Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 24 de 42

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Modernidade Líquida

A sedutora leveza do ser

espaço atingidas e afetadas) à velocidade dos sinais eletrônicos, todas as

referências ao tempo parecem, como diria Jacques Derrida, “sous rature”.

A “instantaneidade” aparentemente se refere a um movimento muito rápido

e a um tempo muito curto, mas de fato denota a ausência do tempo como

fator do evento e, por isso mesmo, como elemento no cálculo do valor. O

tempo não é mais o “desvio na busca”, e assim não mais confere valor ao

espaço. A quase-instantaneidade do tempo do software anuncia a

desvalorização do espaço.

Na era do hardware, da modernidade pesada, que nos termos de Max

Weber era também a era da racionalidade instrumental, o tempo era o meio

que precisava ser administrado prudentemente para que o retorno de valor,

que era o espaço, pudesse ser maximizado; na era do software, da

modernidade leve, a eficácia do tempo como meio de alcançar valor tende a

aproximar-se do infinito, com o efeito paradoxal de nivelar por cima (ou,

antes, por baixo) o valor de todas as unidades no campo dos objetivos

potenciais. O ponto de interrogação moveu-se do lado dos meios para o

lado dos fins. Se aplicado à relação tempo-espaço, isso significa que, como

todas as partes do espaço podem ser atingidas no mesmo período de tempo

(isto é, em “tempo nenhum”), nenhuma parte do espaço é privilegiada,

nenhuma tem um “valor especial”. Se todas as partes do espaço podem ser

alcançadas a qualquer momento, não há razão para alcançar qualquer uma

delas num dado momento e nem tampouco razão para se preocupar em

garantir o direito de acesso a qualquer uma delas. Se soubermos que

podemos visitar um lugar em qualquer momento que quisermos, não há

urgência em visitá-lo nem em gastar dinheiro em uma passagem válida para

sempre. Há ainda menos razão para suportar o gasto da supervisão e

administração permanentes, do laborioso e arriscado cultivo de terras que

podem ser facilmente ocupadas e abandonadas conforme interesses de

momento e “relevâncias tópicas”.

 

A sedutora leveza do ser

 

O tempo instantâneo e sem substância do mundo do software é também um

tempo sem conseqüências. “Instantaneidade” significa realização imediata,

“no ato” — mas também exaustão e desaparecimento do interesse. A distância em tempo que separa o começo do fim está diminuindo ou mesmo

desaparecendo; as duas noções, que outrora eram usadas para marcar a

passagem do tempo, e portanto para calcular seu “valor perdido”, perderam

muito de seu significado — que, como todos os significados, derivava de

sua rígida oposição. Há apenas “momentos” — pontos sem dimensões.

Mas, será ainda um tal tempo — tempo com a morfologia de um agregado

de momentos — o tempo “como o conhecemos”? A expressão “momento

de tempo” parece, pelo menos em certos aspectos vitais, um oxímoro. Teria

o tempo, depois de matar o espaço enquanto valor, cometido suicídio? Não

teria sido o espaço apenas a primeira baixa na corrida do tempo para a auto-

aniquilação?

O que foi aqui descrito é, claro, uma condição liminar na história do

tempo — o que parece ser, em seu estágio presente, a tendência última

dessa história. Por mais próximo de zero que seja o tempo necessário para

alcançar um destino espacial, ele ainda não chegou lá. Mesmo a tecnologia

mais avançada, armada de processadores cada vez mais poderosos, ainda

tem muito caminho pela frente até atingir a genuína “instantaneidade”. E

em verdade a conseqüência lógica da irrelevância do espaço ainda não se

realizou plenamente, como também não se realizou a leveza e a infinita

volatilidade e flexibilidade da agência humana. Mas a condição descrita é,

de fato, o horizonte do desenvolvimento da modernidade leve. E, o que é

ainda mais importante, é o ideal do buscar sempre, ainda que (ou será

porque?) para nunca alcançar plenamente, de seus principais operadores, o

ideal que, no surgimento de uma nova norma, penetra e satura cada órgão,

tecido e célula do corpo social. Milan Kundera retratou “a insustentável

leveza do ser” como o centro da tragédia do mundo moderno. A leveza e a

velocidade (juntas!) foram oferecidas por Ítalo Calvino, inventor de

personagens totalmente livres (completamente livres porque são

inalcançáveis, escorregadios e impossíveis de prender) — o barão que

saltava sobre as árvores e o cavaleiro sem corpo — como as últimas e mais

plenas encarnações da eterna função emancipatória da arte literária.

Há mais de 30 anos (em seu clássico Fenômeno burocrático), Michel

Crozier identificava a dominação (em todas suas variantes) com a

proximidade das fontes da incerteza. Seu veredicto ainda vale: quem manda

são as pessoas que conseguem manter suas ações livres, sem normas e

portanto imprevisíveis, ao mesmo tempo em que regulam normativamente

(rotinizando e portanto tornando monótonas, repetitivas e previsíveis) as ações dos protagonistas. Pessoas com as mãos livres mandam em pessoas

com as mãos atadas; a liberdade das primeiras é a causa principal da falta

de liberdade das últimas — ao mesmo tempo em que a falta de liberdade

das últimas é o significado último da liberdade das primeiras.

