Modernidade Líquida
A compulsão transformada em vício
No espetáculo colorido das celebridades da telinha e das manchetes, os
homens e mulheres de Estado não ocupam uma posição privilegiada. Não
importa muito qual a razão da “notoriedade” que, segundo Boorstin, faz
com que uma celebridade seja uma celebridade. Um lugar sob os refletores
é um modo de ser por si mesmo, que estrelas do cinema, jogadores de
futebol e ministros de governo compartilham em igual medida. Um dos
requisitos que se aplica a todos é que se espera — “eles têm o dever
público” — que confessem “para consumo público” e ponham suas vidas
privadas à disposição, e que não reclamem se outros o fizerem por eles.
Uma vez expostas, essas vidas privadas podem se mostrar pouco
esclarecedoras ou decididamente pouco atraentes: nem todos os segredos
privados contêm lições que outras pessoas poderiam considerar úteis. Os
desapontamentos, por mais numerosos que sejam, dificilmente mudarão os
hábitos confessionais ou dissiparão o apetite pelas confissões; afinal —
repito — o modo como as pessoas individuais definem individualmente
seus problemas individuais e os enfrentam com habilidades e recursos
individuais é a única “questão pública” remanescente e o único objeto de
“interesse público”. E enquanto isso for assim, espectadores e ouvintes
treinados para confiar em seu próprio julgamento e esforço na busca de
esclarecimento e orientação continuarão a olhar para as vidas privadas de
outros “como eles” com o mesmo zelo e esperança com que poderiam ter
olhado para as lições, homilias e sermões de visionários e pregadores
quando acreditavam que as misérias privadas só poderiam ser aliviadas ou
curadas “reunindo as cabeças”, “cerrando fileiras” e “em ordem unida”.
A compulsão transformada em vício
Procurar exemplos, conselho e orientação é um vício: quanto mais se
procura, mais se precisa e mais se sofre quando privado de novas doses da
droga procurada. Como meio de aplacar a sede, todos os vícios são auto-
destrutivos; destroem a possibilidade de se chegar à satisfação.
Exemplos e receitas são atraentes enquanto não-testados. Mas
dificilmente algum deles cumpre o que promete — virtualmente, cada um
fica aquém da realização que dizia trazer. Mesmo que algum deles
mostrasse funcionar do modo esperado, a satisfação não duraria muito, pois
no mundo dos consumidores as possibilidades são infinitas, e o volume de objetivos sedutores à disposição nunca poderá ser exaurido. As receitas para
a boa vida e os utensílios que a elas servem têm “data de validade”, mas
muitos cairão em desuso bem antes dessa data, apequenados,
desvalorizados e destituídos de fascínio pela competição de ofertas “novas e
aperfeiçoadas”. Na corrida dos consumidores, a linha de chegada sempre se
move mais veloz que o mais veloz dos corredores; mas a maioria dos
corredores na pista tem músculos muito flácidos e pulmões muito pequenos
para correr velozmente. E assim, como na Maratona de Londres, pode-se
admirar e elogiar os vencedores, mas o que verdadeiramente conta é
permanecer na corrida até o fim. Pelo menos a Maratona de Londres tem
um fim, mas a outra corrida — para alcançar a promessa fugidia e sempre
distante de uma vida sem problemas —, uma vez iniciada, nunca termina:
comecei, mas posso não terminar.
Então é a continuação da corrida, a satisfatória consciência de
permanecer na corrida, que se torna o verdadeiro vício — e não algum
prêmio à espera dos poucos que cruzam a linha de chegada. Nenhum dos
prêmios é suficientemente satisfatório para destituir os outros prêmios de
seu poder de atração, e há tantos outros prêmios que acenam e fascinam
porque (por enquanto, sempre por enquanto, desesperadamente por
enquanto) ainda não foram tentados. O desejo se torna seu próprio
propósito, e o único propósito não-contestado e inquestionável. O papel de
todos os outros propósitos, seguidos apenas para serem abandonados na
próxima rodada e esquecidos na seguinte, é o de manter os corredores
correndo — como “marcadores de passo”, corredores contratados pelos
empresários das corridas para correr poucas rodadas apenas, mas na
máxima velocidade que puderem, e então retirar-se tendo puxado os outros
corredores para o nível de quebra de recordes, ou como os foguetes
auxiliares que, tendo levado a espaçonave à velocidade necessária, são
ejetados para o espaço e se desintegram. Num mundo em que a gama de
fins é ampla demais para o conforto e sempre mais ampla que a dos meios
disponíveis é ao volume e eficácia dos meios que se deve atender com mais
cuidado. Permanecer na corrida é o mais importante dos meios, de fato o
meta-meio: o meio de manter viva a confiança em outros meios e a
demanda por outros meios.
