Modernidade Líquida
Progresso e fé na história
deixá-la fora das contas.
Progresso e fé na história
Esta é a questão: o “progresso” não representa qualquer qualidade da
história, mas a autoconfiança do presente. O sentido mais profundo, talvez
único, do progresso é feito de duas crenças inter-relacionadas — de que “o
tempo está do nosso lado”, e de que “somos nós que fazemos acontecer”.
As duas crenças vivem juntas e morrem juntas — e continuarão a viver
enquanto o poder de fazer com que as coisas aconteçam encontrar sua
corroboração diária nos feitos das pessoas que as professam. Como diz
Alain Peyrefitte, “o único recurso capaz de transformar um deserto na terra
de Canaã é a confiança mútua das pessoas, e a crença de todos no futuro
que compartilharão”.3 Tudo o mais que possamos querer dizer ou ouvir
sobre a “essência” da idéia de progresso é um esforço compreensível, ainda
que fútil e equivocado, de “ontologizar” aquele sentimento de fé e
autoconfiança.
A história é uma marcha em direção a uma vida melhor e de mais
felicidade? Se isso fosse verdade, como o saberíamos? Nós, que o dizemos,
não vivemos no passado; os que viveram no passado não vivem hoje.
Quem, então, fará a comparação? Quer fujamos para o futuro (como o Anjo
da História de Benjamin/Klee), repelidos e empurrados pelos horrores do
passado, quer nos apressemos em direção a ele (como a mais sanguínea que
dramática versão whig da história gostaria que acreditássemos), atraídos e
puxados pela esperança de que “nossos negócios prosperarão”, a única
“evidência” que temos é o jogo da memória e da imaginação, e o que as liga
ou as separa é nossa autoconfiança ou sua ausência. Para as pessoas que
confiam em seu poder de mudar as coisas, o “progresso” é um axioma. Para
as que sentem que as coisas lhes escapam das mãos, a idéia de progresso
não ocorre, e seria risível se ouvida. Entre as duas condições polares, há
pouco espaço para um debate sine ira et studio, para não falar de consenso.
Henry Ford talvez aplicasse ao progresso uma opinião semelhante à que
expressou sobre o exercício: “Exercício é bobagem. Se você for saudável,
não precisa dele; se for doente, não o fará.”
Mas se a autoconfiança — o sentimento tranqüilizador de que se está
“firme no presente” — é o único fundamento em que a fé no progresso se
apóia, então não surpreende que em nossos tempos a fé seja oscilante e
fraca. E as razões por que isso se dá não são difíceis de encontrar.
Primeiro, a notável ausência de uma agência capaz de “mover o mundo
para frente”. A mais pungente e menos respondível das questões dos nossos
tempos de modernidade líquida não é “o que fazer?” (para tornar o mundo
melhor ou mais feliz), mas “quem vai fazê-lo?” Kenneth Jowitt4 anunciou o
colapso do “discurso de Joshua”, que até recentemente costumava dar
forma a nosso pensamento sobre o mundo e suas perspectivas, e que
considerava o mundo como “centralmente organizado, rigidamente cercado
e histericamente preocupado com fronteiras impenetráveis”. Num tal
mundo, as dúvidas sobre a agência dificilmente surgiriam: afinal, o mundo
do “discurso de Joshua” era pouco mais que uma conjunção entre uma
agência poderosa e os resíduos/efeitos de suas ações. Essa imagem tinha um
fundamento epistemológico sólido que compreendia entidades tão sólidas,
inabaláveis e irredutíveis como a fábrica fordista e os Estados soberanos
(soberanos se não na realidade, pelo menos em sua ambição e
determinação) capazes de projetar e de administrar a ordem.
Esse fundamento da fé no progresso é hoje visível principalmente por
suas rachaduras e fissuras. Os mais sólidos e menos questionáveis de seus
elementos estão perdendo seu caráter compacto junto com sua soberania,
credibilidade e confiabilidade. A fadiga do Estado moderno é talvez sentida
de modo mais agudo, pois significa que o poder de estimular as pessoas ao
trabalho — o poder de fazer coisas — é tirado da política, que costumava
decidir que tipos de coisas deveriam ser feitas e quem as deveria fazer.
