Modernidade Líquida
Capítulo 2. Individualidade
2 • INDIVIDUALIDADE
Agora, aqui, veja, é preciso correr o máximo que você puder para permanecer no mesmo lugar. Se quiser ir a algum outro lugar, deve correr pelo menos duas vezes mais depressa do que isso!
Lewis Carroll
É difícil lembrar, e ainda mais difícil compreender, que há não mais de 50
anos a disputa sobre a essência dos prognósticos populares, sobre o que se
deveria temer e sobre os tipos de horrores que o futuro estava fadado a
trazer se não fosse parado a tempo se travava entre o Brave New World de
Aldous Huxley e o 1984 de George Orwell.
A disputa certamente era legítima e honesta, pois os mundos tão
vividamente retratados pelos dois visionários distópicos eram tão diferentes
quanto água e vinho. O de Orwell era um mundo de miséria e destituição,
de escassez e necessidade; o de Huxley era uma terra de opulência e
devassidão, de abundância e saciedade. Como era de se esperar, os
habitantes do mundo de Orwell eram tristes e assustados; os de Huxley,
despreocupados e alegres. Havia muitas outras diferenças não menos
notáveis: os dois mundos se opunham em quase todos os detalhes.
No entanto, havia alguma coisa que unia as duas visões. (Sem isso, as
duas distopias não dialogariam, e muito menos se oporiam.) O que elas
compartilhavam era o pressentimento de um mundo estritamente
controlado; da liberdade individual não apenas reduzida a nada ou quase
nada, mas agudamente rejeitada por pessoas treinadas a obedecer a ordens e
seguir rotinas estabelecidas; de uma pequena elite que manejava todos os
cordões — de tal modo que o resto da humanidade poderia passar toda sua
vida movendo-se como marionetes; de um mundo dividido entre
administradores e administrados, projetistas e seguidores de projetos — os
primeiros guardando os projetos grudados ao peito e os outros nem querendo nem sendo capazes de espiar os desenhos para captar seu sentido;