Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 21 de 42

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Modernidade Líquida

Não fale com estranhos

por muitos usuários diferentes.

Numa de minhas viagens de conferências (a uma cidade populosa,

grande e viva do sul da Europa), fui recebido no aeroporto por uma jovem

professora, filha de um casal de profissionais ricos e de alta escolaridade.

Ela se desculpou porque a ida para o hotel não seria fácil, e tomaria muito

tempo, pois não havia como evitar as movimentadas avenidas para o centro

da cidade, constantemente engarrafadas pelo tráfego pesado. De fato,

levamos quase duas horas para chegar ao lugar. Minha guia ofereceu-se

para conduzir-me ao aeroporto no dia da partida. Sabendo quão cansativo

era dirigir na cidade, agradeci sua gentileza e boa vontade, mas disse que

tomaria um táxi. O que fiz. Desta vez, a ida ao aeroporto tomou menos de

dez minutos. Mas o motorista foi por fileiras de barracos pobres, decadentes

e esquecidos, cheios de pessoas rudes e evidentemente desocupadas e

crianças sujas vestindo farrapos. A ênfase de minha guia em que não havia

como evitar o tráfego do centro da cidade não era mentira. Era sincera e

adequada a seu mapa mental da cidade em que tinha nascido e onde sempre

vivera. Esse mapa não registrava as ruas dos feios “distritos perigosos”

pelas quais o táxi me levou. No mapa mental de minha guia, no lugar em

que essas ruas deveriam ter sido projetadas havia, pura e simplesmente, um

espaço vazio.

A cidade, como outras cidades, tem muitos habitantes, cada um com um

mapa da cidade em sua cabeça. Cada mapa tem seus espaços vazios, ainda

que em mapas diferentes eles se localizem em lugares diferentes. Os mapas

que orientam os movimentos das várias categorias de habitantes não se

superpõem, mas, para que qualquer mapa “faça sentido”, algumas áreas da

cidade devem permanecer sem sentido. Excluir tais lugares permite que o

resto brilhe e se encha de significado.

O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de

quem anda. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria

perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de

humanos.

 

Não fale com estranhos A principal característica da civilidade é a capacidade de interagir com

estranhos sem utilizar essa estranheza contra eles e sem pressioná-los a

abandoná-la ou a renunciar a alguns dos traços que os fazem estranhos. A

principal característica dos lugares “públicos mas não civis” — as quatro

categorias listadas acima — é a dispensabilidade dessa interação. Se a

proximidade física não puder ser evitada, ela pode pelo menos ser despida

da ameaça de “estar juntos” que contém, com seu convite ao encontro

significativo, ao diálogo e à interação. Se não se puder evitar o encontro

com estranhos, pode-se pelo menos tentar evitar maior contato. Que os

estranhos, como as crianças da era vitoriana, possam ser vistos mas não

ouvidos, ou, se não se puder evitar ouvi-los, que ao menos não se escute o

que dizem. A questão é fazer o que quer que digam irrelevante e sem

conseqüências para o que pode e deve ser feito.

Todos esses expedientes não passam de meias-medidas: as soluções

menos ruins ou os menos detestáveis e prejudiciais dos males. Lugares

“públicos mas não civis” permitem que lavemos nossas mãos de qualquer

intercâmbio com os estranhos à nossa volta e que evitemos o comércio

arriscado, a comunicação difícil, a negociação enervante e as concessões

irritantes. Não impedem, porém, o encontro com estranhos; ao contrário,

supõem-no — foram criados por causa dessa suposição. São, por assim

dizer, curas para uma doença já contraída — e não uma medicina preventiva

que tornaria desnecessário o tratamento. E todos os tratamentos, como

sabemos, podem ou não debelar a doença. Há poucos — se houver —

métodos eficazes a toda prova. Como seria bom, portanto, tornar o

tratamento desnecessário imunizando o organismo contra a doença. Donde

livrar-se da companhia de estranhos parece uma perspectiva mais atraente e

segura que as estratégias mais sofisticadas para neutralizar sua presença.

Essa pode parecer uma solução melhor, mas não está livre de seus

próprios perigos. Mexer com o sistema imunológico é arriscado e pode

mostrar-se patogênico. Ademais, tornar o organismo resistente a certas

ameaças provavelmente o torna vulnerável a outras. Dificilmente qualquer

interferência estará livre de horríveis efeitos colaterais: diversas

intervenções médicas são conhecidas pelas doenças iatrogênicas que

provocam — doenças que resultam da própria intervenção, que não são

menos (se não mais) perigosas que a doença que se pretendia curar.

