Modernidade Líquida
Do casamento à coabitação
trabalho está saturada de incertezas.
Do casamento à coabitação
Pode-se sempre responder que não há nada particularmente novo nessa
situação: a vida de trabalho sempre foi cheia de incertezas, desde tempos
imemoriais. A incerteza de hoje, porém, é de um tipo inteiramente novo. Os
temíveis desastres que podem devastar nossa sobrevivência e suas
perspectivas não são do tipo que possa ser repelido ou contra que se possa
lutar unindo forças, permanecendo unidos e com medidas debatidas,
acordadas e postas em prática em conjunto. Os desastres mais terríveis
acontecem hoje aleatoriamente, escolhendo suas vítimas com a lógica mais
bizarra ou sem qualquer lógica, distribuindo seus golpes caprichosamente,
de tal forma que não há como prever quem será condenado e quem será
salvo. A incerteza do presente é uma poderosa força individualizadora. Ela
divide em vez de unir, e como não há maneira de dizer quem acordará no
próximo dia em qual divisão, a idéia de “interesse comum” fica cada vez
mais nebulosa e perde todo valor prático.
Os medos, ansiedades e angústias contemporâneos são feitos para serem
sofridos em solidão. Não se somam, não se acumulam numa “causa
comum”, não têm endereço específico, e muito menos óbvio. Isso priva as
posições de solidariedade de seu status antigo de táticas racionais e sugere
uma estratégia de vida muito diferente da que levou ao estabelecimento das
organizações militantes em defesa da classe trabalhadora. Ao falar com
pessoas já atingidas ou que temiam vir a ser atingidas pelas mudanças
correntes nas condições de emprego, Pierre Bourdieu ouviu vezes sem
conta que “em face das novas formas de exploração, notavelmente
favorecidas pela desregulação do trabalho e pelo desenvolvimento do
emprego temporário, as formas tradicionais de ação sindical são
consideradas inadequadas”. Bourdieu conclui que fatos recentes
“quebraram os fundamentos das solidariedades passadas” e que o resultante
“desencantamento vai de mãos dadas com o desaparecimento do espírito de
militância e participação política”.15
Quando a utilização do trabalho se torna de curto prazo e precária, tendo
sido ele despido de perspectivas firmes (e muito menos garantidas) e portanto tornado episódico, quando virtualmente todas as regras relativas ao
jogo das promoções e demissões foram esgotadas ou tendem a ser alteradas
antes que o jogo termine, há pouca chance de que a lealdade e o
compromisso mútuos brotem e se enraízem. Ao contrário dos tempos de
dependência mútua de longo prazo, não há quase estímulo para um
interesse agudo, sério e crítico por conhecer os empreendimentos comuns e
os arranjos a eles relacionados, que de qualquer forma seriam transitórios.
O emprego parece um acampamento que se visita por alguns dias e que se
pode abandonar a qualquer momento se as vantagens oferecidas não se
verificarem ou se forem consideradas insatisfatórias — e não com um
domicílio compartilhado onde nos inclinamos a ter trabalho e construir
pacientemente regras aceitáveis de convivência. Mark Granovetter sugeriu
que o nosso é um tempo de “laços fracos”, enquanto Sennett propõe que
“formas fugazes de associação são mais úteis para as pessoas que conexões
de longo prazo”.16
A presente versão “liquefeita”, “fluida”, dispersa, espalhada e
desregulada da modernidade pode não implicar o divórcio e ruptura final da
comunicação, mas anuncia o advento do capitalismo leve e flutuante,
marcado pelo desengajamento e enfraquecimento dos laços que prendem o
capital ao trabalho. Pode-se dizer que esse movimento ecoa a passagem do
casamento para o “viver junto”, com todas as atitudes disso decorrentes e
conseqüências estratégicas, incluindo a suposição da transitoriedade da
coabitação e da possibilidade de que a associação seja rompida a qualquer
momento e por qualquer razão, uma vez desaparecida a necessidade ou o
desejo. Se manter-se juntos era uma questão de acordo recíproco e de
mútua dependência, o desengajamento é unilateral: um dos lados da
configuração adquiriu uma autonomia que talvez sempre tenha desejado
secretamente mas que nunca havia manifestado seriamente antes. Numa
medida nunca alcançada na realidade pelos “senhores ausentes” de outrora,
o capital rompeu sua dependência em relação ao trabalho com uma nova
liberdade de movimentos, impensável no passado. A reprodução e o
crescimento do capital, dos lucros e dos dividendos e a satisfação dos
acionistas se tornaram independentes da duração de qualquer
comprometimento local com o trabalho.