Embora todas as agências da vida política permaneçam onde a
“modernidade líquida” as encontrou, presas como antes a suas respectivas
localidades, o poder flui bem além de seu alcance. A nossa experiência é
semelhante à dos passageiros que descobrem, bem alto no céu, que a cabine
do piloto está vazia. Para citar Guy Debord, “o centro de controle tornou-se
oculto: nunca mais será ocupado por um líder conhecido ou por uma
ideologia clara”.5
Segundo, fica cada vez menos claro o que a agência — qualquer
agência — deveria fazer para aperfeiçoar o mundo, no improvável caso de
que tenha força para tanto. As imagens de uma sociedade feliz pintadas em
muitas cores e por muitos pincéis no curso dos dois últimos séculos provaram-se sonhos inatingíveis ou (naqueles casos em que sua chegada foi
anunciada) impossíveis de viver. Cada forma de projeto social mostrou-se
capaz de produzir tanto tristeza quanto felicidade, senão mais. Isso se aplica
em igual medida aos dois principais antagonistas — o hoje falido marxismo
e o hoje esperançoso liberalismo econômico. (Como Peter Drucker,
reconhecidamente defensor do Estado liberal, observou em 1989, “também
o laissez faire prometia a ‘salvação pela sociedade’: remover todos os
obstáculos à busca do ganho individual produziria ao final uma sociedade
perfeita, ou pelo menos a melhor possível” — e por essa razão sua bravata
não pode ser levada a sério.) Quanto aos outros competidores, a questão
colocada por François Lyotard, “que tipo de pensamento seria capaz de
superar Auschwitz num processo geral em direção à emancipação
universal”, continua sem resposta, e assim permanecerá. Já passou o auge
do discurso de Joshua: todas as visões já pintadas de um mundo feito sob
medida parecem não-palatáveis, e as que ainda não foram pintadas são
suspeitas a priori. Viajamos agora sem uma idéia de destino que nos guie,
não procuramos uma boa sociedade nem estamos muito certos sobre o que,
na sociedade em que vivemos, nos faz inquietos e prontos para correr. O
veredicto de Peter Drucker — “não mais salvação pela sociedade … Quem
quer que hoje proclame a ‘Grande Sociedade’, como Lyndon Baines
Johnson fez apenas 20 anos atrás, deveria ser posto para fora da sala sob
gargalhadas”6 — captou sem erro o espírito do tempo.
O encantamento moderno com o progresso — com a vida que pode ser
“trabalhada” para ser mais satisfatória do que é, e destinada a ser assim
aperfeiçoada — ainda não terminou, e não é provável que termine tão cedo.
A modernidade não conhece outra vida senão a vida “feita”: a vida dos
homens e mulheres modernos é uma tarefa, não algo determinado, e uma
tarefa ainda incompleta, que clama incessantemente por cuidados e novos
esforços. Quando nada, a condição humana no estágio da modernidade
“fluida” ou do capitalismo “leve” tornou essa modalidade de vida ainda
mais visível: o progresso não é mais uma medida temporária, uma questão
transitória, que leva eventualmente (e logo) a um estado de perfeição (isto
é, um estado em que o que quer que devesse ser feito terá sido feito e não
será necessária qualquer mudança adicional), mas um desafio e uma
necessidade perpétua e talvez sem fim, o verdadeiro significado de
“permanecer vivo e bem”.
Se, no entanto, a idéia de progresso em sua encarnação presente parece
tão pouco familiar que chegamos a nos perguntar se ainda a mantemos, é
porque o progresso, como tantos outros parâmetros da vida moderna, está
agora “individualizado” mais precisamente — desregulado e privatizado.
