Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 30 de 42

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Modernidade Líquida

Digressão: breve história da procrastinação

começos.21

 

Digressão: breve história da procrastinação

 

Cras, em latim, quer dizer “amanhã”. A palavra também costumava ser

semanticamente elástica, não muito diferente do famosamente vago

mañana, para incluir o “mais tarde” — o futuro como tal. Crastinus é o que

pertence ao amanhã. Pro-crastinar é pôr alguma coisa entre as coisas que

pertencem ao amanhã. Pôr algo lá implica imediatamente que o amanhã

não é o lugar natural dessa coisa, que a coisa em questão não faz parte por

direito do amanhã. Por implicação, ela faz parte de outro lugar. Qual?

Obviamente o presente. Para ser destinada ao amanhã, essa coisa primeiro

teve que ser tirada do presente ou teve barrado seu acesso a ele.

“Procrastinar” significa não tomar as coisas como elas vêm, não agir

segundo uma sucessão natural de coisas. Contra uma impressão que se

tornou comum na era moderna, a procrastinação não é uma questão de

displicência, indolência ou lassidão; é uma posição ativa, uma tentativa de

assumir o controle da seqüência de eventos e fazê-la diferente do que seria

caso se ficasse dócil e não se resistisse. Procrastinar é manipular as

possibilidades da presença de uma coisa, deixando, atrasando e adiando seu

estar presente, mantendo-a à distância e transferindo sua imediatez.

A procrastinação como prática cultural surgiu com a modernidade. Seu

novo sentido e seu significado ético derivam do novo significado do tempo,

do tempo que tem história, do tempo que é história. Esse sentido deriva do

tempo concebido como uma passagem entre “momentos presentes” de

qualidade diferente e de valor variado; do tempo considerado como

viajando em direção a outro presente distinto (e mais desejável) do presente

vivido agora.

Resumindo: a procrastinação deriva seu sentido moderno do tempo

vivido como uma peregrinação, como um movimento que se aproxima de

um objetivo. Em tal tempo, cada presente é avaliado por alguma coisa que

vem depois. Qualquer valor que este presente aqui e agora possa ter não

passará de um sinal premonitório de um valor maior por vir. O uso — a

tarefa — do presente é levar-nos mais para perto desse valor mais alto. Em

si mesmo, o tempo presente carece de sentido e de valor. É, por isso, falho, deficiente e incompleto. O sentido do presente está adiante; o que está à

mão ganha sentido e é avaliado pelo noch-nicht-geworden, pelo que ainda

não existe.

Viver a vida como uma peregrinação é, portanto, intrinsecamente

aporético. E obriga cada presente a servir a alguma coisa que ainda-não-é, e

a servi-la diminuindo a distância, trabalhando para a proximidade e a

imediatez. Mas se a distância desaparecesse e o objetivo fosse alcançado, o

presente perderia tudo o que o fazia significativo e valioso. A racionalidade

instrumental favorecida e privilegiada pela vida do peregrino leva à busca

dos meios que podem realizar o estranho feito de manter o fim dos esforços

sempre à vista sem nunca chegar lá, de trazer o fim cada vez mais para

perto, mas impedindo ao mesmo tempo que a distância caia para zero. A

vida do peregrino é uma viagem em direção à realização, mas “realização”

nesta vida é equivalente à perda de sentido. Viajar em direção à realização

dá sentido à vida do peregrino, mas o sentido que dá tem algo de um

impulso suicida; esse sentido não pode sobreviver à chegada ao destino.

A procrastinação reflete essa ambivalência. O peregrino procrastina

para estar mais bem preparado para captar as coisas que verdadeiramente

importam. Mas captá-las sinalizará o fim da peregrinação, e assim também

o fim de uma vida que dela deriva seu único sentido. Por essa razão, a

procrastinação tem uma tendência a romper qualquer limite de tempo

colocado de antemão e a estender-se indefinidamente — ad calendas

graecas. A procrastinação tende a tornar-se seu próprio objetivo. A coisa

mais importante deixada de lado no ato da procrastinação tende a ser o fim

da própria procrastinação.

O preceito comportamental e de atitude que fundou a sociedade

moderna e tornou possível e inescapável o modo moderno de estar no

mundo foi o princípio do adiamento da satisfação (da satisfação de uma

necessidade ou um desejo, do momento de uma experiência agradável, do

gozo). É nessa transformação que a procrastinação entra na cena moderna

(ou, mais exatamente, torna moderna a cena). Como explicou Max Weber,

foi esse adiamento particular, e não a pressa e a impaciência, que resultou

em modernas inovações espetaculares e frutíferas — como, de um lado, a

acumulação do capital e, de outro, a propagação e o enraizamento da ética

do trabalho. O desejo de melhorar deu ao esforço seu estímulo e momento;

mas o “não ainda”, o “não já”, conduziu esse esforço a sua conseqüência não-prevista, que veio a ser conhecida como crescimento, desenvolvimento,

aceleração e, portanto, sociedade moderna.

