Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 29 de 43

Páginas do PDF

Memorial de Maria Moura

Cap. 28 — Maria Moura

Maria Moura

 

FOI DURO E FOI devagar. Mas agora estava eu no alpendre da minha Casa Forte, olhando o mundo em redor: lá embaixo na várzea, lá em cima na serra e, para os dois lados, as perambeiras do pé do morro.

Nas vargens, tudo quanto era roçado, já de broca feita neste tempo de verão, esperando a sementeira. Para além, o açude ainda por acabar.

O curral do gado, vazio àquela hora, não fosse o choro de uns bezerrinhos novos, pela primeira vez apartados da mãe. Do outro lado o chiqueiro das cabras. E, entre o curral e a casa, na estrebaria, uns dois cavalos do meu uso, comendo a sua ração de milho. Os outros viviam soltos, como solto vivia o Tirano, aposentado, já magreirão de velhice, mas que todas as tardes aparecia sem falta para cobrar sua mochila de milho inchado.

Com tudo isso, o meu orgulho maior era a casa. Começando pela cerca, as estacas de aroeira, com sete palmos de altura, tudo embutido numa faxina fechada, rematando em ponta de lança. Entre um pau e outro não passava um rato. E pra abalar um mourão daqueles, só a força de uma junta de bois: eram enterrados a mais de quatro palmos de fundura, socados com bagaço de tijolo e pedra miúda. Feito igual a paliçada de praça de índio; índio dos antigos, dos que ninguém mais se lembra de ter visto. Mas Mestre Quixó se lembrava e nos ensinou como era que se fazia.

Pra dentro da cerca, o terreiro batido, aberto, subindo devagar o alto onde a casa fica. E aí a casa mesma, se espalhando dos lados; na frente, o alpendrão largo, com os seus esteios também de aroeira bem lavrada, o chão ladrilhado. As paredes rebocadas, caiadas, como as do Limoeiro. No começo a gente não tinha pedreiro competente para o trabalho, mas arranjou-se um mestrinho jeitoso, morador no Riacho da Bugra, que com paciência e o ensino do Mestre Quixó (que era homem de sete instrumentos) foi logo promovido a mestre.

Muito tempo se viveu no rancho provisório, que era praticamente o da Jove melhorado e alargado. Eu fazia tudo muito medido; e assentamos que, antes de mais nada, tinha-se que inventar uma renda para cobrir tanta despesa.

Os meus meninos, os que eu chamava ‘a primeira ninhada’, não tinham a experiência e os usos de quem faz a vida na luta.

Com eles dava só pra mandar em campo as tais parelhas, que foram crescendo, de dois para quatro ou cinco. Sempre traziam qualquer coisa — animais, arreios e, só uma vez, um anel com pedra. E aos poucos é que foram se chegando outros, a fama da Casa Forte e de Maria Moura se espalhando e chamando os cabras mais feitos na arte.

Um dia apareceu um, me oferecendo ‘sociedade’ com o grupo dele. Eu dava o armamento e a munição, e eles, depois de cada rodada, vinham repartir os lucros. Mas eu não gostei de cara do chefe — um mulato metido a besta que se atreveu a entrar no meu alpendre de chapéu na cabeça. Eu olhei duro para ele:

— Pelo que sei, não está chovendo dentro da minha casa. Pode tirar o seu chapéu.

O cabra, atarantado, levantou a mão, se descobriu.

Não fiz negócio com ele, mandei-o embora com pouca conversa. Pense só na audácia — ‘sociedade’! E o sujeito ainda disse depois a João Rufo que “quem não era por ele era contra ele” e que a Dona podia “esperar o troco”. Não me assombrei com a pabulagem. O Roque já conhecia o indivíduo de tempos antigos. Chamava-se Manel Salviano, tinha fama de perverso, desses que picam de faca pescoço de mulher ou criança, até que elas descubram onde estão os homens da casa. Ou onde está o dinheiro. Ouvindo isso, levei a mão ao meu pescoço, onde ainda havia a marca do punhal do Irineu.

