Memorial de Maria Moura
Cap. 11 — Maria Moura
Maria Moura
EU TINHA planejado a defesa e o incêndio, mas agora a minha idéia era vaga. Na primeira hora procurava só respirar bem fundo e tomar o cheiro daquela liberdade. Não me doía tanto quanto esperei, o fogo na casa do Limoeiro; afinal, agora tinha chegado a vez de se cumprir o meu grande sonho. As terras da Serra dos Padres, tudo fresco, olho d’água correndo entre as pedras. Pai falava tanto, era o mesmo que eu já tivesse visto. Tinha a questão com os posseiros; mas, pelo que Pai dizia, o pior deles já tinha morrido; restava só um filho e mais um genro.
Eu não pretendia chegar lá de arranco, reclamando o que era meu. Aquilo já era da nossa gente quando ainda se chamava a ‘data da Fidalga Brites’, senhora viúva que nunca veio de Portugal receber as terras que o rei lhe deu em sesmaria. Terras tão grandes que cobriam toda a Serra dos Padres e mais três léguas de sertão em redor. A Fidalga mandou foi um procurador retalhar a data pra quem quisesse comprar. E essas partes da data foram passando de mão em mão, e uma delas chegou até nós. O avô de Pai comprou justamente a parte que subia pela Serra dos Padres. Botou lá um morador; mas, num ano de seca, se acoitaram na terra uns negros fugidos e armaram uma espécie de quilombo. O morador teve medo, foi-se embora, mas os quilombolas não agüentaram muito tempo, também. Deu um mal neles, morria de um em um, secando, devia ser de tísica. Quando os negros se acabaram, ficou a terra vaga anos e anos. As pessoas tinham medo do mal do lugar.
A Avó contava que, afinal, num ano bom de inverno, o Avô arrumou, no Limoeiro, uma tropa de animais que carregou de mantimento, enxada, machado, facão e algumas armas de tiro. E partiu para situar a fazenda na serra.
Os escravos tinham morrido, mas foi como se o quilombo continuasse. Um sujeito por nome Sandoval, fugido da Guerra do Cariri, tinha tomado conta do terreno. Tocou fogo na tapera dos negros pra acabar com a morrinha, levantou um rancho, roubou uma índia mansa, criada por uma família conhecida dele, e se fez dono do lugar. Brocava, cercava de ramada, encoivarava, plantava e colhia o legume nos roçados. Criava um grande rebanho de bode e já tinha mais de doze anos que vivia lá, quando o Avô deu a sua aparecida. A índia teve dois filhos, a moça parecida com o pai, sardenta e de cabelo amarelo. Já o rapaz era índio puro, de olho enviesado e de pouca conversa. O diabo é que, naquela ocasião, ao redor da casa dele estava acampado um bando de índios, parentes da mulher do Sandoval. Tinham vindo comer a safra de pequi, que era tempo deles nas árvores da mata; parecia, a bem dizer, uma tribo. Alguns andavam vestidos, mas a maioria era tudo nu, no costume deles.
O Avô tinha mandado na frente uns espias, que lhe trouxeram as más notícias. Ele deixou então a tropa arranchada no mato e foi em pessoa ver o que havia.
Tinha lá mais de cinqüenta índios, sem contar mulher e criança. O Avô procurou o tal do Sandoval, sem dizer pra ele que era o dono da terra. Inventou que ia de viagem para o sertão de Goiás. Sandoval não dava cara de querer briga — e se os índios queriam, o Avô nunca soube por quê, se ouviu Sandoval falando com eles, não entendeu nada.
Depois da conversa os índios fizeram uma cara melhor e as índias chegaram trazendo uma cuia de pequi cozido com farinha, sem sal, tudo muito feio e sujo. Mas ele teve de engolir, fazendo boa cara. Também, por todo o resto da vida, nunca mais tocou em pequi. Até o cheiro abusava.
E assim de lá voltou como foi — danado da vida. Mas que havia de fazer? Índio é pra se respeitar. Podem ser ditos mansos, mas mansos de todo não ficam nunca. Gostam de guerra, são atrevidos, pra eles tanto faz matar como morrer.
Mas o Avô nunca deu por esquecida a terra da Serra dos Padres. A história daquele haver sempre aparecia nas conversas da família e os homens faziam planos de chegar lá e botar pra correr o Sandoval, com índio e tudo. Mas nunca ninguém foi lá.
