Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 1 de 42

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Modernidade Líquida

Prefácio: Ser Leve e Líquido

PREFÁCIO

 

 

SER LEVE E LÍQUIDO

 

Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas … por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados … Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.

 

Assim, toda a questão se reduz a isto: pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?

Paul Valéry

 

“Fluidez” é a qualidade de líquidos e gases. O que os distingue dos sólidos,

como a Enciclopédia britânica, com a autoridade que tem, nos informa, é

que eles “não podem suportar uma força tangencial ou deformante quando

imóveis” e assim “sofrem uma constante mudança de forma quando

submetidos a tal tensão”.

 

Essa contínua e irrecuperável mudança de posição de uma parte do

material em relação a outra parte quando sob pressão deformante

constitui o fluxo, propriedade característica dos fluidos. Em contraste,

as forças deformantes num sólido torcido ou flexionado se mantêm, o

sólido não sofre o fluxo e pode voltar à sua forma original.

 

Os líquidos, uma variedade dos fluidos, devem essas notáveis

qualidades ao fato de que suas “moléculas são mantidas num arranjo

ordenado que atinge apenas poucos diâmetros moleculares”, enquanto “a

variedade de comportamentos exibida pelos sólidos é um resultado direto

do tipo de liga que une os seus átomos e dos arranjos estruturais destes”.

“Liga”, por sua vez, é um termo que indica a estabilidade dos sólidos — a

resistência que eles “opõem à separação dos átomos”.

Isso quanto à Enciclopédia britânica — no que parece uma tentativa de

oferecer “fluidez” como a principal metáfora para o estágio presente da era

moderna.

O que todas essas características dos fluidos mostram, em linguagem

simples, é que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua

forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem

prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas

neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo

(resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos não

se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e

propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que

o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas “por

um momento”. Em certo sentido, os sólidos suprimem o tempo; para os

líquidos, ao contrário, o tempo é o que importa. Ao descrever os sólidos,

podemos ignorar inteiramente o tempo; ao descrever os fluidos, deixar o

tempo de fora seria um grave erro. Descrições de líquidos são fotos

instantâneas, que precisam ser datadas.

Os fluidos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-

se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam”, “borrifam”,

“pingam” são “filtrados”, “destilados” diferentemente dos sólidos, não são

facilmente contidos — contornam certos obstáculos, dissolvem outros e

invadem ou inundam seu caminho. Do encontro com sólidos emergem

intactos, enquanto os sólidos que encontraram, se permanecem sólidos, são

alterados — ficam molhados ou encharcados. A extraordinária mobilidade

dos fluidos é o que os associa à idéia de “leveza”. Há líquidos que,

centímetro cúbico por centímetro cúbico, são mais pesados que muitos

sólidos, mas ainda assim tendemos a vê-los como mais leves, menos

“pesados” que qualquer sólido. Associamos “leveza” ou “ausência de peso”

à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leves

viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos.

Essas são razões para considerar “fluidez” ou “liquidez” como

metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase,

nova de muitas maneiras, na história da modernidade.

Concordo prontamente que tal proposição deve fazer vacilar quem

transita à vontade no “discurso da modernidade” e está familiarizado com o

vocabulário usado normalmente para narrar a história moderna. Mas a

modernidade não foi um processo de “liquefação” desde o começo? Não foi o “derretimento dos sólidos” seu maior passatempo e principal realização?

Em outras palavras, a modernidade não foi “fluida” desde sua concepção?

Essas e outras objeções semelhantes são justificadas, e o parecerão

ainda mais se lembrarmos que a famosa frase sobre “derreter os sólidos”,

quando cunhada há um século e meio pelos autores do Manifesto

comunista, referia-se ao tratamento que o autoconfiante e exuberante

espírito moderno dava à sociedade, que considerava estagnada demais para

seu gosto e resistente demais para mudar e amoldar-se a suas ambições —

porque congelada em seus caminhos habituais. Se o “espírito” era

“moderno”, ele o era na medida em que estava determinado que a realidade

deveria ser emancipada da “mão morta” de sua própria história — e isso só

poderia ser feito derretendo os sólidos (isto é, por definição, dissolvendo o

que quer que persistisse no tempo e fosse infenso à sua passagem ou imune

a seu fluxo). Essa intenção clamava, por sua vez, pela “profanação do

sagrado”: pelo repúdio e destronamento do passado, e, antes e acima de

tudo, da “tradição” — isto é, o sedimento ou resíduo do passado no

presente; clamava pelo esmagamento da armadura protetora forjada de

crenças e lealdades que permitiam que os sólidos resistissem à “liquefação”.