Está agora desregulado — porque as ofertas de “elevar de nível” as
realidades presentes são muitas e diversas e porque a questão “uma
novidade particular significa de fato um aperfeiçoamento?” foi deixada à
livre competição antes e depois de sua introdução, e permanecerá em
disputa mesmo depois de feita a escolha. E está privatizada porque a
questão do aperfeiçoamento não é mais um empreendimento coletivo, mas
individual; são os homens e mulheres individuais que a suas próprias custas
deverão usar, individualmente, seu próprio juízo, recursos e indústria para
elevar-se a uma condição mais satisfatória e deixar para trás qualquer
aspecto de sua condição presente de que se ressintam. Como disse Ulrich
Beck em sua advertência sobre a Risikogesellschaft,
a tendência é o surgimento de formas e condições de existência
individualizadas, que compelem as pessoas — para sua própria
sobrevivência material — a se tornarem o centro de seu próprio
planejamento e condução da vida … De fato, é preciso escolher e
mudar a própria identidade social, e assumir os riscos de fazê-lo … O
próprio indivíduo se torna a unidade de reprodução do social no
mundo da vida.7
A questão da exeqüibilidade do progresso, seja ela vista como destino
da espécie ou tarefa do indivíduo, permanece como estava antes que se
instalassem a desregulação e a privatização — e exatamente como
articulada por Pierre Bourdieu: para projetar o futuro, é preciso estar
firmemente plantado no presente. A única novidade aqui é que o que
importa é a ancoragem do indivíduo em seu próprio presente. E para muitos
dos contemporâneos, talvez a maioria, sua ancoragem no presente é, na
melhor das hipóteses, instável, e muitas vezes prima pela ausência.
Vivemos num mundo de flexibilidade universal, sob condições de
Unsicherheit aguda e sem perspectivas, que penetra todos os aspectos da
vida individual — tanto as fontes da sobrevivência quanto as parcerias do
amor e do interesse comum, os parâmetros da identidade profissional e da
cultural, os modos de apresentação do eu em público e os padrões de saúde e aptidão, valores a serem perseguidos e o modo de persegui-los. São
poucos os portos seguros da fé, que se situam a grandes intervalos, e a
maior parte do tempo a fé flutua sem âncora, buscando em vão enseadas
protegidas das tempestades. Todos aprendemos às nossas próprias custas
que mesmo os planos mais cuidadosos e elaborados têm a desagradável
tendência de frustrar-se e produzir resultados muito distantes do esperado;
que nossos ingentes esforços de “pôr ordem nas coisas” freqüentemente
resultam em mais caos, desordem e confusão; e que nosso trabalho para
eliminar o acidente e a contingência é pouco mais que um jogo de azar.
Fiel a seus hábitos, a ciência prontamente seguiu a sugestão da nova
experiência histórica e refletiu o espírito emergente na proliferação de
teorias científicas do caos e da catástrofe. Outrora movida pela crença de
que “Deus não joga dados”, de que o universo é essencialmente
determinístico e de que a tarefa humana é fazer um inventário completo de
suas leis, de modo que se pare de tatear no escuro e que a ação humana seja
acertada e precisa, a ciência contemporânea voltou-se para o
reconhecimento da natureza endemicamente indeterminística do mundo, do
enorme papel desempenhado pelo azar, e para a excepcionalidade, não a
normalidade, da ordem e do equilíbrio. Também fiéis a seus hábitos, os
cientistas trazem as notícias cientificamente processadas de volta ao
domínio onde pela primeira vez as intuíram: para o mundo das questões
humanas e da ação humana. E assim lemos, por exemplo, na popular e
influente apresentação que David Ruelle faz da filosofia inspirada pela
ciência contemporânea, que “a ordem determinística cria uma desordem do
azar”:
Tratados de economia … dão a impressão de que o papel dos
legisladores e membros responsáveis do governo é encontrar e
implementar um equilíbrio particularmente favorável para a
comunidade. Exemplos do caos na física nos ensinam, contudo, que,
em vez de levarem a um equilíbrio, certas situações dinâmicas ativam
desenvolvimentos temporariamente caóticos e imprevisíveis. Os
legisladores e governantes responsáveis devem, portanto, considerar a
possibilidade de que suas decisões, que buscam produzir um equilíbrio
melhor, poderão produzir em vez disso oscilações violentas e
imprevistas, com efeitos possivelmente desastrosos.8
Quaisquer que tenham sido as virtudes que fizeram o trabalho ser
elevado ao posto de principal valor dos tempos modernos, sua maravilhosa,
quase mágica, capacidade de dar forma ao informe e duração ao transitório
certamente está entre elas. Graças a essa capacidade, foi atribuído ao
trabalho um papel principal, mesmo decisivo, na moderna ambição de
submeter, encilhar e colonizar o futuro, a fim de substituir o caos pela
ordem e a contingência pela previsível (e portanto controlável) seqüência
dos eventos. Ao trabalho foram atribuídas muitas virtudes e efeitos
benéficos, como, por exemplo, o aumento da riqueza e a eliminação da
miséria; mas subjacente a todos os méritos atribuídos estava sua suposta
contribuição para o estabelecimento da ordem, para o ato histórico de
colocar a espécie humana no comando de seu próprio destino.
