Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 37 de 42

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Modernidade Líquida

Depois do Estadonação

focos do terror e da ansiedade gerados pela consciência da mortalidade.

Eles não dividem mais a carga com outros focos (exceto, talvez, a

“comunidade”).

A nova primazia do corpo se reflete na tendência a formar a imagem da

comunidade (a comunidade dos sonhos de certeza com segurança, a

comunidade como viveiro da segurança) no padrão do corpo idealmente

protegido: a visualizá-la como uma entidade internamente homogênea e

harmoniosa, inteiramente limpa de toda substância estranha, com todos os

pontos de entrada cuidadosamente vigiados, controlados e protegidos, mas

fortemente armada e envolta por armadura impenetrável. As fronteiras da

comunidade postulada, como os limites exteriores do corpo, são para

separar o domínio da confiança e do cuidado amoroso da selva do risco, da

suspeição e da perpétua vigilância. O corpo e também a comunidade

postulada são aveludados por dentro e ásperos e espinhosos por fora.

Corpo e comunidade são os últimos postos de defesa no campo de

batalha cada vez mais deserto em que a guerra pela certeza, pela segurança

e pelas garantias é travada, diariamente e sem tréguas. Corpo e comunidade

devem de agora em diante realizar as tarefas no passado divididas entre

muitos bastiões e barricadas. O que depende deles agora é mais do que

podem suportar, de tal forma que provavelmente aprofundarão, em vez de

aliviar, os temores que levaram aqueles que andavam à procura de

segurança a voltar-se para eles em busca de proteção.

A nova solidão de corpo e comunidade é o resultado de um amplo

conjunto de mudanças importantes subsumidas na rubrica modernidade

líquida. Uma mudança no conjunto é, contudo, de particular importância: a

renúncia, adiamento ou abandono, pelo Estado, de todas as suas principais

responsabilidades em seu papel como maior provedor (talvez mesmo

monopolístico) de certeza, segurança e garantias, seguido de sua recusa em

endossar as aspirações de certeza, segurança e garantia de seus cidadãos.

 

Depois do Estado-nação

 

Nos tempos modernos, a nação era a “outra face” do Estado e a arma

principal em sua luta pela soberania sobre o território e sua população. Boa

parte da credibilidade da nação e de seu atrativo como garantia de segurança e de durabilidade deriva de sua associação íntima com o Estado e

— através dele — com as ações que buscam construir a certeza e a

segurança dos cidadãos sobre um fundamento durável e confiável, porque

coletivamente assegurado. Sob as novas condições, a nação tem pouco a

ganhar com sua proximidade do Estado. O Estado pode não esperar muito

do potencial mobilizador da nação de que ele precisa cada vez menos, à

medida que os massivos exércitos de conscritos, reunidos pelo frenesi

patriótico febrilmente estimulado, são substituídos pelas unidades high-tech

elitistas, secas e profissionais, enquanto a riqueza do país é medida, não

tanto pela qualidade, quantidade e moral de sua força de trabalho, quanto

pela atração que o país exerce sobre as forças friamente mercenárias do

capital global.

Em um Estado que não é mais a ponte segura além do confinamento da

mortalidade individual, um chamado ao sacrifício do bem-estar individual,

para não falar da vida individual, em nome da preservação ou da glória

imorredoura do Estado soa vazio e cada vez mais bizarro, se não engraçado.

O romance secular da nação com o Estado está chegando ao fim; não

exatamente um divórcio, mas um arranjo de “viver juntos” está substituindo

a consagrada união conjugal fundada na lealdade incondicional. Os

parceiros estão agora livres para procurar e entrar em outras alianças; sua

parceria não é mais o padrão obrigatório de uma conduta própria e

aceitável. Podemos dizer que a nação, que costumava ser o substituto da

comunidade ausente na era da Gesellschaft, se volta em direção da

Gemeinschaft deixada para trás em busca de um padrão a emular e que lhe

sirva de modelo. O andaime institucional capaz de manter a nação unida é

pensável cada vez mais como um trabalho do tipo faça-você-mesmo. São os

sonhos de certeza e segurança, e não suas disposições factuais e rotinizadas,

que devem levar os indivíduos órfãos a abrigar-se sob as asas da nação,

enquanto buscam a segurança teimosamente fugidia.