Lembremos, no entanto, que tudo isso seria feito não para acabar de

uma vez por todas com os sólidos e construir um admirável mundo novo

livre deles para sempre, mas para limpar a área para novos e aperfeiçoados

sólidos; para substituir o conjunto herdado de sólidos deficientes e

defeituosos por outro conjunto, aperfeiçoado e preferivelmente perfeito, e

por isso não mais alterável. Ao ler o Ancien Régime de Tocqueville,

podemos nos perguntar até que ponto os “sólidos encontrados” não teriam

sido desprezados, condenados e destinados à liquefação por já estarem

enferrujados, esfarelados, com as costuras abrindo; por não se poder confiar

neles. Os tempos modernos encontraram os sólidos pré-modernos em

estado avançado de desintegração; e um dos motivos mais fortes por trás da

urgência em derretê-los era o desejo de, por uma vez, descobrir ou inventar

sólidos de solidez duradoura, solidez em que se pudesse confiar e que

tornaria o mundo previsível e, portanto, administrável.

Os primeiros sólidos a derreter e os primeiros sagrados a profanar eram

as lealdades tradicionais, os direitos costumeiros e as obrigações que

atavam pés e mãos, impediam os movimentos e restringiam as iniciativas.

Para poder construir seriamente uma nova ordem (verdadeiramente sólida!)

era necessário primeiro livrar-se do entulho com que a velha ordem sobrecarregava os construtores. “Derreter os sólidos” significava, antes e

acima de tudo, eliminar as obrigações “irrelevantes” que impediam a via do

cálculo racional dos efeitos; como dizia Max Weber, libertar a empresa de

negócios dos grilhões dos deveres para com a família e o lar e da densa

trama das obrigações éticas; ou, como preferiria Thomas Carlyle, dentre os

vários laços subjacentes às responsabilidades humanas mútuas, deixar restar

somente o “nexo dinheiro”. Por isso mesmo, essa forma de “derreter os

sólidos” deixava toda a complexa rede de relações sociais no ar — nua,

desprotegida, desarmada e exposta, impotente para resistir às regras de ação

e aos critérios de racionalidade inspirados pelos negócios, quanto mais para

competir efetivamente com eles.

Esse desvio fatal deixou o campo aberto para a invasão e dominação

(como dizia Weber) da racionalidade instrumental, ou (na formulação de

Karl Marx) para o papel determinante da economia: agora a “base” da vida

social outorgava a todos os outros domínios o estatuto de “superestrutura”

— isto é, um artefato da “base”, cuja única função era auxiliar sua operação

suave e contínua. O derretimento dos sólidos levou à progressiva libertação

da economia de seus tradicionais embaraços políticos, éticos e culturais.

Sedimentou uma nova ordem, definida principalmente em termos

econômicos. Essa nova ordem deveria ser mais “sólida” que as ordens que

substituía, porque, diferentemente delas, era imune a desafios por qualquer

ação que não fosse econômica. A maioria das alavancas políticas ou morais

capazes de mudar ou reformar a nova ordem foram quebradas ou feitas

curtas ou fracas demais, ou de alguma outra forma inadequadas para a

tarefa. Não que a ordem econômica, uma vez instalada, tivesse colonizado,

reeducado e convertido a seus fins o restante da vida social; essa ordem

veio a dominar a totalidade da vida humana porque o que quer que pudesse

ter acontecido nessa vida tornou-se irrelevante e ineficaz no que diz respeito

à implacável e contínua reprodução dessa ordem.