Tempos depois esse Salviano botou uma espera nos meus meninos, na saída de uma festa no dito Riacho da Bugra, a terra de nascimento do nosso velho Mestre Luca. Com a presença da gente e os trabalhos na Casa Forte, o lugarejo tinha medrado, criou vida nova; levantaram algumas casas, abriu-se até uma bodeguinha. Tinha gente que sonhava em ver brotar dali uma cidade. Como se eu fosse permitir! Cidade, às portas da minha casa, só depois de eu morta. Grande, ali, em vida minha, só podia ser a Casa Forte.

Mas eu ia contando, Salviano botou três homens numa espera, para pegar os meus meninos, que já vinham da festa trazendo algum butim. Mas os meus tiveram aviso, dado por uma rapariga amiga deles; ela ouviu um dos cabras do Salviano, bebido, se gabar de que naquela noite mesmo iam acabar com uns amarelos da ‘muié-home’: “Tem um deles que o povo chama de ‘Soldado’. Pois quero ver se ele chama nós pra sentar praça!”

Soldado, por ali, só andava mesmo Zé Soldado; ele então botou Maninho para acompanhar de longe o cachaceiro, ver qual era a intenção dele. E quando cinco cabras do Salviano se reuniram na passagem do riacho, escondidos na sombra da pedra que chamam Pedra da Bugra, os meus vieram por trás e descarregaram os bacamartes neles.

“Só um correu”, dizia o Roque, “o que foi bom, pra ter quem contasse a história e o resto deles tomarem um ensino. Um outro caiu morto e três feridos.”

Roque queria acabar com os feridos, mas Zé Soldado não deixou. Dois deles ficaram inutilizados: um com um pedaço de ferro do tiro encravado no ombro, e o outro ferido na barriga. Tiro de bacamarte faz muito estrago. E três tiros, então! Alípio viu, mais tarde, um dos que sobraram pedindo esmola numa feira. Tive até pena. Mas, como acontece sempre, ou era eles ou nós.

Os outros, ninguém teve dó. Aquilo era gente péssima. Pois mesmo quem vive dos ganhos na estrada, como era o nosso caso, a gente poupa os vizinhos e conhecidos. Só não se poupa se for inimigo declarado, como por exemplo eu com os malacaras das Marias Pretas.

Principalmente eu, era importante que me respeitassem, que o povo tivesse fé na minha fama de mulher de palavra. Agora eu já estava com a casa pronta, com o meu gado no campo, as terras da Serra dos Padres garantidas com a minha posse (sem falar nas escrituras do cartório, que eu nunca fui atrás delas, mas sabia que estavam lá). Meu ouro enterrado já tinha seu valor alto e a minha cabroeira de confiança era a minha garantia. Tinha mesmo que me dar muito ao respeito.

João Rufo estava ficando idoso, impertinente e resmungão. Eu me sentia meio isolada, sem ninguém da minha igualha com quem conviver. Com quem combinar as coisas. Pra minha gente, eu só tinha mesmo que dar ordens.

Então, quando já estava quase no fim a construção da Casa Forte, me caiu do céu uma pessoa que eu já conhecia, mas nem me lembrava muito dele; e, mormente, nem sabia direito o laço de sangue que existia entre nós dois.

Era o Duarte, filho do Tio Xandó, o pai dos rapazes das Marias Pretas; e filho, não da Tia Lica, mas de uma mucama da casa, a Rubina; a quem o velho Xandó alforriou, quando ainda prenha, “pro moleque nascer forro”. Batizou-se ao menino por Duarte e cresceu entre as outras crias da fazenda. Mas, com a morte da Tia Lica, a Rubina tomou conta da casa, acabou de criar a Marialva; já tinha sido mãe de leite do Irineu, quando amamentava o Duarte. Logo depois o Tonho se casou com aquela Firma. As duas, Firma e Rubina, então se enfrentaram e sustentaram guerra aberta até se separarem de vez.

Duarte me chegou em casa meio ressabiado. Eu nem me lembrava dele, não visitava as Marias Pretas desde a morte de Pai, e ele não ia nunca no Limoeiro. Era muito melhor apessoado que os irmãos. Moreno fechado — ‘morenão’ —, cabelo crespo, mas bom, feição bem recortada, puxada da Rubina que tinha fama de bonita, quando nova. Mãe dizia: “Com Lica tão amarela e esmorecida, não é de admirar que Xandó pegasse a mucama...”