Nesse aspecto, nada mudou com a passagem da modernidade pesada à

leve. Mas a moldura foi preenchida com um novo conteúdo; mais

precisamente, a busca da “proximidade das fontes da incerteza” reduziu-se

a um só objetivo — a instantaneidade. As pessoas que se movem e agem

com maior rapidez, que mais se aproximam do momentâneo do movimento,

são as pessoas que agora mandam. E são as pessoas que não podem se

mover tão rápido — e, de modo ainda mais claro, a categoria das pessoas

que não podem deixar seu lugar quando quiserem — as que obedecem. A

dominação consiste em nossa própria capacidade de escapar, de nos

desengajarmos, de estar “em outro lugar”, e no direito de decidir sobre a

velocidade com que isso será feito — e ao mesmo tempo de destituir os que

estão do lado dominado de sua capacidade de parar, ou de limitar seus

movimentos ou ainda torná-los mais lentos. A batalha contemporânea da

dominação é travada entre forças que empunham, respectivamente, as

armas da aceleração e da procrastinação.

O acesso diferencial à instantaneidade é crucial entre as versões

correntes do fundamento duradouro e indestrutível da divisão social em

todas as suas formas historicamente cambiantes: o acesso diferencial à

imprevisibilidade e, portanto, à liberdade. Num mundo povoado por servos

que semeavam a terra, saltar sobre as árvores era a receita perfeita dos

barões para a liberdade. É a facilidade com que os barões de hoje se

comportam de modo semelhante ao saltar sobre as árvores que mantém os

sucessores dos servos em seus lugares, e é a imobilidade forçada desses

sucessores, sua ligação à terra, que permite que os barões continuem a

saltar. Por mais profunda e deprimente que seja a miséria dos servos, não há

ninguém contra quem se rebelar, e se tivessem se rebelado não teriam

alcançado os rápidos alvos de sua rebelião. A modernidade pesada

mantinha capital e trabalho numa gaiola de ferro de que não podiam

escapar.

A modernidade leve permitiu que um dos parceiros saísse da gaiola. A

modernidade “sólida” era uma era de engajamento mútuo. A modernidade

“fluida” é a época do desengajamento, da fuga fácil e da perseguição inútil. Na modernidade “líquida” mandam os mais escapadiços, os que são livres

para se mover de modo imperceptível.

Karl Polanyi (em A grande transformação: a origem política e

econômica de nosso tempo, publicado em 1944) proclamou a ficção do

tratamento do trabalho como “mercadoria” e desenvolveu as conseqüências

do arranjo social fundado nessa ficção. O trabalho, observou Polanyi, não

pode ser uma mercadoria (pelo menos não uma mercadoria como as outras),

dado que não pode ser vendido ou comprado separado de seus portadores.

O trabalho sobre o qual Polanyi escrevia era de fato trabalho incorporado:

trabalho que não podia ser movido sem mover os corpos dos trabalhadores.

Só se podia alugar e empregar trabalho humano junto com o resto dos

corpos dos trabalhadores, e a inércia dos corpos alugados punha limites à

liberdade dos empregadores. Para supervisionar o trabalho e canalizá-lo

conforme o projeto era preciso administrar e vigiar os trabalhadores; para

controlar o processo de trabalho era preciso controlar os trabalhadores. Esse

requisito colocou o capital e o trabalho face a face e, para o bem ou para o

mal, os manteve juntos. O resultado foi muito conflito, mas também muita

acomodação mútua: ácidas acusações, lutas amargas e pouco amor perdido,

mas também um tremendo engenho na formulação de regras de convívio

razoavelmente satisfatórias ou apenas suportáveis. Revoluções e o Estado

de bem-estar foram o resultado não previsto mas inevitável da condição que

impedia a separação como opção factível e viável.

Vivemos agora uma outra “grande transformação”, e um de seus

aspectos mais visíveis é um fenômeno que é o exato oposto da condição que

Polanyi supunha: a “descorporificação” daquele tipo de trabalho humano

que serve como principal fonte de nutrição, ou campo de pastagem, para o

capital contemporâneo. Instalações de vigilância e treinamento à la

Panóptico, volumosas, confusas e desajeitadas, não são mais necessárias. O

trabalho foi libertado do Panóptico, mas, o que é mais importante, o capital

se livrou do peso e dos custos exorbitantes de mantê-lo; o capital ficou livre

da tarefa que o prendia e o forçava ao enfrentamento direto com os agentes

explorados em nome de sua reprodução e engrandecimento.

O trabalho sem corpo da era do software não mais amarra o capital:

permite ao capital ser extraterritorial, volátil e inconstante. A

descorporificação do trabalho anuncia a ausência de peso do capital. Sua

dependência mútua foi unilateralmente rompida: enquanto a capacidade do

trabalho é, como antes, incompleta e irrealizável isoladamente, o inverso não mais se aplica. O capital viaja esperançoso, contando com breves e

lucrativas aventuras e confiante em que não haverá escassez delas ou de

parceiros com quem compartilhá-las. O capital pode viajar rápido e leve, e

sua leveza e mobilidade se tornam as fontes mais importantes de incerteza

para todo o resto. Essa é hoje a principal base da dominação e o principal

fator das divisões sociais.

