Modernidade Líquida
A autoperpetuação da falta de confiança
Em seu estudo retrospectivo da sociedade capitalista/moderna do
“desenvolvimento compulsivo e obsessivo”, Alain Peyrefitte23 chega à
conclusão de que a característica mais importante, e mesmo constitutiva
dessa sociedade era a confiança: confiança em si mesmo, nos outros e nas
instituições. Os três constituintes da confiança costumavam ser
indispensáveis. Condicionavam-se e se apoiavam entre si: sem um deles, os
outros dois implodiriam e entrariam em colapso. Poderíamos descrever a
moderna construção da ordem como um esforço contínuo de implantar as
fundações institucionais da confiança: oferecendo uma estrutura estável
para o investimento da confiança e tornando aceitável a crença de que os
valores presentemente estimados continuariam a ser estimados e desejados,
e de que as regras para a busca e obtenção desses valores continuariam a ser
observadas, não seriam infringidas e seriam imunes à passagem do tempo.
Peyrefitte indica a empresa que gera empregos como o lugar por
excelência para a disseminação e cultivo da confiança. O fato de que a
empresa capitalista fosse também o foco de conflitos e confrontações não
deve nos enganar: não há enfrentamento sem confiança. Se os empregados
lutavam por seus direitos, é porque confiavam no “poder” do quadro em
que, como esperavam e queriam, seus direitos se inseriam; confiavam na
empresa como lugar adequado a quem entregavam seus direitos para
guarda.
Esse não é mais o caso, ou pelo menos deixa rapidamente de sê-lo.
Nenhuma pessoa racional esperaria passar toda sua vida, ou pelo menos boa
parte dela, em uma mesma empresa. A maioria das pessoas racionais
preferiria confiar as economias de toda a vida aos notoriamente arriscados
fundos de investimento e companhias de seguros, que jogam nas bolsas, e
não contar com as pensões que as empresas em que atualmente trabalham
podem pagar. Como bem resumiu Nigel Thrift recentemente, “é muito
difícil construir a confiança em organizações que estão sendo ao mesmo
tempo ‘desmontadas’, ‘reduzidas’ e ‘reengenheirizadas’.”
Pierre Bourdieu24 mostra a ligação entre o colapso da confiança e o
enfraquecimento da vontade de engajamento político e ação coletiva: a
capacidade de fazer projeções para o futuro, sugere, é a conditio sine qua
non de todo pensamento “transformador” e de todo esforço de reexaminar e
reformar o estado presente das coisas — mas projeções sobre o futuro raramente ocorrerão a pessoas que não têm o pé firme no presente. A quarta
categoria de Reich claramente carece dessa firmeza. Presos como estão a
seus lugares, impedidos de se mover e detidos no primeiro posto de
fronteira se o fizerem, estão numa posição a priori inferior à do capital que
se move livremente. O capital é cada vez mais global; eles, porém,
permanecem locais. Por essa razão estão expostos, desarmados, aos
inescrutáveis caprichos de misteriosos “investidores” e “acionistas”, e das
ainda mais desconcertantes “forças do mercado”, “termos de troca” e
“demandas da competição”. O que quer que ganhem hoje lhes pode ser
tirado amanhã sem aviso prévio. Não podem vencer. Nem — sendo as
pessoas racionais que são ou lutam por ser — estão dispostos a arriscar a
luta. É improvável que reformulem suas queixas como uma questão política
e se voltem para o poder político estabelecido em busca de reparação.
Como previu Jacques Attali há alguns anos, “o poder residirá amanhã na
capacidade de bloquear ou facilitar o movimento por certas vias. O Estado
não exercerá seus poderes para controlar a rede. E assim a impossibilidade
de exercer o controle sobre a rede enfraquecerá irreversivelmente as
instituições políticas”.25
A passagem do capitalismo pesado ao leve e da modernidade sólida à
fluida ou liquefeita é o quadro em que a história do movimento dos
trabalhadores foi inscrita. Ela também vai longe para dar sentido às notórias
reviravoltas dessa história. Não seria nem razoável nem particularmente
esclarecedor dar conta dos lúgubres dilemas em que o movimento dos
trabalhadores caiu na parte “avançada” (no sentido “modernizante”) do
mundo, em relação à mudança na disposição do público — tenha sido ela
produzida pelo impacto debilitante dos meios de comunicação de massa,
por uma conspiração dos anunciantes, pela sedutora atração da sociedade do
consumo ou pelos efeitos soporíferos da sociedade do espetáculo e do
entretenimento. Culpar os atabalhoados ou ambíguos “políticos
trabalhistas” também não ajuda. Os fenômenos invocados nessas
explicações não são imaginários, mas não funcionariam como explicações
se não fosse pelo fato de que o contexto da vida, o ambiente social em que
as pessoas (raramente por sua própria escolha) conduzem os afazeres da
vida, mudou radicalmente desde o tempo em que os trabalhadores que se
amontoavam nas fábricas de produção em larga escala se uniam para lutar
por termos mais humanos e compensadores de venda de seu trabalho, e os
teóricos e práticos do movimento dos trabalhadores sentiam na solidariedade destes o desejo, informe e ainda não articulado (mas inato e a
longo prazo avassalador), de uma “boa sociedade” que efetivaria os
princípios universais da justiça.
OceanofPDF.com