Parece haver pouca esperança de resgatar os serviços de certeza,

segurança e garantias do Estado. A liberdade da política do Estado é

incansavelmente erodida pelos novos poderes globais providos das terríveis

armas da extraterritorialidade, velocidade de movimento e capacidade de

evasão e fuga; a retribuição pela violação do novo estatuto global é rápida e

impiedosa. De fato, a recusa a participar do jogo nas novas regras globais é

o crime a ser mais impiedosamente punido, crime que o poder do Estado, preso ao solo por sua própria soberania territorialmente definida, deve

impedir-se de cometer e evitar a qualquer custo.

Muitas vezes a punição é econômica. Governos insubordinados,

culpados de políticas protecionistas ou provisões públicas generosas para os

setores “economicamente dispensáveis” de suas populações e de não deixar

o país à mercê dos “mercados financeiros globais” e do “livre comércio

global”, têm seus empréstimos recusados e negada a redução de suas

dívidas; as moedas locais são transformadas em leprosas globais,

pressionadas à desvalorização e sofrem ataques especulativos; as ações

locais caem nas bolsas globais; o país é isolado por sanções econômicas e

passa a ser tratado por parceiros comerciais passados e futuros como um

pária global; os investidores globais cortam suas perdas antecipadas,

embalam seus pertences e retiram seus ativos, deixando que as autoridades

locais limpem os resíduos e resgatem as vítimas.

Ocasionalmente, no entanto, a punição não se confina a “medidas

econômicas”. Governos particularmente obstinados (mas não fortes o

bastante para resistir por muito tempo) recebem uma lição exemplar que

tem por objetivo advertir e atemorizar seus imitadores potenciais. Se a

demonstração diária e rotineira da superioridade das forças globais não for

suficiente para forçar o Estado a ver a razão e cooperar com a nova “ordem

mundial”, a força militar é exercida: a superioridade da velocidade sobre a

lentidão, da capacidade de escapar sobre a necessidade de engajar-se no

combate, da extraterritorialidade sobre a localidade, tudo isso se manifesta

espetacularmente com a ajuda, desta vez, de forças armadas especializadas

em táticas de atacar e correr e a estrita separação entre “vidas a serem

salvas” e vidas que não merecem socorro.

Uma questão a ser discutida é se o modo como se conduziu a guerra

contra a Iugoslávia foi, em termos éticos, correto e apropriado. Essa guerra

fez sentido, porém, como “promoção da ordem econômica global por outros

meios que não os políticos”. A estratégia escolhida pelos atacantes

funcionou bem como exibição espetacular da nova hierarquia global e das

novas regras do jogo que a sustentam. Se não fosse por suas milhares de

“baixas” muito reais e por um país arruinado e privado da sobrevivência e

da capacidade de auto-regeneração por muitos anos ainda, seríamos

tentados a descrevê-la como uma “guerra simbólica” sui generis; a guerra

em si, suas estratégias e táticas, foi um símbolo (consciente ou subconscientemente) da emergente relação de poder. O meio foi de fato a

mensagem.

Como professor de sociologia, repeti a meus alunos, ano após ano, a

versão padronizada da “história da civilização” com a marca da ascensão

gradual mas incessante da sedentariedade e da vitória, por fim, dos

sedentários sobre os nômades; não havia dúvida de que os derrotados

nômades eram, essencialmente, a força regressiva e anticivilizacional. Jim

MacLoughlin recentemente desvendou o significado dessa vitória,

esboçando uma breve história do tratamento dispensado aos “nômades”

