Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 34 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 33 — Marialva

Marialva

 

NÓS AQUI, NESTE lugarejo por nome Barra do Queimado, tentando fazer a festa da padroeira, Santa Clara. Arranjei uma mocinha para ficar com o Xandó, nas horas em que eu servia de alvo para as facas de Valentim. Era a primeira vez que a gente trabalhava nisso, depois que o menino nasceu. Eu tremia nas carnes, como sempre, mas me agüentava imóvel.

O povo quando ouviu falar no número das facas, não queria saber de outra coisa. Era fácil de ler nos olhos deles o que todos estavam esperando: que o Valentim perdesse a mira e me acertasse uma faca.

Quando o suplício acabava, eu me punha sempre a chorar, agarrada com o Xandó; por fortuna, Valentim não me via assim, nem eu queria que ele visse. O remate do espetáculo era sempre um número de mágica, distraindo as feras mal satisfeitas por não terem visto o meu sangue. Antes que acabasse a função, eles iam saindo de um em um — e eu desconfiava que era fugindo de largar os cobres no pratinho. Nossa salvação é que havia sempre alguém interessado, que chamava a atenção: “Olha o pratinho!” e o fujão, encabulado, acabava pingando o seu vintém ou derréis.

Pois na manhã do dia seguinte ao da festa, estava eu no quintal da estalagem, banhando o menino numa cabaça grande que a dona da casa me emprestou dizendo que banho de cabaça dá sorte (e sorte era o que a gente mais carecia, então) quando ouvi uma voz lá pra dentro da casa, chamando Valentim de compadre. E era a voz de Duarte! Só podia ser Duarte. Vinha de resposta viva pra minha carta, aquela carta tão desanimada que mandei à Vargem da Cruz, para o comboieiro entregar ao Seu Jordão.

Enrolei o menino na coberta, entrei correndo pelo corredor. Lá da sala vinha a voz — era mesmo a de Duarte, perguntando por mim. E eu me atirei nos braços dele, com Xandó e tudo; o menino todo enrolado no pano, arrepiado do banho, assustou-se e abriu no berreiro. E foi aos gritos que passou para o colo do padrinho. Duarte logo pegou na mãozinha do neném, se pôs ninando ele, devagar, carinhoso, dizendo:

— Pelo menos a voz danada de forte você tem, Alexandre! Pior que o seu avô!

Fomos sentando, peguei de novo Xandó no colo. Duarte olhava em redor, olhava para nós, não disse nada direto, mas bem se via que estava espantado da penúria em que nos encontrava. Metade da nossa bagagem tinha ficado com o velho na casa da Ninosa, já que não se tinha necessidade de toda aquela tralhada de pelotiqueiro, nem do que havia nos dois baús de Dona Aldenora, cheios de cacarecos de anos e anos. Deixamos um animal com o velho; se ele quisesse arribar, tinha como. E ficamos com os dois cavalos e a burra; assim mesmo dividida, a nossa bagagem ainda era grande.

Contamos tudo para Duarte. Ele ouvia, continuava com o afilhado no colo e, já na cozinha, ficou conosco fazendo o menino dormir, enquanto eu preparava o mingau dele.

Almoçou com Valentim e comigo, a comida ruim da casa. E depois do almoço, sentado com a gente na salinha (o Xandó dormia, no quarto), ele indagou:

— Vocês vão comigo, amanhã?

Valentim levantou os olhos, admirado:

— Amanhã? Pra onde? Eu estava com intenção de ir amanhã a um lugar, três léguas daqui, ver se combinava uma função. Tem até um nome meio esquisito, essa vila: Varadouro.

E Duarte:

— Vocês não vão pra Varadouro nenhum. Vão comigo para a Casa Forte. Eu tenho ordens.

A gente não entendia:

— Casa Forte? Que Casa Forte?

— Me esqueci de que vocês estavam por longe, sem notícias, estes anos todos. Marialva, você não se lembra das histórias que chegavam nas Marias Pretas, contando que a Maria Moura estava situando uma fazenda na tal de Serra dos Padres, e que ia levantar casa lá?