Esse estágio na carreira da modernidade foi bem descrito por Claus Offe

(em “A utopia da opção zero”, publicado originalmente em 1987 em Praxis

international): as sociedades “complexas se tornaram rígidas a tal ponto

que a própria tentativa de refletir normativamente sobre elas ou de renovar

sua ‘ordem’, isto é, a natureza da coordenação dos processos que nelas têm

lugar, é virtualmente impedida por força de sua própria futilidade, donde

sua inadequação essencial”. Por mais livres e voláteis que sejam os

“subsistemas” dessa ordem, isoladamente ou em conjunto, o modo como são entretecidos é “rígido, fatal e desprovido de qualquer liberdade de

escolha”. A ordem das coisas como um todo não está aberta a opções; está

longe de ser claro quais poderiam ser essas opções, e ainda menos claro

como uma opção ostensivamente viável poderia ser real no caso pouco

provável de a vida social ser capaz de concebê-la e gestá-la. Entre a ordem

como um todo e cada uma das agências, veículos e estratagemas da ação

proposital há uma clivagem — uma brecha que se amplia perpetuamente,

sem ponte à vista.

Ao contrário da maioria dos cenários distópicos, este efeito não foi

alcançado via ditadura, subordinação, opressão ou escravização; nem

através da “colonização” da esfera privada pelo “sistema”. Ao contrário: a

situação presente emergiu do derretimento radical dos grilhões e das

algemas que, certo ou errado, eram suspeitos de limitar a liberdade

individual de escolher e de agir. A rigidez da ordem é o artefato e o

sedimento da liberdade dos agentes humanos. Essa rigidez é o resultado de

“soltar o freio”: da desregulamentação, da liberalização, da “flexibilização”,

da “fluidez” crescente, do descontrole dos mercados financeiro, imobiliário

e de trabalho, tornando mais leve o peso dos impostos etc. (como Offe

observou em “Amarras, algemas, grades”, publicado originalmente em

1987); ou (para citar Richard Senett em Flesh and Stone) das técnicas de

“velocidade, fuga, passividade” — em outras palavras, técnicas que

permitem que o sistema e os agentes livres se mantenham radicalmente

desengajados e que se desencontrem em vez de encontrar-se. Se o tempo

das revoluções sistêmicas passou, é porque não há edifícios que alojem as

mesas de controle do sistema, que poderiam ser atacados e capturados pelos

revolucionários; e também porque é terrivelmente difícil, para não dizer

impossível, imaginar o que os vencedores, uma vez dentro dos edifícios (se

os tivessem achado), poderiam fazer para virar a mesa e pôr fim à miséria

que os levou à rebelião. Ninguém ficaria surpreso ou intrigado pela

evidente escassez de pessoas que se disporiam a ser revolucionários: do tipo

de pessoas que articulam o desejo de mudar seus planos individuais como

projeto para mudar a ordem da sociedade.

A tarefa de construir uma ordem nova e melhor para substituir a velha

ordem defeituosa não está hoje na agenda — pelo menos não na agenda

daquele domínio em que se supõe que a ação política resida. O

“derretimento dos sólidos”, traço permanente da modernidade, adquiriu,

portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissolução

das forças que poderiam ter mantido a questão da ordem e do sistema na

agenda política. Os sólidos que estão para ser lançados no cadinho e os que

estão derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, são os

elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas —

os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida

conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de

coletividades humanas, de outro.

Numa entrevista a Jonathan Rutherford no dia três de fevereiro de 1999,

Ulrich Beck (que alguns anos antes cunhara o termo “segunda

modernidade” para conotar a fase marcada pela modernidade “voltando-se

sobre si mesma”, a era da assim chamada “modernização da modernidade”)

fala de “categorias zumbi” e “instituições zumbi”, que estão “mortas e

ainda vivas”. Ele menciona a família, a classe e o bairro como principais

exemplos do novo fenômeno. A família, por exemplo:

 

Pergunte-se o que é realmente uma família hoje em dia? O que

significa? É claro que há crianças, meus filhos, nossos filhos. Mas,

mesmo a paternidade e a maternidade, o núcleo da vida familiar, estão

começando a se desintegrar no divórcio … Avós e avôs são incluídos e

excluídos sem meios de participar nas decisões de seus filhos e filhas.

Do ponto de vista de seus netos, o significado das avós e dos avôs tem

que ser determinado por decisões e escolhas individuais.