pelas populações sedentárias dentro da órbita da civilização moderna.14 O

nomadismo, observa, era visto e tratado como “característica de sociedades

‘bárbaras’ e subdesenvolvidas”. Os nômades eram definidos como

primitivos, e, de Hugo Grotius em diante, traçava-se um paralelo entre

“primitivo” e “natural” (isto é, inculto, cru, pré-cultural e incivilizado): “O

desenvolvimento das leis, o progresso cultural e o avanço da civilização

estavam intimamente ligados à evolução e ao aperfeiçoamento das relações

homem-terra ao longo do tempo e do espaço.” Para resumir: o progresso era

identificado com o abandono do nomadismo em favor de um modo de vida

sedentário. Tudo isso aconteceu no tempo da modernidade pesada, quando a

dominação implicava envolvimento direto e estreito e significava conquista,

anexação e colonização territorial. O fundador e principal teórico do

“difusionismo” (visão da história outrora muito popular nas capitais dos

impérios), Friedrich Ratzel, pregador dos “direitos do mais forte”, que ele

concebia como eticamente superior e inescapável em vista da raridade do

gênio civilizador e da existência da imitação passiva, captou precisamente o

espírito da época quando escreveu, no limiar do século colonialista, que

 

a luta pela existência significa uma luta pelo espaço … Um povo

superior, invadindo o território de seus vizinhos selvagens mais fracos,

rouba-lhes a terra, encurrala-os em cantos pequenos demais para seu

sustento e continua a usurpar mesmo suas minguadas posses, até que os

mais fracos finalmente perdem os últimos resíduos de seu domínio, e

são expulsos da terra … A superioridade dessa expansão consiste

principalmente em sua maior capacidade de apropriar, utilizar

plenamente e povoar o território.

Claramente, não mais. O jogo da dominação na era da modernidade

líquida não é mais jogado entre o “maior” e o “menor”, mas entre o mais

rápido e o mais lento. Dominam os que são capazes de acelerar além da

velocidade de seus opositores. Quando a velocidade significa dominação, a

“apropriação, utilização e povoamento” do território se torna uma

desvantagem — um risco e não um recurso. Assumir algo sob nossa própria

jurisdição e anexar a terra alheia implicam as tarefas caras, embaraçosas e

não-lucrativas de administração e policiamento, responsabilidades e

compromissos — e acima de tudo limitações consideráveis à nossa futura

liberdade de movimento.

Está longe de ser claro se outras guerras no estilo atacar e fugir serão

empreendidas, em vista do fato de que a primeira tentativa terminou por

imobilizar os vencedores — sobrecarregando-os com a atividade de

ocupação da terra, envolvimentos locais e responsabilidades administrativas

e gerenciais inadequadas às técnicas de poder da modernidade líquida. O

poderio da elite global reside em sua capacidade de escapar aos

compromissos locais, e a globalização se destina a evitar tais necessidades,

a dividir tarefas e funções de modo a ocupar as autoridades locais, e

somente elas, com o papel de guardiões da lei e da ordem (local).

Em verdade, disseminam-se sinais de um certo “arrependimento” no

campo dos vencedores: a estratégia da “força policial global” está uma vez

mais submetida a intenso escrutínio crítico. Entre as funções que a elite

global deixaria para os Estados-nação transformados em delegacias de

polícia, crescente número de vozes incluiria os esforços para resolver

conflitos sangrentos entre vizinhos; a solução de tais conflitos, ouvimos,

deveria ser “descongestionada” e “descentralizada”, rebaixadas na

hierarquia global, com ou sem atenção aos direitos humanos, e entregue “a

quem de direito”, aos senhores da guerra locais e às armas que possuem

graças à generosidade ou “bem compreendido interesse econômico” das

empresas globais e dos governos que querem promover a globalização. Por

exemplo, Edward N. Luttwak, senior fellow do Centro Norte-Americano de

Estudos Estratégicos e Internacionais e durante muitos anos termômetro

confiável das mutáveis disposições do Pentágono, apelou no número de

julho-agosto de 1999 da revista Foreign Affairs (descrita pelo Guardian

como “a mais influente em circulação”) para que se “dê uma chance à

guerra”. As guerras, segundo Luttwak, não são de todo más, pois levam à

paz. A paz, porém, só virá “quando todos os beligerantes estiverem exaustos ou quando um vencer de maneira decisiva”. A pior coisa (e a

OTAN fez justamente isso) é detê-las a meio caminho, antes que o tiroteio

termine na exaustão mútua ou na incapacitação de uma das partes em

guerra. Nesses casos, os conflitos não são resolvidos, mas apenas

temporariamente congelados, e os adversários usam o tempo da trégua para

rearmamento, reposicionamento e para repensar as táticas. Portanto, em seu

próprio benefício e no deles, nunca interfira “em guerras alheias”.

