Modernidade Líquida
Prefácio: Ser Leve e Líquido
PREFÁCIO
SER LEVE E LÍQUIDO
Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas … por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados … Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.
Assim, toda a questão se reduz a isto: pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?
Paul Valéry
“Fluidez” é a qualidade de líquidos e gases. O que os distingue dos sólidos,
como a Enciclopédia britânica, com a autoridade que tem, nos informa, é
que eles “não podem suportar uma força tangencial ou deformante quando
imóveis” e assim “sofrem uma constante mudança de forma quando
submetidos a tal tensão”.
Essa contínua e irrecuperável mudança de posição de uma parte do
material em relação a outra parte quando sob pressão deformante
constitui o fluxo, propriedade característica dos fluidos. Em contraste,
as forças deformantes num sólido torcido ou flexionado se mantêm, o
sólido não sofre o fluxo e pode voltar à sua forma original.
Os líquidos, uma variedade dos fluidos, devem essas notáveis
qualidades ao fato de que suas “moléculas são mantidas num arranjo
ordenado que atinge apenas poucos diâmetros moleculares”, enquanto “a
variedade de comportamentos exibida pelos sólidos é um resultado direto
do tipo de liga que une os seus átomos e dos arranjos estruturais destes”.
“Liga”, por sua vez, é um termo que indica a estabilidade dos sólidos — a
resistência que eles “opõem à separação dos átomos”.
Isso quanto à Enciclopédia britânica — no que parece uma tentativa de
oferecer “fluidez” como a principal metáfora para o estágio presente da era
moderna.
O que todas essas características dos fluidos mostram, em linguagem
simples, é que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua
forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem
prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas
neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo
(resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos não
se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e
propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que
o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas “por
um momento”. Em certo sentido, os sólidos suprimem o tempo; para os
líquidos, ao contrário, o tempo é o que importa. Ao descrever os sólidos,
podemos ignorar inteiramente o tempo; ao descrever os fluidos, deixar o
tempo de fora seria um grave erro. Descrições de líquidos são fotos
instantâneas, que precisam ser datadas.
Os fluidos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-
se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam”, “borrifam”,
“pingam” são “filtrados”, “destilados” diferentemente dos sólidos, não são
facilmente contidos — contornam certos obstáculos, dissolvem outros e
invadem ou inundam seu caminho. Do encontro com sólidos emergem
intactos, enquanto os sólidos que encontraram, se permanecem sólidos, são
alterados — ficam molhados ou encharcados. A extraordinária mobilidade
dos fluidos é o que os associa à idéia de “leveza”. Há líquidos que,
centímetro cúbico por centímetro cúbico, são mais pesados que muitos
sólidos, mas ainda assim tendemos a vê-los como mais leves, menos
“pesados” que qualquer sólido. Associamos “leveza” ou “ausência de peso”
à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leves
viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos.
Essas são razões para considerar “fluidez” ou “liquidez” como
metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase,
nova de muitas maneiras, na história da modernidade.
Concordo prontamente que tal proposição deve fazer vacilar quem
transita à vontade no “discurso da modernidade” e está familiarizado com o
vocabulário usado normalmente para narrar a história moderna. Mas a
modernidade não foi um processo de “liquefação” desde o começo? Não foi o “derretimento dos sólidos” seu maior passatempo e principal realização?
Em outras palavras, a modernidade não foi “fluida” desde sua concepção?
Essas e outras objeções semelhantes são justificadas, e o parecerão
ainda mais se lembrarmos que a famosa frase sobre “derreter os sólidos”,
quando cunhada há um século e meio pelos autores do Manifesto
comunista, referia-se ao tratamento que o autoconfiante e exuberante
espírito moderno dava à sociedade, que considerava estagnada demais para
seu gosto e resistente demais para mudar e amoldar-se a suas ambições —
porque congelada em seus caminhos habituais. Se o “espírito” era
“moderno”, ele o era na medida em que estava determinado que a realidade
deveria ser emancipada da “mão morta” de sua própria história — e isso só
poderia ser feito derretendo os sólidos (isto é, por definição, dissolvendo o
que quer que persistisse no tempo e fosse infenso à sua passagem ou imune
a seu fluxo). Essa intenção clamava, por sua vez, pela “profanação do
sagrado”: pelo repúdio e destronamento do passado, e, antes e acima de
tudo, da “tradição” — isto é, o sedimento ou resíduo do passado no
presente; clamava pelo esmagamento da armadura protetora forjada de
crenças e lealdades que permitiam que os sólidos resistissem à “liquefação”.