 

O que está acontecendo hoje é, por assim dizer, uma redistribuição e

realocação dos “poderes de derretimento” da modernidade. Primeiro, eles

afetaram as instituições existentes, as molduras que circunscreviam o

domínio das ações-escolhas possíveis, como os estamentos hereditários com

sua alocação por atribuição, sem chance de apelação. Configurações,

constelações, padrões de dependência e interação, tudo isso foi posto a

derreter no cadinho, para ser depois novamente moldado e refeito; essa foi a

fase de “quebrar a forma” na história da modernidade inerentemente

transgressiva, rompedora de fronteiras e capaz de tudo desmoronar. Quanto

aos indivíduos, porém — eles podem ser desculpados por ter deixado de

notá-lo; passaram a ser confrontados por padrões e figurações que, ainda

que “novas e aperfeiçoadas”, eram tão duras e indomáveis como sempre.

Na verdade, nenhum molde foi quebrado sem que fosse substituído por

outro; as pessoas foram libertadas de suas velhas gaiolas apenas para ser

admoestadas e censuradas caso não conseguissem se realocar, através de

seus próprios esforços dedicados, contínuos e verdadeiramente infindáveis,

nos nichos pré-fabricados da nova ordem: nas classes, as molduras que (tão

intransigentemente como os estamentos já dissolvidos) encapsulavam a

totalidade das condições e perspectivas de vida e determinavam o âmbito

dos projetos e estratégias realistas de vida. A tarefa dos indivíduos livres era

usar sua nova liberdade para encontrar o nicho apropriado e ali se acomodar

e adaptar: seguindo fielmente as regras e modos de conduta identificados

como corretos e apropriados para aquele lugar.

São esses padrões, códigos e regras a que podíamos nos conformar, que

podíamos selecionar como pontos estáveis de orientação e pelos quais

podíamos nos deixar depois guiar, que estão cada vez mais em falta. Isso

não quer dizer que nossos contemporâneos sejam guiados tão somente por

sua própria imaginação e resolução e sejam livres para construir seu modo

de vida a partir do zero e segundo sua vontade, ou que não sejam mais

dependentes da sociedade para obter as plantas e os materiais de

construção. Mas quer dizer que estamos passando de uma era de “grupos de

referência” predeterminados a uma outra de “comparação universal”, em

que o destino dos trabalhos de autoconstrução individual está endêmica e

incuravelmente subdeterminado, não está dado de antemão, e tende a sofrer

numerosas e profundas mudanças antes que esses trabalhos alcancem seu

único fim genuíno: o fim da vida do indivíduo.

Hoje, os padrões e configurações não são mais “dados”, e menos ainda

“auto-evidentes” eles são muitos, chocando-se entre si e contradizendo-se

em seus comandos conflitantes, de tal forma que todos e cada um foram

desprovidos de boa parte de seus poderes de coercitivamente compelir e

restringir. E eles mudaram de natureza e foram reclassificados de acordo:

como itens no inventário das tarefas individuais. Em vez de preceder a

política-vida e emoldurar seu curso futuro, eles devem segui-la (derivar

dela), para serem formados e reformados por suas flexões e torções. Os

poderes que liquefazem passaram do “sistema” para a “sociedade”, da

“política” para as “políticas da vida” — ou desceram do nível “macro” para

o nível “micro” do convívio social.

A nossa é, como resultado, uma versão individualizada e privatizada da

modernidade, e o peso da trama dos padrões e a responsabilidade pelo fracasso caem principalmente sobre os ombros dos indivíduos. Chegou a

vez da liquefação dos padrões de dependência e interação. Eles são agora

maleáveis a um ponto que as gerações passadas não experimentaram e nem

poderiam imaginar; mas, como todos os fluidos, eles não mantêm a forma

por muito tempo. Dar-lhes forma é mais fácil que mantê-los nela. Os

sólidos são moldados para sempre. Manter os fluidos em uma forma requer

muita atenção, vigilância constante e esforço perpétuo — e mesmo assim o

sucesso do esforço é tudo menos inevitável.

Seria imprudente negar, ou mesmo subestimar, a profunda mudança que

o advento da “modernidade fluida” produziu na condição humana. O fato

de que a estrutura sistêmica seja remota e inalcançável, aliado ao estado

fluido e não-estruturado do cenário imediato da política-vida, muda aquela

condição de um modo radical e requer que repensemos os velhos conceitos

que costumavam cercar suas narrativas. Como zumbis, esses conceitos são

hoje mortos-vivos. A questão prática consiste em saber se sua ressurreição,

ainda que em nova forma ou encarnação, é possível; ou — se não for —

como fazer com que eles tenham um enterro decente e eficaz.

