Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 32 de 42

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Modernidade Líquida

A autoperpetuação da falta de confiança

 

Em seu estudo retrospectivo da sociedade capitalista/moderna do

“desenvolvimento compulsivo e obsessivo”, Alain Peyrefitte23 chega à

conclusão de que a característica mais importante, e mesmo constitutiva

dessa sociedade era a confiança: confiança em si mesmo, nos outros e nas

instituições. Os três constituintes da confiança costumavam ser

indispensáveis. Condicionavam-se e se apoiavam entre si: sem um deles, os

outros dois implodiriam e entrariam em colapso. Poderíamos descrever a

moderna construção da ordem como um esforço contínuo de implantar as

fundações institucionais da confiança: oferecendo uma estrutura estável

para o investimento da confiança e tornando aceitável a crença de que os

valores presentemente estimados continuariam a ser estimados e desejados,

e de que as regras para a busca e obtenção desses valores continuariam a ser

observadas, não seriam infringidas e seriam imunes à passagem do tempo.

Peyrefitte indica a empresa que gera empregos como o lugar por

excelência para a disseminação e cultivo da confiança. O fato de que a

empresa capitalista fosse também o foco de conflitos e confrontações não

deve nos enganar: não há enfrentamento sem confiança. Se os empregados

lutavam por seus direitos, é porque confiavam no “poder” do quadro em

que, como esperavam e queriam, seus direitos se inseriam; confiavam na

empresa como lugar adequado a quem entregavam seus direitos para

guarda.

Esse não é mais o caso, ou pelo menos deixa rapidamente de sê-lo.

Nenhuma pessoa racional esperaria passar toda sua vida, ou pelo menos boa

parte dela, em uma mesma empresa. A maioria das pessoas racionais

preferiria confiar as economias de toda a vida aos notoriamente arriscados

fundos de investimento e companhias de seguros, que jogam nas bolsas, e

não contar com as pensões que as empresas em que atualmente trabalham

podem pagar. Como bem resumiu Nigel Thrift recentemente, “é muito

difícil construir a confiança em organizações que estão sendo ao mesmo

tempo ‘desmontadas’, ‘reduzidas’ e ‘reengenheirizadas’.”

Pierre Bourdieu24 mostra a ligação entre o colapso da confiança e o

enfraquecimento da vontade de engajamento político e ação coletiva: a

capacidade de fazer projeções para o futuro, sugere, é a conditio sine qua

non de todo pensamento “transformador” e de todo esforço de reexaminar e

reformar o estado presente das coisas — mas projeções sobre o futuro raramente ocorrerão a pessoas que não têm o pé firme no presente. A quarta

categoria de Reich claramente carece dessa firmeza. Presos como estão a

seus lugares, impedidos de se mover e detidos no primeiro posto de

fronteira se o fizerem, estão numa posição a priori inferior à do capital que

se move livremente. O capital é cada vez mais global; eles, porém,

permanecem locais. Por essa razão estão expostos, desarmados, aos

inescrutáveis caprichos de misteriosos “investidores” e “acionistas”, e das

ainda mais desconcertantes “forças do mercado”, “termos de troca” e

“demandas da competição”. O que quer que ganhem hoje lhes pode ser

tirado amanhã sem aviso prévio. Não podem vencer. Nem — sendo as

pessoas racionais que são ou lutam por ser — estão dispostos a arriscar a

luta. É improvável que reformulem suas queixas como uma questão política

e se voltem para o poder político estabelecido em busca de reparação.

Como previu Jacques Attali há alguns anos, “o poder residirá amanhã na

capacidade de bloquear ou facilitar o movimento por certas vias. O Estado

não exercerá seus poderes para controlar a rede. E assim a impossibilidade

de exercer o controle sobre a rede enfraquecerá irreversivelmente as

instituições políticas”.25

A passagem do capitalismo pesado ao leve e da modernidade sólida à

fluida ou liquefeita é o quadro em que a história do movimento dos

trabalhadores foi inscrita. Ela também vai longe para dar sentido às notórias

reviravoltas dessa história. Não seria nem razoável nem particularmente

esclarecedor dar conta dos lúgubres dilemas em que o movimento dos

trabalhadores caiu na parte “avançada” (no sentido “modernizante”) do

mundo, em relação à mudança na disposição do público — tenha sido ela

produzida pelo impacto debilitante dos meios de comunicação de massa,

por uma conspiração dos anunciantes, pela sedutora atração da sociedade do

consumo ou pelos efeitos soporíferos da sociedade do espetáculo e do

entretenimento. Culpar os atabalhoados ou ambíguos “políticos

trabalhistas” também não ajuda. Os fenômenos invocados nessas

explicações não são imaginários, mas não funcionariam como explicações

se não fosse pelo fato de que o contexto da vida, o ambiente social em que

as pessoas (raramente por sua própria escolha) conduzem os afazeres da

vida, mudou radicalmente desde o tempo em que os trabalhadores que se

amontoavam nas fábricas de produção em larga escala se uniam para lutar

por termos mais humanos e compensadores de venda de seu trabalho, e os

teóricos e práticos do movimento dos trabalhadores sentiam na solidariedade destes o desejo, informe e ainda não articulado (mas inato e a

longo prazo avassalador), de uma “boa sociedade” que efetivaria os

princípios universais da justiça.

 

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