Memorial de Maria Moura
Cap. 12 — Marialva
Marialva
MAIS DE UM MÊS tinha se passado e nada sobre volta de Valentim. Mas eu fazia fé nessa volta — ele não tinha dito — “Eu vou, mas volto”? Então?
E, para me dar mais confiança, nas Marias Pretas, vez por outra, nos chegava uma notícia ou um boato: a passagem por vários lugares de um moço rabequista; o que pedia esmola pelo amor de Deus, para o Senhor do Bonfim. Até de cinco léguas em redor aparecia gente falando.
Para o meu mal, eu tinha caído num erro, logo depois do aparecimento do Valentim. No alvoroço da novidade, assim que a Firma chegou da rua, contei tudo, da visita e do visitante, dos pais de feira, da queda desastrada que ele sofreu e da promessa ao Senhor do Bonfim.
A Firma logo arrebitou a orelha. Entre os três — ela, o Tonho e o Irineu — era ela quem mais medo tinha de que eu me casasse, botasse marido dentro de casa, cobrando deles a minha parte de tudo. E ainda mais: eu, novinha, sadia, podia ainda ter uma récua de filhos para virem azucrinar os tios.
A Firma era maninha, nunca teve nem um aborto. Quando os dois brigavam, o Tonho dizia que ela era de raça de mula, que não emprenha. E a danada respondia: quem sabe o mulo não era ele? Se duvidava, arranjasse um moço disposto pra tirar a teima e experimentar com ela; ia ver se pejava ou não! O Tonto ameaçava de lhe meter a mão; e a Firma avançava com as unhas, tirava sangue da cara dele.
Outras vezes, quando o Tonho tornava a se queixar por não ter nem ao menos um triste filho, um herdeiro que o ajudasse, ela insistia na alegação:
— A culpa tem que ser tua. Com tanta rapariga que você arranja por aí, já devia ter feito um filho, se pudesse.
— Eu não ando com rapariga!
— Pode não andar agora, porque tem medo de mim. Mas no seu tempo de solteiro, hein, seu frouxo?
Irineu, se estava perto, apartava os dois; eu ia me esconder no quarto. Não sei onde é que a Firma aprende aquele palavreado, devia ser mesmo com o marido, já que homem nenhum chega perto daquela megera; só mesmo o abestado do meu irmão.
Irineu também não tinha filho apanhado — pelo menos não que a gente soubesse de nenhum.
Dizia ele, naquela petulância, que filho só ia ter com a prima Maria Moura, quando fosse dono do Limoeiro.
A verdade é que todo aquele nosso povo, tal como os meus irmãos e a minha cunhada, só dava valor à terra, sobre tudo neste mundo. E não eram só os fazendeiros, mas os padres, as beatas, os comerciantes, o pessoal da rua e do mato: pra eles só vale a terra, acima de qualquer outro bem. Contava o Avô, imitando a fala do Marinheiro Belo, que gostava de discutir com ele:
“Para vocemecê e essa gente vossa, riqueza é só a terra. E nem se sabe direito para que a querem! Plantar, não plantam quase nada. Não cercam, não fazem benefício maior que a casa de taipa, o curral do algum gado, o chiqueiro das cabras. Olha, meu caro, a última vez em que pus estes olhos num arado, foi quando ainda vivia em minha terra, em Portugal...”
Ouvi o Avô repetir esse discurso tantas vezes, que nunca me esqueci dele. Mãe até achava uma falta de respeito a gente arremedar a fala do Marinheiro Belo nosso avô. E ainda tinha mais o remate, a última palavra do Marinheiro:
“Na verdade, vocemecês só querem a terra para possuir! Para dizerem que são os donos!”
E o Avô continuava a cena, acompanhado pelas nossas risadas:
— Aí o Marinheiro se levantava da mesa, chegava até ao alpendre, estendia o braço, ainda com a colher na mão: “O orgulho de vós todos é dizerem às visitas: ‘Até onde alcançarem os seus olhos, tudo é meu. Da porta da minha casa não se avista terra alheia!’”
Hoje eu não acho mais graça. E penso mesmo que o Marinheiro Belo é que tinha razão. Por causa de um corredor de terra de uma braça de largura, numa extrema, todos são capazes de matar, de morrer e de mandar matar.
Com o ouro se sonha, é o que eles dizem. Mas a terra é viva, está fervilhando debaixo dos nossos pés. Quanto sangue corrido, quanta moça emparedada pra não casar, ficar solteirona, moça-velha e não dividir as heranças!
Visse o que acontecia comigo: bastou me ouvir falar no Valentim, a Firma tomou fogo na patrona. Ralhou que espumava, só porque eu tinha dado trela a esse sujeito adiantado, a um tocador de rabeca, veja só! E com essa pabulagem de ser saltimbanco, ainda por cima!
