Modernidade Líquida
Capítulo 5. Comunidade
5 • COMUNIDADE
As diferenças nascem quando a razão não está inteiramente desperta ou
voltou a adormecer. Esse era o credo implícito que emprestava credibilidade
à clara confiança que os liberais pós-iluministas depositavam na capacidade
dos indivíduos humanos para a imaculada concepção. Nós, humanos, somos
dotados de tudo de que todos precisam para tomar o caminho certo que,
uma vez escolhido, será o mesmo para todos. O sujeito de Descartes e o
homem de Kant, armados da razão, não errariam em seus caminhos
humanos a menos que empurrados ou atraídos para fora da reta trilha
iluminada pela razão. Escolhas diferentes são o sedimento de tropeços da
história — o resultado de uma lesão cerebral chamada pelos vários nomes
de preconceito, superstição ou falsa consciência. Ao contrário dos
veredictos eindeutig da razão que são propriedade de cada ser humano, as
diferenças de juízo têm origem coletiva: os “ídolos” de Francis Bacon estão
onde os homens circulam e se encontram — no teatro, num mercado, em
festas tribais. Libertar o poder da razão humana significava libertar o
indivíduo de tudo isso.
Esse credo foi trazido à tona pelos críticos do liberalismo. Não eram
poucos os críticos, que denunciavam a interpretação liberal do legado do
Iluminismo por entender errado as coisas ou por errar ao fazê-las. Poetas
românticos, historiadores e sociólogos se uniram aos políticos nacionalistas
ao observar que — antes mesmo que os homens começassem a exercitar
seus cérebros para criar o melhor código de convívio que sua razão podia
sugerir — eles já tinham uma história (coletiva) e costumes (coletivamente
seguidos). Nossos contemporâneos comunitários dizem quase o mesmo,
apenas utilizando termos diferentes: quem se “auto-afirma” e se
“autoconstrói” não é o indivíduo “desacomodado” e “desimpedido”, mas
uma pessoa que usa a linguagem e é escolarizada/socializada. Nem sempre
é claro o que os críticos têm em mente: a visão do indivíduo autocontido é falsa ou prejudicial? Devem os liberais ser censurados por pregar a “opinião
falsa” ou por fazer, inspirar ou absolver a falsa política?
Parece, contudo, que a recente querela entre liberais e comunitários diz
respeito à política e não à “natureza humana”. A questão não é tanto saber
se a libertação do indivíduo das opiniões herdadas e da garantia coletiva
contra as inconveniências da responsabilidade individual acontece ou não
— mas se isso é bom ou ruim. Raymond Williams percebe há muito que o
que é notável sobre a “comunidade” é que ela sempre existiu. Há comoção
em torno da necessidade de comunidade principalmente porque é cada vez
menos claro se as realidades que os retratos da “comunidade” afirmam
representar são evidentes, e, se, caso possam ser encontradas, merecerão ser
tratadas, em vista da expectativa de sua duração, com o respeito que
exigem. A valente defesa da comunidade e a tentativa de restaurar sua
posição negada pelos liberais dificilmente teriam acontecido se não fosse
pelo fato de que os arreios com os quais as coletividades atam seus
membros a uma história conjunta, ao costume, linguagem e escola, ficam
mais esgarçados a cada ano que passa. No estágio líquido da modernidade,
só são fornecidos arreios com zíper, e o argumento para sua venda é a
facilidade com que podem ser usados pela manhã e despidos à noite (ou
vice-versa). As comunidades vêm em várias cores e tamanhos, mas, se
colocadas num eixo weberiano que vai de “leve manto” a “gaiola de ferro”,
aparecerão todas notavelmente próximas do primeiro pólo.
Na medida em que precisam ser defendidas para sobreviver e apelar
para seus próprios membros para que assegurem essa sobrevivência com
suas escolhas individuais e assumam responsabilidade individual por essa
sobrevivência — todas as comunidades são postuladas: mais projetos que
realidades, alguma coisa que vem depois e não antes da escolha individual.
A comunidade “tal como aparece nas pinturas comunitárias” poderia ser
suficientemente tangível para ficar invisível e permitir o silêncio; mas os
comunitários não pintam suas semelhanças, e muito menos as exibem.
Esse é o paradoxo interno do comunitarismo. Dizer “é bom ser parte de
uma comunidade” é um testemunho oblíquo de não fazer parte, ou não
fazer parte por muito tempo, a menos que os músculos e mentes dos
indivíduos sejam exercitados e expandidos. Para realizar o projeto
comunitário, é preciso apelar às mesmíssimas (e desimpedidas) escolhas
individuais cuja possibilidade havia sido negada. Não se pode ser um comunitário bona fide sem acender uma vela para o diabo: sem admitir
numa ocasião a liberdade da escolha individual que se nega em outra.
