Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 29 de 42

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Modernidade Líquida

Do casamento à coabitação

trabalho está saturada de incertezas.

 

Do casamento à coabitação

 

Pode-se sempre responder que não há nada particularmente novo nessa

situação: a vida de trabalho sempre foi cheia de incertezas, desde tempos

imemoriais. A incerteza de hoje, porém, é de um tipo inteiramente novo. Os

temíveis desastres que podem devastar nossa sobrevivência e suas

perspectivas não são do tipo que possa ser repelido ou contra que se possa

lutar unindo forças, permanecendo unidos e com medidas debatidas,

acordadas e postas em prática em conjunto. Os desastres mais terríveis

acontecem hoje aleatoriamente, escolhendo suas vítimas com a lógica mais

bizarra ou sem qualquer lógica, distribuindo seus golpes caprichosamente,

de tal forma que não há como prever quem será condenado e quem será

salvo. A incerteza do presente é uma poderosa força individualizadora. Ela

divide em vez de unir, e como não há maneira de dizer quem acordará no

próximo dia em qual divisão, a idéia de “interesse comum” fica cada vez

mais nebulosa e perde todo valor prático.

Os medos, ansiedades e angústias contemporâneos são feitos para serem

sofridos em solidão. Não se somam, não se acumulam numa “causa

comum”, não têm endereço específico, e muito menos óbvio. Isso priva as

posições de solidariedade de seu status antigo de táticas racionais e sugere

uma estratégia de vida muito diferente da que levou ao estabelecimento das

organizações militantes em defesa da classe trabalhadora. Ao falar com

pessoas já atingidas ou que temiam vir a ser atingidas pelas mudanças

correntes nas condições de emprego, Pierre Bourdieu ouviu vezes sem

conta que “em face das novas formas de exploração, notavelmente

favorecidas pela desregulação do trabalho e pelo desenvolvimento do

emprego temporário, as formas tradicionais de ação sindical são

consideradas inadequadas”. Bourdieu conclui que fatos recentes

“quebraram os fundamentos das solidariedades passadas” e que o resultante

“desencantamento vai de mãos dadas com o desaparecimento do espírito de

militância e participação política”.15

Quando a utilização do trabalho se torna de curto prazo e precária, tendo

sido ele despido de perspectivas firmes (e muito menos garantidas) e portanto tornado episódico, quando virtualmente todas as regras relativas ao

jogo das promoções e demissões foram esgotadas ou tendem a ser alteradas

antes que o jogo termine, há pouca chance de que a lealdade e o

compromisso mútuos brotem e se enraízem. Ao contrário dos tempos de

dependência mútua de longo prazo, não há quase estímulo para um

interesse agudo, sério e crítico por conhecer os empreendimentos comuns e

os arranjos a eles relacionados, que de qualquer forma seriam transitórios.

