Modernidade Líquida
Preencher o vazio
curá-la, que está, na melhor das hipóteses, na fase de testes (mais
provavelmente na de tentativa e erro). A globalização parece ter mais
sucesso em aumentar o vigor da inimizade e da luta intercomunal do que
em promover a coexistência pacífica das comunidades.
Preencher o vazio
Para as multinacionais (isto é, empresas globais com interesses e
compromissos locais dispersos e cambiantes), “o mundo ideal” “é um
mundo sem Estados, ou pelo menos com pequenos e não grandes Estados”,
observou Eric Hobsbawm. “A menos que tenha petróleo, quanto menor o
Estado, mais fraco ele é, e menos dinheiro é necessário para se comprar um
governo.”
O que temos hoje é, com efeito, um sistema dual, o sistema oficial das
“economias nacionais” dos Estados, e o real, mas não oficial, das
unidades e instituições transnacionais … Ao contrário do Estado com
seu território e poder, outros elementos da “nação” podem ser e são
facilmente ultrapassados pela globalização da economia. Etnicidade e
língua são dois exemplos óbvios. Sem o poder e a força coercitiva do
Estado, sua relativa insignificância é clara.20
Como a globalização da economia procede aos saltos, “comprar
governos” é, certamente, cada vez menos necessário. A clara incapacidade
dos governos de equilibrar as contas com os recursos que controlam (isto é,
os recursos que eles podem estar certos de que continuarão no domínio de
sua jurisdição independente do modo que escolham para equilibrar as
contas) seria suficiente para fazê-los não só se renderem ao inevitável, mas
colaborarem ativamente e de bom grado com os “globais”.
Anthony Giddens utilizou a metáfora apócrifa do “juggernaut” para
captar o mecanismo da “modernização” do mundo. A mesma metáfora se
adapta bem à globalização da economia de hoje: é cada vez mais difícil
separar os atores e seus objetos passivos, pois a maioria dos governos
competem entre si para implorar, adular ou seduzir o juggernaut global a
mudar de rumo e vir primeiro às terras que administram. Os poucos entre eles que são lentos, míopes ou orgulhosos demais para entrar na competição
enfrentarão sérios problemas por não terem o que dizer a seus eleitores que
“votam com suas carteiras”, ou então serão prontamente condenados e
relegados ao ostracismo pelo afinado coro da “opinião mundial”, para
serem depois varridos (ou ameaçados de ser varridos) por bombas capazes
de restaurar seu bom senso, trazendo-os (de volta) ao redil.
Se o princípio da soberania dos Estados-nação está finalmente
desacreditado e removido dos estatutos do direito internacional, se a
capacidade de resistência dos Estados está efetivamente quebrada a ponto
de não precisar ser levada seriamente em conta nos cálculos dos poderes
globais, a substituição do “mundo das nações” pela ordem supranacional
(um sistema político global de freios e contrapesos para limitar e regular as
forças econômicas globais) é apenas um dos possíveis cenários — e, da
perspectiva de hoje, não o mais provável. A disseminação mundial do que
Pierre Bourdieu chamou de “política da precarização” é igualmente
provável, se não mais. Se o golpe na soberania do Estado se demonstrar
fatal ou terminal, se o Estado perder seu monopólio da coerção (que tanto
Max Weber como Norbert Elias consideravam como sua característica
distintiva e, simultaneamente, o atributo sine qua non da racionalidade
moderna ou ordem civilizada), não se segue necessariamente que o volume
total de violência, inclusive violência com conseqüências potencialmente
genocidas, diminuirá; ela pode ser apenas “desregulada”, descendo do nível
do Estado para o da “comunidade” (neotribal).
Na falta do quadro institucional de estruturas “arbóreas” (para utilizar a
metáfora de Deleuze/Guattari), a socialidade pode perfeitamente retornar a
suas manifestações “explosivas”, ramificando-se e fazendo brotar
formações de grau variado de durabilidade, mas invariavelmente instáveis,
calorosamente contestadas e destituídas de base em que se apoiar — à
exceção das ações apaixonadas e frenéticas de seus partidários. A
instabilidade endêmica dos fundamentos precisará ser compensada. Uma
cumplicidade ativa (voluntária ou forçada) nos crimes, que só a existência
continuada de uma “comunidade explosiva” pode isentar efetivamente de
punição, é a candidata mais provável a ocupar a vaga. Comunidades
explosivas precisam de violência para nascer e para continuar vivendo.