Lembremos, no entanto, que tudo isso seria feito não para acabar de
uma vez por todas com os sólidos e construir um admirável mundo novo
livre deles para sempre, mas para limpar a área para novos e aperfeiçoados
sólidos; para substituir o conjunto herdado de sólidos deficientes e
defeituosos por outro conjunto, aperfeiçoado e preferivelmente perfeito, e
por isso não mais alterável. Ao ler o Ancien Régime de Tocqueville,
podemos nos perguntar até que ponto os “sólidos encontrados” não teriam
sido desprezados, condenados e destinados à liquefação por já estarem
enferrujados, esfarelados, com as costuras abrindo; por não se poder confiar
neles. Os tempos modernos encontraram os sólidos pré-modernos em
estado avançado de desintegração; e um dos motivos mais fortes por trás da
urgência em derretê-los era o desejo de, por uma vez, descobrir ou inventar
sólidos de solidez duradoura, solidez em que se pudesse confiar e que
tornaria o mundo previsível e, portanto, administrável.
Os primeiros sólidos a derreter e os primeiros sagrados a profanar eram
as lealdades tradicionais, os direitos costumeiros e as obrigações que
atavam pés e mãos, impediam os movimentos e restringiam as iniciativas.
Para poder construir seriamente uma nova ordem (verdadeiramente sólida!)
era necessário primeiro livrar-se do entulho com que a velha ordem sobrecarregava os construtores. “Derreter os sólidos” significava, antes e
acima de tudo, eliminar as obrigações “irrelevantes” que impediam a via do
cálculo racional dos efeitos; como dizia Max Weber, libertar a empresa de
negócios dos grilhões dos deveres para com a família e o lar e da densa
trama das obrigações éticas; ou, como preferiria Thomas Carlyle, dentre os
vários laços subjacentes às responsabilidades humanas mútuas, deixar restar
somente o “nexo dinheiro”. Por isso mesmo, essa forma de “derreter os
sólidos” deixava toda a complexa rede de relações sociais no ar — nua,
desprotegida, desarmada e exposta, impotente para resistir às regras de ação
e aos critérios de racionalidade inspirados pelos negócios, quanto mais para
competir efetivamente com eles.
Esse desvio fatal deixou o campo aberto para a invasão e dominação
(como dizia Weber) da racionalidade instrumental, ou (na formulação de
Karl Marx) para o papel determinante da economia: agora a “base” da vida
social outorgava a todos os outros domínios o estatuto de “superestrutura”
— isto é, um artefato da “base”, cuja única função era auxiliar sua operação
suave e contínua. O derretimento dos sólidos levou à progressiva libertação
da economia de seus tradicionais embaraços políticos, éticos e culturais.
Sedimentou uma nova ordem, definida principalmente em termos
econômicos. Essa nova ordem deveria ser mais “sólida” que as ordens que
substituía, porque, diferentemente delas, era imune a desafios por qualquer
ação que não fosse econômica. A maioria das alavancas políticas ou morais
capazes de mudar ou reformar a nova ordem foram quebradas ou feitas
curtas ou fracas demais, ou de alguma outra forma inadequadas para a
tarefa. Não que a ordem econômica, uma vez instalada, tivesse colonizado,
reeducado e convertido a seus fins o restante da vida social; essa ordem
veio a dominar a totalidade da vida humana porque o que quer que pudesse
ter acontecido nessa vida tornou-se irrelevante e ineficaz no que diz respeito
à implacável e contínua reprodução dessa ordem.