Já depois do Avô morto, chegou no Limoeiro um passageiro e deu notícia da morte do Sandoval. A menina branquela tinha se casado com um dos índios, que virou cristão, andava vestido, plantava e fazia agora tudo que o sogro fazia antes, como um filho. Já o filho tinha sumido, e o índio e genro, que se chamava Tabitê, tinha aumentado o rancho, criava os mesmos bodes e vivia com a mulher e a mãe dela e uma ninhada de corumim.
Depois disso nunca se teve nenhuma notícia, nem da Serra dos Padres, nem dos posseiros.
Era agora chegada a minha vez.
Dormimos dentro do mato, naquela primeira noite, fugindo da beira dos caminhos. Amarramos os cavalos nos pés de pau-branco-louro que havia muito por ali. Rede não deu para se trazer.
João Rufo arrancou um pouco de mato seco, no chão limpo fez uma cama com a manta e a sela, onde me deitei para dormir. Os outros se arrumaram pelo mato mesmo, já eram acostumados.
Era a primeira vez que eu passava a noite no tempo, a céu aberto. Formiga e outros bichinhos miúdos me mordiam o tempo todo. Felizmente muriçoca não havia — já não era o mês das águas.
O verão era adiantado.
Os homens quiseram acender fogo, João Rufo não deixou. Podia se alastrar pelo mato rasteiro e, pior ainda, podia denunciar a gente a quem estivesse nos caçando. Piava coruja e bacurau, piava e resmungava e roncava tanto pássaro e bicho esquisito, mas não dava medo, fazia até uma espécie de companhia. E, caso eles se assustassem com alguma presença estranha, nos davam o aviso.
Já antes do sol nascer, mal clareava o dia, estava tudo acordado.
Os homens fizeram um limpo maior no mato, achavam que já podiam acender um foguinho maneiro, abafado. Botaram na caneca um pouco de água da borracha velha de Pai, que ele usava nas suas viagens e que já estava vazando um pouco nas rachaduras do couro. João Rufo foi quem trouxe, João Rufo se lembrava de tudo; mesmo naquela agonia da nossa fugida, mandou a borracha pro curral, junto com os arreios. E ele mesmo encheu, logo que se encontrou água limpa numa lagoa.
Derreteram na caneca uma banda de rapadura que Zé Soldado tinha trazido no bisaco “pra roer um taco na hora da sentinela”. Agora nos consolava a fome. A caneca passou de mão em mão e cada um bebeu um gole da garapa quente, pra quebrar o jejum.
Passarinho já estava cantando e os rapazes conseguiram matar uns quatro, na pedrada. Tinham abafado o fogo, deixando só as brasas. E nas brasas e no borralho assamos os bichinhos. E comemos tudo, até estalando no dente os ossos mais tostados.
Botei Zé Soldado de sentinela, na beira do caminho e reuni os homens para dar as minhas ordens. João Rufo do meu lado, eu sentada no chão, ele em pé, também fazia sentinela, mas prestando atenção ao que eu dizia.
E eu falei:
— Vocês estão vendo a situação. Eu hoje estou só no mundo — tirando vocês, meus caboclos. Taquei fogo no que era meu, a casa virou cinza; a terra do sítio aqueles excomungados vão tomar conta dela. Sem falar no gado que também vão roubar. (Felizmente é muito pouco, pensei comigo. Depois da morte de Pai o gado foi se acabando — o Liberato só achou uns restos.)
Esperei alguém falar e eles ficaram calados, olhando para mim. Continuei:
— De nosso, temos estas armas velhas, o corpo e a vida — nada mais.
Olhei pra eles de novo — o mesmo silêncio.
— Não nego a vocês que tenho um plano na cabeça. Na cabeça e no coração, posso dizer. É uma idéia muito velha, que eu trago comigo desde os tempos do finado meu avô.
Me virei para João Rufo:
— João, os outros eu não sei; mas você não se lembra do Avô e Pai falarem nas terras da Serra dos Padres, que são nossas de direito, desde quando ainda andava índio por lá?
João Rufo concordou que se lembrava muito bem, tal e qual Sinhazinha dizia.
— É tudo nosso — quero dizer, meu, herança do Avô e de Pai. Muita terra, boa de criação, de planta, de tudo. Madeira, então. Cada cedro que dois homens de mãos dadas não abarcam. E diz o povo mais antigo que lá tem botija de ouro enterrada pelos padres, faz quase cem anos. Isso eu não sei de certeza, mas dizem.
