Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 2 de 42

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Modernidade Líquida

Capítulo 1. Emancipação

1 • EMANCIPAÇÃO

 

 

Ao fim das “três décadas gloriosas” que se seguiram ao final da Segunda

Guerra Mundial — as três décadas de crescimento sem precedentes e de

estabelecimento da riqueza e da segurança econômica no próspero Ocidente

— Herbert Marcuse reclamava:

 

Em relação a hoje e à nossa própria condição, creio que estamos diante

de uma situação nova na história, porque temos que ser libertados de

uma sociedade rica, poderosa e que funciona relativamente bem … O

problema que enfrentamos é a necessidade de nos libertarmos de uma

sociedade que desenvolve em grande medida as necessidades materiais

e mesmo culturais do homem — uma sociedade que, para usar um

slogan, cumpre o que prometeu a uma parte crescente da população. E

isso implica que enfrentamos a libertação de uma sociedade na qual a

libertação aparentemente não conta com uma base de massas.1

 

Devermos nos emancipar, “libertar-nos da sociedade”, não era problema

para Marcuse. O que era um problema — o problema específico para a

sociedade que “cumpre o que prometeu” — era a falta de uma “base de

massas” para a libertação. Para simplificar: poucas pessoas desejavam ser

libertadas, menos ainda estavam dispostas a agir para isso, e virtualmente

ninguém tinha certeza de como a “libertação da sociedade” poderia

distinguir-se do Estado em que se encontrava.

“Libertar-se” significa literalmente libertar-se de algum tipo de grilhão

que obstrui ou impede os movimentos; começar a sentir-se livre para se

mover ou agir. “Sentir-se livre” significa não experimentar dificuldade,

obstáculo, resistência ou qualquer outro impedimento aos movimentos

pretendidos ou concebíveis. Como observou Arthur Schopenhauer, a

“realidade” é criada pelo ato de querer; é a teimosa indiferença do mundo

em relação à minha intenção, a relutância do mundo em se submeter à minha vontade, que resulta na percepção do mundo como “real”,

constrangedor, limitante e desobediente. Sentir-se livre das limitações, livre

para agir conforme os desejos, significa atingir o equilíbrio entre os desejos,

a imaginação e a capacidade de agir: sentimo-nos livres na medida em que a

imaginação não vai mais longe que nossos desejos e que nem uma nem os

outros ultrapassam nossa capacidade de agir. O equilíbrio pode, portanto,

ser alcançado e mantido de duas maneiras diferentes: ou reduzindo os

desejos e/ou a imaginação, ou ampliando nossa capacidade de ação. Uma

vez alcançado o equilíbrio, e enquanto ele se mantiver, “libertação” é um

slogan sem sentido, pois falta-lhe força motivacional.

Tal uso nos permite distinguir entre liberdade “subjetiva” e “objetiva”

— e também entre a “necessidade de libertação” subjetiva e objetiva. Pode

ser que o desejo de melhorar tenha sido frustrado, ou nem tenha tido

oportunidade de surgir (por exemplo, pela pressão do “princípio de

realidade” exercido, segundo Sigmund Freud, sobre a busca humana do

prazer e da felicidade); as intenções, fossem elas realmente experimentadas

ou apenas imagináveis, foram adaptadas ao tamanho da capacidade de agir,

e particularmente à capacidade de agir razoavelmente — com chance de

sucesso. Por outro lado, pode ser que, pela manipulação direta das intenções

— uma forma de “lavagem cerebral” — nunca se pudesse chegar a verificar

os limites da capacidade “objetiva” de agir, e menos ainda saber quais eram,

em primeiro lugar, essas intenções, acabando-se, portanto, por colocá-las

abaixo do nível da liberdade “objetiva”.

A distinção entre liberdade “subjetiva” e “objetiva” abriu uma genuína

caixa de Pandora de questões embaraçosas como “fenômeno versus

essência” — de significação filosófica variada, mas no todo considerável, e

de importância política potencialmente enorme. Uma dessas questões é a

possibilidade de que o que se sente como liberdade não seja de fato

liberdade; que as pessoas poderem estar satisfeitas com o que lhes cabe

mesmo que o que lhes cabe esteja longe de ser “objetivamente” satisfatório;

que, vivendo na escravidão, se sintam livres e, portanto, não experimentem

a necessidade de se libertar, e assim percam a chance de se tornar

genuinamente livres. O corolário dessa possibilidade é a suposição de que

as pessoas podem ser juízes incompetentes de sua própria situação, e devem

ser forçadas ou seduzidas, mas em todo caso guiadas, para experimentar a

necessidade de ser “objetivamente” livres e para reunir a coragem e a

determinação para lutar por isso. Ameaça mais sombria atormentava o coração dos filósofos: que as pessoas pudessem simplesmente não querer