É claro que a independência não é completa, e o capital não é ainda tão
volátil como gostaria de e tenta ser. Fatores territoriais — locais — ainda
devem ser considerados na maioria dos cálculos, e o “poder de confusão” dos governos locais ainda pode colocar limites constrangedores à sua
liberdade de movimento. Mas o capital se tornou exterritorial, leve,
desembaraçado e solto numa medida sem precedentes, e seu nível de
mobilidade espacial é na maioria dos casos suficiente para chantagear as
agências políticas dependentes de território e fazê-las se submeterem a suas
demandas. A ameaça (mesmo quando não expressa e meramente
adivinhada) de cortar os laços locais e mudar-se para outro lugar é uma
coisa que qualquer governo responsável, em benefício próprio e no de seus
concidadãos, deve tratar com a maior seriedade, tentando subordinar suas
políticas ao propósito supremo de evitar a ameaça do desinvestimento.
A política hoje se tornou um cabo-de-guerra entre a velocidade com que
o capital pode se mover e as capacidades cada vez mais lentas dos poderes
locais, e são as instituições locais que com mais freqüência se lançam numa
batalha que não podem vencer. Um governo dedicado ao bem-estar de seus
cidadãos tem pouca escolha além de implorar e adular, e não pode forçar o
capital a vir e, uma vez dentro, a construir arranha-céus para seus
escritórios em vez de ficar em quartos de hotel alugados por dia. E isso
pode ser feito ou tentado (para usar o jargão comum à política da era do
livre comércio) “criando melhores condições para a livre empresa”, o que
significa ajustar o jogo político às regras da “livre empresa” — isto é,
usando todo o poder regulador à disposição do governo a serviço da
desregulação, do desmantelamento e destruição das leis e estatutos
“restritivos às empresas”, de modo a dar credibilidade e poder de persuasão
à promessa do governo de que seus poderes reguladores não serão
utilizados para restringir as liberdades do capital; evitando qualquer
movimento que possa dar a impressão de que o território politicamente
administrado pelo governo é pouco hospitaleiro com os usos, expectativas e
todas as realizações futuras do capital que pensa e age globalmente, ou
menos hospitaleiro que as terras administradas pelos vizinhos mais
próximos. Na prática, isso significa baixos impostos, menos regras e, acima
de tudo, um “mercado de trabalho flexível”. Em termos mais gerais,
significa uma população dócil, incapaz ou não-desejosa de oferecer
resistência organizada a qualquer decisão que o capital venha a tomar.
Paradoxalmente, os governos podem ter a esperança de manter o capital em
seu lugar apenas se o convencerem de que ele está livre para ir embora —
com ou sem aviso prévio.
Tendo se livrado do entulho do maquinário volumoso e das enormes
equipes de fábrica, o capital viaja leve, apenas com a bagagem de mão —
pasta, computador portátil e telefone celular. O novo atributo da
volatilidade fez de todo compromisso, especialmente do compromisso
estável, algo ao mesmo tempo redundante e pouco inteligente: seu
estabelecimento paralisaria o movimento e fugiria da desejada
competitividade, reduzindo a priori as opções que poderiam levar ao
aumento da produtividade. As bolsas de valores e diretorias administrativas
em todo o mundo estão prontas para premiar todos os passos dados na
“direção certa”, como “emagrecer” e “reduzir o tamanho”, e a punir com a
mesma presteza quaisquer notícias de expansão de equipe, aumento do
emprego e envolvimento da empresa em projetos custosos de longo prazo.
