Modernidade Líquida
Digressão: breve história da procrastinação
começos.21
Digressão: breve história da procrastinação
Cras, em latim, quer dizer “amanhã”. A palavra também costumava ser
semanticamente elástica, não muito diferente do famosamente vago
mañana, para incluir o “mais tarde” — o futuro como tal. Crastinus é o que
pertence ao amanhã. Pro-crastinar é pôr alguma coisa entre as coisas que
pertencem ao amanhã. Pôr algo lá implica imediatamente que o amanhã
não é o lugar natural dessa coisa, que a coisa em questão não faz parte por
direito do amanhã. Por implicação, ela faz parte de outro lugar. Qual?
Obviamente o presente. Para ser destinada ao amanhã, essa coisa primeiro
teve que ser tirada do presente ou teve barrado seu acesso a ele.
“Procrastinar” significa não tomar as coisas como elas vêm, não agir
segundo uma sucessão natural de coisas. Contra uma impressão que se
tornou comum na era moderna, a procrastinação não é uma questão de
displicência, indolência ou lassidão; é uma posição ativa, uma tentativa de
assumir o controle da seqüência de eventos e fazê-la diferente do que seria
caso se ficasse dócil e não se resistisse. Procrastinar é manipular as
possibilidades da presença de uma coisa, deixando, atrasando e adiando seu
estar presente, mantendo-a à distância e transferindo sua imediatez.
A procrastinação como prática cultural surgiu com a modernidade. Seu
novo sentido e seu significado ético derivam do novo significado do tempo,
do tempo que tem história, do tempo que é história. Esse sentido deriva do
tempo concebido como uma passagem entre “momentos presentes” de
qualidade diferente e de valor variado; do tempo considerado como
viajando em direção a outro presente distinto (e mais desejável) do presente
vivido agora.
Resumindo: a procrastinação deriva seu sentido moderno do tempo
vivido como uma peregrinação, como um movimento que se aproxima de
um objetivo. Em tal tempo, cada presente é avaliado por alguma coisa que
vem depois. Qualquer valor que este presente aqui e agora possa ter não
passará de um sinal premonitório de um valor maior por vir. O uso — a
tarefa — do presente é levar-nos mais para perto desse valor mais alto. Em
si mesmo, o tempo presente carece de sentido e de valor. É, por isso, falho, deficiente e incompleto. O sentido do presente está adiante; o que está à
mão ganha sentido e é avaliado pelo noch-nicht-geworden, pelo que ainda
não existe.
Viver a vida como uma peregrinação é, portanto, intrinsecamente
aporético. E obriga cada presente a servir a alguma coisa que ainda-não-é, e
a servi-la diminuindo a distância, trabalhando para a proximidade e a
imediatez. Mas se a distância desaparecesse e o objetivo fosse alcançado, o
presente perderia tudo o que o fazia significativo e valioso. A racionalidade
instrumental favorecida e privilegiada pela vida do peregrino leva à busca
dos meios que podem realizar o estranho feito de manter o fim dos esforços
sempre à vista sem nunca chegar lá, de trazer o fim cada vez mais para
perto, mas impedindo ao mesmo tempo que a distância caia para zero. A
vida do peregrino é uma viagem em direção à realização, mas “realização”
nesta vida é equivalente à perda de sentido. Viajar em direção à realização
dá sentido à vida do peregrino, mas o sentido que dá tem algo de um
impulso suicida; esse sentido não pode sobreviver à chegada ao destino.
A procrastinação reflete essa ambivalência. O peregrino procrastina
para estar mais bem preparado para captar as coisas que verdadeiramente
importam. Mas captá-las sinalizará o fim da peregrinação, e assim também
o fim de uma vida que dela deriva seu único sentido. Por essa razão, a
procrastinação tem uma tendência a romper qualquer limite de tempo
colocado de antemão e a estender-se indefinidamente — ad calendas
graecas. A procrastinação tende a tornar-se seu próprio objetivo. A coisa
mais importante deixada de lado no ato da procrastinação tende a ser o fim
da própria procrastinação.
O preceito comportamental e de atitude que fundou a sociedade
moderna e tornou possível e inescapável o modo moderno de estar no
mundo foi o princípio do adiamento da satisfação (da satisfação de uma
necessidade ou um desejo, do momento de uma experiência agradável, do
gozo). É nessa transformação que a procrastinação entra na cena moderna
(ou, mais exatamente, torna moderna a cena). Como explicou Max Weber,
foi esse adiamento particular, e não a pressa e a impaciência, que resultou
em modernas inovações espetaculares e frutíferas — como, de um lado, a
acumulação do capital e, de outro, a propagação e o enraizamento da ética
do trabalho. O desejo de melhorar deu ao esforço seu estímulo e momento;
mas o “não ainda”, o “não já”, conduziu esse esforço a sua conseqüência não-prevista, que veio a ser conhecida como crescimento, desenvolvimento,
aceleração e, portanto, sociedade moderna.