Os homens sorriram, interessados. Continuei:
— Anos depois Pai teve notícia, por um passageiro, de que na Serra dos Padres morava uma gentinha ocupando a terra. Pai ainda pensou em ir lá, retomar o que era dele. Mas tinha que brigar com essa gente, formar um grupo armado, abrir luta. Ele então foi deixando para depois; nessa época estava embelezado em situar o Limoeiro, que era perto da Vargem da Cruz, com mais conforto para a mulher, os filhos. Afinal, coitado, de todos os filhos que ele esperava, só vinguei eu — e mulher.
João Rufo indagou:
— E Sinhazinha está mesmo com tenção de ir pra lá, fazer essa guerra?
O outros arrebitaram a orelha e eu disse com força:
— Por que não? A terra é minha, o direito é meu.
Maninho e Alípio se levantaram, de olho aceso. Maninho disse:
— Quando o direito é da gente...
E eu:
— Vejo que estão animados. E eu estou com muita raiva. Quero provar quem eu sou àqueles condenados. Mas, se sentem, que eu ainda não acabei de falar. João Rufo está espantado, vendo eu querer começar esta guerra, dispondo só de quatro homens, dois cavalos, uma burra e três armas velhas... Mas isso é só o começo. Vamos arranjar animal pra todo mundo, armamento e munição, mantimento pra comer. Se der jeito, se toma ou se pede emprestado. Em algum caso até se compra. Eu tenho com quê — mas prefiro ir guardando os recursos para a munição, que só se adquire mesmo por compra. Não tem nem de quem roubar.
João Rufo escutava calado. Os outros pareciam impacientes por falar. Eu olhei pra eles:
— Então?
Maninho foi o primeiro:
— Por mim, eu vou!
E eu disse a ele:
— Vá chamar seu irmão e fique lá de sentinela, no lugar dele.
Alípio já estava de pé, apoiado no bacamarte:
— Meu pai me encomendou que eu acompanhasse a Dona, nem que fosse ao fim do mundo.
Me sorri para o rapaz. Não era à toa que eu confiava naquele velho.
Zé Soldado voltava. Maninho tinha contado a ele o principal e eu expliquei o resto. E ele também foi firme:
— Eu sempre tive vontade de ganhar o mundo, guerreando. Pra isso sentei praça, mas não deu em nada. Agora ainda é melhor, que não tem cabo e sargento tirando o couro da gente.
Eu levantei a mão, avisando:
— Vou prevenir a vocês: comigo é capaz de ser pior do que com cabo e sargento. Têm que me obedecer de olhos fechados. Têm que se esquecer de que eu sou mulher — pra isso mesmo estou usando estas calças de homem.
Bati no peito:
— Aqui não tem mulher nenhuma, tem só o chefe de vocês. Se eu disser que atire, vocês atiram; se eu disser que morra é pra morrer. Quem desobedecer paga caro. Tão caro e tão depressa que não vai ter tempo nem para se arrepender.
Não sei que é que tinha na minha voz, na minha cara, mas eles concordaram, sem parar pra pensar. Aí eu me levantei do chão, pedi a faca de João Rufo, amolada feito uma navalha — puxei o meu cabelo que me descia pelas costas feito numa trança grossa; encostei o lado cego da faca na minha nuca e, de mecha em mecha, fui cortando o cabelo na altura do pescoço.
Dei um nó na trança aparada e entreguei a João Rufo, junto com a faca:
— Guarde esse cabelo no alforje.
Os homens olhavam espantados para os meus lindos cabelos. Pareceu até que o Maninho tinha os olhos cheios de água. E eu desafiei:
— Agora se acabou a Sinhazinha do Limoeiro. Quem está aqui é a Maria Moura, chefe de vocês, herdeira de uma data na sesmaria da Fidalga Brites, na Serra dos Padres. Vamos lá, arreiem os animais.
Saímos montados eu, João Rufo e o Alípio. Zé Soldado e Maninho caminhavam em passo estradeiro, quase sem atrasar a marcha dos cavalos. Andamos mais de meia légua antes que o sol levantasse completo. Aí passamos por uma capoeira, com uns restos de palha de milho. Um pouco mais longe, num alto pedregoso, vimos que de um barraco coberto de palha de catolé saía a fumaça escura do primeiro fogo do dia. E na capoeira velha, mas tapada pela cerca de ramada, uma besta castanha, alta e ossuda. Ao lado dela um poldro já crescido. Zé Soldado logo pulou a ramada, levando na mão o cabresto da burra de João Rufo. Maninho seguia o irmão, gritando:
— Bota o cabresto na besta que o poldro acompanha!