Eu me lembrava, mas não com esse nome...

Duarte se impacientou:

— O nome veio depois. Agora, aquilo está que é um castelo; e fortificado. Eu acabei indo morar lá, depois de passar um tempão procurando o que fazer... Isso por causa da briga com os seus irmãos e com a Dona Firma, logo que vocês fugiram. Eles me culparam de tudo, quiseram até me matar.

Eu interrompi:

— Sabe que eu tinha medo disso?

— A Firma pegou até num bacamarte! A sorte é que não estava carregado!

— E aí?

— Aí, eu fui-me embora para a Vargem da Cruz, mas não me acostumei com a vida na vila. Eu nunca tinha morado em rua. Depois de tentar de tudo, quebrar a cabeça aqui e ali, resolvi me aventurar com a Moura, que estava de fazenda situada, casa pronta, rodeada dos seus cabras. É lá no pé da Serra dos Padres, mas a terra dela sobe de serra acima: é parte da tal data de sesmaria da Fidalga Brites... Se vocês vissem a grandeza que vai por lá! O casarão dá umas quatro da casa que ela queimou no Limoeiro!

— E ela, com você?

— Me recebeu de coração aberto, me chamando de primo. Me deu o lugar de feitor. Hoje, depois dela mesma, só eu.

Eu perguntei:

— E a Rubina? Já mandei duas cartas pra ela, aos seus cuidados, mas nunca tive resposta. Na certa, você longe, a Firma consumiu com elas.

— É, na certa. A Firma também quis descontar com a minha mãe a raiva de mim. Quando eu soube dessa notícia corri às Marias Pretas — aquela louca tinha trancafiado minha mãe na cafua da despensa. Soltei a velha no grito, quase me agarro com a Firma, ela se assustou. Fui com Siá Rubina pra vila, depositei na mesma casa em que depositei você — eles até brincaram comigo... Ela ficou trabalhando com a família do Seu Jordão. Muito depois é que fui para a Casa Forte, e a Maria Moura me pedindo notícias de Rubina, contei o caso a ela. E ela me mandou buscar minha mãe, direto, pra morar lá. Hoje, Siá Rubina é a dona das chaves, governa a casa toda, traz aquelas cunhãs em pés de brasa... Você conhece o jeito dela...

Aí Duarte meteu a mão no bolso, puxou de lá uma bolsinha pequena, que me entregou:

— É dinheiro. Presente da Moura para vocês. E disse que era pra levar vocês três comigo, quer conhecer o menino. E se ainda não foi batizado, quer ser a madrinha dele.

E, como tanto eu quanto Valentim ainda se ficasse olhando um para o outro, admirados com tanta novidade, Duarte nos animou:

— Lá é bom, gente. Muita fartura. Muito leite pro moleque. Minha mãe vai ficar maluca com ele. E eu sei que a Moura fez o convite de coração.

Valentim — eu bem que via — criava alma nova. No meio daquele aperreio em que a gente estava vivendo, sem saber de onde tirar o sustento nosso e o da criança! — de repente aparece o Duarte com aquele convite.

Eu, confesso, quase não conhecia a Moura, mas me lembrava da mãe dela, minha tia. Me lembrava de uma visita que Mãe tinha feito ao Limoeiro e a Tia serviu na mesa um peru assado com farofa, pra festejar. Me lembro também que o Irineu disse uma brincadeira, se insinuando como pretendente, para casar com a prima. E a Moura fechou a cara, não achou graça nenhuma. Fiquei até enfiada, por causa dele ser meu irmão.

Duarte não era de muita palavra, mas continuava olhando para nós e, por fim, disse, sério:

— Vocês podem ir, pela minha responsabilidade. A Dona me tem confiança. E ela gosta muito de você, Marialva. Não viu que pediu para ser madrinha do menino?

 

Nós nem conversamos mais. Foi um fazer de trouxas, lavar de panos do Xandó, dar ração de milho aos animais, banhar, aprontar tudo para poder levantar acampamento pela madrugada seguinte.