Claro que, no passado, quando eu escutava essas histórias, não ia pensar muito na mucama alforriada, nem no seu filho Duarte. Sabia que ele aprendeu a ler, a escrever e a fazer conta. A própria Tia Lica que ensinou, quando desanimou de ensinar o Tonho, que era rude sem remédio e mal conseguia assinar o nome. O Irineu, esse lia e até tinha uma letra que dava para entender, mas era lerdo demais, preguiçoso, nunca assumiu responsabilidade. Gostava de dizer que já que Deus o fez assim bonito e simpático, era pra se casar com moça rica e não pra cuidar de gado magro e cacimba seca.

Duarte me apareceu, como eu disse, meio desarvorado, muito desanimado da vida. Me contou que todo o desmantelo tinha começado com o namoro de Marialva com um rapaz trapezista e tocador de rabeca, que apareceu pelas Marias Pretas e embelezou Marialva. E esse rapaz não era um vagabundo, trabalhava com os pais e um tio formando um grupo de saltimbancos, viajando de feira em feira, para dar espetáculo.

A pobrezinha de Marialva levava, nas Marias Pretas, uma vida de degredada, não tinha licença nem pra ir na rua. Que dirá pra namorar! Os irmãos, e principalmente aquela cascavel da Firma, tinham medo de que Marialva se casasse e o marido viesse exigir a partilha da herança dos pais — e lá ia-se embora a terça parte das terras das Marias Pretas. Por isso, traziam a menina de canto chorado.

Duarte morria de pena: “Afinal, sou irmão dela. Ninguém se lembra disso, mas eu sou”.

Conheceu o rapaz, o saltimbanco, que se chama Valentim; gostou dele, ajudou o namoro. Marialva, perseguida pelos de casa, acabou fugindo com o moço. Duarte também ajudou na fuga, depositaram a menina na casa de um amigo na Vargem da Cruz; no dia seguinte foi o casamento e Duarte serviu de padrinho.

Os noivos partiram em lua-de-mel, foram em procura dos pais dele — tinham um ponto de encontro combinado e lá se reuniram.

Mas quando Duarte chegou em casa, nas Marias Pretas, de volta do casamento, a Firma e o Tonho já sabiam de tudo. Tinham botado debaixo de confissão o moleque que, todos os dias, ia levar o leite de venda, na vila, e foi testemunha até do casamento; espiou do lado de fora da igreja.

Me contou Duarte que, mal apeou do cavalo, o Tonho frechou pra ele de faca na mão; e não o matou porque estava caindo de bêbedo; tinha passado o tempo todo se embriagando pra tomar coragem e atacar o irmão. Duarte torceu-lhe o braço que quase quebrou e aí a Firma veio pra cima dele com um bacamarte; a sorte é que o bacamarte não tinha pedra de isca no gatilho e não havia jeito do tiro sair.

Nesse ínterim chegaram os homens da fazenda, seguraram a Firma e lhe tomaram a arma. Levaram o Tonho para uma rede, botaram-lhe o braço em panos de vinagre. Diz o Duarte que a Firma se sentou num banco e se pôs a uivar:

— Rua! Rua! Se ponha na rua, seu negro bastardo. Você e aquela desgraçada da sua mãe! A malcriada da sua mãe, que já está pagando o dela!

Duarte conta que então se assustou:

— Que foi que a senhora fez com a minha mãe?

— Está debaixo de chave! Trancada! Minha vontade era botá-la no tronco, mas na porcaria desta fazenda nem tronco tem mais, pra se castigar um negro!

Ele aí perdeu a calma:

— Dona Firma, diga logo o que a senhora fez com a minha mãe!

Chegou-se mais perto, encostou-lhe um dedo no queixo e empurrou com força:

— Diga onde é que botou minha mãe!

A Firma já estava espumando, sufocada de raiva, mas não dizia nada. Foi uma das meninas de cria que chegou no ouvido dele e soprou:

— Sinhá trancou a Tia Rubina na despensa e botou a chave no bolso.

Duarte meteu a mão na saia da mulher, que uivava ainda mais alto, nem que fosse forçada por ele: “Tira as mãos de mim! Tira essas mãos de cima de mim!” Afinal a mão encontrou o bolso e sacou de lá a chave.