A habilidade de desaparecer como Houdini, “artista da fuga”, a estratégia
do desvio e da evitação e a prontidão e capacidade de fugir se necessário,
esse núcleo da nova política de desengajamento e descomprometimento,
são hoje sinais de saber e sucesso gerenciais. Como Michel Crozier indicou
há muito tempo, estar livre de laços complicados, compromissos
embaraçosos e dependências limitadoras da liberdade de manobra foram
sempre as armas preferidas e eficazes da dominação; mas a oferta dessas
armas e a capacidade de usá-las parecem hoje distribuídas de maneira mais
desigual do que nunca antes na história moderna. A velocidade de
movimento se tornou um fator importante, talvez o principal, da
estratificação social e da hierarquia da dominação.
As principais fontes de lucro — dos grandes lucros em especial, e
portanto do capital de amanhã — tendem a ser, numa escala sempre em
expansão, idéias e não objetos materiais. As idéias são produzidas uma vez
apenas, e ficam trazendo riqueza dependendo do número de pessoas
atraídas como compradores/clientes/consumidores — e não do número de
pessoas empregadas e envolvidas na replicação do protótipo. Quando se
trata de tornar as idéias lucrativas, os objetos da competição são os
consumidores e não os produtores. Não surpreende, pois, que hoje o
principal compromisso do capital seja com os consumidores. Só nessa
esfera se pode falar de “dependência mútua”. O capital depende, para sua
competitividade, eficácia e lucratividade, dos consumidores — e seus
itinerários são guiados pela presença ou ausência de consumidores ou pela
chance da produção de consumidores, de gerar e depois fortalecer a
demanda pelas idéias em oferta. No planejamento das viagens e na preparação de deslocamentos do capital, a presença de força de trabalho é
apenas uma consideração secundária. Conseqüentemente, o “poder de
pressão” de uma força de trabalho local sobre o capital (sobre as condições
de emprego e disponibilidade de postos de trabalho) encolheu
consideravelmente.
Robert Reich17 sugere que as pessoas presentemente envolvidas em
atividades econômicas podem ser divididas em quatro grandes categorias.
“Manipuladores de símbolos”, pessoas que inventam as idéias e maneiras
de torná-las desejáveis e vendáveis, formam a primeira categoria. Os
envolvidos na reprodução do trabalho (educadores ou diversos funcionários
do Estado de bem-estar) pertencem à segunda. A terceira categoria
compreende pessoas empregadas em “serviços pessoais” (o tipo de
ocupações que John O’Neill classificava como “mercadores de peles”), que
requerem encontros face a face com os que recebem o serviço; os
vendedores de produtos e os produtores do desejo pelos produtos formam o
grosso desta categoria.
Finalmente, a quarta categoria inclui as pessoas que pelo último século
e meio formaram o “substrato social” do movimento operário. São, nos
termos de Reich, “trabalhadores de rotina”, presos à linha de montagem ou
(em fábricas mais atualizadas) às redes de computadores e equipamentos
eletrônicos automatizados como pontos de controle. Hoje em dia tendem a
ser as partes mais dispensáveis, disponíveis e trocáveis do sistema
econômico. Em seus requisitos de emprego não constam nem habilidades
particulares, nem a arte da interação social com clientes — e assim são os
mais fáceis de substituir; têm poucas qualidades especiais que poderiam
inspirar seus empregadores a desejar mantê-los a todo custo; controlam, se
tanto, apenas parte residual e negligenciável do poder de barganha. Sabem
que são dispensáveis, e por isso não vêem razões para aderir ou se
comprometer com seu trabalho ou entrar numa associação mais durável
com seus companheiros de trabalho. Para evitar frustração iminente, tendem
a desconfiar de qualquer lealdade em relação ao local de trabalho e relutam
em inscrever seus próprios planos de vida em um futuro projetado para a
empresa. É uma reação natural à “flexibilidade” do mercado de trabalho,
que, quando traduzida na experiência individual de vida, significa que a
segurança de longo prazo é a última coisa que se aprende a associar ao
trabalho que se realiza.