Na hora da saída, vimos que Duarte já tinha pago todas as nossas despesas. E explicou:

— Ela me deu dinheiro especialmente para essas coisas.

 

A viagem durou dezoito dias. E puxamos, mas não dava para se andar muito, por causa da criança que se enfadava e chorava. Também era ruim para ele nas horas de sol forte; tinha que se parar um pouco, procurando uma sombra, até o sol quebrar mais.

Indo pela estrada que chamavam de real não se passava no Limoeiro nem nas Marias Pretas e, daí, nem mesmo pela Vargem da Cruz. Para se ir por esses lados, tinha-se que tomar um desvio de algumas léguas. Por mim, eu gostei muito disso; quanto mais longe me visse da Firma e do Tonho, melhor. Só de pensar neles eu me virava naquela menina assustada que, pra casar com Valentim, teve que fugir de casa.

Afinal, quase nos dezenove dias de caminhada, demos com a lombada azul da Serra dos Padres; e ainda teve meio dia de marcha para se chegar aos dois serrotes de que Duarte falava, o do Pai e o do Filho.

Ao pé dos dois serrotes, como fechando o espaço entre um e outro, a Casa Forte de Maria Moura, toda branca, de oitão levantado, alto, alpendrada à frente; e aquela cerca também alta e cerrada, com os seus mourões de ponta aguda. Até dava um certo medo — respeito, pelo menos, dava.

Um menino branco, louro e feioso, veio abrir o portão. Parece que nos tinha avistado de longe, porque também Maria Moura e a Rubina estavam no alpendre, à nossa espera.

Duarte, que no momento era quem carregava o Xandó na lua da sela, do cavalo mesmo passou o afilhado para Rubina. Maria Moura veio me ajudar a desmontar da minha andilha e quase me recebeu nos braços, quando eu escorreguei da sela e ia me ajoelhando no chão. Natural, as pernas dormentes, para quem andou tantos dias a cavalo.

Fazia anos que eu não via a minha prima. Parecia que estava mais alta, mais esguia, metida nos seus trajos de homem, cabelo cortado na altura do pescoço. Duarte tinha nos falado do modo de vestir de Maria Moura: “Eu acho que ela escolheu essa roupa para impor respeito à cabroeira. E, nela, não fica mal”.

É, a gente estranhava — mas não ficava mal. A Moura não era mulher de muito quarto e muito seio, mas esguia de verdade, e bem mais alta do que eu. Calçada de botas, rebenque no pulso, ela própria devia ter desmontado há pouco do seu cavalo, que ainda estava selado junto ao alpendre.

Me abraçou, rindo do escorregão, me deu um beijo no rosto:

— Menina, como está bonita! Eu não seria capaz de reconhecer em você aquela menininha encabulada que foi visitar a gente no Limoeiro!

Aí eu apresentei Valentim. Uma coisa boa em lidar com homem que trabalha para o público, é que eles sabem se comportar com gente estranha. Valentim tirou o chapéu, fazendo uma reverência, pegou nas pontas dos dedos de Maria Moura, sem chegar a lhe beijar a mão (eu morria de vaidade, ele estava lindo!), e disse:

— Meus respeitos, Senhora Dona Maria Moura.

E ela atalhou logo:

— Prima! Me trate de prima! Marido de prima minha, meu primo é.

E ele, rindo:

— Bem, marido eu sou! O Duarte tornou o cuidado de me casar com a sua prima Marialva, com Padre, sermão e aliança de ouro.

A Moura riu também:

— E então? Por mim, só tenho a me louvar, ganhando um primo tão simpático.

Até aí, Duarte não tinha falado com ela. Não sei bem por que, achei que havia qualquer coisa entre aqueles dois. Só então ela deu a mão a ele, e Duarte ia se curvando para beijar a mão oferecida, mas parou, ficou apertando os dedos da Moura por um momento. Ela sorriu para ele e reclamou:

— Afinal você voltou! Nem posso dizer como foi que me virei na sua ausência. E não sei como não explodiram o seu paiol de pólvora!