E ele me disse:

— Achei minha mãe na despensa, mesmo. Sentada num caixote talvez com mais raiva ainda do que a Firma. Mas calada. Eu abri a porta, dei-lhe a mão; e ela saiu, espigada, feito uma senhora dona, abanando a saia. O Tonho ainda estava na rede; a Firma veio para nós de novo aos gritos, de punho cerrado para nos bater. Eu pedi à mãe que fosse lá dentro fazer uma trouxa das coisas dela. Mãe respondeu: “A trouxa já está feita. Eu estava vendo logo que isso ia acontecer”.

Duarte mandou então o moleque pegar e selar um cavalo. O dele já estava selado. Enquanto isso a Firma esbravejava, mas via-se que não tinha coragem de atacar a Rubina.

Quando Duarte acabou de dar as ordens, a mãe lhe explicou:

— Ela me pegou de falsa fé. Inventou que eu tinha mandado tirar toda a rapadura da despensa e eu entrei lá, de besta, pra mostrar que ainda havia uma montoeira de rapadura na tábua. A chave tinha ficado na fechadura, ela só fez puxar a porta e trancar.

— E mãe ria, me contando: “Ela ficou dando com os pés na porta e chamando nome — cada nome! onde será que ela aprendeu? e se danava por que eu não respondia. “Responde, diabo! Responde que tu não está morta!” Só muito depois tu chegaste, meu filho.

Eu perguntei a ele:

— E daí? cadê a Rubina?

— Levei minha mãe com a sua trouxa para casa daquele amigo, o Seu Jordão, onde tinha depositado a Marialva. E quando fui entrando com ela na sala, ele começou com brincadeira: “Que é isso rapaz, tá ficando viciado em roubar moça? Todo dia me traz uma?” Minha mãe riu-se, se acomodou lá, foi logo ajudando a dona da casa, tomou conta do fogão. Aquela não se dá mal em canto nenhum.

Eu perguntei:

— E você?

— Eu, Sinhazinha, tenho tentado de tudo pra me acostumar ali na vila, mas não encontro maneira. Já negociei com gado — dinheiro dos outros, que eu não tenho nada; servi de caixeiro de bodega, fiz sociedade num açougue — o homem entrava com a carne e eu com o trabalho. Tentei tudo, mas não me acostumo. Rua não é pra mim. Já estava pensando em ir trabalhar em plantação mesmo — mas quando a gente não possui nada, eles querem que se trabalhe igual aos negros. Assim mesmo tentei. Não deu sorte, o homem me achou atrevido. Me chamou de ‘meio-sangue’ — eu sei que eu sou, mas não gosto que me digam na cara. Foi então que me lembrei de uma conversa que tinha escutado faz semanas: um sujeito falava da Dona Moura, do poder que tem hoje, desta Casa Forte que está levantando aqui, na Serra dos Padres. E pensei: quem sabe que ela me aceita pra vaqueiro, nem que seja dos bodes?

Eu atalhei:

— Mas Duarte, você sendo irmão daqueles dois, e com o ódio que eles me têm...

— Ah, não, Sinhazinha Moura! Eu sou irmão e não sou. Na hora em que posso servir — e toda hora é pra isso — sou o Duarte, e o Irineu me chama até de Mano Velho... Mas na hora da raiva, eu não passo do moleque. Na boca da Dona Firma sou ainda pior do que isso. E está se esquecendo de que o Tonho e a mulher tentaram me matar? Eles me odeiam ainda mais que a vocemecê!

Eu pensei um pouco, acabei concordando:

— Bem, na verdade... Já estou entendendo.

Olhei pra ele. Cada vez me agradava mais, até mesmo como homem. Nunca tinha andado perto de mim nenhum rapaz como aquele — na força do homem, bonito de cara —, alto, forte, calmo, bom de riso.

Nós estávamos conversando no alpendre, mandei que ele entrasse, se sentasse à mesa comigo. Pedi um chá, fui me explicando:

— Pois saiba que eu tenho gosto em ser sua prima, Duarte. Pra mim, isso de ser filho de Rubina em vez da Tia Lica, não importa. Seu pai era do meu sangue, tal como o Tonho, a Marialva e o Irineu. E não quero que você entre aqui como cabra de serviço, ou mesmo vaqueiro. João Rufo já está meio velho e cansado, bom de arriar a carga nas suas costas. Eu quero mesmo é que você venha ser o meu feitor.

