que, com a ausência de Duarte, Cirino foi se comportando de maneira diferente. Mudança, contudo, procedida tão de pouco, que eu só notava porque já estava prevenida.
Depois da ceia, quando se despedia — isso foi na segunda noite —, ele me beijou a mão. E como eu levantasse a sobrancelha, admirada, ele riu-se:
— Estou tentando lhe fazer a corte!
Eu não entendi:
— Corte? Por quê?
— Não é possível que não entenda. Corte. Homenagem. O que todo homem de bom gosto deve a uma mulher bonita.
— Eu nunca fui bonita.
— Você é bonita, Maria Moura. Não adianta se disfarçar com essa roupa de homem; e não espere que eu trate você por Dona Moura, que eu não faço isso. Pelo menos enquanto estivermos sós, nós dois.
— Nós não estamos sós. A casa está cheia de gente. Basta eu levantar a voz...
— E por que você há de levantar a voz? Tem medo de mim?
Eu quis rir de novo:
— Você é mesmo um menino muito adiantado!
— Pode dizer que eu sou menino, que eu gosto. Afinal, não é tão mais velha do que eu.
— Será que você não aprende? Seu pai me contou todo o seu estrupício com aquela moça.
— Não me venha com o passado. Cada um de nós tem o seu; eu também ouvi muita história a seu respeito. Por isso fiquei pensando que era uma mulher curtida da vida, quem sabe uma velha. E chego aqui, encontro essa moça bonita, parece até que está brincando de fingir que é homem. Já li um livro que tinha uma mulher assim. Um romance.
— Está vendo a diferença? Eu nunca na minha vida li um romance.
Cirino tinha de novo se apossado da minha mão:
— Mas por quê? Toda moça que sabe ler é doida por um romance.
— Eu não.
— E por quê?
— Lá em casa não havia nenhum. Mãe tinha um livro de vida de santo, que era muito triste, só sofrimento. Eu detestava. E Pai tinha um livro, que ele gostava demais, vivia lendo. Era a Vida do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares da França. Foi nesse livro que eu aprendi a ler. Pai me ensinava nas letras grandes dos títulos. Lá em casa também não tinha carta de ABC: Pai dizia que num livro a gente encontra todas as letras. Me mostrava uma e me mandava procurar as outras letras iguais pelas páginas. Depois me ensinava a juntar letra com letra, e acabei aprendendo.
— E leu o livro depois?
— Li tudo. Pai obrigava. Todo dia de manhã tinha que dar a lição. Acho que até hoje ainda sei decorado os nomes dos doze pares.
— Então já leu romance.
— E aquilo era romance? Pai dizia que aquela história toda foi verdadeira e que o Imperador Carlos Magno era o maior rei do mundo.
— Isso eu não sei, que nunca li a história do Carlos Magno.
E eu, me lembrando daquele tempo, me buliu no coração:
— Eu estudava passando o dedo pela linha das letras no livro; cheguei a apagar alguns dos nomes. Pai ficava furioso.
— Então, tudo que você aprendeu foi no Carlos Magno?
— Não; depois eu já sabia ler e Mãe me botou na escola; queria que eu aprendesse reza e bordado. Eu até gostava, principalmente da viagem a cavalo, toda manhã, do Limoeiro à vila. João Rufo que me levava.
— Não vejo você bordando.
— Nem eu me vejo. Foi tudo trabalho perdido.
— E daí?
— Daí, Pai achou que já chegava de escola, que eu já sabia o bastante para me casar.
— Mas você não se casou!
Eu já estava aborrecida daquela inquirição, me levantei, fui espiar o tempo, da janela. De lá falei para acabar com o assunto:
— Não. Não casei. Nunca encontrei ninguém que valesse a pena.
Cirino veio para perto de mim:
— E eu?
Eu me ri na cara dele:
— Te enxerga, menino!
Ele riu também, afastou-se:
— E o que foi feito do livro do Carlos Magno?
— Quando Pai morreu, Mãe guardou todas as coisas dele num baú; ninguém mexia lá, até que um dia se abriu o baú e achou-se uma ninhada de rato se criando dentro do livro. Mãe teve nojo, mandou matar os ratos e tocar fogo na sujeira.
— Pois foi uma pena. Uma moça que não lê romance não sabe o que está perdendo. Minhas primas...
— Você tem primas, Cirino?
— Muitas. Mas tudo feia. Gordas, brancas, cor de leite azedo. Usam uns cachinhos. Não tem nenhuma nem de longe igual a você.
Eu ri de novo:
— Isso eu acredito. Não sou mesmo parecida com nenhuma mocinha cacheada.
Ele voltou a me beijar a mão:
— É o que eu digo. Boa noite, minha dama.
Eu puxei a mão, pus-lhe o dedo diante do nariz:
— Chamar mulher de dama, aqui, é agravo tão grande que talvez eu tenha que mandar lhe matar.
De novo ele apanhou minha mão no ar, me apertou com força os dedos e saiu correndo:
— Manda!
Ficou uma semana nessas galantezas. Pescava peixe especial para mim, trazia caça delicada. De um mascate que passou, comprou um lenço de seda e um frasco de água-de-cheiro que veio me trazer.
Eu tratava os agrados dele como se fossem as coisas do criançola de que falou Duarte.