Precisam de inimigos que ameacem sua existência e inimigos a serem
coletivamente perseguidos, torturados e mutilados, a fim de fazer de cada
membro da comunidade um cúmplice do que, em caso de derrota, seria certamente declarado crime contra a humanidade e, portanto, objeto de
punição.
Numa série de estudos provocativos (Des choses cachées depuis la
fondation du monde; Le bouc émissaire; La violence et le sacré), René
Girard desenvolveu uma teoria ampla do papel da violência no nascimento
e persistência da comunidade. Um impulso violento está sempre em
ebulição sob a calma superfície da cooperação pacífica e amigável; esse
impulso precisa ser canalizado para fora dos limites da comunidade, onde a
violência é proibida. A violência, que caso contrário desmascararia o blefe
da unidade comunal, é então reciclada como arma de defesa comunal.
Dessa forma reciclada ela é indispensável; precisa ser reencenada sempre
sob a forma de um sacrifício ritual, cuja vítima substituta é escolhida de
acordo com regras que raramente são explicitadas, e são no entanto estritas.
“Há um denominador comum que determina a eficácia de todos os
sacrifícios.” Esse denominador comum é
a violência interna — todas as dissensões, rivalidades, ciúme e querelas
dentro da comunidade, que os sacrifícios contribuem para suprimir. O
propósito do sacrifício é restaurar a harmonia da comunidade, reforçar
o tecido social.
O que une as diversas formas de sacrifício ritual é seu propósito de
manter viva a memória da unidade comunal e de sua precariedade. Mas,
para que desempenhe essa função, a “vítima substituta”, objeto sacrificado
no altar da unidade comunal, deve ser escolhida adequadamente — e as
regras de seleção são exigentes e precisas. Para ser adequado ao sacrifício,
o objeto potencial “deve ter grande semelhança com as categorias humanas
excluídas das fileiras dos ‘sacrificáveis’ (isto é, os humanos considerados
‘membros da comunidade’), ainda que mantenham um grau de diferença
que impeça qualquer possível confusão”. Os candidatos devem ser de fora,
mas não distantes demais; semelhantes “a nós, membros cabais da
comunidade”, mas inequivocamente diferentes. O ato de sacrificar esses
objetos se destina, afinal, a traçar estritas e impassáveis fronteiras entre o
“dentro” e o “fora” da comunidade. Não é preciso dizer que as categorias
das quais as vítimas são regularmente selecionadas são
seres que estão fora ou nas fronteiras da sociedade; prisioneiros de
guerra, escravos … indivíduos de fora ou marginais, incapazes de
estabelecer ou compartilhar os laços sociais que unem o resto dos
habitantes. Seu status como estrangeiros ou inimigos, sua condição
servil, ou simplesmente sua idade, impede essas futuras vítimas de se
integrarem à comunidade.
A falta de laços sociais com os membros “legítimos” da comunidade
(ou a proibição de estabelecer tais laços) tem uma vantagem adicional: as
vítimas “podem ser expostas à violência sem risco de vingança”21 pode-se
puni-los com impunidade — ou pelo menos pode-se esperar por isso,
manifestando, porém, a expectativa oposta, pintando a capacidade assassina
das vítimas nas cores mais vivas e lembrando que a comunidade deve cerrar
fileiras e manter seu vigor e vigilância no máximo.
A teoria de Girard parece fazer sentido da violência que é profusa e
exaltada nas esgarçadas fronteiras das comunidades, especialmente
comunidades cujas identidades são incertas ou contestadas, ou, mais
precisamente, do uso comum da violência como instrumento para desenhar
fronteiras quando estas estão ausentes, ou são porosas ou apagadas. Três
comentários parecem, porém, necessários.