O apelo de Luttwak pode bem cair em ouvidos favoráveis e gratos.

Afinal, do modo como avança a “promoção da globalização por outros

meios”, abster-se de intervir e permitir que a guerra atinja seu “fim natural”

teria trazido os mesmos benefícios sem o incômodo do envolvimento direto

em “guerras alheias”, e especialmente em suas complicadas e pesadas

conseqüências. Para aplacar a consciência despertada pela imprudente

decisão de fazer a guerra sob uma bandeira humanitária, Luttwak indica a

óbvia inadequação do envolvimento militar como meio para um fim:

“Mesmo uma desinteressada intervenção de larga escala pode deixar de

alcançar seu objetivo humanitário ostensivo. É preciso perguntar-se se os

kosovares não estariam em melhor situação se a OTAN não tivesse

intervindo.” Teria sido provavelmente melhor para as forças da OTAN ter

continuado com seus treinamentos diários e deixado aos locais o que os

locais tinham que fazer.

O que causou o arrependimento e levou os vencedores a lamentarem a

interferência (oficialmente proclamada um sucesso) foi que eles não

conseguiram escapar à mesmíssima eventualidade que a campanha “atingir

e fugir” pretendia evitar: a necessidade da invasão e da ocupação e

administração do território conquistado. Quando os pára-quedistas

aterrissaram e se estabeleceram em Kosovo, os beligerantes foram

impedidos de se matar entre si, mas a tarefa de mantê-los à distância segura

trouxe as forças da OTAN “do céu para a terra” e as envolveu com a

responsabilidade das sujas realidades em campo. Henry Kissinger, um

sóbrio e atento analista e o mestre da política entendida (de um modo meio

antiquado) como a arte do possível, advertiu contra outro tropeço que seria

arcar com a responsabilidade pela recuperação das terras devastadas pelos

ataques dos bombardeiros.15 Esse plano, diz Kissinger, “arrisca tornar-se um

compromisso aberto em direção a um envolvimento cada vez maior,

colocando-nos no papel de gendarmes de uma região de ódios apaixonados

e onde temos poucos interesses estratégicos”. E o “envolvimento” é justamente o que as guerras destinadas a “promover a globalização por

outros meios” devem evitar! A administração civil, acrescenta Kissinger,

envolveria inevitavelmente conflitos, e caberia aos administradores, como

tarefa custosa e eticamente dúbia, resolvê-los pela força.

Até agora há poucos (se houver) sinais de que as forças de ocupação

possam sair da tarefa de resolver o conflito em condições melhores que

aqueles a quem bombardearam e substituíram em nome de seu fracasso. Em

claro contraste com o destino dos refugiados em cujo nome a campanha de

bombardeios foi iniciada, as vidas cotidianas dos que retornaram raramente

chegam às manchetes, mas as notícias que ocasionalmente chegam aos

leitores e ouvintes são sinistras. “Uma onda de violência e represálias

continuadas contra sérvios e a minoria roma em Kosovo ameaça solapar a

precária estabilidade da província, deixando-a etnicamente limpa de sérvios

apenas um mês depois da tomada de controle pelas tropas da OTAN”, relata

Chris Bird de Pristina.16 As forças da OTAN em campo parecem perdidas e

desvalidas diante dos furiosos ódios étnicos, que pareciam tão fáceis de

atribuir à malícia de apenas um celerado, e portanto tão fáceis de resolver,

quando vistos das câmeras de TV instaladas a bordo dos bombardeiros

supersônicos.