O arquétipo dessa corrida particular em que cada membro de uma
sociedade de consumo está correndo (tudo numa sociedade de consumo é
uma questão de escolha, exceto a compulsão da escolha — a compulsão que evolui até se tornar um vício e assim não é mais percebida como
compulsão) é a atividade de comprar. Estamos na corrida enquanto
andamos pelas lojas, e não são só as lojas ou supermercados ou lojas de
departamentos ou aos “templos do consumo” de George Ritzer que
visitamos. Se “comprar” significa esquadrinhar as possibilidades, examinar,
tocar, sentir, manusear os bens à mostra, comparando seus custos com o
conteúdo da carteira ou com o crédito restante nos cartões de crédito, pondo
alguns itens no carrinho e outros de volta às prateleiras — então vamos às
compras tanto nas lojas quanto fora delas; vamos às compras na rua e em
casa, no trabalho e no lazer, acordados e em sonhos. O que quer que
façamos e qualquer que seja o nome que atribuamos à nossa atividade, é
como ir às compras, uma atividade feita nos padrões de ir às compras. O
código em que nossa “política de vida” está escrito deriva da pragmática do
comprar.
Não se compra apenas comida, sapatos, automóveis ou itens de
mobiliário. A busca ávida e sem fim por novos exemplos aperfeiçoados e
por receitas de vida é também uma variedade do comprar, e uma variedade
da máxima importância, seguramente, à luz das lições gêmeas de que nossa
felicidade depende apenas de nossa competência pessoal mas que somos
(como diz Michael Parenti13) pessoalmente incompetentes, ou não tão
competentes como deveríamos, e poderíamos, ser se nos esforçássemos
mais. Há muitas áreas em que precisamos ser mais competentes, e cada uma
delas requer uma “compra”. “Vamos às compras” pelas habilidades
necessárias a nosso sustento e pelos meios de convencer nossos possíveis
empregadores de que as temos; pelo tipo de imagem que gostaríamos de
vestir e por modos de fazer com que os outros acreditem que somos o que
vestimos; por maneiras de fazer novos amigos que queremos e de nos
desfazer dos que não mais queremos; pelos modos de atrair atenção e de
nos escondermos do escrutínio; pelos meios de extrair mais satisfação do
amor e pelos meios de evitar nossa “dependência” do parceiro amado ou
amante; pelos modos de obter o amor do amado e o modo menos custoso de
acabar com uma união quando o amor desapareceu e a relação deixou de
agradar; pelo melhor meio de poupar dinheiro para um futuro incerto e o
modo mais conveniente de gastar dinheiro antes de ganhá-lo; pelos recursos
para fazer mais rápido o que temos que fazer e por coisas para fazer a fim
de encher o tempo então disponível; pelas comidas mais deliciosas e pela
dieta mais eficaz para eliminar as conseqüências de comê-las; pelos mais poderosos sistemas de som e as melhores pílulas contra a dor de cabeça. A
lista de compras não tem fim. Porém por mais longa que seja a lista, a
opção de não ir às compras não figura nela. E a competência mais
necessária em nosso mundo de fins ostensivamente infinitos é a de quem
vai às compras hábil e infatigavelmente.
O consumismo de hoje, porém, não diz mais respeito à satisfação das
necessidades — nem mesmo as mais sublimes, distantes (alguns diriam,
não muito corretamente, “artificiais”, “inventadas”, “derivativas”)
necessidades de identificação ou a auto-segurança quanto à “adequação”. Já
foi dito que o spiritus movens da atividade consumista não é mais o
conjunto mensurável de necessidades articuladas, mas o desejo — entidade
muito mais volátil e efêmera, evasiva e caprichosa, e essencialmente não-
referencial que as “necessidades”, um motivo autogerado e autopropelido
que não precisa de outra justificação ou “causa”. A despeito de suas
sucessivas e sempre pouco duráveis reificações, o desejo tem a si mesmo
como objeto constante, e por essa razão está fadado a permanecer insaciável
qualquer que seja a altura atingida pela pilha dos outros objetos (físicos ou
psíquicos) que marcam seu passado.
E no entanto, por óbvias que sejam suas vantagens sobre as
necessidades, muito menos maleáveis e mais lentas, o desejo põe mais
limites à prontidão dos consumidores para ir às compras do que os
fornecedores de bens de consumo consideram palatável ou até suportável.
Afinal, toma tempo, esforço e considerável gasto despertar o desejo, levá-lo
à temperatura requerida e canalizá-lo na direção certa. Os consumidores
guiados pelo desejo devem ser “produzidos”, sempre novos e a alto custo.
De fato, a própria produção de consumidores devora uma fração
intoleravelmente grande dos custos totais de produção — fração que a
competição tende a ampliar ainda mais.
Mas (felizmente para os produtores e comercializadores de bens de
consumo) o consumismo em sua forma atual não está, como sugere Harvie
Ferguson, “fundado sobre a regulação (estimulação) do desejo, mas sobre a
liberação de fantasias desejosas”. A noção de desejo, observa Ferguson,
liga o consumo à auto-expressão, e a noções de gosto e discriminação.
O indivíduo expressa a si mesmo através de suas posses. Mas, para a
sociedade capitalista avançada, comprometida com a expansão
continuada da produção, esse é um quadro psicológico muito limitado,