Como indica Richard Sennett,

invocam-se mais a lei e a ordem quando as comunidades estão mais

isoladas das outras pessoas na cidade …

Durante as últimas duas décadas as cidades nos EUA cresceram de

maneira que homogeneizou as áreas étnicas; não é por acaso, então,

que o medo do estranho também cresceu à medida que essas

comunidades étnicas foram isoladas.13

 

A capacidade de conviver com a diferença, sem falar na capacidade de

gostar dessa vida e beneficiar-se dela, não é fácil de adquirir e não se faz

sozinha. Essa capacidade é uma arte que, como toda arte, requer estudo e

exercício. A incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres humanos e a

ambivalência de todas as decisões classificatórias, ao contrário, se

autoperpetuam e reforçam: quanto mais eficazes a tendência à

homogeneidade e o esforço para eliminar a diferença, tanto mais difícil

sentir-se à vontade em presença de estranhos, tanto mais ameaçadora a

diferença e tanto mais intensa a ansiedade que ela gera. O projeto de

esconder-se do impacto enervante da multivocalidade urbana nos abrigos da

conformidade, monotonia e repetitividade comunitárias é um projeto que se

auto-alimenta, mas que está fadado à derrota. Essa poderia ser uma verdade

trivial, não fosse o fato de que o ressentimento em relação à diferença

também se autocorrobora: à medida que o impulso à uniformidade se

intensifica, o mesmo acontece com o horror ao perigo representado pelos

“estranhos no portão”. O perigo representado pela companhia de estranhos

é uma clássica profecia autocumprida. Torna-se cada vez mais fácil misturar

a visão dos estranhos com os medos difusos da insegurança; o que no

começo era uma mera suposição torna-se uma verdade comprovada, para

acabar como algo evidente.

A perplexidade se torna um círculo vicioso. Como a arte de negociar

interesses comuns e um destino compartilhado vem caindo em desuso,

raramente é praticada, está meio esquecida ou nunca foi propriamente

aprendida; como a idéia do “bem comum” é vista com suspeição, como

ameaçadora, nebulosa ou confusa — a busca da segurança numa identidade

comum e não em função de interesses compartilhados emerge como o modo

mais sensato, eficaz e lucrativo de proceder; e as preocupações com a

identidade e a defesa contra manchas nela tornam a idéia de interesses

comuns, e mais ainda interesses comuns negociados, tanto mais incrível e

fantasiosa, tornando ao mesmo tempo improvável o surgimento da capacidade e da vontade de sair em busca desses interesses comuns. Como

resume Sharon Zukin: “Ninguém mais sabe falar com ninguém”.

Zukin sugere que “a exaustão do ideal de um destino comum reforçou o

apelo da cultura” mas “no uso norte-americano comum, a cultura é, antes de

tudo, a etnicidade”, que, por sua vez é “um modo legítimo de escavar um

nicho na sociedade”.14 Escavar um nicho, não há dúvida, implica acima de

tudo separação territorial, o direito a um “espaço defensável” separado,

espaço que precisa de defesa e é digno de defesa precisamente por ser

separado — isto é, porque foi cercado de postos de fronteira que permitem

a entrada apenas de pessoas “da mesma” identidade e impedem o acesso a

quaisquer outros. Como o propósito da separação territorial é a

homogeneidade do bairro, a “etnicidade” é mais adequada que qualquer

outra “identidade” imaginada.

Ao contrário de outras identidades postuladas, a idéia de etnicidade é

semanticamente carregada. Ela supõe axiomaticamente um casamento

divino que nenhum esforço na terra pode desmanchar, uma espécie de laço

predeterminado de unidade que precede toda negociação e eventuais

acordos sobre direitos e obrigações. Em outras palavras, a homogeneidade

que presumivelmente marca as entidades étnicas é heterônoma: não um

artefato humano, e certamente não o produto da geração atual de humanos.

Não surpreende, pois, que a etnicidade, mais que qualquer outra espécie de

identidade postulada, seja a primeira escolha quando se trata de fugir do

assustador espaço polifônico onde “ninguém sabe falar com ninguém” para

o “nicho seguro” onde “todos são parecidos com todos” — e onde, assim,

há pouco sobre o que falar e a fala é fácil. Tampouco surpreende que, sem

muita consideração pela lógica, outras comunidades postuladas, enquanto

reivindicam seus próprios “nichos na sociedade”, queiram tirar sua

lasquinha da etnicidade e inventem cuidadosamente suas próprias raízes,

tradições, história compartilhada e futuro comum — mas, antes e acima de

tudo, sua cultura separada e singular, que por causa de sua genuína ou

putativa singularidade merece ser considerada “um valor em si mesma”.