O emprego parece um acampamento que se visita por alguns dias e que se

pode abandonar a qualquer momento se as vantagens oferecidas não se

verificarem ou se forem consideradas insatisfatórias — e não com um

domicílio compartilhado onde nos inclinamos a ter trabalho e construir

pacientemente regras aceitáveis de convivência. Mark Granovetter sugeriu

que o nosso é um tempo de “laços fracos”, enquanto Sennett propõe que

“formas fugazes de associação são mais úteis para as pessoas que conexões

de longo prazo”.16

A presente versão “liquefeita”, “fluida”, dispersa, espalhada e

desregulada da modernidade pode não implicar o divórcio e ruptura final da

comunicação, mas anuncia o advento do capitalismo leve e flutuante,

marcado pelo desengajamento e enfraquecimento dos laços que prendem o

capital ao trabalho. Pode-se dizer que esse movimento ecoa a passagem do

casamento para o “viver junto”, com todas as atitudes disso decorrentes e

conseqüências estratégicas, incluindo a suposição da transitoriedade da

coabitação e da possibilidade de que a associação seja rompida a qualquer

momento e por qualquer razão, uma vez desaparecida a necessidade ou o

desejo. Se manter-se juntos era uma questão de acordo recíproco e de

mútua dependência, o desengajamento é unilateral: um dos lados da

configuração adquiriu uma autonomia que talvez sempre tenha desejado

secretamente mas que nunca havia manifestado seriamente antes. Numa

medida nunca alcançada na realidade pelos “senhores ausentes” de outrora,

o capital rompeu sua dependência em relação ao trabalho com uma nova

liberdade de movimentos, impensável no passado. A reprodução e o

crescimento do capital, dos lucros e dos dividendos e a satisfação dos

acionistas se tornaram independentes da duração de qualquer

comprometimento local com o trabalho.

É claro que a independência não é completa, e o capital não é ainda tão

volátil como gostaria de e tenta ser. Fatores territoriais — locais — ainda

devem ser considerados na maioria dos cálculos, e o “poder de confusão” dos governos locais ainda pode colocar limites constrangedores à sua

liberdade de movimento. Mas o capital se tornou exterritorial, leve,

desembaraçado e solto numa medida sem precedentes, e seu nível de

mobilidade espacial é na maioria dos casos suficiente para chantagear as

agências políticas dependentes de território e fazê-las se submeterem a suas

demandas. A ameaça (mesmo quando não expressa e meramente

adivinhada) de cortar os laços locais e mudar-se para outro lugar é uma

coisa que qualquer governo responsável, em benefício próprio e no de seus

concidadãos, deve tratar com a maior seriedade, tentando subordinar suas

políticas ao propósito supremo de evitar a ameaça do desinvestimento.

A política hoje se tornou um cabo-de-guerra entre a velocidade com que

o capital pode se mover e as capacidades cada vez mais lentas dos poderes

locais, e são as instituições locais que com mais freqüência se lançam numa

batalha que não podem vencer. Um governo dedicado ao bem-estar de seus

cidadãos tem pouca escolha além de implorar e adular, e não pode forçar o

capital a vir e, uma vez dentro, a construir arranha-céus para seus

escritórios em vez de ficar em quartos de hotel alugados por dia. E isso

pode ser feito ou tentado (para usar o jargão comum à política da era do

livre comércio) “criando melhores condições para a livre empresa”, o que

significa ajustar o jogo político às regras da “livre empresa” — isto é,

usando todo o poder regulador à disposição do governo a serviço da

desregulação, do desmantelamento e destruição das leis e estatutos

“restritivos às empresas”, de modo a dar credibilidade e poder de persuasão

à promessa do governo de que seus poderes reguladores não serão

utilizados para restringir as liberdades do capital; evitando qualquer

movimento que possa dar a impressão de que o território politicamente

administrado pelo governo é pouco hospitaleiro com os usos, expectativas e

todas as realizações futuras do capital que pensa e age globalmente, ou

menos hospitaleiro que as terras administradas pelos vizinhos mais

próximos. Na prática, isso significa baixos impostos, menos regras e, acima

de tudo, um “mercado de trabalho flexível”. Em termos mais gerais,

significa uma população dócil, incapaz ou não-desejosa de oferecer

resistência organizada a qualquer decisão que o capital venha a tomar.

Paradoxalmente, os governos podem ter a esperança de manter o capital em

seu lugar apenas se o convencerem de que ele está livre para ir embora —

com ou sem aviso prévio.

Tendo se livrado do entulho do maquinário volumoso e das enormes

equipes de fábrica, o capital viaja leve, apenas com a bagagem de mão —

pasta, computador portátil e telefone celular. O novo atributo da

volatilidade fez de todo compromisso, especialmente do compromisso

estável, algo ao mesmo tempo redundante e pouco inteligente: seu

estabelecimento paralisaria o movimento e fugiria da desejada

competitividade, reduzindo a priori as opções que poderiam levar ao

aumento da produtividade. As bolsas de valores e diretorias administrativas

em todo o mundo estão prontas para premiar todos os passos dados na

“direção certa”, como “emagrecer” e “reduzir o tamanho”, e a punir com a

mesma presteza quaisquer notícias de expansão de equipe, aumento do

emprego e envolvimento da empresa em projetos custosos de longo prazo.