A besta era mansa, nem negaceou. Mas o poldro, que acompanhou a mãe, colado nela, resistiu feito um danado quando Maninho foi botar nele o outro cabresto, o de Alípio.
Eu pensava que o poldro era chucro e não ia aceitar cavaleiro. Mas demos sorte: se não era manso, de sela, já tinha sido montado e não reagiu quando Alípio lhe enfiou os calcanhares no vazio. Saiu dando uns saltinhos, marchando de lado, mas acompanhou sem mais dificuldades a marcha da mãe, que Zé Soldado montava, também em pêlo. Eu quis saber:
— E as selas? E os arreios?
João Rufo fez graça:
— Se Deus nos deu a montaria, não vai nos faltar com os arreios. Não se ofenda, Zé, mas você deve ter aprendido a roubar cavalo nos seus tempos de praça. E pela beira da estrada pode até encontrar em algum alpendre um arreio se oferecendo à vista de quem passa.
Zé Soldado virou-se, to do feliz:
— É! Soldado não se aperta. A primeira que eu veja...
Demorou contudo uns dias até se arranjar a primeira sela. Eu tinha dinheiro no papo-de-ema, podia comprar os arreios em algum povoado por onde se passasse. Mas não queria dar as caras, não queria fornecer rastro nosso ao Boca-Mole do Tonho e ao irmão.
Continuamos vivendo de aventura e evitando as casas. Armado mesmo não avistamos nenhum; só duas vezes uns passantes nos viram, mas foi de longe; antes que chegassem perto, pegamos a primeira vereda e sumimos na caatinga. De comida não se passava tão ruim. Os rapazes fizeram uma funda com um pedaço de corda, e sempre conseguiam derrubar rolinha, nambu. Até jacu eles mataram.
Teve uma manhã em que Alípio conseguiu passar a mão numa marrã de cabra, bem gordinha. Entramos com ela no mato, eles sangraram a bichinha, fizeram fogo, assaram a carne no espeto. O que sobrou botaram pra secar no sol. Foi um banquete, embora faltasse o sal.
E pela falta do sal, e a falta do doce, e a dos arreios, e de um feijão pra cozinhar, e a da farinha, e de um pedaço de sabão pra lavar a roupa que já estava imunda, resolvemos mandar um dos meninos fazer compras no primeiro povoado de que a gente passasse perto.
E levou ainda muitas léguas para se alcançar qualquer lugarejo. Ai, a gente só descobre quanto o mundo é grande e despovoado quando se anda nele perdido.
O tal vilarejo que se avistou não passava mesmo de um arruado. Do alto que descia pra lá se divisava ele todo — não seria mais do que uma dúzia de casas.
Despachamos Zé Soldado, que era o mais esperto dos três, para adquirir os mantimentos; e sem dar nas vistas!
Mandei que ele fosse na burra, sem sela e só com o cabresto, para dar a impressão de que era alguém que vivia por perto. João Rufo meteu a mão na sacola do dinheiro, contou um punhado de moeda — só de cobre:
— Isso vai chegar pra pagar tudo.
E aí riu-se:
— E se você achar alguma sela desprevenida, passe a mão!
Zé Soldado deixou a gente escondida no mato, desmontados, dando uma folga aos animais. E daí a mais de uma hora, voltou a galope, batendo com o chapéu no pescoço da burra e montado numa sela!
— O lugar se chama Lagoa do Remendo e nem sei como é que aquele povo vive. É tudo abestado, café eles nem conhecem, sal só preto, de mina. Sabão também preto, que eles fazem com sebo e cinza.
João Rufo lhe apontou com o dedo, aborrecido:
— Deixe de ignorância. Minha mãe só faz sabão assim.
Mas Zé Soldado não baixou a crista:
— Pois vocemecê vai ver que sabão beleza. Fede mais do que o sujo. Bem, eu comprei o que eles tinham: o sal, a rapadura, a farinha; o sabão — aquele mesmo da senhora sua mãe, seu João! e um pedaço de fumo de rolo, que ninguém pediu... Trouxe tudo. E ainda veio troco. Aqueles bestas não sabem nem contar dinheiro!
— E a sela? Comprou também?