Na forma do “adiamento da satisfação”, a procrastinação retém toda sua
ambivalência interior. Libido e Tânatos competem entre si em cada ato de
adiamento, e cada adiamento é o triunfo da Libido sobre seu inimigo
mortal. O desejo estimula o esforço pela esperança de satisfação, mas o
estímulo retém sua força enquanto a satisfação desejada permanecer uma
esperança. Todo o poder motivador do desejo é investido em sua realização.
No fim, para permanecer vivo o desejo tem que desejar apenas sua própria
sobrevivência.
Na forma do “adiamento da satisfação”, a procrastinação põe arar e
semear acima de colher e ingerir o produto, o investimento acima do lucro,
a poupança acima do gasto, a autocontenção acima da auto-indulgência, o
trabalho acima do consumo. Mas nunca diminuiu o valor das coisas a que
negava prioridade nem subestimou seu mérito e significação. Essas coisas
eram os prêmios da abstinência auto-infligida, as recompensas do
adiamento voluntário. Quanto mais severa a auto-restrição, maior seria
eventualmente a oportunidade de auto-indulgência. Poupe, pois quanto mais
você poupar mais você poderá gastar. Trabalhe, pois quanto mais você
trabalhar mais você consumirá. Paradoxalmente, a negação da imediatez, a
aparente degradação dos objetivos, redunda em sua elevação e
enobrecimento. A necessidade de esperar magnifica os poderes sedutores
do prêmio. Longe de rebaixar a satisfação dos desejos como motivo para os
esforços da vida, o preceito de adiá-la torna-a o propósito supremo da vida.
O adiamento da satisfação mantém o produtor a serviço do consumidor —
mantendo o consumidor que vive no produtor plenamente acordado e de
olhos bem abertos.
Devido a sua ambivalência, a procrastinação alimenta duas tendências
opostas. Uma leva à ética do trabalho, que estimula a troca de lugares entre
meios e fins e proclama a virtude do trabalho pelo trabalho, o adiamento
do gozo como um valor em si mesmo, e, valor mais refinado do que os
valores que se destinava a servir, a ética do trabalho insiste em que o
adiamento se estenda indefinidamente. Outra tendência leva à estética do
consumo, rebaixando o trabalho ao papel puramente subordinado e
instrumental de revolver a terra, uma atividade que deriva todo seu valor
daquilo para que prepara o terreno, e também leva à consideração da abstinência e da renúncia como sacrifícios talvez necessários, mas
embaraçosos e corretamente mal-vistos, a serem reduzidos ao mínimo.
Como uma faca de dois gumes, a procrastinação pode servir à sociedade
moderna tanto em seu estágio “sólido” como no “líquido”, tanto em seu
estágio de produtor como no de consumidor, ainda que sobrecarregue cada
estágio com tensões e conflitos de atitude e axiológicos não-resolvidos. A
passagem para a sociedade de consumidores do presente significou portanto
uma mudança de ênfase mais que uma mudança de valores. E, no entanto,
levou o princípio da procrastinação ao ponto de ruptura. Esse princípio está
hoje vulnerável, e perdeu o escudo protetor da proibição ética. O adiamento
da satisfação não é mais um sinal de virtude moral. É uma provação pura e
simples, uma problemática sobrecarga que sinaliza imperfeições nos
arranjos sociais ou inadequação pessoal, ou nas duas ao mesmo tempo. Não
uma exortação, mas uma admissão resignada e triste de um estado de coisas
desagradável (mas remediável).
Se a ética do trabalho pressiona por uma extensão indefinida do
adiamento, a estética do consumo pressiona por sua abolição. Vivemos,
como disse George Steiner, numa “cultura de cassino”, e no cassino a
chamada nunca muito distante de “rien ne va plus” coloca o limite à
procrastinação; se um ato merece recompensa, a recompensa é instantânea.
Na cultura do cassino, a espera é tirada do querer, mas a satisfação do
querer também deve ser breve; deve durar apenas até que a bolinha da
roleta corra de novo, ter tão pouca duração quanto a espera, para não
sufocar o desejo, que deveria preencher e reinventar — desejo que é a
recompensa mais ambicionada no mundo dominado pela estética do
consumo.
E assim se encontram o começo e o fim da procrastinação, a distância
entre o desejo e sua satisfação se reduz a um momento de êxtase — êxtase
que, como observou John Tusa (no Guardian de 19.7.1997) deve haver em
quantidade: “Imediato, constante, divertido, agradável, em quantidade cada
vez maior, em formas cada vez mais diversificadas, em ocasiões cada vez
mais freqüentes.” O que conta, entre as qualidades das coisas e dos atos é só
a “auto-satisfação instantânea, constante e irrefletida”. Obviamente, a
demanda de que a satisfação seja instantânea vai contra o princípio da
procrastinação. Mas, sendo instantânea, a satisfação não pode ser constante,
a menos que também seja de curta duração, impedida de se estender além
da duração de seu poder de diversão e entretenimento. Na cultura do cassino, o princípio da procrastinação sofre ataque em duas frentes ao