Esse estágio na carreira da modernidade foi bem descrito por Claus Offe
(em “A utopia da opção zero”, publicado originalmente em 1987 em Praxis
international): as sociedades “complexas se tornaram rígidas a tal ponto
que a própria tentativa de refletir normativamente sobre elas ou de renovar
sua ‘ordem’, isto é, a natureza da coordenação dos processos que nelas têm
lugar, é virtualmente impedida por força de sua própria futilidade, donde
sua inadequação essencial”. Por mais livres e voláteis que sejam os
“subsistemas” dessa ordem, isoladamente ou em conjunto, o modo como são entretecidos é “rígido, fatal e desprovido de qualquer liberdade de
escolha”. A ordem das coisas como um todo não está aberta a opções; está
longe de ser claro quais poderiam ser essas opções, e ainda menos claro
como uma opção ostensivamente viável poderia ser real no caso pouco
provável de a vida social ser capaz de concebê-la e gestá-la. Entre a ordem
como um todo e cada uma das agências, veículos e estratagemas da ação
proposital há uma clivagem — uma brecha que se amplia perpetuamente,
sem ponte à vista.
Ao contrário da maioria dos cenários distópicos, este efeito não foi
alcançado via ditadura, subordinação, opressão ou escravização; nem
através da “colonização” da esfera privada pelo “sistema”. Ao contrário: a
situação presente emergiu do derretimento radical dos grilhões e das
algemas que, certo ou errado, eram suspeitos de limitar a liberdade
individual de escolher e de agir. A rigidez da ordem é o artefato e o
sedimento da liberdade dos agentes humanos. Essa rigidez é o resultado de
“soltar o freio”: da desregulamentação, da liberalização, da “flexibilização”,
da “fluidez” crescente, do descontrole dos mercados financeiro, imobiliário
e de trabalho, tornando mais leve o peso dos impostos etc. (como Offe
observou em “Amarras, algemas, grades”, publicado originalmente em
1987); ou (para citar Richard Senett em Flesh and Stone) das técnicas de
“velocidade, fuga, passividade” — em outras palavras, técnicas que
permitem que o sistema e os agentes livres se mantenham radicalmente
desengajados e que se desencontrem em vez de encontrar-se. Se o tempo
das revoluções sistêmicas passou, é porque não há edifícios que alojem as
mesas de controle do sistema, que poderiam ser atacados e capturados pelos
revolucionários; e também porque é terrivelmente difícil, para não dizer
impossível, imaginar o que os vencedores, uma vez dentro dos edifícios (se
os tivessem achado), poderiam fazer para virar a mesa e pôr fim à miséria
que os levou à rebelião. Ninguém ficaria surpreso ou intrigado pela
evidente escassez de pessoas que se disporiam a ser revolucionários: do tipo
de pessoas que articulam o desejo de mudar seus planos individuais como
projeto para mudar a ordem da sociedade.
A tarefa de construir uma ordem nova e melhor para substituir a velha
ordem defeituosa não está hoje na agenda — pelo menos não na agenda
daquele domínio em que se supõe que a ação política resida. O
“derretimento dos sólidos”, traço permanente da modernidade, adquiriu,
portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissolução
das forças que poderiam ter mantido a questão da ordem e do sistema na
agenda política. Os sólidos que estão para ser lançados no cadinho e os que
estão derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, são os
elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas —
os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida
conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de
coletividades humanas, de outro.
Numa entrevista a Jonathan Rutherford no dia três de fevereiro de 1999,
Ulrich Beck (que alguns anos antes cunhara o termo “segunda
modernidade” para conotar a fase marcada pela modernidade “voltando-se
sobre si mesma”, a era da assim chamada “modernização da modernidade”)
fala de “categorias zumbi” e “instituições zumbi”, que estão “mortas e
ainda vivas”. Ele menciona a família, a classe e o bairro como principais
exemplos do novo fenômeno. A família, por exemplo:
Pergunte-se o que é realmente uma família hoje em dia? O que
significa? É claro que há crianças, meus filhos, nossos filhos. Mas,
mesmo a paternidade e a maternidade, o núcleo da vida familiar, estão
começando a se desintegrar no divórcio … Avós e avôs são incluídos e
excluídos sem meios de participar nas decisões de seus filhos e filhas.
Do ponto de vista de seus netos, o significado das avós e dos avôs tem
que ser determinado por decisões e escolhas individuais.