— Ah, não! A sela eu vi logo que entrei na rua, montada em cima de uma cerca; toda molhada, devem ter botado no sol pra enxugar... Na casa não se via ninguém. Me disseram na bodega que a maioria do povo, nessa hora, está tudo carpindo mato, nos roçados. Eu desmontei da burra perto dessa cerca, como se quisesse endireitar a esteira. Olhei dum lado pro outro, não vi ninguém: peguei a sela de manso, joguei no lombo da burra, saltei em cima sem nem ao menos apertar a cilha... A mulinha parece que entendeu e picou no galope.
A sela não valia grandes coisas, descosida, com os loros remendados. Zé Soldado justamente estava estirando os loros com cuidado, para não romper os remendos e resmungava:
— O freguês tem a perna curta. Vai ver, é anão.
Maninho morria de inveja. Só ele, agora, montava em cima de esteira, feito índio. Mas se consolava:
— Pro meu poldro vou pegar coisa especial. Ele merece!
O poldro, na verdade, cada dia era melhor; árdego, andador, estava sempre na frente, puxando a marcha.
A gente já fazia caminho e Zé Soldado ainda se pabulava:
— Tive pena de não trazer um par de ancoretas, umas jóias, que um menino estava levando para encher na cacimba. Pensei na nossa borracha velha, furada...
Maninho zombou:
— Imagine só, um bando de homem armado, tangendo uma burra com um par de ancoretas!
— É no que você se engana, seu besta. Soldado, em campanha, só anda com comboio atrás, carregando toda versidade de abastecimento. Leva de tudo. Vi um que carregava até barraca de pano, pro comandante dormir debaixo!
Ninguém acreditou nele. Nem eu. Quem anda pelas estradas, ou pede rancho nas casas, ou dorme no mato. Barraca! Mas deixa estar que eu bem gostaria de ter uma barraca pra dormir debaixo dela!
É que, pra falar a verdade, a marcha batida, fugindo, se escondendo, estava me moendo o corpo. De menina eu já andava a cavalo e sempre escanchada. Pai dizia que eu parecia um cabra macho e logo que ficasse moça tinha que aprender a andar de lado, como as outras, num silhão ou em andilhas, das antigas...
Mas as viagens que eu fazia em menina eram mais uns passeios — uma légua, duas, raramente passava de três léguas, ida e volta. Eu sonhava em ganhar os caminhos, atrás dos comboieiros, tangendo tropa de burro. Teve um cantador no Limoeiro que, no desafio, quando um perguntou ao outro onde é que ele morava, o cabra soltou a voz e respondeu: “Em cima das minhas apragatas, em baixo do meu chapéu...” Fiquei sonhando com aquela liberdade. Meus sonhos de menina não eram sonhos de mocinha; Mãe se escandalizava.
Pois agora eu era livre. Em cima do meu cavalo Tirano, embaixo do meu chapéu de palha... Me doíam os lombos, me doía o espinhaço. Os pés já estavam meio inchados, dentro dos coturnos. Quando o cavalo chouteava forte, me atacava aquela dor que chamam dor de veado, a que dá uma pontada forte nos vazios. Me sentia suja, sem os meus banhos de cheiro, sem roupa branca pra trocar.
Deitada no mato, olhando as estrelas no céu escuro, eu ia me lembrando das conversas do Avô, os casos que ele me contava tantas vezes, tantas. Começou a contar quando eu era pequena e me deitava com ele, em noite de lua, na rede do alpendre. Depois, eu já mocinha, ouvia os mesmos casos, repetidos já agora por Pai, às visitas, aos parentes. E muito mais explicados do que no tempo em que ainda eu não podia entender.
Sempre me senti muito só. Agora, naquela intimidade obrigada com os meus homens, eles prosando, discutindo, eu entendia que eles não falavam muita coisa por respeito à minha pessoa. Eu podia ser o chefe, como exigia que eles me considerassem, mas era também a Sinhazinha, que João Rufo de certo modo ajudou a criar e que os rapazes tinham visto menina.
Só tinham visto. Eu nunca andei com eles, os meninos do sítio. Mãe não deixava. E de andar com as meninas eu não fazia conta, eram muito bestalhonas e medrosas.
Se eu tivesse um irmão era diferente. Mas nunca tive irmão, nem um companheiro da minha idade, nunca um amigo. Passei dois anos indo à escola, mas já era grande, quase moça. Menina pequena era mesmo só.