Volume e tamanho deixam de ser recursos para se tornar riscos. Para os

capitalistas que preferem trocar maciços prédios de escritórios por cabines

em balões, flutuar é o mais lucrativo e desejado dos recursos; e a melhor

maneira de garantir a flutuação é jogar pela amurada todo peso não-vital,

deixando os membros não-indispensáveis da tripulação em terra. Um dos

itens mais embaraçosos do lastro de que é preciso livrar-se é a onerosa

tarefa da administração e supervisão de uma equipe grande — tarefa que

tem a tendência irritante de crescer incessantemente e aumentar de peso

com a adição de camadas sempre novas de compromissos e obrigações. Se

a “ciência da administração” do capitalismo pesado se centrava em

conservar a “mão-de-obra” e forçá-la ou suborná-la a permanecer de

prontidão e trabalhar segundo os prazos, a arte da administração na era do

capitalismo leve consiste em manter afastada a “mão-de-obra humana” ou,

melhor ainda, forçá-la a sair. Encontros breves substituem engajamentos

duradouros. Não se faz uma plantação de limoeiros para espremer um

limão.

O equivalente gerencial da lipoaspiração se tornou o principal

estratagema da arte de administrar: emagrecer, reduzir de tamanho

(downsizing), superar, fechar ou vender algumas unidades porque não são

suficientemente eficazes, e outras porque é mais barato deixar que lutem

por sua conta pela sobrevivência do que assumir a tarefa cansativa e

demorada da supervisão gerencial, são as principais aplicações dessa nova

arte.

Alguns observadores se apressaram a concluir que “maior” não é mais

considerado “mais eficiente”. Nessa apresentação muito geral, porém, a

conclusão não é correta. A obsessão pela redução de tamanho é um

complemento inseparável da mania das fusões. Os melhores jogadores

nesse campo são conhecidos por negociar ou forçar fusões para adquirir

mais espaço para operações de redução de tamanho, ao mesmo tempo em

que a redução “até o osso” dos ativos é amplamente aceita como

precondição fundamental para o sucesso dos planos de fusão. Fusões e redução de tamanho não se contrapõem; ao contrário, se condicionam e

reforçam mutuamente. É um paradoxo apenas aparente: a contradição

aparente se dissolve se considerarmos uma “nova e melhorada”

apresentação do princípio de Michel Crozier. É a mistura de estratégias de

fusão e redução de tamanho que oferece ao capital e ao poder financeiro o

espaço para se mover rapidamente, tornando a amplitude de sua viagem

cada vez mais global, ao mesmo tempo em que priva o trabalho de seu

poder de barganha e de ruído, imobilizando-o e atando suas mãos ainda

mais firmemente.

A fusão prenuncia uma corda mais longa para o capital esguio,

flutuante, ao estilo Houdini, que transformou a evasão e a fuga nos maiores

veículos de sua dominação, substituiu compromissos duradouros por

negócios de curto-prazo e encontros fugazes, mantendo sempre aberta a

possibilidade do “ato de desaparecimento”. O capital ganha mais campo de

manobra — mais abrigos para esconder-se, maior matriz de permutações

possíveis, mais amplo sortimento de transformações disponíveis, e portanto

mais força para manter o trabalho que emprega sob controle, juntamente

com a capacidade de lavar as mãos das conseqüências devastadoras de

sucessivas rodadas de redução de tamanho; essa é a cara contemporânea da

dominação — sobre aqueles que já foram atingidos e sobre os que temem

estar na fila para golpes futuros. Como a Associação Norte-Americana de

Administração aprendeu com um estudo que comissionou, “o moral e a

motivação dos trabalhadores caiu acentuadamente depois de vários arrochos

de redução de tamanho. Os trabalhadores sobreviventes esperavam pelo

novo golpe de foice em vez de exultarem com a vitória sobre os

demitidos”.23

A competição pela sobrevivência certamente não é apenas o destino dos

trabalhadores — ou, de maneira mais geral, de todos os que estão do lado

que sofre a mudança da relação entre tempo e espaço. Ela domina de alto a

baixo a empresa obcecada com a “dieta de emagrecimento”. Os gerentes

devem reduzir o tamanho de setores que empregam trabalhadores para

continuar vivos; a alta gerência deve reduzir o tamanho de seus escritórios

para merecer o reconhecimento das bolsas, ganhar os votos dos acionistas e

garantir o direito aos cumprimentos quando completar a rodada de cortes.

Depois de começada, a tendência “ao emagrecimento” ganha força própria.

A tendência se torna autopropelida e autoacelerada, e (como os empresários

perfeccionistas de Max Weber, que não mais precisavam das exortações de Calvino ao arrependimento) o motivo original — maior eficiência — torna-