O que está acontecendo hoje é, por assim dizer, uma redistribuição e
realocação dos “poderes de derretimento” da modernidade. Primeiro, eles
afetaram as instituições existentes, as molduras que circunscreviam o
domínio das ações-escolhas possíveis, como os estamentos hereditários com
sua alocação por atribuição, sem chance de apelação. Configurações,
constelações, padrões de dependência e interação, tudo isso foi posto a
derreter no cadinho, para ser depois novamente moldado e refeito; essa foi a
fase de “quebrar a forma” na história da modernidade inerentemente
transgressiva, rompedora de fronteiras e capaz de tudo desmoronar. Quanto
aos indivíduos, porém — eles podem ser desculpados por ter deixado de
notá-lo; passaram a ser confrontados por padrões e figurações que, ainda
que “novas e aperfeiçoadas”, eram tão duras e indomáveis como sempre.
Na verdade, nenhum molde foi quebrado sem que fosse substituído por
outro; as pessoas foram libertadas de suas velhas gaiolas apenas para ser
admoestadas e censuradas caso não conseguissem se realocar, através de
seus próprios esforços dedicados, contínuos e verdadeiramente infindáveis,
nos nichos pré-fabricados da nova ordem: nas classes, as molduras que (tão
intransigentemente como os estamentos já dissolvidos) encapsulavam a
totalidade das condições e perspectivas de vida e determinavam o âmbito
dos projetos e estratégias realistas de vida. A tarefa dos indivíduos livres era
usar sua nova liberdade para encontrar o nicho apropriado e ali se acomodar
e adaptar: seguindo fielmente as regras e modos de conduta identificados
como corretos e apropriados para aquele lugar.
São esses padrões, códigos e regras a que podíamos nos conformar, que
podíamos selecionar como pontos estáveis de orientação e pelos quais
podíamos nos deixar depois guiar, que estão cada vez mais em falta. Isso
não quer dizer que nossos contemporâneos sejam guiados tão somente por
sua própria imaginação e resolução e sejam livres para construir seu modo
de vida a partir do zero e segundo sua vontade, ou que não sejam mais
dependentes da sociedade para obter as plantas e os materiais de
construção. Mas quer dizer que estamos passando de uma era de “grupos de
referência” predeterminados a uma outra de “comparação universal”, em
que o destino dos trabalhos de autoconstrução individual está endêmica e
incuravelmente subdeterminado, não está dado de antemão, e tende a sofrer
numerosas e profundas mudanças antes que esses trabalhos alcancem seu
único fim genuíno: o fim da vida do indivíduo.
Hoje, os padrões e configurações não são mais “dados”, e menos ainda
“auto-evidentes” eles são muitos, chocando-se entre si e contradizendo-se
em seus comandos conflitantes, de tal forma que todos e cada um foram
desprovidos de boa parte de seus poderes de coercitivamente compelir e
restringir. E eles mudaram de natureza e foram reclassificados de acordo:
como itens no inventário das tarefas individuais. Em vez de preceder a
política-vida e emoldurar seu curso futuro, eles devem segui-la (derivar
dela), para serem formados e reformados por suas flexões e torções. Os
poderes que liquefazem passaram do “sistema” para a “sociedade”, da
“política” para as “políticas da vida” — ou desceram do nível “macro” para
o nível “micro” do convívio social.
A nossa é, como resultado, uma versão individualizada e privatizada da
modernidade, e o peso da trama dos padrões e a responsabilidade pelo fracasso caem principalmente sobre os ombros dos indivíduos. Chegou a
vez da liquefação dos padrões de dependência e interação. Eles são agora
maleáveis a um ponto que as gerações passadas não experimentaram e nem
poderiam imaginar; mas, como todos os fluidos, eles não mantêm a forma
por muito tempo. Dar-lhes forma é mais fácil que mantê-los nela. Os
sólidos são moldados para sempre. Manter os fluidos em uma forma requer
muita atenção, vigilância constante e esforço perpétuo — e mesmo assim o
sucesso do esforço é tudo menos inevitável.
Seria imprudente negar, ou mesmo subestimar, a profunda mudança que
o advento da “modernidade fluida” produziu na condição humana. O fato
de que a estrutura sistêmica seja remota e inalcançável, aliado ao estado
fluido e não-estruturado do cenário imediato da política-vida, muda aquela
condição de um modo radical e requer que repensemos os velhos conceitos
que costumavam cercar suas narrativas. Como zumbis, esses conceitos são
hoje mortos-vivos. A questão prática consiste em saber se sua ressurreição,
ainda que em nova forma ou encarnação, é possível; ou — se não for —
como fazer com que eles tenham um enterro decente e eficaz.
