Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 9 de 42

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Modernidade Líquida

Capítulo 2. Individualidade

2 • INDIVIDUALIDADE

 

Agora, aqui, veja, é preciso correr o máximo que você puder para permanecer no mesmo lugar. Se quiser ir a algum outro lugar, deve correr pelo menos duas vezes mais depressa do que isso!

 

Lewis Carroll

 

É difícil lembrar, e ainda mais difícil compreender, que há não mais de 50

anos a disputa sobre a essência dos prognósticos populares, sobre o que se

deveria temer e sobre os tipos de horrores que o futuro estava fadado a

trazer se não fosse parado a tempo se travava entre o Brave New World de

Aldous Huxley e o 1984 de George Orwell.

A disputa certamente era legítima e honesta, pois os mundos tão

vividamente retratados pelos dois visionários distópicos eram tão diferentes

quanto água e vinho. O de Orwell era um mundo de miséria e destituição,

de escassez e necessidade; o de Huxley era uma terra de opulência e

devassidão, de abundância e saciedade. Como era de se esperar, os

habitantes do mundo de Orwell eram tristes e assustados; os de Huxley,

despreocupados e alegres. Havia muitas outras diferenças não menos

notáveis: os dois mundos se opunham em quase todos os detalhes.

No entanto, havia alguma coisa que unia as duas visões. (Sem isso, as

duas distopias não dialogariam, e muito menos se oporiam.) O que elas

compartilhavam era o pressentimento de um mundo estritamente

controlado; da liberdade individual não apenas reduzida a nada ou quase

nada, mas agudamente rejeitada por pessoas treinadas a obedecer a ordens e

seguir rotinas estabelecidas; de uma pequena elite que manejava todos os

cordões — de tal modo que o resto da humanidade poderia passar toda sua

vida movendo-se como marionetes; de um mundo dividido entre

administradores e administrados, projetistas e seguidores de projetos — os

primeiros guardando os projetos grudados ao peito e os outros nem querendo nem sendo capazes de espiar os desenhos para captar seu sentido;