Este livro se dedica a essa questão. Foram selecionados para exame

cinco dos conceitos básicos em torno dos quais as narrativas ortodoxas da

condição humana tendem a se desenvolver: a emancipação, a

individualidade, o tempo/espaço, o trabalho e a comunidade.

Transformações sucessivas de seus significados e aplicações práticas são

exploradas (ainda que de maneira muito fragmentária e preliminar) com a

esperança de salvar os bebês do banho desta torrente de água poluída.

A modernidade significa muitas coisas, e sua chegada e avanço podem

ser aferidos utilizando-se muitos marcadores diferentes. Uma característica

da vida moderna e de seu moderno entorno se impõe, no entanto, talvez

como a “diferença que faz a diferença” como o atributo crucial que todas as

demais características seguem. Esse atributo é a relação cambiante entre

espaço e tempo.

A modernidade começa quando o espaço e o tempo são separados da

prática da vida e entre si, e assim podem ser teorizados como categorias

distintas e mutuamente independentes da estratégia e da ação; quando

deixam de ser, como eram ao longo dos séculos pré-modernos, aspectos

entrelaçados e dificilmente distinguíveis da experiência vivida, presos numa

estável e aparentemente invulnerável correspondência biunívoca. Na

modernidade, o tempo tem história, tem história por causa de sua “capacidade de carga”, perpetuamente em expansão — o alongamento dos

trechos do espaço que unidades de tempo permitem “passar”, “atravessar”,

“cobrir” — ou conquistar. O tempo adquire história uma vez que a

velocidade do movimento através do espaço (diferentemente do espaço

eminentemente inflexível, que não pode ser esticado e que não encolhe) se

torna uma questão do engenho, da imaginação e da capacidade humanas.

A própria idéia de velocidade (e mais ainda a de aceleração), quando se

refere à relação entre tempo e espaço, supõe sua variabilidade, e

dificilmente teria qualquer significado se não fosse aquela uma relação

verdadeiramente variável, se fosse um atributo da realidade inumana e pré-

humana e não uma questão de inventividade e resolução humanas, e se não

se lançasse para muito além da estreita gama de variações a que as

ferramentas naturais da mobilidade — as pernas humanas ou eqüinas —

costumavam confinar os movimentos dos corpos pré-modernos. Quando a

distância percorrida numa unidade de tempo passou a depender da

tecnologia, de meios artificiais de transporte, todos os limites à velocidade

do movimento, existentes ou herdados, poderiam, em princípio, ser

transgredidos. Apenas o céu (ou, como acabou sendo depois, a velocidade

da luz) era agora o limite, e a modernidade era um esforço contínuo, rápido

e irrefreável para alcançá-lo.

Graças a sua flexibilidade e expansividade recentemente adquiridas, o

tempo moderno se tornou, antes e acima de tudo, a arma na conquista do

espaço. Na moderna luta entre tempo e espaço, o espaço era o lado sólido e

impassível, pesado e inerte, capaz apenas de uma guerra defensiva, de

trincheiras — um obstáculo aos avanços do tempo. O tempo era o lado

dinâmico e ativo na batalha, o lado sempre na ofensiva: a força invasora,

conquistadora e colonizadora. A velocidade do movimento e o acesso a

meios mais rápidos de mobilidade chegaram nos tempos modernos à

posição de principal ferramenta do poder e da dominação.

Michel Foucault utilizou o projeto do Panóptico de Jeremy Bentham

como arquimetáfora do poder moderno. No Panóptico, os internos estavam

presos ao lugar e impedidos de qualquer movimento, confinados entre

muros grossos, densos e bem-guardados, e fixados a suas camas, celas ou

bancadas. Eles não podiam se mover porque estavam sob vigilância; tinham

que se ater aos lugares indicados sempre porque não sabiam, e nem tinham

como saber, onde estavam no momento seus vigias, livres para mover-se à

vontade. As instalações e a facilidade de movimento dos vigias eram a garantia de sua dominação; dos múltiplos laços de sua subordinação, a

“fixação” dos internos ao lugar era o mais seguro e difícil de romper. O

domínio do tempo era o segredo do poder dos administradores — e

imobilizar os subordinados no espaço, negando-lhes o direito ao movimento

e rotinizando o ritmo a que deviam obedecer era a principal estratégia em

seu exercício do poder. A pirâmide do poder era feita de velocidade, de

acesso aos meios de transporte e da resultante liberdade de movimento.