No que ela gritava comigo apareceu a Rubina, que tinha raiva da Firma desde que ela casou e se apossou de tudo, na nossa casa; a velha alegava que só ficou morando nas Marias Pretas com pena de mim, tão pequenininha, sem pai nem mãe, nas unhas da besta-fera. E também porque tinha um filho que era o homem de confiança do Tonho, o Duarte.
E só para inticar com a Firma, Rubina confirmou tudo do moço com a rabeca, do seu ofício de saltimbanco, da queda desastrada, e a promessa, a burra da montaria e o registro do santo... Só não falou nos olhos verdes, que, aí, já seria demais. E tinha cheiro de namoro: no caso, então havia de ser eu que entrava na dança.
A Firma amarelou de raiva, só faltava sapatear e me botou o dedo no nariz:
— Vou contar pro seu irmão! Vou contar toda essa pouca vergonha pro seu irmão!
Rubina, ainda com cara de riso, fez como se quisesse acalmar a jararaca:
— Mas, Dona Firma, se a menina for embora junto com os saltimbancos, o caminho fica livre para vosmecês. E se tiver filho com ele, vai ser saltimbanquinho também!
Firma avançou pra ela:
— Não se atreva comigo, sua negra! Olha que eu mando te botar no tronco!
Rubina levou as mãos aos quartos e desafiou:
— Que tronco? Esta negra é forra, minha dona!
A Firma chegou mais perto da Rubina e abanou-lhe os queixos:
— Forra! Só sendo! Negra da minha cozinha não tem nenhuma forra, não! É tudo cativa e apanha do meu relho!
Rubina não se rebaixou a gritar — naquela briga quem parecia a senhora dona era ela. Baixou a voz, falou com o maior desprezo:
— Quem sabe não lhe disseram? Afinal a senhora não é da família. Quando o Seu Tonho apanhou a senhora por aí, não lhe contaram nada, não é? Pois fique sabendo que eu sou forra, de papel passado, desde que peguei barriga do finado seu sogro! Quando ele viu que eu estava esperando, me chamou na sala e me entregou a carta assinada: “Tome logo a sua carta de alforria. É pro moleque nascer forro também.”
— Isso é mentira! O seu moleque, sabe Deus de quem é filho!
— Sabe Deus e sabe todo o mundo. Sabe o seu marido que trata o meu filho como irmão dele que é. Bota Duarte até na frente do Irineu!
A Firma ia avançando para meter a mão na cara da outra; eu me enfiei no meio e apartei as duas.
Rubina deu um muxoxo e saiu da sala numa rabanada. A Firma saiu também, bufando, e foi se trancar no quarto. E, mal o Tonho chegou, veio dar o serviço:
— A tal da sua irmãzinha está botando as unhinhas de fora! Meteu dentro de casa um tocador de rabeca que passou pedindo esmola; e foi logo com comidinhas, chazinho, e namoro engatado. E tudo com a proteção dessa negra Rubina, que eu não sei como ainda deixo debaixo das minhas telhas.
O Irineu, que acabava de se apear e queria bem à Rubina, sua ama de leite, veio correndo enfrentar a raiva da cunhada:
— Suas telhas, não! Eu também tenho telha minha aqui! E deixe a Rubina em paz!
Tonho vinha de cara tão fechada que nem olhou para a mulher — logo ele, que tinha tanto medo dela.
Caiu sentado no bangüê, olhou em torno meio esgaseado e gritou:
— Cala a boca aí, vocês dois.
Eu nunca tinha visto ele assim. Até a Firma, apesar do seu couro grosso, deu pra sentir:
— Que foi, homem? Viu assombração?
Irineu tinha se atirado num tamborete e foi ele que respondeu:
— Muito pior que assombração. Nós acabamos de ver a casa do Limoeiro pegar fogo e se acabar com tudo que tinha dentro.
A Firma nem entendia — nem eu também:
— Como foi? Como foi que aconteceu? Que fogo?
Irineu começou a explicar a história toda, do princípio. Primeiro a visita que fizeram, exigindo a parte deles no Limoeiro; a gente já sabia disso. E, o que era novidade, a intimação do delegado, a víbora da Moura botando os soldados pra correr. Depois, em desespero de causa, a idéia que o Tonho e ele tiveram de reunir uns homens e dar um susto na Moura: cercar-lhe a casa até ela se entregar.
— Pois quando chegamos lá, ela também já estava armada; nem se sabe quanto capanga era. Nos recebeu foi a tiro de bacamarte. Nós apertamos o cerco, fizemos fogo cerrado. Mas quando parecia que a partida estava ganha e a Moura acuada, rompeu labareda na casa por todos os lados, virou tudo uma fogueira só.