Duarte pareceu assustado com a brincadeira:

— Mexeram muito lá? Eu avisei que pólvora é perigoso!

— Não se assuste, é graça minha. Não se chegou nem a acabar com a reserva que você deixou separada.

A Moura nos levou então para a sala de dentro, a da janta. A Rubina não largava o menino, mal me deu atenção. Com ele nos braços deu as ordens na cozinha. A comida já estava fumegando nas panelas, mas eu pedi:

— A coisa que a gente ia mais querer agora era um banho. Parece que a poeira do caminho grudou toda na nossa pele. O Xandó até mudou de cor!

Maria Moura chegou perto de mim, meio encabulada:

— Valha-me Deus, e eu que me esqueci de que chegaram de tão longe! Mas garanto que Rubina já cuidou do banho de vocês.

E aí eu descobri um dos luxos da Casa Forte: o banheiro que a Moura tinha mandado levantar no quintal, bem pegado à cozinha. Um quarto pequeno, quadrado, caiado por dentro e por fora, o ladrilho muito bem lavado; e dois potes baixos, enormes, de boca larga, que a cunhã já estava acabando de encher com água morna. Tinha umas toalhas bordadas penduradas em um torno e, num pires de barro, um pedaço de sabão do reino, cheiroso.

Primeiro banhamos o Xandó, a Rubina e eu; sentamos o bichinho no tamborete e fomos despejando, com a cuia, a água morna em cima dele; e ele, em vez de chorar, ria, divertido. No fim, enrolei o Xandó em uma das toalhas, entreguei o menino à Rubina — ele não estranhava mesmo a velha, me admirei, e me banhei eu.

Enquanto isso, Duarte foi com Valentim para a bica no olho d’água. O banheiro novo era particular, só da Moura; quebrou-se a regra apenas para mim.

Já encontrei o menino sentado no colo da Moura, enquanto a Rubina lhe preparava o leite morno na garrafa. E ela brincava com o Xandó, fazendo cócega na barriga dele:

— Quem te deu a ousadia de tomar banho no banheiro da madrinha, heim? Ali homem não entra, viu, seu moleque!

E o Xandó ria das graças da Moura como se entendesse.

Depois da merenda, a Moura nos levou para o quarto. Tinha cama e tinha rede e até um berço que o Mestre Quixó (conheci ele mais tarde) tinha começado a fazer logo depois da partida de Duarte ao nosso encontro.

Mas, assim que mostrou o quarto, a Moura disse para nós dois:

— Vocês vão ficar neste quarto, na ala dos homens, mas é só provisório. Fiquei esperando que Duarte chegasse, trazendo mesmo os dois — quero dizer, os três! Era pra combinar uma coisa com ele: quero levantar uma casa para vocês. Aqui pertinho, para viverem mais à vontade. Na Casa Forte, propriamente, o movimento é muito, gente armada, chega homem até no meio da noite, não é lugar de se criar menino. E a casa nova fica sendo de vocês por toda a vida, um ponto certo de descanso. Quando Valentim precisar viajar, pode ir em frente, levando você, se quiser; o menino, enquanto for pequeno, pode ficar por aqui, comigo; Rubina toma conta dele.

Eu quis ir agradecendo mas a prima continuou:

— Quero que tenham aqui um ponto de refresco, em terra firme, como dizia o nosso avô marinheiro.

Valentim concordou que a casa era mesmo uma ótima idéia — e muito generosa. Mas não seria despesa demais?

Duarte, que ainda não tinha falado, tranqüilizou:

— Casa, aqui, é fácil de levantar. Tem muita madeira na serra, faz-se tudo de pau a pique e taipa: numas duas semanas está pronta. E a Dona já tem até uma olariazinha para as telhas e o tijolo do ladrilho.

No meio da conversa, eu me sentei na rede, fui me estirando, dormi. Os outros foram embora, Valentim também se estirou na cama. Rubina saiu com o neném, armou uma redinha para ele num canto do quarto dela e ficou sentada num tamborete, balançando a rede e cantando para o Xandó dormir. Como fazia comigo, ela contou quando fui procurar pelo meu filho.