A habilidade de desaparecer como Houdini, “artista da fuga”, a estratégia

do desvio e da evitação e a prontidão e capacidade de fugir se necessário,

esse núcleo da nova política de desengajamento e descomprometimento,

são hoje sinais de saber e sucesso gerenciais. Como Michel Crozier indicou

há muito tempo, estar livre de laços complicados, compromissos

embaraçosos e dependências limitadoras da liberdade de manobra foram

sempre as armas preferidas e eficazes da dominação; mas a oferta dessas

armas e a capacidade de usá-las parecem hoje distribuídas de maneira mais

desigual do que nunca antes na história moderna. A velocidade de

movimento se tornou um fator importante, talvez o principal, da

estratificação social e da hierarquia da dominação.

As principais fontes de lucro — dos grandes lucros em especial, e

portanto do capital de amanhã — tendem a ser, numa escala sempre em

expansão, idéias e não objetos materiais. As idéias são produzidas uma vez

apenas, e ficam trazendo riqueza dependendo do número de pessoas

atraídas como compradores/clientes/consumidores — e não do número de

pessoas empregadas e envolvidas na replicação do protótipo. Quando se

trata de tornar as idéias lucrativas, os objetos da competição são os

consumidores e não os produtores. Não surpreende, pois, que hoje o

principal compromisso do capital seja com os consumidores. Só nessa

esfera se pode falar de “dependência mútua”. O capital depende, para sua

competitividade, eficácia e lucratividade, dos consumidores — e seus

itinerários são guiados pela presença ou ausência de consumidores ou pela

chance da produção de consumidores, de gerar e depois fortalecer a

demanda pelas idéias em oferta. No planejamento das viagens e na preparação de deslocamentos do capital, a presença de força de trabalho é

apenas uma consideração secundária. Conseqüentemente, o “poder de

pressão” de uma força de trabalho local sobre o capital (sobre as condições

de emprego e disponibilidade de postos de trabalho) encolheu

consideravelmente.

Robert Reich17 sugere que as pessoas presentemente envolvidas em

atividades econômicas podem ser divididas em quatro grandes categorias.

“Manipuladores de símbolos”, pessoas que inventam as idéias e maneiras

de torná-las desejáveis e vendáveis, formam a primeira categoria. Os

envolvidos na reprodução do trabalho (educadores ou diversos funcionários

do Estado de bem-estar) pertencem à segunda. A terceira categoria

compreende pessoas empregadas em “serviços pessoais” (o tipo de

ocupações que John O’Neill classificava como “mercadores de peles”), que

requerem encontros face a face com os que recebem o serviço; os

vendedores de produtos e os produtores do desejo pelos produtos formam o

grosso desta categoria.

Finalmente, a quarta categoria inclui as pessoas que pelo último século

e meio formaram o “substrato social” do movimento operário. São, nos

termos de Reich, “trabalhadores de rotina”, presos à linha de montagem ou

(em fábricas mais atualizadas) às redes de computadores e equipamentos

eletrônicos automatizados como pontos de controle. Hoje em dia tendem a

ser as partes mais dispensáveis, disponíveis e trocáveis do sistema

econômico. Em seus requisitos de emprego não constam nem habilidades

particulares, nem a arte da interação social com clientes — e assim são os

mais fáceis de substituir; têm poucas qualidades especiais que poderiam

inspirar seus empregadores a desejar mantê-los a todo custo; controlam, se

tanto, apenas parte residual e negligenciável do poder de barganha. Sabem

que são dispensáveis, e por isso não vêem razões para aderir ou se

comprometer com seu trabalho ou entrar numa associação mais durável

com seus companheiros de trabalho. Para evitar frustração iminente, tendem

a desconfiar de qualquer lealdade em relação ao local de trabalho e relutam

em inscrever seus próprios planos de vida em um futuro projetado para a

empresa. É uma reação natural à “flexibilidade” do mercado de trabalho,

que, quando traduzida na experiência individual de vida, significa que a

segurança de longo prazo é a última coisa que se aprende a associar ao

trabalho que se realiza.