Primeiro: se o sacrifício regular de “vítimas substitutas” é uma
cerimônia de renovação do “contrato social” não-escrito, ele pode
desempenhar esse papel graças a seu outro aspecto — o da lembrança
coletiva de um “ato de criação” histórico ou mítico, do pacto original a
partir de um campo de batalha mergulhado em sangue inimigo. Se não
houve tal evento, ele precisa ser retrospectivamente construído pela assídua
repetição do ritual de sacrifício. Genuíno ou inventado, porém, ele cria um
padrão para todas as candidatas ao status de comunidade — as futuras
comunidades que ainda não estão em posição de substituir a “coisa real”
pelo ritual benigno e o assassinato de vítimas reais pela morte de vítimas
substitutas. Por mais sublimada que seja a forma do sacrifício ritual que
transforma a vida comunal numa reencenação contínua do milagre do “dia
da independência”, as lições pragmáticas tiradas por todas as que aspiram
ao status de comunidade induzem a façanhas de pouca sutileza ou elegância
litúrgica.
Segundo: a idéia de uma comunidade cometendo o “assassinato
original” a fim de tornar sua existência segura e garantida e cerrar fileiras é incongruente nos próprios termos de Girard; antes que o assassínio original
fosse cometido dificilmente haveria fileiras a serem cerradas e uma
existência comunal para ser assegurada. (O próprio Girard deixa isso
implícito, quando explica em seu capítulo 10 o simbolismo ubíquo do corte
na liturgia do sacrifício: “O nascimento da comunidade é antes e acima de
tudo um ato de separação.”) A visão da exportação calculada da violência
interna para além das fronteiras da comunidade (a comunidade assassinando
estranhos a fim de manter a paz entre seus membros) é mais um caso do
expediente tentador mas equivocado de tomar a função (genuína ou
imputada) por explicação causal. É antes o próprio assassinato original que
traz a comunidade à vida, colocando a demanda de solidariedade e a
necessidade de cerrar fileiras. É a legitimidade das vítimas originais que
clama pela solidariedade comunal e que tende a ser confirmada ano após
ano nos rituais de sacrifício.
Terceiro: a afirmação de Girard de que o “sacrifício é principalmente
um ato de violência sem risco de vingança” (p.13) precisa ser
complementada pela observação de que, para tornar o sacrifício eficaz, a
ausência de risco deve ser cuidadosamente ocultada ou, melhor ainda,
enfaticamente negada. Do assassínio original o inimigo deve ter emergido
não inteiramente morto, mas morto-vivo, um zumbi pronto a levantar-se da
tumba a qualquer momento. Um inimigo realmente morto, ou um inimigo
morto incapaz de ressuscitar, não inspirará temor suficiente para justificar a
necessidade de unidade — e os rituais de sacrifício são regularmente
realizados para lembrar a todos que os rumores do desaparecimento final do
inimigo são propaganda do próprio inimigo e, portanto, a prova oblíqua,
mas vívida, de que o inimigo está vivo.
Numa formidável série de estudos sobre o genocídio na Bósnia, Arne
Johan Vetlesen diz que, na falta de fundamentos institucionais confiáveis
(esperaríamos que duráveis e seguros), um espectador não-envolvido,
morno ou indiferente se torna o mais odiado e o melhor dos inimigos: “Do
ponto de vista de um agente do genocídio, esses estranhos são pessoas que
têm um potencial … para deter o genocídio em curso.”22 Independente de
que os espectadores efetivem ou não esse potencial, sua presença enquanto
“espectadores” (pessoas que não fazem nada para destruir o inimigo) é um
desafio à única proposição de que a comunidade deriva sua raison d’être:
de que é uma situação “ou nós, ou eles”, que a destruição “deles” é
indispensável para “nossa” sobrevivência e matá-“los” é a conditio sine qua non da “nossa” sobrevivência. Como a participação na comunidade não está
predeterminada ou institucionalmente assegurada, o “batismo do sangue
(derramado)” — uma participação pessoal no crime coletivo — é a única
maneira de aderir e a única legitimação da participação contínua. Por
oposição ao genocídio praticado pelo Estado (e, principalmente, por
oposição ao Holocausto), o tipo de genocídio que é o ritual de nascimento
das comunidades explosivas não pode ser confiado aos especialistas ou
delegado a departamentos ou unidades especiais. Não é tanto uma questão
de quantos “inimigos” são mortos; é mais importante quantos são os
assassinos.