Aos olhos dos lógicos, essa contradição poderia por si só desacreditar o
esforço de disfarçar o projeto político comunitário como uma teoria
descritiva da realidade social. Para o sociólogo, no entanto, o que constitui
um importante fato social que merece ser explicado/compreendido é a
própria popularidade (talvez crescente) das idéias comunitárias (enquanto o
fato de que o disfarce tenha sido tão bom a ponto de não obstruir o sucesso
comunitário não melindraria muito, sociologicamente falando — é
corriqueiro demais).
Em termos sociológicos, o comunitarismo é uma reação esperável à
acelerada “liquefação” da vida moderna, uma reação antes e acima de tudo
ao aspecto da vida sentido como a mais aborrecida e incômoda entre suas
numerosas conseqüências penosas — o crescente desequilíbrio entre a
liberdade e as garantias individuais. O suprimento de provisões se esvai
rapidamente, enquanto o volume de responsabilidades individuais
(atribuídas, quando não exercidas na prática) cresce numa escala sem
precedentes para as gerações do pós-guerra. Um aspecto muito visível do
desaparecimento das velhas garantias é a nova fragilidade dos laços
humanos. A fragilidade e transitoriedade dos laços pode ser um preço
inevitável do direito de os indivíduos perseguirem seus objetivos
individuais, mas não pode deixar de ser, simultaneamente, um obstáculo
dos mais formidáveis para perseguir eficazmente esses objetivos — e para a
coragem necessária para persegui-los. Isso também é um paradoxo — e
profundamente enraizado na natureza da vida na modernidade líquida. E
nem é a primeira vez que situações paradoxais provocam e evocam
respostas paradoxais. À luz da natureza paradoxal da “individualização”
moderna-líquida, a natureza contraditória da resposta comunitária ao
paradoxo não deve espantar: a primeira é uma explicação adequada da
segunda, enquanto esta é um efeito adequado da primeira.
O comunitarismo renascido responde à questão genuína e pungente de
que o pêndulo oscila radicalmente — e talvez para longe demais —
afastando-se do pólo da segurança na díade dos valores humanos
fundamentais. Por essa razão, o evangelho comunitário tem uma grande
audiência. Ele fala em nome de milhões: precarité, como insiste Bourdieu,
est aujourd’hui partout — ela penetra cada canto da existência humana. Em
seu recente livro Protéger ou disparaître,1 um irado manifesto contra a indolência e a hipocrisia das elites do poder de hoje em face de “la montée
des insecurités”, Philippe Cohen lista o desemprego (nove de cada dez
novas vagas são estritamente temporárias e de curto prazo), as perspectivas
incertas na velhice e os infortúnios da vida urbana como as principais fontes
da difusa ansiedade em relação ao presente, ao dia de amanhã e ao futuro
mais distante: a falta de segurança é o que une as três, e o principal apelo do
comunitarismo é a promessa de um porto seguro, o destino dos sonhos dos
marinheiros perdidos no mar turbulento da mudança constante, confusa e
imprevisível.
Como observou amargamente Eric Hobsbawm, “a palavra
‘comunidade’ nunca foi utilizada tão indiscriminadamente quanto nas
décadas em que as comunidades no sentido sociológico se tornaram difíceis
de encontrar na vida real”.2 “Homens e mulheres procuram grupos de que
possam fazer parte, com certeza e para sempre, num mundo em que tudo o
mais se desloca e muda, em que nada mais é certo.”3 Jock Young faz um
sumário sucinto da observação de Hobsbawm: “Exatamente quando a
comunidade entra em colapso, inventa-se a identidade.”4 Pode-se dizer que
a “comunidade” do evangelho comunitário [community of the
communitarian gospel] não é a Gemeinschaft pré-estabelecida e
seguramente fundada da teoria social (e formulada como “lei da história”
por Ferdinand Tönnies), mas um criptônimo para a “identidade”
zelosamente buscada mas nunca encontrada. E como observou Orlando
Patterson (citado por Eric Hobsbawm), embora as pessoas tenham que
escolher entre diferentes grupos de referência de identidade, sua escolha
implica a forte crença de que quem escolhe não tem opção a não ser o grupo
específico a que “pertence”.
A comunidade do evangelho comunitário é um lar evidente (o lar
familiar, não um lar achado ou feito, mas um lar em que se nasceu, de tal
forma que não se pode encontrar a origem, a “razão de existir”, em qualquer
outro lugar): e um tipo de lar, por certo, que para a maioria das pessoas é
mais como um belo conto de fadas que uma questão de experiência pessoal.
(A casa familiar, outrora envolta seguramente por uma densa rede de
hábitos rotinizados e expectativas costumeiras, teve as proteções
desmanteladas e está inteiramente à mercê das marés que açoitam o resto da
vida.) Que o lar esteja fora do domínio da experiência ajuda: seu aconchego
não pode ser posto a prova, e seus atrativos, como são imaginados, ficam
imunes aos aspectos menos atraentes do pertencimento obrigatório e das obrigações não-negociáveis — as cores mais fortes estão ausentes da