Na noite em que se completou uma semana da partida de Duarte, Cirino não apareceu para a ceia. Perguntei a Rubina o que havia, ela explicou:
— Ele está muito incomodado. Uma dor atravessada no peito, parece que é no coração. Eu dei a ele um chá, fiz esfregação, mas não melhorou. Sinhá não quer dar uma olhada no moço? Pode ser coisa de gravidade.
Respondi a Rubina que talvez fosse melhor eu não ir:
— Esse mocinho é mesmo adiantado.
Rubina saiu, com uma rabanada das saias. E eu fui para o meu quarto, tirei os sapatos, as calças de homem, a blusa, vesti o camisolão de dormir. E aí me lembrei do pai de Cirino, das recomendações que me fez, dizendo que “esse menino nunca foi de saúde muito boa”... E se agora o rapaz me morre, sozinho naquele quarto, com uma dor no coração?
Peguei uma vela de sebo que acendi na candeia do meu quarto, vesti um roupão grosso que eu usava depois do banho no açude, calcei as chinelas e fui pelo corredor até a ala dos homens. Passei pela porta fechada do quarto de Duarte. A porta seguinte era a de Cirino. Ia bater, quando vi que estava só encostada. Empurrei a porta até me dar passagem. À luz da vela, vi que Cirino se embuçava todo no lençol, ao sentir minha presença. E eu falei — em voz baixa — nem sei por quê:
— A Rubina me disse que você está doente.
Ele continuava calado, todo enrolado. Cheguei perto, meio assustada; me inclinei sobre ele, estendi a mão para lhe tocar a testa.
— Está com febre?
E de repente Cirino se sentou na cama, nu da cintura para cima; segurou o braço estendido, me puxou com força, me derrubou no colchão. E num pulo, como se fosse um gato, saltou por cima de mim, prendeu minhas pernas entre os joelhos. Com o peso do corpo me esmagava o peito, os seios. E apertando a boca na minha, me mordia. Afinal, com um gesto rápido da mão, me levantou a camisola e me forçou — como se me desse uma facada.
Eu poderia ter gritado, ou pelo menos gemido alto entre os dentes dele.
Mas a verdade é que não lutei. Amoleci o corpo, parei de resistir, deixei que ele fizesse comigo o que queria.
Não sabia que homem fosse capaz daquela violência. E logo depois senti que eu estava gemendo, baixinho, no compasso dele. E não era gemido de dor, muito menos de raiva. Nem sei dizer o que era.
Passado tudo (o quarto estava escuro, a vela rolou no ladrilho e apagou-se quando ele me agarrou), Cirino se pôs a me beijar pelo rosto, pelo pescoço, sussurrando:
— Me perdoe, mas eu não tinha outro jeito. Você não queria entender nada e eu já não podia mais!
Aos poucos, me vi retribuindo os beijos dele, retribuindo os abraços e começou tudo de novo. Afinal, quando o galo cantou, eu me levantei para ir embora. Cirino me vestiu a camisola, meio rasgada, me enrolou no roupão:
— Quer que eu te acompanhe até o quarto?
— Você está louco? Não quero que ninguém saiba de nada.
— Mas eu quero ir no teu quarto. Se não for hoje, amanhã.
— Eu vou ver. Na hora certa lhe dou um sinal.
Será que, com ele, eu ia repetir tudo que fazia com Duarte?
Na noite daquele dia, à hora da ceia, eu pretendia não fazer sinal nenhum, para ele não ficar mal acostumado. Mas enquanto a cunhã tirava o prato de sopa e trazia a tigela do doce, ele deu um salto da cadeira e me beijou na boca:
— Hoje sou eu que vou lá!
Entre os lábios dele, eu tentei:
— Mas hoje...
— Eu tomo todo o cuidado, vou na ponta do pé. Deixe a porta encostada.
A cunhã, que entrava, deve ter visto que ele me beijava outra vez.
Levantamos da mesa, eu dei uns passos até o alpendre, Cirino me seguiu. Dei a boa-noite ao homem da guarda; ostensivamente dei a boa-noite a Cirino e me recolhi ao quarto. Mal passou meia hora, ele veio.
Dessa vez eu estava preparada, lavada e cheirosa, vestida numa camisola dos tempos em que eu ainda era a Sinhazinha e não usava as calças de Maria Moura.
Que é que eu posso dizer do meu amor com Cirino? Juro que nem sonhava, nunca, que pudesse haver nada assim. Aquela violência da primeira noite tinha sumido para longe. Agora era só carinho, tão demorado, tão no lugar certo. Ele nunca tinha pressa e dizia: “Vou te levar a uma terra onde você nunca foi...” E eu não sei como não gritava durante a tal ‘viagem’ à terra desconhecida. Ou quem sabe gritei?
Na merenda da manhã, Rubina me olhava meio enviesado. E de repente apareceu com uma tigela de gemada:
— Esses meninos estão precisando de se fortalecer...
Cirino estalou uma risada, passou o braço na cintura da Rubina e quase morri de raiva, com o rosto em fogo.
Ele tomou toda a gemada; eu recusei. Na verdade, detestava aquilo.
Estava também sem entender a posição da Rubina. Não era possível que não soubesse o que se passava entre mim e o filho dela. Então, por que me alcovitava com o outro?