O Panóptico era um modelo de engajamento e confrontação mútuos

entre os dois lados da relação de poder. As estratégias dos administradores,

mantendo sua própria volatilidade e rotinizando o fluxo do tempo de seus

subordinados, se tornavam uma só. Mas havia tensão entre as duas tarefas.

A segunda tarefa punha limites à primeira — prendia os “rotinizadores” ao

lugar dentro do qual os objetos da rotinização do tempo estavam

confinados. Os rotinizadores não eram verdadeira e inteiramente livres para

se mover: a opção “ausente” estava fora de questão em termos práticos.

O Panóptico apresenta também outras desvantagens. É uma estratégia

cara: a conquista do espaço e sua manutenção, assim como a manutenção

dos internos no espaço vigiado, abarcava ampla gama de tarefas

administrativas custosas e complicadas. Havia os edifícios a erigir e manter

em bom estado, os vigias profissionais a contratar e remunerar, a

sobrevivência e capacidade de trabalho dos internos a ser preservada e

cultivada. Finalmente, administrar significa, ainda que a contragosto,

responsabilizar-se pelo bem-estar geral do lugar, mesmo que em nome de

um interesse pessoal consciente — e a responsabilidade, outra vez, significa

estar preso ao lugar. Ela requer presença, e engajamento, pelo menos como

uma confrontação e um cabo-de-guerra permanentes.

O que leva tantos a falar do “fim da história”, da pós-modernidade, da

“segunda modernidade” e da “sobremodernidade”, ou a articular a intuição

de uma mudança radical no arranjo do convívio humano e nas condições

sociais sob as quais a política-vida é hoje levada, é o fato de que o longo

esforço para acelerar a velocidade do movimento chegou a seu “limite

natural”. O poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico — e

assim o tempo requerido para o movimento de seus ingredientes essenciais

se reduziu à instantaneidade. Em termos práticos, o poder se tornou

verdadeiramente extraterritorial, não mais limitado, nem mesmo

desacelerado, pela resistência do espaço (o advento do telefone celular

serve bem como “golpe de misericórdia” simbólico na dependência em relação ao espaço: o próprio acesso a um ponto telefônico não é mais

necessário para que uma ordem seja dada e cumprida. Não importa mais

onde está quem dá a ordem — a diferença entre “próximo” e “distante”, ou

entre o espaço selvagem e o civilizado e ordenado, está a ponto de

desaparecer). Isso dá aos detentores do poder uma oportunidade

verdadeiramente sem precedentes: eles podem se livrar dos aspectos

irritantes e atrasados da técnica de poder do Panóptico. O que quer que a

história da modernidade seja no estágio presente, ela é também, e talvez

acima de tudo, pós-Panóptica. O que importava no Panóptico era que os

encarregados “estivessem lá”, próximos, na torre de controle. O que

importa, nas relações de poder pós-panópticas é que as pessoas que operam

as alavancas do poder de que depende o destino dos parceiros menos

voláteis na relação podem fugir do alcance a qualquer momento — para a

pura inacessibilidade.

O fim do Panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo:

entre supervisores e supervisados, capital e trabalho, líderes e seguidores,

exércitos em guerra. As principais técnicas do poder são agora a fuga, a

astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento

territorial, com os complicados corolários de construção e manutenção da

ordem, e com a responsabilidade pelas conseqüências de tudo, bem como

com a necessidade de arcar com os custos.

Essa nova técnica do poder foi vividamente ilustrada pelas estratégias

desenvolvidas pelos atacantes nas guerras do Golfo e da Iugoslávia. A

relutância em utilizar forças terrestres na guerra foi impressionante;

quaisquer que tenham sido as explicações oficiais, essa relutância foi ditada

não apenas pela amplamente referida síndrome dos “cadáveres ensacados”.