Jean Clair, e com ele outros observadores, espera que o resultado

imediato da guerra nos Bálcãs seja uma profunda e duradoura

desestabilização de toda a área, e a implosão, não a maturação, das jovens e

vulneráveis (ou ainda nem nascidas) democracias como a macedônia,

albanesa, croata ou búlgara.17 (Daniel Vernet apresenta seu levantamento

das opiniões sobre a questão por cientistas políticos e sociais de classe alta

da região sob o título “Os Bálcãs diante do risco de agonia sem fim”.18) Mas

Clair também se pergunta como será preenchido o vazio aberto depois que

as raízes da viabilidade dos Estados-nação foram cortadas. As forças

globais de mercado, jubilosas com a perspectiva de não mais serem detidas

ou obstruídas, provavelmente se instalarão no local, mas não vão querer

(nem conseguir, se quiserem) representar as autoridades políticas ausentes

ou enfraquecidas. Nem estarão necessariamente interessadas na ressurreição

de um Estado-nação forte e confiante em pleno controle de seu território.

“Outro Plano Marshal” é a resposta mais comum à perplexidade atual.

Não são só os generais que são conhecidos por estar sempre envolvidos na

última guerra vitoriosa. Mas não é possível pagar para sair de cada apuro,

por maior que seja a soma posta de lado para isso. O problema dos Bálcãs é inteiramente diferente do da reconstrução da soberania e do sustento dos

cidadãos dos Estados-nação depois da Segunda Guerra. O que enfrentamos

nos Bálcãs depois da guerra do Kosovo não é apenas a tarefa da

reconstrução material quase a partir do zero (o sustento dos iugoslavos está

praticamente destruído), mas também os agitados e inflamados

chauvinismos interétnicos que saíram da guerra reforçados. A inclusão dos

Bálcãs na rede dos mercados globais não será de muita serventia para

amainar a intolerância e o ódio, dado que aumentará a insegurança que era

(e continua sendo) a fonte principal dos sentimentos tribais em ebulição.

Há, por exemplo, um perigo real de que o enfraquecimento da capacidade

de resistência sérvia possa servir como convite para que seus vizinhos se

envolvam em nova rodada de hostilidades e limpezas étnicas.

Dada a lamentável folha-corrida dos políticos da OTAN em sua

grosseira administração das delicadas e complexas questões típicas do

“cinturão de populações mistas” (como Hannah Arendt adequadamente

chamou a região) dos Bálcãs, pode-se temer nova série de custosos

desastres. Não erraríamos em muito tampouco em suspeitar da iminência do

momento em que os líderes europeus, tendo se assegurado de que nenhuma

nova onda de refugiados em busca de asilo ameaça seu próspero eleitorado,

percam o interesse intrínseco nas terras inadministráveis, como já fizeram

tantas vezes antes — na Somália, Sudão, Ruanda, Timor Leste e

Afeganistão. Estaremos então de volta ao começo, depois de um desvio

semeado de cadáveres. Antonina Jelyazkova, diretora do Instituto

Internacional de Estudos de Minorias, expressou bem a questão (citada por

Vernet): “Não se pode resolver o problema das minorias com bombas. As

explosões deixam o diabo à solta dos dois lados.”19 Tomando o lado das

posições nacionalistas, as ações da OTAN fortaleceram os já frenéticos

nacionalismos da área e prepararam o terreno para futuras repetições de

atentados genocidas. Uma das mais terríveis conseqüências é que a mútua

acomodação e a amigável coexistência de línguas, culturas e religiões da

área nunca foi tão improvável como agora. Quaisquer que sejam as

intenções, os resultados contrariam o que um empreendimento

verdadeiramente ético nos levaria a esperar.

A conclusão, ainda que preliminar, não é auspiciosa. As tentativas de

mitigar a agressão tribal pelas novas “ações policiais globais” foram até

aqui inconclusivas, e mais provavelmente contraproducentes. Os efeitos

totais da incessante globalização têm sido marcadamente desequilibrados: a ferida do reinício da guerra civil chegou antes do remédio necessário para