Senti que Duarte não estava esperando por tanta facilidade. Não sei nem se ele ficou desconfiado (...“esmola grande...”) e ele tinha cara de pessoa desconfiada.

Levantou-se, deu uns passos pela sala:

— A senhora sabe que eu sou forro. Nasci forro.

— Sei muito bem. Foi mesmo a Rubina que me contou a sua história toda. Eu era menina, mas me lembro.

— Não quero que ninguém me venha botar o pé no pescoço, me tratando de negro.

— Quem iria?

— O João Rufo, por exemplo.

— O João Rufo só fala pela minha boca, só pensa pela minha cabeça. Ele vai fazer é muita festa a você.

E continuei:

— Sendo feitor, você vai ter que ganhar um salário... Quanto é que quer por ano?

Duarte começou a rir:

— E eu sei? Nas Marias Pretas nunca vi um tostão furado. Quando eu precisava muito de dinheiro, vendia um rês. Sinhô Velho, enquanto vivo, todo ano ferrava uma bezerra pra mim... O reba-nho foi crescendo, eu já tinha um gadinho. Mas a última coisa que a Dona Firma me jurava, no dia em que saí de lá, junto com mãe, é que eu não pensasse nunca em procurar o meu gado. Podia vir pegar as carcaças, porque ela preferia matar tudo a tiro, a ter que me entregar...

Fui eu, então, que sorri:

— Deixa ela se iludir. Qualquer tempo desses você pega aqui uns meninos nossos, e vai buscar o que é seu. Duvido que a Firma e o Tonho resistam. Meu pessoal é bom nessas coisas. Como foi que eu fiz o meu rebanho de gado? Foi assim mesmo.

Duarte veio se sentar de novo:

— E é um gado bom, o seu, Sinhazinha. Vi umas cabeças quando entrei nas terras da Casa Forte.

— É, eu só fico com a flor. O resto deixo que eles levem.

Depois montei a cavalo, fui com Duarte lhe mostrar a fazenda. Subimos a serra até onde era possível chegar montado; aí, amarramos os animais e eu mostrei a ele a vista mais bonita do lugar, de cima de uma ponta de morro que eu tinha mandado desbastar do mato, e ficou feito um mirante.

Vi que Duarte gostava de terra tanto quanto eu. Era pra dar mesmo um orgulho, enchia o peito pensar que todo aquele mundo de meu Deus a gente podia chamar de seu...

Foi o que ele me disse, e eu me ri:

— Podemos também chamar de nosso. Você não é da família? Não é meu primo, tal qual os outros filhos do Tio Xandó?

 

Descendo, mandei em seguida preparar um quarto para Duarte no lado dos homens, às esquerdas da casa.

Ele entrou lá comigo, se debruçou na janela, achou bonito. Depois, vendo a rede no armador, virou-se pra mim, meio encabulado:

— Desculpe, Sinhazinha, mas não sou homem de rede. Não haverá aqui, por acaso, uma cama-de-vento?

Eu achei graça:

— Tem, sim. Sempre tenho umas camas dessas, pra esse pessoal de arribação, que vem por um dia ou dois. Você escolha uma. Mas depois mande tirar madeira no mato, e faça uma cama de verdade pelo nosso mestre carapina. Com lastro de sola.

Ele já ia saindo, em busca das trouxas, quando eu me lembrei:

— E que é que você pretende fazer com sua mãe? Sabe que eu havia de ter muito gosto em contar com a Rubina aqui? Preciso demais de uma mulher pra botar ordem na casa. Para isso eu não tenho jeito.

Duarte se encostou na parede, com uma cara muito feliz:

— Eu estava com cerimônia de falar... Mas já que foi a Sinhazinha que se lembrou... Mãe só vive satisfeita perto de mim, cuidando da minha roupa, da minha comida. E mandando no resto da casa. Não falei com ela a seu respeito porque — pra ser franco — não sabia como é que eu mesmo ia ser recebido...