O engajamento num combate terrestre foi evitado não só por seus possíveis

efeitos adversos na política interna, mas também (talvez principalmente)

por sua total inutilidade e mesmo contra-produtividade em relação aos

objetivos da guerra. Afinal, a conquista do território com todas suas

conseqüências administrativas e gerenciais não só estava ausente da lista de

objetivos das ações de guerra, como era uma eventualidade a ser evitada a

todo custo, vista com repugnância como outro tipo de “prejuízo colateral”,

desta vez infligido à própria força atacante.

Golpes desferidos por bombardeiros furtivos e “espertos” mísseis

autodirigidos capazes de seguir seus alvos — lançados de surpresa, vindos

do nada e desaparecendo imediatamente de vista — substituíram os avanços territoriais das tropas de infantaria e o esforço para expulsar o inimigo de

seu território — o esforço de ocupar o território possuído, controlado e

administrado pelo inimigo. Os atacantes definitivamente não queriam mais

ser “os últimos no campo de batalha” depois da fuga ou retirada do inimigo.

A força militar e seu plano de guerra de “atingir e correr” prefigura,

incorpora e pressagia o que de fato está em jogo no novo tipo de guerra na

era da modernidade líquida: não a conquista de novo território, mas a

destruição das muralhas que impediam o fluxo dos novos e fluidos poderes

globais; expulsar da cabeça do inimigo o desejo de formular suas próprias

regras, abrindo assim o até então inacessível, defendido e protegido espaço

para a operação dos outros ramos, não-militares, do poder. A guerra hoje,

pode-se dizer (parafraseando a famosa fórmula de Clausewitz), parece cada

vez mais uma “promoção do livre comércio por outros meios”.

Jim MacLaughlin nos lembrou recentemente (em Sociology 1/99) de

que o advento da era moderna significou, entre outras coisas, o ataque

consistente e sistemático dos “assentados”, convertidos ao modo sedentário

de vida, contra os povos e o estilo de vida nômades, completamente alheios

às preocupações territoriais e de fronteiras do emergente Estado moderno.

Ibn Khaldoun, no século XIV, podia elogiar o nomadismo, que faz com que

os nômades “sejam melhores que os povos assentados porque … estão mais

afastados de todos os maus hábitos que infectaram o coração dos

assentados” — mas a febre de construção de nações e Estados-nação que

logo em seguida começou a sério por toda a Europa colocou o “solo”

firmemente acima do “sangue” ao lançar as fundações da nova ordem

legislada e ao codificar os direitos e deveres dos cidadãos. Os nômades, que

faziam pouco das preocupações territoriais dos legisladores e

ostensivamente desrespeitavam seus zelosos esforços em traçar fronteiras,

foram colocados entre os principais vilões na guerra santa travada em nome

do progresso e da civilização. A “cronopolítica” moderna os situa não

apenas como seres inferiores e primitivos, “subdesenvolvidos” e

necessitados de profunda reforma e esclarecimento, mas também como

atrasados e “aquém dos tempos”, vítimas da “defasagem cultural”,

arrastando-se nos degraus mais baixos da escala evolutiva, e

imperdoavelmente lentos ou morbidamente relutantes em subir nela, para

seguir o “padrão universal de desenvolvimento”.

Ao longo do estágio sólido da era moderna, os hábitos nômades foram

mal vistos. A cidadania andava de mãos dadas com o assentamento, e a falta de “endereço fixo” e de “estado de origem” significava exclusão da

comunidade obediente e protegida pelas leis, freqüentemente tornando os

nômades vítimas de discriminação legal, quando não de perseguição ativa.

Embora isso ainda se aplique à “subclasse” andarilha e “sem-teto”, sujeita

às antigas técnicas de controle panóptico (técnicas quase abandonadas como

veículo principal para integração e disciplina do grosso da população), a era

da superioridade incondicional do sedentarismo sobre o nomadismo e da

dominação dos assentados sobre os nômades está chegando ao fim. Estamos

testemunhando a vingança do nomadismo contra o princípio da

territorialidade e do assentamento. No estágio fluido da modernidade, a

maioria assentada é dominada pela elite nômade e extraterritorial. Manter as

estradas abertas para o tráfego nômade e tornar mais distantes as barreiras

remanescentes tornou-se hoje o meta-propósito da política, e também das

guerras, que, como Clausewitz originalmente declarou, não são mais que “a

extensão da política por outros meios”.