O “trabalho” assim compreendido era a atividade em que se supunha
que a humanidade como um todo estava envolvida por seu destino e
natureza, e não por escolha, ao fazer história. E o “trabalho” assim definido
era um esforço coletivo de que cada membro da espécie humana tinha que
participar. O resto não passava de conseqüência: colocar o trabalho como
“condição natural” dos seres humanos, e estar sem trabalho como
anormalidade; denunciar o afastamento dessa condição natural como causa
da pobreza e da miséria, da privação e da depravação; ordenar homens e
mulheres de acordo com o suposto valor da contribuição de seu trabalho ao
empreendimento da espécie como um todo; e atribuir ao trabalho o primeiro
lugar entre as atividades humanas, por levar ao aperfeiçoamento moral e à
elevação geral dos padrões éticos da sociedade.
Quando a Unsicherheit se torna permanente e é vista como tal, o estar-
no-mundo é sentido menos como uma cadeia de ações legal, obediente,
lógica, consistente e cumulativa, e mais como um jogo, em que o “mundo lá
fora” é um dos jogadores e se comporta como todos os jogadores, mantendo
as cartas fechadas junto ao peito. Como em qualquer outro jogo, os planos
para o futuro tendem a se tornar transitórios e inconstantes, não passando de
uns poucos movimentos à frente.
Como um estado de perfeição última não está para aparecer no
horizonte dos esforços humanos, e como a fé na eficácia a toda prova de
qualquer esforço não existe, não faz muito sentido a idéia de uma ordem
“total” a ser erigida andar por andar num esforço controlado, consistente e
proposital. Quanto menor é a firmeza no presente, tanto menos o “futuro”
pode ser integrado no projeto. Lapsos de tempo rotulados de “futuro” encurtam, e a duração da vida como um todo é fatiada em episódios
considerados “um de cada vez”. A continuidade não é mais marca de
aperfeiçoamento. A natureza outrora cumulativa e de longo prazo do
progresso está cedendo lugar a demandas dirigidas a cada episódio em
separado: o mérito de cada episódio deve ser revelado e consumido
inteiramente antes mesmo que ele termine e que o próximo comece. Numa
vida guiada pelo preceito da flexibilidade, as estratégias e planos de vida só
podem ser de curto prazo.
Jacques Attali sugeriu recentemente que é a imagem do labirinto que
hoje domina, ainda que sub-repticiamente, nossas idéias sobre o futuro e
nossa própria participação nele; essa imagem se torna o principal espelho
em que nossa civilização se contempla, no presente estágio. O labirinto
como alegoria da condição humana foi a mensagem transmitida pelos
nômades aos sedentários. Os milênios passaram, e os sedentários ganharam
a autoconfiança e a coragem para enfrentar o desafio do destino labiríntico.
“Em todas as línguas européias”, observa Attali, “a palavra labirinto passa a
ser sinônimo de complexidade artificial, escuridão inútil, sistema tortuoso,
selva impenetrável. Clareza se torna sinônimo de lógica.”
