Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 13 de 42

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Modernidade Líquida

A compulsão transformada em vício

No espetáculo colorido das celebridades da telinha e das manchetes, os

homens e mulheres de Estado não ocupam uma posição privilegiada. Não

importa muito qual a razão da “notoriedade” que, segundo Boorstin, faz

com que uma celebridade seja uma celebridade. Um lugar sob os refletores

é um modo de ser por si mesmo, que estrelas do cinema, jogadores de

futebol e ministros de governo compartilham em igual medida. Um dos

requisitos que se aplica a todos é que se espera — “eles têm o dever

público” — que confessem “para consumo público” e ponham suas vidas

privadas à disposição, e que não reclamem se outros o fizerem por eles.

Uma vez expostas, essas vidas privadas podem se mostrar pouco

esclarecedoras ou decididamente pouco atraentes: nem todos os segredos

privados contêm lições que outras pessoas poderiam considerar úteis. Os

desapontamentos, por mais numerosos que sejam, dificilmente mudarão os

hábitos confessionais ou dissiparão o apetite pelas confissões; afinal —

repito — o modo como as pessoas individuais definem individualmente

seus problemas individuais e os enfrentam com habilidades e recursos

individuais é a única “questão pública” remanescente e o único objeto de

“interesse público”. E enquanto isso for assim, espectadores e ouvintes

treinados para confiar em seu próprio julgamento e esforço na busca de

esclarecimento e orientação continuarão a olhar para as vidas privadas de

outros “como eles” com o mesmo zelo e esperança com que poderiam ter

olhado para as lições, homilias e sermões de visionários e pregadores

quando acreditavam que as misérias privadas só poderiam ser aliviadas ou

curadas “reunindo as cabeças”, “cerrando fileiras” e “em ordem unida”.

 

A compulsão transformada em vício

 

Procurar exemplos, conselho e orientação é um vício: quanto mais se

procura, mais se precisa e mais se sofre quando privado de novas doses da

droga procurada. Como meio de aplacar a sede, todos os vícios são auto-

destrutivos; destroem a possibilidade de se chegar à satisfação.

Exemplos e receitas são atraentes enquanto não-testados. Mas

dificilmente algum deles cumpre o que promete — virtualmente, cada um

fica aquém da realização que dizia trazer. Mesmo que algum deles

mostrasse funcionar do modo esperado, a satisfação não duraria muito, pois

no mundo dos consumidores as possibilidades são infinitas, e o volume de objetivos sedutores à disposição nunca poderá ser exaurido. As receitas para

a boa vida e os utensílios que a elas servem têm “data de validade”, mas

muitos cairão em desuso bem antes dessa data, apequenados,

desvalorizados e destituídos de fascínio pela competição de ofertas “novas e

aperfeiçoadas”. Na corrida dos consumidores, a linha de chegada sempre se

move mais veloz que o mais veloz dos corredores; mas a maioria dos

corredores na pista tem músculos muito flácidos e pulmões muito pequenos

para correr velozmente. E assim, como na Maratona de Londres, pode-se

admirar e elogiar os vencedores, mas o que verdadeiramente conta é

permanecer na corrida até o fim. Pelo menos a Maratona de Londres tem

um fim, mas a outra corrida — para alcançar a promessa fugidia e sempre

distante de uma vida sem problemas —, uma vez iniciada, nunca termina:

comecei, mas posso não terminar.

Então é a continuação da corrida, a satisfatória consciência de

permanecer na corrida, que se torna o verdadeiro vício — e não algum

prêmio à espera dos poucos que cruzam a linha de chegada. Nenhum dos

prêmios é suficientemente satisfatório para destituir os outros prêmios de

seu poder de atração, e há tantos outros prêmios que acenam e fascinam

porque (por enquanto, sempre por enquanto, desesperadamente por

enquanto) ainda não foram tentados. O desejo se torna seu próprio

propósito, e o único propósito não-contestado e inquestionável. O papel de

todos os outros propósitos, seguidos apenas para serem abandonados na

próxima rodada e esquecidos na seguinte, é o de manter os corredores

correndo — como “marcadores de passo”, corredores contratados pelos

empresários das corridas para correr poucas rodadas apenas, mas na

máxima velocidade que puderem, e então retirar-se tendo puxado os outros

corredores para o nível de quebra de recordes, ou como os foguetes

auxiliares que, tendo levado a espaçonave à velocidade necessária, são

ejetados para o espaço e se desintegram. Num mundo em que a gama de

fins é ampla demais para o conforto e sempre mais ampla que a dos meios

disponíveis é ao volume e eficácia dos meios que se deve atender com mais

cuidado. Permanecer na corrida é o mais importante dos meios, de fato o

meta-meio: o meio de manter viva a confiança em outros meios e a

demanda por outros meios.