— Ah, pode crer, tudo vai dar certo, Duarte. Nesta casa, mão-de-obra de mulher anda muito vasqueira. As minhas meninas do Limoeiro, a Chiquinha e a Zita, já casaram por lá mesmo. As outras que eu consegui por aqui, não são lá grande coisa. Como por exemplo essa Jove, que você viu. Essa eu encontrei morando num rancho, onde hoje é esta casa. É tão selvagem — quase que é pior que uma índia braba. Não se deu com as outras — tive que fazer uma casa, pra ela e o filho, do lado de lá — ali! Já o filho, o Pagão, quero fazer dele gente. É o moleque que pegou o seu cavalo, quando você chegou. Por aí você vê como estou carecida de ajuda no governo da casa. Vieram me oferecer uma negrinha de compra: a senhora dela estava zelosa por causa do filho rapaz, que é meio arteiro. E eu fiquei aborrecida, mandei dizer à mulher que gado de dois pés eu não crio... Pai era contra se comprar cristão batizado, mesmo sendo negro. E eu digo o mesmo.

 

Fiz uma reunião com o pessoal para apresentar o Duarte. Antes já tinha falado com João Rufo, que achou a idéia boa: “Aqui estava faltando mesmo um feitor, sangue novo”. João estava se sentindo cansado, como eu já disse, não era mais como dantes. E ia recomeçar a lenga-lenga de todo dia, mas eu cortei:

— Já sei disso tudo, João. Por isso mesmo quis saber o que você acha do Duarte.

E na hora da reunião, para explicar de saída o motivo de Duarte começar pelo alto, em posição de confiança, ataquei logo de frente:

— Acho que vocês todos conhecem ele — ou pelo menos sabem quem é: o meu primo Duarte, filho do meu tio Xandó, das Marias Pretas. Como é sabido de todo mundo, eu não me dou com os irmãos dele, o Tonho e o Irineu; já o Duarte nunca se meteu nas nossas brigas. Nunca ajudou os outros contra mim, nem teve nada com o cerco e o incêndio da casa do Limoeiro.

Olhei a cara de todos. Não tinha nenhum emburrado; estava se vendo que eu não contava novidade e João Rufo já devia ter dado o serviço.

O Duarte então se levantou, estendeu a mão para eles; de um em um dos cabras lhe apertaram a mão. E eu mandei servir um dedal de jerebita, para festejar.

Findas essas cerimônias, os homens se retiraram e eu fui me sentar na minha rede de corda, no alpendre. Chamei Duarte, mandei que ele sentasse no banco, junto de mim.

— Agora você vai me contar toda a situação do Limoeiro; que é que o Tonho e o Irineu fizeram lá, depois que eu me retirei?

Duarte estranhou a palavra:

— Retirou-se, Sinhazinha? Vocemecê saiu numa nuvem de faísca e fumaça, dizem eles que só faltava as trombetas do Anjo Gabriel!

— Está bem, até aí eu sei. Mas quero que me diga o que é que eles fizeram depois que eu me sumi de lá.

— No começo eles ficaram apavorados. O Irineu até dava uns ataques, dizendo que a prima devia de estar morta no meio do incêndio, que tinha de se procurar bem, ainda ia se achar os seus ossos queimados.

— Vá-se o agouro pra lá!

— Já o Tonho botou um garrafão de cachaça debaixo da rede e no final já estava como morto, cheio de cachaça por dentro, banhado no suor da cachaça por fora, abraçado no garrafão vazio. E aí a Dona Firma mandou chamar uma índia velha para fazer pajelança no rastro ‘daquela bruxa’ — que era a Sinhazinha mesmo... Mas a graça foi que ninguém encontrou rastro nenhum. E a velha dizendo que sem rastro não tinha feitiço, Dona Firma botou ela pra fora, aos gritos... Mãe ficou se rindo e disse que ia começar uma novena pra livrar a menina de perigos e maus caminhos, e pra que chegasse ao seu destino em paz e salvamento. Mãe sempre gostou da Sinhazinha. Não é pra lhe adular, mas mãe sempre dizia que Maria Moura é a melhor cabeça da família.

— Ela também disse isso a mim. Uma noite, na última vez em que a gente esteve nas Marias Pretas, quando eu fui lá com Mãe, depois da morte de Pai. O Irineu começou com besteira, me chamando ‘minha noiva’... Mãe até se riu. Mas a Rubina disse lá do canto dela: “Só se essa menina fosse louca. Logo ela, a melhor cabeça da família”.