Também é importante que os assassinatos sejam cometidos abertamente,
à luz do dia e à vista de todos, que existam testemunhas do crime que
conheçam os assassinos pelo nome — de modo que a evasão e a
impunidade deixem de ser uma opção viável e a comunidade nascida do
crime iniciático permaneça como único refúgio para os assassinos. A
limpeza étnica, como Arne Johan Vetlesen descobriu em seu estudo da
Bósnia,
fixa e mantém as condições de proximidade entre criminoso e vítima e
até cria essas condições se elas não existirem, e as estende, como
questão de princípio, se correm o risco de desaparecer. Nessa violência
superpersonalizada, famílias inteiras foram forçadas a ser testemunhas
de tortura, estupro e assassinato …23
Outra vez por contraste com o genocídio ao estilo antigo, e acima de
tudo ao Holocausto como “tipo ideal”, as testemunhas são ingredientes
indispensáveis na mistura de fatores que dão vida a uma comunidade
explosiva. Uma comunidade explosiva pode contar razoavelmente (ainda
que às vezes enganosamente) com longa vida apenas enquanto o crime
original for lembrado e, assim, seus membros, cientes de que as provas do
crime que cometeram são abundantes, permanecem unidos e solidários —
cimentados pelo interesse conjunto de cerrar fileiras para contestar a
natureza criminosa e punível de seus atos. A melhor maneira de gerar essas
condições é reavivar periódica ou continuamente a memória do crime e o
medo da punição pela adição de novos crimes aos velhos. Como as
comunidades explosivas nascem em pares (não haveria o “nós” se não fosse
por “eles”) e como a violência genocida é um crime a que qualquer dos membros do par recorre com facilidade quando se sente mais forte, não
faltam oportunidades para encontrar um pretexto adequado a uma nova
“limpeza étnica” ou atentado genocida. A violência que acompanha a
sociabilidade explosiva e é o modo de vida das comunidades que
sedimenta, portanto, se autopropaga, autoperpetua e autoreforça. Ela gera o
que Gregory Bateson chamou de “cadeias esquizogenéticas”, que resistem
bravamente a serem interrompidas, que dirá revertidas.
Uma característica que torna as comunidades do tipo analisado por
Girard e Vetlesen particularmente ferozes, violentas e sangrentas, dotando-
as de considerável potencial genocida, é sua “conexão territorial”. Esse
potencial tem origem em outro paradoxo da era da modernidade líquida. A
territorialidade está intimamente ligada às obsessões espaciais da
modernidade sólida; alimenta-se delas e contribui, por sua vez, para sua
preservação. As comunidades explosivas, ao contrário, estão em casa na era
da modernidade liquefeita. A mescla de sociabilidade explosiva com
aspirações territoriais está fadada, portanto, a resultar em mutações
monstruosas. A alternância de estratégias “fágicas” e “êmicas” na conquista
e defesa do espaço (que em geral era a principal questão nos conflitos da
modernidade sólida) aparece inteiramente fora de lugar (e o que é ainda
mais importante, “fora do tempo”) num mundo dominado pela variedade
leve/fluida/de software da modernidade; nesse mundo, ela quebra a norma
em vez de segui-la.
As populações sedentárias sitiadas se recusam a aceitar as regras e
riscos do novo jogo de poder “nômade”, atitude que a nova elite global
nômade acha extremamente difícil (bem como repulsiva e indesejável) de
entender e não pode perceber senão como um sinal de retardamento e
atraso. Quando se trata de confrontos, e particularmente confrontos
militares, as elites nômades do moderno mundo líquido percebem a
estratégia territorialmente orientada das populações sedentárias como
“bárbara” por comparação à sua própria estratégia militar “civilizada”.
Agora é a elite nômade que dá o tom e dita os critérios pelos quais as
obsessões territoriais são classificadas e julgadas. A mesa foi virada — e a
velha e testada arma da “cronopolítica”, outrora utilizada pelas triunfantes
populações sedentárias para expulsar os nômades para a pré-história bárbara
e selvagem, é agora utilizada pelas vitoriosas elites nômades em sua luta
com o que restou da soberania territorial e contra aqueles que ainda se
dedicam à sua defesa.