Este livro se dedica a essa questão. Foram selecionados para exame
cinco dos conceitos básicos em torno dos quais as narrativas ortodoxas da
condição humana tendem a se desenvolver: a emancipação, a
individualidade, o tempo/espaço, o trabalho e a comunidade.
Transformações sucessivas de seus significados e aplicações práticas são
exploradas (ainda que de maneira muito fragmentária e preliminar) com a
esperança de salvar os bebês do banho desta torrente de água poluída.
A modernidade significa muitas coisas, e sua chegada e avanço podem
ser aferidos utilizando-se muitos marcadores diferentes. Uma característica
da vida moderna e de seu moderno entorno se impõe, no entanto, talvez
como a “diferença que faz a diferença” como o atributo crucial que todas as
demais características seguem. Esse atributo é a relação cambiante entre
espaço e tempo.
A modernidade começa quando o espaço e o tempo são separados da
prática da vida e entre si, e assim podem ser teorizados como categorias
distintas e mutuamente independentes da estratégia e da ação; quando
deixam de ser, como eram ao longo dos séculos pré-modernos, aspectos
entrelaçados e dificilmente distinguíveis da experiência vivida, presos numa
estável e aparentemente invulnerável correspondência biunívoca. Na
modernidade, o tempo tem história, tem história por causa de sua “capacidade de carga”, perpetuamente em expansão — o alongamento dos
trechos do espaço que unidades de tempo permitem “passar”, “atravessar”,
“cobrir” — ou conquistar. O tempo adquire história uma vez que a
velocidade do movimento através do espaço (diferentemente do espaço
eminentemente inflexível, que não pode ser esticado e que não encolhe) se
torna uma questão do engenho, da imaginação e da capacidade humanas.
A própria idéia de velocidade (e mais ainda a de aceleração), quando se
refere à relação entre tempo e espaço, supõe sua variabilidade, e
dificilmente teria qualquer significado se não fosse aquela uma relação
verdadeiramente variável, se fosse um atributo da realidade inumana e pré-
humana e não uma questão de inventividade e resolução humanas, e se não
se lançasse para muito além da estreita gama de variações a que as
ferramentas naturais da mobilidade — as pernas humanas ou eqüinas —
costumavam confinar os movimentos dos corpos pré-modernos. Quando a
distância percorrida numa unidade de tempo passou a depender da
tecnologia, de meios artificiais de transporte, todos os limites à velocidade
do movimento, existentes ou herdados, poderiam, em princípio, ser
transgredidos. Apenas o céu (ou, como acabou sendo depois, a velocidade
da luz) era agora o limite, e a modernidade era um esforço contínuo, rápido
e irrefreável para alcançá-lo.
Graças a sua flexibilidade e expansividade recentemente adquiridas, o
tempo moderno se tornou, antes e acima de tudo, a arma na conquista do
espaço. Na moderna luta entre tempo e espaço, o espaço era o lado sólido e
impassível, pesado e inerte, capaz apenas de uma guerra defensiva, de
trincheiras — um obstáculo aos avanços do tempo. O tempo era o lado
dinâmico e ativo na batalha, o lado sempre na ofensiva: a força invasora,
conquistadora e colonizadora. A velocidade do movimento e o acesso a
meios mais rápidos de mobilidade chegaram nos tempos modernos à
posição de principal ferramenta do poder e da dominação.
Michel Foucault utilizou o projeto do Panóptico de Jeremy Bentham
como arquimetáfora do poder moderno. No Panóptico, os internos estavam
presos ao lugar e impedidos de qualquer movimento, confinados entre
muros grossos, densos e bem-guardados, e fixados a suas camas, celas ou
bancadas. Eles não podiam se mover porque estavam sob vigilância; tinham
que se ater aos lugares indicados sempre porque não sabiam, e nem tinham
como saber, onde estavam no momento seus vigias, livres para mover-se à
vontade. As instalações e a facilidade de movimento dos vigias eram a garantia de sua dominação; dos múltiplos laços de sua subordinação, a
“fixação” dos internos ao lugar era o mais seguro e difícil de romper. O
domínio do tempo era o segredo do poder dos administradores — e
imobilizar os subordinados no espaço, negando-lhes o direito ao movimento
e rotinizando o ritmo a que deviam obedecer era a principal estratégia em
seu exercício do poder. A pirâmide do poder era feita de velocidade, de
acesso aos meios de transporte e da resultante liberdade de movimento.