Seria equivocado explicar o renascido comunitarismo de nossos tempos

como um soluço de instintos ou inclinações ainda não inteiramente

erradicados que o progresso da modernização mais cedo ou mais tarde vai

neutralizar ou diluir; seria igualmente equivocado descartá-lo como uma

falha da razão momentânea — um lamentável mas inevitável caso de

irracionalidade, em flagrante contradição com as implicações de uma “escolha pública” racionalmente fundada. Cada formação social promove

seu próprio tipo de racionalidade, investe seu próprio significado na idéia

de uma estratégia racional de vida — e pode-se argumentar em defesa da

hipótese de que a corrente metamorfose do comunitarismo é uma resposta

racional à crise genuína do “espaço público” — e portanto da política, essa

atividade humana para a qual o espaço público é o terreno natural.

Com o domínio da política se estreitando aos limites das confissões

públicas, exibições públicas da intimidade e exame e censura públicas de

virtudes e vícios privados; com a questão da credibilidade das pessoas

expostas à vista pública substituindo a consideração sobre qual é e deve ser

o objeto da política; com a visão de uma sociedade boa e justa praticamente

ausente do discurso político — não é de surpreender que (como já

observava Sennett há 20 anos)15 as pessoas “se tornem espectadores

passivos de uma personagem política que lhes oferece para consumo suas

intenções e sentimentos em lugar de seus atos”. A questão é, porém, que os

espectadores não esperam, dos políticos e de todos os outros na ribalta,

mais que um bom espetáculo. E assim o espetáculo da política, como outros

espetáculos publicamente encenados, se torna a mensagem monótona e

incessantemente martelada da prioridade da identidade sobre os interesses,

ou a lição pública contínua de que a identidade, e não os interesses, é o que

verdadeiramente importa, assim como o que verdadeiramente importa é

quem se é e não o que se está fazendo. De cima a baixo, é a revelação do

verdadeiro eu que se torna a essência das relações em público e da vida

pública como tal; e é a identidade que se torna o estilhaço a que os

náufragos em busca de socorro se agarram quando afundam os navios do

interesse. E então, como sugere Sennett, “manter a comunidade torna-se um

fim em si mesmo; o expurgo dos que não fazem parte torna-se assunto da

comunidade”. Não mais se precisa uma “justificação para a recusa à

negociação, para o expurgo contínuo dos de fora”.

Esforços para manter à distância o “outro”, o diferente, o estranho e o

estrangeiro, e a decisão de evitar a necessidade de comunicação, negociação

e compromisso mútuo, não são a única resposta concebível à incerteza

existencial enraizada na nova fragilidade ou fluidez dos laços sociais. Essa

decisão certamente se adapta à nossa preocupação contemporânea obsessiva

com poluição e purificação, à nossa tendência de identificar o perigo para a

segurança corporal com a invasão de “corpos estranhos” e de identificar a

segurança não-ameaçada com a pureza. A atenção agudamente apreensiva às substâncias que entram no corpo pela boca e pelas narinas, e aos

estranhos que se esgueiram sub-repticiamente pelas vizinhanças do corpo,

acomodam-se lado a lado no mesmo quadro cognitivo. Ambas ativam um

desejo de “expeli-los do sistema”.

Esses desejos convergem, aliam-se e condensam-se na política da

separação étnica, e particularmente na defesa contra a vinda dos

“estrangeiros”. Como diz Georges Benko,16

 

há Outros que são mais Outros que os Outros, os estrangeiros. Excluir

pessoas como estrangeiras porque não somos mais capazes de conceber

o Outro indica uma patologia social.

 

Pode ser patologia, mas não uma patologia da mente que tenta em vão

forçar um sentido para um mundo destituído de significado estável e

confiável; é uma patologia do espaço público que resulta numa patologia da

política: o esvaziamento e a decadência da arte do diálogo e da negociação,

e a substituição do engajamento e mútuo comprometimento pelas técnicas

do desvio e da evasão.

“Não fale com estranhos” — outrora uma advertência de pais zelosos a

seus pobres filhos — tornou-se o preceito estratégico da normalidade

adulta. Esse preceito reafirma como regra de prudência a realidade de uma

vida em que os estranhos são pessoas com quem nos recusamos a falar. Os

governos impotentes para atacar as raízes da insegurança e ansiedade de

seus súditos estão bem-dispostos e felizes com a situação. Uma frente de

“imigrantes”, essa mais completa e tangível encarnação do “outro”, pode

muito bem levar a unir o difuso amontoado de indivíduos atemorizados e

desorientados em alguma coisa vagamente assemelhada a uma

“comunidade nacional” e essa é uma das poucas tarefas que os governos de

nosso tempo são capazes de fazer e têm feito.

O Heritage Park de George Hazeldon seria um lugar onde, afinal, todos

os passantes poderiam falar livremente uns com os outros. Eles seriam

livres para falar porque haveria muito pouco sobre o que falar — à exceção

da troca de frases rotineiras e familiares que não geram controvérsia, mas

tampouco implicam comprometimento. A sonhada pureza da comunidade

de Heritage Park só pode ser conquistada ao preço do desengajamento e da

ruptura dos laços.