Eu estava apavorada e me pus a chorar:
— E ela? Morreu queimada, lá dentro?
Do seu canto, o Tonho cuspiu no chão:
— Antes fosse!
Até a Firma estava assombrada:
— Não morreu? E daí? Que é que ela fez?
O Irineu, que já estava andando pela sala, se virou pra nós:
— Ninguém sabe. O pior é isso: ninguém sabe. Só pode ter fugido. Não se ouviu um grito nem um ai. Quando chegamos, a casa estava cheia de gente: tinha pelo menos uns cinco atirando. E na hora em que tentei dar a volta por trás, ouvi um grito fino de mulher. E não era dela. Eu conheço a voz dela.
Tonho olhou para o irmão, concordou:
— Aquilo é muito esperta. Devia ter tudo preparado para escapulir, aproveitando que a gente estava assustado com o incêndio. Mas eu ainda pego ela. Ainda me cai na mão!
No dia seguinte saíram os dois pelas estradas, com uma escolta de homens, procurando a fugitiva — quer dizer, os fugitivos, porque a Moura, se escapou, não foi sozinha.
Em primeiro lugar se botaram até o Limoeiro, onde ainda encontraram o rescaldo do fogo. Foram espiar de perto e dava para ver que não tinha corpo de ninguém no meio das paredes caídas, das telhas quebradas e do madeirame queimado. Não era possível que se consumisse tudo; tinha que haver nem que fosse algum esqueleto, mesmo virado em carvão. Mas de criatura morta ali não tinha nada, quer de bicho, quer de gente.
Procuraram pelas casas dos moradores: também não se achava ninguém em nenhuma das duas. Um tal de Chico Anum também estava sumido com a velha dele. Deixaram os trastes em casa, os potes, as panelas. Levaram só o que puderam carregar. O outro morador sumiu igualmente, largou até a panela do feijão na trempe, em cima do fogo. Esturricado.
O Chico Anum tinha uns filhos, um que sentou praça, o Zé Soldado, e um outro. Os dois irmãos eram cabras da Moura e estavam na casa da fazenda, durante o tiroteio. Escravo, não havia nenhum. Aquela gente sempre foi contra a lei do cativeiro. O Tio gostava de dizer, se fazendo de muito devoto: “Escravo só de Deus, Nosso Senhor.”
— Aí (já era Tonho contando) eu com o Irineu e os meninos saímos pelas estradas, procurando o rastro da Moura. Mas ninguém, em casa nenhuma onde se passou, tinha visto pessoa alguma do Limoeiro, sozinha ou em bando. Nem a pé, nem a cavalo.
— Sumiram de chão adentro? — eu perguntei, ainda aturdida.
E a Firma, quando saiu do estupor daquela notícia e esfriou mais a cabeça, foi logo gritando com o marido:
— Então eles só podem ter se escondido nas matas! Em beira de estrada é que não iam se mostrar, sabendo que vocês estavam atrás dela.
Mas o Irineu não acreditava nisso:
— Acho que não, ela não ia agüentar ficar na mata, comendo o quê, dormindo onde?
O Tonho, como sempre, ia mais pela cabeça da mulher:
— Pode ser, Firma, pode ser. A Moura não estava sozinha. Tinha os cabras com ela, armados, podiam caçar, roubar legume nos roçados...
Irineu fez pouco na idéia:
— Roçado, em mês de setembro, não tem de resto nem uma espiga de milho seco, nem uma vagem de feijão. E ela não está acostumada a enfrentar a catinga — e os espinhos, e as pedras, e o solão quente. Deve ter medo de cachorro do mato, de gato bravo, de cobra...
E a Firma:
— Cobra? Ela deve é se dar muito bem com as pareceiras!
No dia seguinte, Irineu e Tonho voltaram à sua caçada; a Firma foi à vila, decerto desabafar com as comadres. E eu voltei a ficar sozinha, o que era melhor que ficar com eles. Pensando na minha vida.
Tanta briga por causa dele, eu naquela espera tão ansiosa e Valentim não aparecia. Até mesmo as notícias sobre a passagem do moço pedinte pelas fazendas foram escasseando e afinal sumiram. Eu vivia choramingando pelos cantos, saía passeando pelo pátio das Marias Pretas, os olhos perdidos na estrada. Na volta era aos suspiros, cada suspiro fundo que até dava para apagar um fogo, dizia Rubina.
E quando eu me sentava no parapeito do alpendre, sempre de olho no caminho, Rubina, zombando de mim, se punha cantando a cantiguinha do Barba Azul, com que tinha nos embalado, a mim e ao Irineu:
A princesa encarcerada
No seu castelo a indagar
Já vês cavalo na ponte?
Já vês a vela no mar?