Os sedentários se dedicaram a tornar transparentes as paredes, endireitar
e sinalizar as passagens tortuosas, iluminar os corredores. Também
produziram guias e instruções claras e não-ambíguas para uso dos futuros
passantes, indicando que rumo tomar e evitar nas encruzilhadas. Fizeram
tudo isso para descobrir no final que o labirinto está firme em seu lugar;
talvez tenha se tornado ainda mais traiçoeiro e confuso devido ao ilegível
emaranhado de pegadas que se cruzam, à cacofonia de comandos e à
contínua adição de novas passagens tortuosas, novas vias sem saída, às que
foram deixadas para trás. Os sedentários se tornaram “nômades
involuntários”, lembrando com atraso a mensagem recebida no começo de
suas viagens históricas e tentando desesperadamente recuperar seus
conteúdos esquecidos que — como suspeitam — podem ser portadores da
“sabedoria necessária a seu futuro”. Uma vez mais, o labirinto se torna a
imagem-mestra da condição humana — e significa “o lugar opaco onde o
desenho dos caminhos não obedece a qualquer lei. O azar e a surpresa
mandam no labirinto, o que sinaliza a derrota da Razão Pura.”9
No mundo humano labiríntico, os trabalhos humanos se dividem em
episódios isolados como o resto da vida humana. E, como no caso de todas
as outras ações que os humanos podem empreender, o objetivo de manter um curso próximo aos projetos dos atores é evasivo, talvez inatingível. O
trabalho escorregou do universo da construção da ordem e controle do
futuro em direção do reino do jogo; atos de trabalho se parecem mais com
as estratégias de um jogador que se põe modestos objetivos de curto prazo,
não antecipando mais que um ou dois movimentos. O que conta são os
efeitos imediatos de cada movimento; os efeitos devem ser passíveis de ser
consumidos no ato. Suspeita-se que o mundo esteja repleto de pontes
demasiado longínquas, o tipo de pontes que é melhor não pensar em
atravessar até encontrá-las, o que não acontecerá tão cedo. Cada obstáculo
deve ser negociado quando chegar sua vez; a vida é uma seqüência de
episódios — cada um a ser calculado em separado, pois cada um tem seu
próprio balanço de perdas e ganhos. Os caminhos da vida não se tornam
mais retos por serem trilhados, e virar uma esquina não é garantia de que os
rumos corretos serão seguidos no futuro.
E assim o trabalho mudou de caráter. Muitas vezes é um ato único:
armação de um bricoleur, um trapaceiro, que mira o que está à mão e é
inspirado e limitado pelo que está à mão, mais formado que formador, mais
o resultado de agarrar a oportunidade que o produto de planejamento e
projeto. Tem uma sinistra semelhança com a famosa toupeira cibernética
que sabia como se mover em busca de uma tomada elétrica a que se ligar
para repor a energia gasta no movimento em busca de uma tomada elétrica
a que se ligar para repor a energia gasta…
Talvez o termo “remendar” capte melhor a nova natureza do trabalho
separado do grande projeto de missão universalmente partilhada da
humanidade e do não menos grandioso projeto de uma vocação para toda a
vida. Despido de seus adereços escatológicos e arrancado de suas raízes
metafísicas, o trabalho perdeu a centralidade que se lhe atribuía na galáxia
dos valores dominantes na era da modernidade sólida e do capitalismo
pesado. O trabalho não pode mais oferecer o eixo seguro em torno do qual
envolver e fixar autodefinições, identidades e projetos de vida. Nem pode
ser concebido com facilidade como fundamento ético da sociedade, ou
como eixo ético da vida individual.
Em vez disso, o trabalho adquiriu — ao lado de outras atividades da
vida — uma significação principalmente estética. Espera-se que seja
satisfatório por si mesmo e em si mesmo, e não mais medido pelos efeitos
genuínos ou possíveis que traz a nossos semelhantes na humanidade ou ao
poder da nação e do país, e menos ainda à bem-aventurança das futuras gerações. Poucas pessoas apenas — e mesmo assim raramente — podem