Na forma do “adiamento da satisfação”, a procrastinação retém toda sua

ambivalência interior. Libido e Tânatos competem entre si em cada ato de

adiamento, e cada adiamento é o triunfo da Libido sobre seu inimigo

mortal. O desejo estimula o esforço pela esperança de satisfação, mas o

estímulo retém sua força enquanto a satisfação desejada permanecer uma

esperança. Todo o poder motivador do desejo é investido em sua realização.

No fim, para permanecer vivo o desejo tem que desejar apenas sua própria

sobrevivência.

Na forma do “adiamento da satisfação”, a procrastinação põe arar e

semear acima de colher e ingerir o produto, o investimento acima do lucro,

a poupança acima do gasto, a autocontenção acima da auto-indulgência, o

trabalho acima do consumo. Mas nunca diminuiu o valor das coisas a que

negava prioridade nem subestimou seu mérito e significação. Essas coisas

eram os prêmios da abstinência auto-infligida, as recompensas do

adiamento voluntário. Quanto mais severa a auto-restrição, maior seria

eventualmente a oportunidade de auto-indulgência. Poupe, pois quanto mais

você poupar mais você poderá gastar. Trabalhe, pois quanto mais você

trabalhar mais você consumirá. Paradoxalmente, a negação da imediatez, a

aparente degradação dos objetivos, redunda em sua elevação e

enobrecimento. A necessidade de esperar magnifica os poderes sedutores

do prêmio. Longe de rebaixar a satisfação dos desejos como motivo para os

esforços da vida, o preceito de adiá-la torna-a o propósito supremo da vida.

O adiamento da satisfação mantém o produtor a serviço do consumidor —

mantendo o consumidor que vive no produtor plenamente acordado e de

olhos bem abertos.

Devido a sua ambivalência, a procrastinação alimenta duas tendências

opostas. Uma leva à ética do trabalho, que estimula a troca de lugares entre

meios e fins e proclama a virtude do trabalho pelo trabalho, o adiamento

do gozo como um valor em si mesmo, e, valor mais refinado do que os

valores que se destinava a servir, a ética do trabalho insiste em que o

adiamento se estenda indefinidamente. Outra tendência leva à estética do

consumo, rebaixando o trabalho ao papel puramente subordinado e

instrumental de revolver a terra, uma atividade que deriva todo seu valor

daquilo para que prepara o terreno, e também leva à consideração da abstinência e da renúncia como sacrifícios talvez necessários, mas

embaraçosos e corretamente mal-vistos, a serem reduzidos ao mínimo.

Como uma faca de dois gumes, a procrastinação pode servir à sociedade

moderna tanto em seu estágio “sólido” como no “líquido”, tanto em seu

estágio de produtor como no de consumidor, ainda que sobrecarregue cada

estágio com tensões e conflitos de atitude e axiológicos não-resolvidos. A

passagem para a sociedade de consumidores do presente significou portanto

uma mudança de ênfase mais que uma mudança de valores. E, no entanto,

levou o princípio da procrastinação ao ponto de ruptura. Esse princípio está

hoje vulnerável, e perdeu o escudo protetor da proibição ética. O adiamento

da satisfação não é mais um sinal de virtude moral. É uma provação pura e

simples, uma problemática sobrecarga que sinaliza imperfeições nos

arranjos sociais ou inadequação pessoal, ou nas duas ao mesmo tempo. Não

uma exortação, mas uma admissão resignada e triste de um estado de coisas

desagradável (mas remediável).

Se a ética do trabalho pressiona por uma extensão indefinida do

adiamento, a estética do consumo pressiona por sua abolição. Vivemos,

como disse George Steiner, numa “cultura de cassino”, e no cassino a

chamada nunca muito distante de “rien ne va plus” coloca o limite à

procrastinação; se um ato merece recompensa, a recompensa é instantânea.

Na cultura do cassino, a espera é tirada do querer, mas a satisfação do

querer também deve ser breve; deve durar apenas até que a bolinha da

roleta corra de novo, ter tão pouca duração quanto a espera, para não

sufocar o desejo, que deveria preencher e reinventar — desejo que é a

recompensa mais ambicionada no mundo dominado pela estética do

consumo.

E assim se encontram o começo e o fim da procrastinação, a distância

entre o desejo e sua satisfação se reduz a um momento de êxtase — êxtase

que, como observou John Tusa (no Guardian de 19.7.1997) deve haver em

quantidade: “Imediato, constante, divertido, agradável, em quantidade cada

vez maior, em formas cada vez mais diversificadas, em ocasiões cada vez

mais freqüentes.” O que conta, entre as qualidades das coisas e dos atos é só

a “auto-satisfação instantânea, constante e irrefletida”. Obviamente, a

demanda de que a satisfação seja instantânea vai contra o princípio da

procrastinação. Mas, sendo instantânea, a satisfação não pode ser constante,

a menos que também seja de curta duração, impedida de se estender além

da duração de seu poder de diversão e entretenimento. Na cultura do cassino, o princípio da procrastinação sofre ataque em duas frentes ao