Como Sennett descobriu ao visitar uma confeitaria de Nova York duas

décadas depois de sua visita anterior, “o moral e a motivação dos

trabalhadores diminuiu marcadamente depois de sucessivas rodadas de

redução de tamanho. Os trabalhadores sobreviventes esperavam pelo novo

golpe da foice em vez de exultar com a vitória competitiva sobre os

demitidos”. Mas ele acrescenta outra razão para a diminuição do interesse

dos trabalhadores por seu trabalho e pelo local de trabalho e para o

desaparecimento de seu desejo de investir raciocínio e energia moral no

futuro de ambos:

 

Em todas as formas de trabalho, da escultura a servir refeições, as

pessoas se identificam com tarefas que as desafiam, tarefas difíceis.

Mas nesse lugar de trabalho flexível, com seus trabalhadores poliglotas

que entram e saem irregularmente, com ordens radicalmente diferentes

a cada dia, o maquinário é o único padrão de ordem, e portanto tem que

ser fácil de operar por qualquer um. A dificuldade é contraproducente

num regime flexível. Por um terrível paradoxo, quando diminuímos a

dificuldade e a resistência, criamos as próprias condições para a

atividade acrítica e indiferente dos usuários.18

 

Em torno do outro pólo da divisão social, no topo da pirâmide de poder

do capitalismo leve, circulam aqueles para os quais o espaço tem pouca ou

nenhuma importância — os que estão fora de lugar em qualquer lugar em

que possam estar fisicamente presentes. São tão leves e voláteis quanto a

nova economia capitalista que os gerou e dotou de poder. Na descrição de

Jacques Attali: “Não possuem fábricas, terras, nem ocupam posições

administrativas. Sua riqueza vem de um recurso portátil: seu conhecimento

das leis do labirinto.” Eles “adoram criar, jogar e estar em movimento”.

Vivem numa sociedade “de valores voláteis, despreocupada com o futuro,

egoísta e hedonista”. “Tomam a novidade como boas novas, a precariedade

como valor, a instabilidade como imperativo, e a hibridez como riqueza.”19

Ainda que em graus variados, todos dominam a arte de “viver no labirinto”:

aceitação da desorientação, disposição a viver fora do espaço e do tempo,

com vertigens e tonturas, sem indicação da direção ou duração da viagem

em que embarcaram.

Há alguns meses, sentei com minha mulher num bar de aeroporto

esperando por um vôo de conexão. Dois homens por volta dos 30 anos sentaram-se à mesa ao lado, cada um armado de um telefone celular. Em

aproximadamente uma hora e meia de espera, não trocaram uma só palavra,

embora ambos tenham falado sem interrupção — com interlocutores

invisíveis do outro lado da ligação. O que não quer dizer que se ignorassem

mutuamente. De fato, era a percepção dessa presença que parecia motivar

suas ações. Os dois homens estavam envolvidos numa competição —

intensa, frenética e furiosa. Aquele que terminasse a conversa enquanto o

outro ainda falava buscava febrilmente outro número para ligar; claramente,

o número de conexões, o grau de “conectividade”, a densidade das

respectivas redes, que faziam deles intersecções, a quantidade de outras

intersecções a que podiam se ligar à vontade, eram questões de grande

importância, talvez importância máxima, para ambos: eram índices de nível

social, de posição, poder e prestígio. Ambos gastaram uma hora e meia no

que era, em relação ao bar do aeroporto, um espaço exterior. Quando o vôo

que ambos deveriam tomar foi anunciado, trancaram simultaneamente as

pastas com idênticos gestos sincronizados e saíram, mantendo os telefones

próximos aos ouvidos. Estou certo de que dificilmente terão notado a minha

mulher e a mim, sentados a dois metros e observando cada movimento que

faziam. No que diz respeito à sua Lebenswelt, estavam (num padrão de

antropólogos ortodoxos censurado por Claude Lévi-Strauss) fisicamente

próximos de nós, mas, espiritualmente, infinitamente distantes.

