Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 17 de 42

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Modernidade Líquida

Separados, compramos

 

Paradoxalmente, ainda que nada inesperadamente, o tipo de liberdade que a

sociedade dos viciados em compras elevou ao posto máximo de valor —

valor traduzido acima de tudo como a plenitude da escolha do consumidor e

como a capacidade de tratar qualquer decisão na vida como uma escolha de

consumidor — tem um efeito muito mais devastador nos espectadores

relutantes do que naqueles a que ostensivamente se destina. O estilo de vida

da elite com recursos, dos senhores da arte de escolher, sofre uma mudança

fatal no curso de seu processamento eletrônico. Ela escorre pela hierarquia

social, filtrada pelos canais do sinóptico eletrônico e por reduzidos volumes

de recursos, como a caricatura de um mutante monstruoso. O produto final

desse “escorrimento” está despido da maioria dos prazeres que o original

prometia — em vez disso expondo seu potencial destrutivo.

A liberdade de tratar o conjunto da vida como uma festa de compras

adiadas significa conceber o mundo como um depósito abarrotado de

mercadorias. Dada a profusão de ofertas tentadoras, o potencial gerador de

prazeres de qualquer mercadoria tende a se exaurir rapidamente. Felizmente

para os consumidores com recursos, estes os garantem contra

conseqüências desagradáveis como a mercantilização. Podem descartar as

posses que não mais querem com a mesma facilidade com que podem

adquirir as que desejam. Estão protegidos contra o rápido envelhecimento e

contra a obsolescência planejada dos desejos e sua satisfação transitória.

Ter recursos implica a liberdade de escolher, mas também — e talvez

mais importante — a liberdade em relação às conseqüências da escolha

errada, e portanto a liberdade dos atributos menos atraentes da vida de

escolhas. Por exemplo, “o sexo de plástico”, “amores múltiplos” e “relações

puras”, os aspectos da mercantilização das parcerias humanas, foram

retratados por Anthony Giddens como veículos de emancipação e garantia

de uma nova felicidade que vem em sua esteira — a nova escala sem

precedentes da autonomia individual e da liberdade de escolha. Se isso é

verdade, e nada mais que a verdade, para a elite móvel dos ricos e

poderosos é uma questão aberta. Mesmo no caso deles, só é possível aderir

de coração à afirmativa de Giddens pensando no mais forte dos membros da

parceria, que necessariamente inclui o mais fraco, não tão bem dotado dos

recursos necessários para seguir livremente seus desejos (para não

mencionar as crianças — essas involuntárias mas duráveis conseqüências das parcerias, que raramente vêem o rompimento de um casamento como

manifestação de sua própria liberdade). Mudar de identidade pode ser uma

questão privada, mas sempre inclui a ruptura de certos vínculos e o

cancelamento de certas obrigações; os que estão do lado que sofre quase

nunca são consultados, e menos ainda têm chance de exercitar sua liberdade

de escolha.

E, no entanto, mesmo levando em consideração tais “efeitos

secundários” de “relações puras”, pode-se ainda dizer que no caso dos ricos

e poderosos os arranjos costumeiros de divórcio e as pensões para as

crianças ajudam a aliviar a insegurança intrínseca às parcerias até-que-

acabem, e que qualquer que seja a insegurança remanescente ela não é um

preço excessivo a pagar pela “redução dos prejuízos” e por evitar a

necessidade do arrependimento eterno pelos pecados porventura cometidos.

Mas não há dúvida de que, “escorrida” para os pobres e destituídos, a

parceria nesse novo estilo com a fragilidade do contrato matrimonial e a

“purificação” da união de todas as funções exceto a da “satisfação mútua”

espalha muita tristeza, agonia e sofrimento e um volume crescente de vidas

partidas, sem amor e sem perspectivas.

Em suma: a mobilidade e a flexibilidade da identificação que

caracterizam a vida do “ir às compras” não são tanto veículos de

emancipação quanto instrumentos de redistribuição das liberdades. São por

isso bênçãos mistas — tanto tentadoras e desejadas quanto repulsivas e

temidas, e despertam os sentimentos mais contraditórios. São valores

altamente ambivalentes que tendem a gerar reações incoerentes e quase

neuróticas. Como diz Yves Michaud, filósofo da Sorbonne, “com o excesso

de oportunidades, crescem as ameaças de desestruturação, fragmentação e

desarticulação”.28 A tarefa da auto-identificação tem efeitos colaterais

altamente destrutivos; torna-se foco de conflitos e dispara energias

mutuamente incompatíveis. Como a tarefa compartilhada por todos tem que

ser realizada por cada um sob condições inteiramente diferentes, divide as

situações humanas e induz à competição mais ríspida, em vez de unificar

uma condição humana inclinada a gerar cooperação e solidariedade.

 

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