O Panóptico era um modelo de engajamento e confrontação mútuos
entre os dois lados da relação de poder. As estratégias dos administradores,
mantendo sua própria volatilidade e rotinizando o fluxo do tempo de seus
subordinados, se tornavam uma só. Mas havia tensão entre as duas tarefas.
A segunda tarefa punha limites à primeira — prendia os “rotinizadores” ao
lugar dentro do qual os objetos da rotinização do tempo estavam
confinados. Os rotinizadores não eram verdadeira e inteiramente livres para
se mover: a opção “ausente” estava fora de questão em termos práticos.
O Panóptico apresenta também outras desvantagens. É uma estratégia
cara: a conquista do espaço e sua manutenção, assim como a manutenção
dos internos no espaço vigiado, abarcava ampla gama de tarefas
administrativas custosas e complicadas. Havia os edifícios a erigir e manter
em bom estado, os vigias profissionais a contratar e remunerar, a
sobrevivência e capacidade de trabalho dos internos a ser preservada e
cultivada. Finalmente, administrar significa, ainda que a contragosto,
responsabilizar-se pelo bem-estar geral do lugar, mesmo que em nome de
um interesse pessoal consciente — e a responsabilidade, outra vez, significa
estar preso ao lugar. Ela requer presença, e engajamento, pelo menos como
uma confrontação e um cabo-de-guerra permanentes.
O que leva tantos a falar do “fim da história”, da pós-modernidade, da
“segunda modernidade” e da “sobremodernidade”, ou a articular a intuição
de uma mudança radical no arranjo do convívio humano e nas condições
sociais sob as quais a política-vida é hoje levada, é o fato de que o longo
esforço para acelerar a velocidade do movimento chegou a seu “limite
natural”. O poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico — e
assim o tempo requerido para o movimento de seus ingredientes essenciais
se reduziu à instantaneidade. Em termos práticos, o poder se tornou
verdadeiramente extraterritorial, não mais limitado, nem mesmo
desacelerado, pela resistência do espaço (o advento do telefone celular
serve bem como “golpe de misericórdia” simbólico na dependência em relação ao espaço: o próprio acesso a um ponto telefônico não é mais
necessário para que uma ordem seja dada e cumprida. Não importa mais
onde está quem dá a ordem — a diferença entre “próximo” e “distante”, ou
entre o espaço selvagem e o civilizado e ordenado, está a ponto de
desaparecer). Isso dá aos detentores do poder uma oportunidade
verdadeiramente sem precedentes: eles podem se livrar dos aspectos
irritantes e atrasados da técnica de poder do Panóptico. O que quer que a
história da modernidade seja no estágio presente, ela é também, e talvez
acima de tudo, pós-Panóptica. O que importava no Panóptico era que os
encarregados “estivessem lá”, próximos, na torre de controle. O que
importa, nas relações de poder pós-panópticas é que as pessoas que operam
as alavancas do poder de que depende o destino dos parceiros menos
voláteis na relação podem fugir do alcance a qualquer momento — para a
pura inacessibilidade.
O fim do Panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo:
entre supervisores e supervisados, capital e trabalho, líderes e seguidores,
exércitos em guerra. As principais técnicas do poder são agora a fuga, a
astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento
territorial, com os complicados corolários de construção e manutenção da
ordem, e com a responsabilidade pelas conseqüências de tudo, bem como
com a necessidade de arcar com os custos.
Essa nova técnica do poder foi vividamente ilustrada pelas estratégias
desenvolvidas pelos atacantes nas guerras do Golfo e da Iugoslávia. A
relutância em utilizar forças terrestres na guerra foi impressionante;
quaisquer que tenham sido as explicações oficiais, essa relutância foi ditada
não apenas pela amplamente referida síndrome dos “cadáveres ensacados”.