Como Sennett descobriu ao visitar uma confeitaria de Nova York duas
décadas depois de sua visita anterior, “o moral e a motivação dos
trabalhadores diminuiu marcadamente depois de sucessivas rodadas de
redução de tamanho. Os trabalhadores sobreviventes esperavam pelo novo
golpe da foice em vez de exultar com a vitória competitiva sobre os
demitidos”. Mas ele acrescenta outra razão para a diminuição do interesse
dos trabalhadores por seu trabalho e pelo local de trabalho e para o
desaparecimento de seu desejo de investir raciocínio e energia moral no
futuro de ambos:
Em todas as formas de trabalho, da escultura a servir refeições, as
pessoas se identificam com tarefas que as desafiam, tarefas difíceis.
Mas nesse lugar de trabalho flexível, com seus trabalhadores poliglotas
que entram e saem irregularmente, com ordens radicalmente diferentes
a cada dia, o maquinário é o único padrão de ordem, e portanto tem que
ser fácil de operar por qualquer um. A dificuldade é contraproducente
num regime flexível. Por um terrível paradoxo, quando diminuímos a
dificuldade e a resistência, criamos as próprias condições para a
atividade acrítica e indiferente dos usuários.18
Em torno do outro pólo da divisão social, no topo da pirâmide de poder
do capitalismo leve, circulam aqueles para os quais o espaço tem pouca ou
nenhuma importância — os que estão fora de lugar em qualquer lugar em
que possam estar fisicamente presentes. São tão leves e voláteis quanto a
nova economia capitalista que os gerou e dotou de poder. Na descrição de
Jacques Attali: “Não possuem fábricas, terras, nem ocupam posições
administrativas. Sua riqueza vem de um recurso portátil: seu conhecimento
das leis do labirinto.” Eles “adoram criar, jogar e estar em movimento”.
Vivem numa sociedade “de valores voláteis, despreocupada com o futuro,
egoísta e hedonista”. “Tomam a novidade como boas novas, a precariedade
como valor, a instabilidade como imperativo, e a hibridez como riqueza.”19
Ainda que em graus variados, todos dominam a arte de “viver no labirinto”:
aceitação da desorientação, disposição a viver fora do espaço e do tempo,
com vertigens e tonturas, sem indicação da direção ou duração da viagem
em que embarcaram.
Há alguns meses, sentei com minha mulher num bar de aeroporto
esperando por um vôo de conexão. Dois homens por volta dos 30 anos sentaram-se à mesa ao lado, cada um armado de um telefone celular. Em
aproximadamente uma hora e meia de espera, não trocaram uma só palavra,
embora ambos tenham falado sem interrupção — com interlocutores
invisíveis do outro lado da ligação. O que não quer dizer que se ignorassem
mutuamente. De fato, era a percepção dessa presença que parecia motivar
suas ações. Os dois homens estavam envolvidos numa competição —
intensa, frenética e furiosa. Aquele que terminasse a conversa enquanto o
outro ainda falava buscava febrilmente outro número para ligar; claramente,
o número de conexões, o grau de “conectividade”, a densidade das
respectivas redes, que faziam deles intersecções, a quantidade de outras
intersecções a que podiam se ligar à vontade, eram questões de grande
importância, talvez importância máxima, para ambos: eram índices de nível
social, de posição, poder e prestígio. Ambos gastaram uma hora e meia no
que era, em relação ao bar do aeroporto, um espaço exterior. Quando o vôo
que ambos deveriam tomar foi anunciado, trancaram simultaneamente as
pastas com idênticos gestos sincronizados e saíram, mantendo os telefones
próximos aos ouvidos. Estou certo de que dificilmente terão notado a minha
mulher e a mim, sentados a dois metros e observando cada movimento que
faziam. No que diz respeito à sua Lebenswelt, estavam (num padrão de
antropólogos ortodoxos censurado por Claude Lévi-Strauss) fisicamente
próximos de nós, mas, espiritualmente, infinitamente distantes.