Nada vejo, minha mana
Vinde vós mesma espiar
Ai não, tenho os olhos cegos
Só me servem pra chorar...
Ela cantava com voz fina e fanhosa, mas me lembrava a rabeca do Valentim. E então eu começava a chorar mesmo.
Afinal, mais de um mês tinha se passado e eu, pelo meio da manhã, na saleta das mulheres, trocava, desgostosa, os bilros na minha almofada de renda. Foi quando Rubina veio me avisar, misteriosa, que o Duarte (o filho dela) estava me esperando no alpendre. Esse Duarte, filho também de Pai, trabalhava junto com o Tonho. Mas tinham um acordo entre eles: Duarte, que era de paz, não se metia nas arruaças dos outros dois — as brigas, as questões, as bebedeiras, as estrepolias nas casas de mulher, na vila; Duarte tomava conta da escrita, do gado, dirigia o que era de trabalho nas Marias Pretas. Morava junto com a mãe no que tinha sido a senzala, que o Tonho reformou só para os dois, já que ali não se tinha mais escravo nenhum. A Firma detestava o Duarte.
No rosto aberto, Duarte tinha um sorriso manhoso. Estendeu a mão e me entregou uma espécie de uru bem pequeno, comprido e estreito, feito de palha trançada, como de esteira. Recebi sem entender e Duarte explicou:
— Eu fui na vila, hoje. E na venda do Corujo me deram esta encomenda pra entregar à Sinhazinha.
Meu coração me chegou à boca, tive aquele palpite, mas disfarcei:
— Encomenda de quem?
— O Corujo disse que foi um moço, Sinhazinha. Um moço de fora.
Deixei Duarte sair antes de desatar a cordinha que fechava o uru. Levantei a tampa e sacudi um pouco para soltar o que vinha dentro. E caiu no meu colo um brinquedo, que eu de criança conhecia, mas nunca tinha possuído nenhum. Era um boneco, feito de taliscas finas de madeira, desses que têm as juntas dos braços e das pernas ligadas por um cordão. Pendurado numa espécie de trapézio, ele pulava, dançava e dava cambalhota, quando a gente apertava as taliscas, na parte de baixo do trapézio.
Mas o que fazia diferença entre o meu bonequinho e o que se vende nas feiras eram duas novidades: na carinha redonda e chata, espetada nos ombros, tinham pintado uns olhos bem grandes e bem verdes! E no quadrado do peito estava pintado um coração, bem encarnado, com um punhalzinho atravessado nele.
Eu ria e chorava movimentando o boneco, fazendo Valentim — porque era ele o trapezista! — virar de perna pra cima, dando o seu salto mortal.
Rubina que, atrás de mim, acompanhava tudo, também se ria:
— Ora já se viu! já se viu! O povo chama esse moleque de ‘Mané Gostoso’.
— Mané Gostoso nada. O nome dele é Valentim.
Rubina de repente parou de rir, curvou-se para mim, deu o seu alerta:
— Esconde tudo. Lá vem a caninana.
Joguei o boneco e o uru dentro de uma rede que estava armada perto. Me sentei no tamborete, comecei a trocar os bilros na almofada. A Firma farejou:
— Do que é que estavam falando, que se calaram de repente? A Sinhazinha namora, a negra velha alcovita...
Dei o desprezo. Que por sinal era a coisa que mais irritava a Firma — ela falar, e a gente fazer que não ouvia. A verdade é que eu estava numa alegria tão grande — a vontade que tinha era de contar tudo, sair exibindo o presente, mostrar o meu Valentim de olhos verdes e coração trespassado, dando o seu salto mortal... Mas me segurei. A Firma era capaz de tomar o boneco à força e rebentar com ele. Afinal eu tinha Duarte e Rubina para repartir com eles o meu segredo.
O Tonho e o Irineu continuavam na mania cega de encontrar a Maria Moura. Foram ao delegado — acho que iam naquela delegacia quase todos os dias — saber se houvera novidade. Nenhuma.
Com eles exigindo, o delegado em pessoa foi ao sítio, examinar o local do incêndio. Levou os dois soldados, ficou cavucando as cinzas com ponta de vara, fuçando por baixo das paredes caídas. Não tinha ninguém ali. Até a gaiola da graúna, pendurada num galho de cajazeira no terreiro da cozinha, estava com a portinhola aberta: elas tinham soltado o passarinho, antes da fugida.
O Tonho, contando isso, resmungava:
— Isso dá pra ver como ela trazia tudo planejado! Até o passarinho se lembraram de soltar. Eu ainda pego aquela safada!
E o Irineu se encrespava:
— Você diz que pega, com tanta gana! Se lembre que o noivo sou eu!
A Firma aí aparecia, recomeçava a briga, eu corria e ia me consolar junto da minha almofada.