Combinamos para a semana seguinte a viagem dele à Vargem da Cruz, trazer a Rubina. Depois ele foi dar umas andadas por fora, fazer conhecimento do terreno. À noite, na hora da janta, convidei Duarte para vir se sentar à mesa, onde até então eu comia sozinha.

Ele tinha os modos muito melhores que os dos irmãos. Não avançava na comida como o Tonho, esperava que eu servisse. E mais tarde, na hora de dormir, antes de ir embora para o quarto dele, pegou na minha mão, beijou, e disse com ar de brincadeira:

— Abença, Sinhá!

E eu dei o troco:

— Deus te abençoe, meu nego bom...

 

Quinze dias depois, Duarte foi buscar a mãe dele. Rubina veio montada escanchada, como homem, com as saias de chita espalhadas em cima do cavalo. O filho queria que Rubina montasse nas andilhas, ela recusou:

— Se Maria Moura pode, que é moça de família, como é que eu não posso? Agora ficou na moda!

Eu já tinha mandado preparar o quarto dela, entre o meu e a despensa. Botei-lhe uma rede branca de varandas, como de patroa, dei-lhe estado. Ela é que se retraía, não aceitou comer na mesa comigo. “Mas seu filho come!” eu reclamei. E ela:

— Ele é filho de branco, eu não sou...

Horas passadas da sua chegada, quando Rubina, depois de ter tomado o seu banho e enfiado um galho de manjericão no cabelo, veio me pedir ordens, eu tirei do cinto a grande cambada onde estavam todas as chaves da casa, e declarei:

— Estas chaves agora são suas, Rubina. Pergunte às meninas onde é que serve cada uma. E eu fico livre de qualquer responsabilidade! Casa, roupa, comida, não é mais comigo. Você que providencie tudo!

Rubina ficou muito séria:

— Isso eu sei fazer.

 

Com a ajuda de Duarte terminamos a construção da casa. Os acabamentos, a pintura das portas, as prateleiras da queijaria à prova de ratos, a prensa dos queijos, de tudo foi ele que cuidou. O próprio Mestre Quixó me fez os móveis: minha cama, uma mesa de jantar e seis cadeiras; os baús de guardar a roupa da casa e as redes. Não sossegou enquanto não executou um baú coberto de sola, todo desenhado de taxas de latão, com minhas iniciais na tampa: M.M. E mais uma mala de pau, reforçada de ferro, para arrecadar o armamento, que já era muito. Quando me lembro que tudo começou com o bacamarte velho de Pai e a garrucha do Liberato!

Eu nunca na vida tinha encontrado quem fizesse as coisas para mim. Desde a morte da Mãe, de mim é que se esperava que fizesse tudo. Até brigar como homem. Ou fui eu mesma que escolhi assim?

Mas o que a ajuda de Duarte me deu de melhor, foi a oportunidade de realizar na prática um meu sonho, meio maluco, que dizia respeito a certa obra muito especial, dentro da casa. Tinha-se que fazer alteração nas paredes e justamente Duarte chegou quando ainda se podia mexer nas divisões de dentro, contanto que se respeitasse a cumeeira e as paredes grossas dos oitões.

Bem, era o seguinte: acontece que Pai, entre os casos da família que me contava, quando eu menina, falava muito no ‘cubico’ que existia na fazenda da avó dele. Era um quartinho disfarçado entre as paredes da salas e dos quartos, mas tudo tão bem encoberto, que o exame mais exigente não tinha como encontrar nem rastro do cômodo extra. A planta era mais ou menos assim, como estou mostrando aqui, já modificada por mim. Pai desenhou para eu ver e eu conservei o papel, junto com aqueles poucos outros guardados que pus na trouxa dos salvados do incêndio; junto com um bilhete que Mãe fez, durante uma viagem de passeio que dei com minha Madrinha. (Pouco depois dessa viagem Madrinha morreu e foi-se embora a única pessoa que tivesse alguma vez me tirado de casa.) E tinha também guardado junto um caderno onde Mãe quando moça copiava versos de modinha. E o manual que Madrinha me deu, no dia da minha primeira comunhão, lá na Vargem da Cruz.