O engajamento num combate terrestre foi evitado não só por seus possíveis
efeitos adversos na política interna, mas também (talvez principalmente)
por sua total inutilidade e mesmo contra-produtividade em relação aos
objetivos da guerra. Afinal, a conquista do território com todas suas
conseqüências administrativas e gerenciais não só estava ausente da lista de
objetivos das ações de guerra, como era uma eventualidade a ser evitada a
todo custo, vista com repugnância como outro tipo de “prejuízo colateral”,
desta vez infligido à própria força atacante.
Golpes desferidos por bombardeiros furtivos e “espertos” mísseis
autodirigidos capazes de seguir seus alvos — lançados de surpresa, vindos
do nada e desaparecendo imediatamente de vista — substituíram os avanços territoriais das tropas de infantaria e o esforço para expulsar o inimigo de
seu território — o esforço de ocupar o território possuído, controlado e
administrado pelo inimigo. Os atacantes definitivamente não queriam mais
ser “os últimos no campo de batalha” depois da fuga ou retirada do inimigo.
A força militar e seu plano de guerra de “atingir e correr” prefigura,
incorpora e pressagia o que de fato está em jogo no novo tipo de guerra na
era da modernidade líquida: não a conquista de novo território, mas a
destruição das muralhas que impediam o fluxo dos novos e fluidos poderes
globais; expulsar da cabeça do inimigo o desejo de formular suas próprias
regras, abrindo assim o até então inacessível, defendido e protegido espaço
para a operação dos outros ramos, não-militares, do poder. A guerra hoje,
pode-se dizer (parafraseando a famosa fórmula de Clausewitz), parece cada
vez mais uma “promoção do livre comércio por outros meios”.
Jim MacLaughlin nos lembrou recentemente (em Sociology 1/99) de
que o advento da era moderna significou, entre outras coisas, o ataque
consistente e sistemático dos “assentados”, convertidos ao modo sedentário
de vida, contra os povos e o estilo de vida nômades, completamente alheios
às preocupações territoriais e de fronteiras do emergente Estado moderno.
Ibn Khaldoun, no século XIV, podia elogiar o nomadismo, que faz com que
os nômades “sejam melhores que os povos assentados porque … estão mais
afastados de todos os maus hábitos que infectaram o coração dos
assentados” — mas a febre de construção de nações e Estados-nação que
logo em seguida começou a sério por toda a Europa colocou o “solo”
firmemente acima do “sangue” ao lançar as fundações da nova ordem
legislada e ao codificar os direitos e deveres dos cidadãos. Os nômades, que
faziam pouco das preocupações territoriais dos legisladores e
ostensivamente desrespeitavam seus zelosos esforços em traçar fronteiras,
foram colocados entre os principais vilões na guerra santa travada em nome
do progresso e da civilização. A “cronopolítica” moderna os situa não
apenas como seres inferiores e primitivos, “subdesenvolvidos” e
necessitados de profunda reforma e esclarecimento, mas também como
atrasados e “aquém dos tempos”, vítimas da “defasagem cultural”,
arrastando-se nos degraus mais baixos da escala evolutiva, e
imperdoavelmente lentos ou morbidamente relutantes em subir nela, para
seguir o “padrão universal de desenvolvimento”.
Ao longo do estágio sólido da era moderna, os hábitos nômades foram
mal vistos. A cidadania andava de mãos dadas com o assentamento, e a falta de “endereço fixo” e de “estado de origem” significava exclusão da
comunidade obediente e protegida pelas leis, freqüentemente tornando os
nômades vítimas de discriminação legal, quando não de perseguição ativa.
Embora isso ainda se aplique à “subclasse” andarilha e “sem-teto”, sujeita
às antigas técnicas de controle panóptico (técnicas quase abandonadas como
veículo principal para integração e disciplina do grosso da população), a era
da superioridade incondicional do sedentarismo sobre o nomadismo e da
dominação dos assentados sobre os nômades está chegando ao fim. Estamos
testemunhando a vingança do nomadismo contra o princípio da
territorialidade e do assentamento. No estágio fluido da modernidade, a
maioria assentada é dominada pela elite nômade e extraterritorial. Manter as
estradas abertas para o tráfego nômade e tornar mais distantes as barreiras
remanescentes tornou-se hoje o meta-propósito da política, e também das
guerras, que, como Clausewitz originalmente declarou, não são mais que “a
extensão da política por outros meios”.