O arquétipo dessa corrida particular em que cada membro de uma

sociedade de consumo está correndo (tudo numa sociedade de consumo é

uma questão de escolha, exceto a compulsão da escolha — a compulsão que evolui até se tornar um vício e assim não é mais percebida como

compulsão) é a atividade de comprar. Estamos na corrida enquanto

andamos pelas lojas, e não são só as lojas ou supermercados ou lojas de

departamentos ou aos “templos do consumo” de George Ritzer que

visitamos. Se “comprar” significa esquadrinhar as possibilidades, examinar,

tocar, sentir, manusear os bens à mostra, comparando seus custos com o

conteúdo da carteira ou com o crédito restante nos cartões de crédito, pondo

alguns itens no carrinho e outros de volta às prateleiras — então vamos às

compras tanto nas lojas quanto fora delas; vamos às compras na rua e em

casa, no trabalho e no lazer, acordados e em sonhos. O que quer que

façamos e qualquer que seja o nome que atribuamos à nossa atividade, é

como ir às compras, uma atividade feita nos padrões de ir às compras. O

código em que nossa “política de vida” está escrito deriva da pragmática do

comprar.

Não se compra apenas comida, sapatos, automóveis ou itens de

mobiliário. A busca ávida e sem fim por novos exemplos aperfeiçoados e

por receitas de vida é também uma variedade do comprar, e uma variedade

da máxima importância, seguramente, à luz das lições gêmeas de que nossa

felicidade depende apenas de nossa competência pessoal mas que somos

(como diz Michael Parenti13) pessoalmente incompetentes, ou não tão

competentes como deveríamos, e poderíamos, ser se nos esforçássemos

mais. Há muitas áreas em que precisamos ser mais competentes, e cada uma

delas requer uma “compra”. “Vamos às compras” pelas habilidades

necessárias a nosso sustento e pelos meios de convencer nossos possíveis

empregadores de que as temos; pelo tipo de imagem que gostaríamos de

vestir e por modos de fazer com que os outros acreditem que somos o que

vestimos; por maneiras de fazer novos amigos que queremos e de nos

desfazer dos que não mais queremos; pelos modos de atrair atenção e de

nos escondermos do escrutínio; pelos meios de extrair mais satisfação do

amor e pelos meios de evitar nossa “dependência” do parceiro amado ou

amante; pelos modos de obter o amor do amado e o modo menos custoso de

acabar com uma união quando o amor desapareceu e a relação deixou de

agradar; pelo melhor meio de poupar dinheiro para um futuro incerto e o

modo mais conveniente de gastar dinheiro antes de ganhá-lo; pelos recursos

para fazer mais rápido o que temos que fazer e por coisas para fazer a fim

de encher o tempo então disponível; pelas comidas mais deliciosas e pela

dieta mais eficaz para eliminar as conseqüências de comê-las; pelos mais poderosos sistemas de som e as melhores pílulas contra a dor de cabeça. A

lista de compras não tem fim. Porém por mais longa que seja a lista, a

opção de não ir às compras não figura nela. E a competência mais

necessária em nosso mundo de fins ostensivamente infinitos é a de quem

vai às compras hábil e infatigavelmente.

O consumismo de hoje, porém, não diz mais respeito à satisfação das

necessidades — nem mesmo as mais sublimes, distantes (alguns diriam,

não muito corretamente, “artificiais”, “inventadas”, “derivativas”)

necessidades de identificação ou a auto-segurança quanto à “adequação”. Já

foi dito que o spiritus movens da atividade consumista não é mais o

conjunto mensurável de necessidades articuladas, mas o desejo — entidade

muito mais volátil e efêmera, evasiva e caprichosa, e essencialmente não-

referencial que as “necessidades”, um motivo autogerado e autopropelido

que não precisa de outra justificação ou “causa”. A despeito de suas

sucessivas e sempre pouco duráveis reificações, o desejo tem a si mesmo

como objeto constante, e por essa razão está fadado a permanecer insaciável

qualquer que seja a altura atingida pela pilha dos outros objetos (físicos ou

psíquicos) que marcam seu passado.

E no entanto, por óbvias que sejam suas vantagens sobre as

necessidades, muito menos maleáveis e mais lentas, o desejo põe mais

limites à prontidão dos consumidores para ir às compras do que os

fornecedores de bens de consumo consideram palatável ou até suportável.

Afinal, toma tempo, esforço e considerável gasto despertar o desejo, levá-lo

à temperatura requerida e canalizá-lo na direção certa. Os consumidores

guiados pelo desejo devem ser “produzidos”, sempre novos e a alto custo.

De fato, a própria produção de consumidores devora uma fração

intoleravelmente grande dos custos totais de produção — fração que a

competição tende a ampliar ainda mais.

Mas (felizmente para os produtores e comercializadores de bens de

consumo) o consumismo em sua forma atual não está, como sugere Harvie

Ferguson, “fundado sobre a regulação (estimulação) do desejo, mas sobre a

liberação de fantasias desejosas”. A noção de desejo, observa Ferguson,

 

liga o consumo à auto-expressão, e a noções de gosto e discriminação.

O indivíduo expressa a si mesmo através de suas posses. Mas, para a

sociedade capitalista avançada, comprometida com a expansão

continuada da produção, esse é um quadro psicológico muito limitado,