Em seu brilhante ensaio sobre o que escolheu chamar de capitalismo
“mole”, Nigel Thrift20 observa a notável mudança de vocabulário e do
quadro cognitivo que marcam a nova elite global e exterritorial. Para
referir-se a suas próprias ações, usam metáforas como “dançar” e “surfar”
não falam mais de “engenharia”, mas de culturas e redes, equipes e
coalizões, nem de controle, liderança e gerência, mas de influências.
Ocupam-se com formas mais soltas de organização que possam ser
formadas, desmanteladas e repostas a curto prazo ou mesmo sem aviso
prévio; é essa forma fluida de montagem que se adapta à sua visão do
mundo circundante como “múltiplo, complexo e rápido, e portanto
‘ambíguo’, ‘difuso’, e ‘plástico’, incerto, paradoxal, caótico mesmo”. A
organização de negócios de hoje tem um elemento de desorganização
deliberadamente embutido: quanto menos sólida e mais fluida, melhor.
Como tudo o mais no mundo, o conhecimento não pode deixar de
envelhecer rapidamente e assim é a “recusa a aceitar o conhecimento
estabelecido”, a seguir os precedentes e a reconhecer a sabedoria das lições da experiência acumulada que é agora vista como preceito básico da
eficácia e da produtividade.
Os dois jovens com telefones celulares que observei no bar do aeroporto
podem ter sido espécimes (reais ou aspirantes) dessa nova e numericamente
reduzida elite dos residentes do ciberespaço que prosperam na incerteza e
na instabilidade de todas as coisas mundanas, mas o estilo dos dominantes
tende a se tornar o estilo dominante — se não pela oferta de uma escolha
atraente, pelo menos pela imposição de uma vida cuja imitação se torna
simultaneamente desejável e imperativa, chegando a ser uma questão de
auto-satisfação e sobrevivência. Poucas pessoas gastam seu tempo em
saguões de aeroportos, e menos ainda são as que aí se sentem à vontade, ou
são pelo menos suficientemente exterritoriais para não se sentir oprimidas
ou embaraçadas pelo tédio do lugar e pela multidão desconhecida e
barulhenta que o ocupa. Mas muitos, talvez a maioria, são nômades sem
abandonar suas cavernas. Podem ainda buscar refúgio em seus lares, mas
dificilmente acharão lá o isolamento, e por mais que tentem nunca estarão
verdadeiramente em casa: os refúgios têm paredes porosas, onde se
espalham fios sem conta e que são facilmente penetradas por ondas aéreas.
Essas pessoas são, como a maioria antes delas, dominadas e
“remotamente controladas” mas são dominadas e controladas de uma
maneira nova. A liderança foi substituída pelo espetáculo: ai daqueles que
ousem lhes negar entrada. Acesso à “informação” (em sua maioria
eletrônica) se tornou o direito humano mais zelosamente defendido e o
aumento do bem-estar da população como um todo é hoje medido, entre
outras coisas, pelo número de domicílios equipados com (invadidos por?)
aparelhos de televisão. E aquilo sobre o que a informação mais informa é a
fluidez do mundo habitado e a flexibilidade dos habitantes. “O noticiário”
— essa parte da informação eletrônica que tem maior chance de ser
confundida com a verdadeira representação do “mundo lá fora”, e a mais
forte pretensão ao papel de “espelho da realidade” (e a que comumente se
dá o crédito de refletir essa realidade fielmente e sem distorção) — está na
estimativa de Pierre Bourdieu entre os mais perecíveis dos bens em oferta;
de fato, a vida útil dos noticiários é risivelmente curta se os compararmos às
novelas, programas de entrevistas e programas cômicos. Mas a
perecibilidade dos noticiários enquanto informação sobre o “mundo real” é
em si mesma uma importante informação: a transmissão das notícias é a
celebração constante e diariamente repetida da enorme velocidade da mudança, do acelerado envelhecimento e da perpetuidade dos novos