Ah, se não fosse a Madrinha, eu também nunca que tinha feito essa comunhão, porque Mãe não se preocupou de me ensinar as rezas e me foi preciso decorar de última hora todas as orações do catecismo. Depois, Madrinha morreu e eu então esqueci tudo. Esqueci as rezas, mas não me esqueci da planta de Pai: ao contrário, olhando o risco

dele, recordava tudo. E fiz o meu cubico tão bem disfarçado que qualquer pessoa, até mesmo a mais esperta, não ia conseguir atinar com o nosso jogo das paredes. Os cantos das duas salas e os dois quartos se desencontrando, para ocultar aquele vão metido no meio.

O cubico não tinha porta nem janela, as paredes corriam lisas, como se pode ver pelo risco. Só no meu quarto se abria um alçapão com uns três palmos de alto e uns quatro de largura; e trancado com uma fechadura de segredo, de que eu trazia sempre a chave pendurada no meu cinto. Tapando o alçapão, encostamos à parede o meu baú grande, taxeado, aquele do M.M.

O chão do cubico tinha um fundo falso; quem fez todo o trabalho foi Duarte. Era cavado palmo e meio de fundura, ladrilhado, e, na altura do rés do chão, corria em cima dele um assoalho de que se podia levantar uma parte. Pois debaixo desse fundo falso eu fiz o meu cofre, onde guardava os meus ouros e o dinheiro; onde até podia guardar as escrituras da terra, quando as tivesse na mão.

Mas o verdadeiro fim do cubico não era servir de cofre; isso foi invenção minha. Ele se destinava, conforme contava Pai, a esconder algum amigo perseguido, ou a guardar em segredo um prisioneiro. Se viessem atrás de um deles, dando busca, quer os da justiça, quer os inimigos, as paredes, corridas até em cima, não deixavam adivinhar nada. Alguma traição poderia se dar, só se o preso fizesse barulho. Mas, na hora do perigo, bastava trazer ele amarrado e amordaçado, não tinha risco nenhum.

O pedreiro que fez a taipa das paredes tinha que estar no nosso segredo. Era um velho doente e Duarte trabalhava de servente dele. Os dois rebocaram e caiaram as paredes, Mestre Quixó fez o tabuado do chão, escantilhou as emendas das tábuas, que Duarte levou para armar lá dentro, encobrindo aquele espaço aberto de que eu queria fazer o meu cofre. Aproveitou para isso um dia de adjunto, quando todo o pessoal se reuniu para arrancar pedra de cal e depois queimar a cal que ainda faltava para as obras.

O pedreiro velho morreu logo no começo do outro ano e foi um alívio, embora a gente soubesse que ele não ia falar; era meio burro, nem entendeu direito o pra quê daqueles recantos. Duarte lhe disse que era pra se fazer ali um paiol de rapadura, protegido de roubos.

João Rufo, esse, sabia, e também deu adjuntório. No final acho que só nós três — Duarte, João e eu — estávamos cientes do mistério do cubico.

Mais tarde, era raro a gente usar aquele recurso. Só em caso de muita gravidade, como quando escondemos um conhecido, meio amalucado, que andou fazendo estripulia muito séria com gado alheio. Saíram três assassinos em procura dele, dizendo por toda parte que iam beber o sangue do miserável. O fugitivo, ao alcançar o meu portão, deixou o cavalo do lado de fora da cerca e veio se arrastando pelo terreiro, já ferido. Agarrou-se com meus pés, pedindo socorro pelo amor de Deus. Duarte e eu arrastamos a criatura pela sala e lhe vendamos os olhos para que não visse onde ia entrar; Duarte puxou o baú, eu tirei do cós da calça a chave do alçapão, passamos o homem pelo buraco. Nem deu tempo de trancar de novo, foi só empurrar o baú e esconder o alçapão.

Com poucos chegaram os perseguidores que tinham achado o cavalo sem cavaleiro. Eram nossos conhecidos também, e nós deixamos que entrassem, chegamos a abrir as portas, mostrando que não se tinha ninguém escondido em casa. Os homens saíram pedindo desculpa do atrevimento e eu respondi:

— Atrevimento, foi. Por esta vez se desculpa. Mas espero que não repitam!