A elite global contemporânea é formada no padrão do velho estilo dos

“senhores ausentes”. Ela pode dominar sem se ocupar com a administração,

gerenciamento, bem-estar, ou, ainda, com a missão de “levar a luz”,

“reformar os modos”, elevar moralmente, “civilizar” e com cruzadas

culturais. O engajamento ativo na vida das populações subordinadas não é

mais necessário (ao contrário, é fortemente evitado como

desnecessariamente custoso e ineficaz) — e, portanto, o “maior” não só não

é mais o “melhor”, mas carece de significado racional. Agora é o menor,

mais leve e mais portátil que significa melhoria e “progresso”. Mover-se

leve, e não mais aferrar-se a coisas vistas como atraentes por sua

confiabilidade e solidez — isto é, por seu peso, substancialidade e

capacidade de resistência — é hoje recurso de poder.

Fixar-se ao solo não é tão importante se o solo pode ser alcançado e

abandonado à vontade, imediatamente ou em pouquíssimo tempo. Por outro

lado, fixar-se muito fortemente, sobrecarregando os laços com

compromissos mutuamente vinculantes, pode ser positivamente prejudicial,

dadas as novas oportunidades que surgem em outros lugares. Rockefeller

pode ter desejado construir suas fábricas, estradas de ferro e torres de

petróleo altas e volumosas e ser dono delas por um longo tempo (pela

eternidade, se medirmos o tempo pela duração da própria vida ou pela da

família). Bill Gates, no entanto, não sente remorsos quando abandona

posses de que se orgulhava ontem; é a velocidade atordoante da circulação, da reciclagem, do envelhecimento, do entulho e da substituição que traz

lucro hoje — não a durabilidade e confiabilidade do produto. Numa notável

reversão da tradição milenar, são os grandes e poderosos que evitam o

durável e desejam o transitório, enquanto os da base da pirâmide — contra

todas as chances — lutam desesperadamente para fazer suas frágeis,

mesquinhas e transitórias posses durarem mais tempo. Os dois se encontram

hoje em dia principalmente nos lados opostos dos balcões das mega-

liquidações ou de vendas de carros usados.

 

A desintegração da rede social, a derrocada das agências efetivas de ação

coletiva, é recebida muitas vezes com grande ansiedade e lamentada como

“efeito colateral” não previsto da nova leveza e fluidez do poder cada vez

mais móvel, escorregadio, evasivo e fugitivo. Mas a desintegração social é

tanto uma condição quanto um resultado da nova técnica do poder, que tem

como ferramentas principais o desengajamento e a arte da fuga. Para que o

poder tenha liberdade de fluir, o mundo deve estar livre de cercas, barreiras,

fronteiras fortificadas e barricadas. Qualquer rede densa de laços sociais, e

em particular uma que esteja territorialmente enraizada, é um obstáculo a

ser eliminado. Os poderes globais se inclinam a desmantelar tais redes em

proveito de sua contínua e crescente fluidez, principal fonte de sua força e

garantia de sua invencibilidade. E são esse derrocar, a fragilidade, o

quebradiço, o imediato dos laços e redes humanos que permitem que esses

poderes operem.

Se essas tendências entrelaçadas se desenvolvessem sem freios, homens

e mulheres seriam reformulados no padrão da toupeira eletrônica, essa

orgulhosa invenção dos tempos pioneiros da cibernética imediatamente

aclamada como arauto do porvir: um plugue em castores atarantados na

desesperada busca de tomadas a que se ligar. Mas no futuro anunciado pelos

telefones celulares, as tomadas serão provavelmente declaradas obsoletas e

de mau gosto, e passarão a ser fornecidas em quantidades cada vez menores

e com qualidade cada vez mais duvidosa. No momento, muitos

fornecedores de eletricidade exaltam as vantagens da conexão a suas

respectivas redes e disputam os favores dos que procuram por tomadas.

Mas a longo prazo (o que quer que “longo prazo” signifique na era da

instantaneidade) as tomadas serão provavelmente banidas e suplantadas por

baterias descartáveis compradas individualmente nas lojas e em oferta em

cada quiosque de aeroporto e posto de gasolina ao longo das estradas.

Essa parece ser a distopia feita sob medida para a modernidade líquida

— e capaz de substituir os terrores dos pesadelos de Orwell e Huxley.

 

Junho de 1999

 

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