Em seu brilhante ensaio sobre o que escolheu chamar de capitalismo

“mole”, Nigel Thrift20 observa a notável mudança de vocabulário e do

quadro cognitivo que marcam a nova elite global e exterritorial. Para

referir-se a suas próprias ações, usam metáforas como “dançar” e “surfar”

não falam mais de “engenharia”, mas de culturas e redes, equipes e

coalizões, nem de controle, liderança e gerência, mas de influências.

Ocupam-se com formas mais soltas de organização que possam ser

formadas, desmanteladas e repostas a curto prazo ou mesmo sem aviso

prévio; é essa forma fluida de montagem que se adapta à sua visão do

mundo circundante como “múltiplo, complexo e rápido, e portanto

‘ambíguo’, ‘difuso’, e ‘plástico’, incerto, paradoxal, caótico mesmo”. A

organização de negócios de hoje tem um elemento de desorganização

deliberadamente embutido: quanto menos sólida e mais fluida, melhor.

Como tudo o mais no mundo, o conhecimento não pode deixar de

envelhecer rapidamente e assim é a “recusa a aceitar o conhecimento

estabelecido”, a seguir os precedentes e a reconhecer a sabedoria das lições da experiência acumulada que é agora vista como preceito básico da

eficácia e da produtividade.

Os dois jovens com telefones celulares que observei no bar do aeroporto

podem ter sido espécimes (reais ou aspirantes) dessa nova e numericamente

reduzida elite dos residentes do ciberespaço que prosperam na incerteza e

na instabilidade de todas as coisas mundanas, mas o estilo dos dominantes

tende a se tornar o estilo dominante — se não pela oferta de uma escolha

atraente, pelo menos pela imposição de uma vida cuja imitação se torna

simultaneamente desejável e imperativa, chegando a ser uma questão de

auto-satisfação e sobrevivência. Poucas pessoas gastam seu tempo em

saguões de aeroportos, e menos ainda são as que aí se sentem à vontade, ou

são pelo menos suficientemente exterritoriais para não se sentir oprimidas

ou embaraçadas pelo tédio do lugar e pela multidão desconhecida e

barulhenta que o ocupa. Mas muitos, talvez a maioria, são nômades sem

abandonar suas cavernas. Podem ainda buscar refúgio em seus lares, mas

dificilmente acharão lá o isolamento, e por mais que tentem nunca estarão

verdadeiramente em casa: os refúgios têm paredes porosas, onde se

espalham fios sem conta e que são facilmente penetradas por ondas aéreas.

Essas pessoas são, como a maioria antes delas, dominadas e

“remotamente controladas” mas são dominadas e controladas de uma

maneira nova. A liderança foi substituída pelo espetáculo: ai daqueles que

ousem lhes negar entrada. Acesso à “informação” (em sua maioria

eletrônica) se tornou o direito humano mais zelosamente defendido e o

aumento do bem-estar da população como um todo é hoje medido, entre

outras coisas, pelo número de domicílios equipados com (invadidos por?)

aparelhos de televisão. E aquilo sobre o que a informação mais informa é a

fluidez do mundo habitado e a flexibilidade dos habitantes. “O noticiário”

— essa parte da informação eletrônica que tem maior chance de ser

confundida com a verdadeira representação do “mundo lá fora”, e a mais

forte pretensão ao papel de “espelho da realidade” (e a que comumente se

dá o crédito de refletir essa realidade fielmente e sem distorção) — está na

estimativa de Pierre Bourdieu entre os mais perecíveis dos bens em oferta;

de fato, a vida útil dos noticiários é risivelmente curta se os compararmos às

novelas, programas de entrevistas e programas cômicos. Mas a

perecibilidade dos noticiários enquanto informação sobre o “mundo real” é

em si mesma uma importante informação: a transmissão das notícias é a

celebração constante e diariamente repetida da enorme velocidade da mudança, do acelerado envelhecimento e da perpetuidade dos novos