A elite global contemporânea é formada no padrão do velho estilo dos
“senhores ausentes”. Ela pode dominar sem se ocupar com a administração,
gerenciamento, bem-estar, ou, ainda, com a missão de “levar a luz”,
“reformar os modos”, elevar moralmente, “civilizar” e com cruzadas
culturais. O engajamento ativo na vida das populações subordinadas não é
mais necessário (ao contrário, é fortemente evitado como
desnecessariamente custoso e ineficaz) — e, portanto, o “maior” não só não
é mais o “melhor”, mas carece de significado racional. Agora é o menor,
mais leve e mais portátil que significa melhoria e “progresso”. Mover-se
leve, e não mais aferrar-se a coisas vistas como atraentes por sua
confiabilidade e solidez — isto é, por seu peso, substancialidade e
capacidade de resistência — é hoje recurso de poder.
Fixar-se ao solo não é tão importante se o solo pode ser alcançado e
abandonado à vontade, imediatamente ou em pouquíssimo tempo. Por outro
lado, fixar-se muito fortemente, sobrecarregando os laços com
compromissos mutuamente vinculantes, pode ser positivamente prejudicial,
dadas as novas oportunidades que surgem em outros lugares. Rockefeller
pode ter desejado construir suas fábricas, estradas de ferro e torres de
petróleo altas e volumosas e ser dono delas por um longo tempo (pela
eternidade, se medirmos o tempo pela duração da própria vida ou pela da
família). Bill Gates, no entanto, não sente remorsos quando abandona
posses de que se orgulhava ontem; é a velocidade atordoante da circulação, da reciclagem, do envelhecimento, do entulho e da substituição que traz
lucro hoje — não a durabilidade e confiabilidade do produto. Numa notável
reversão da tradição milenar, são os grandes e poderosos que evitam o
durável e desejam o transitório, enquanto os da base da pirâmide — contra
todas as chances — lutam desesperadamente para fazer suas frágeis,
mesquinhas e transitórias posses durarem mais tempo. Os dois se encontram
hoje em dia principalmente nos lados opostos dos balcões das mega-
liquidações ou de vendas de carros usados.
A desintegração da rede social, a derrocada das agências efetivas de ação
coletiva, é recebida muitas vezes com grande ansiedade e lamentada como
“efeito colateral” não previsto da nova leveza e fluidez do poder cada vez
mais móvel, escorregadio, evasivo e fugitivo. Mas a desintegração social é
tanto uma condição quanto um resultado da nova técnica do poder, que tem
como ferramentas principais o desengajamento e a arte da fuga. Para que o
poder tenha liberdade de fluir, o mundo deve estar livre de cercas, barreiras,
fronteiras fortificadas e barricadas. Qualquer rede densa de laços sociais, e
em particular uma que esteja territorialmente enraizada, é um obstáculo a
ser eliminado. Os poderes globais se inclinam a desmantelar tais redes em
proveito de sua contínua e crescente fluidez, principal fonte de sua força e
garantia de sua invencibilidade. E são esse derrocar, a fragilidade, o
quebradiço, o imediato dos laços e redes humanos que permitem que esses
poderes operem.
Se essas tendências entrelaçadas se desenvolvessem sem freios, homens
e mulheres seriam reformulados no padrão da toupeira eletrônica, essa
orgulhosa invenção dos tempos pioneiros da cibernética imediatamente
aclamada como arauto do porvir: um plugue em castores atarantados na
desesperada busca de tomadas a que se ligar. Mas no futuro anunciado pelos
telefones celulares, as tomadas serão provavelmente declaradas obsoletas e
de mau gosto, e passarão a ser fornecidas em quantidades cada vez menores
e com qualidade cada vez mais duvidosa. No momento, muitos
fornecedores de eletricidade exaltam as vantagens da conexão a suas
respectivas redes e disputam os favores dos que procuram por tomadas.
Mas a longo prazo (o que quer que “longo prazo” signifique na era da
instantaneidade) as tomadas serão provavelmente banidas e suplantadas por
baterias descartáveis compradas individualmente nas lojas e em oferta em
cada quiosque de aeroporto e posto de gasolina ao longo das estradas.
Essa parece ser a distopia feita sob medida para a modernidade líquida
— e capaz de substituir os terrores dos pesadelos de Orwell e Huxley.
Junho de 1999
OceanofPDF.com