Modernidade Líquida
A sedutora leveza do ser
espaço atingidas e afetadas) à velocidade dos sinais eletrônicos, todas as
referências ao tempo parecem, como diria Jacques Derrida, “sous rature”.
A “instantaneidade” aparentemente se refere a um movimento muito rápido
e a um tempo muito curto, mas de fato denota a ausência do tempo como
fator do evento e, por isso mesmo, como elemento no cálculo do valor. O
tempo não é mais o “desvio na busca”, e assim não mais confere valor ao
espaço. A quase-instantaneidade do tempo do software anuncia a
desvalorização do espaço.
Na era do hardware, da modernidade pesada, que nos termos de Max
Weber era também a era da racionalidade instrumental, o tempo era o meio
que precisava ser administrado prudentemente para que o retorno de valor,
que era o espaço, pudesse ser maximizado; na era do software, da
modernidade leve, a eficácia do tempo como meio de alcançar valor tende a
aproximar-se do infinito, com o efeito paradoxal de nivelar por cima (ou,
antes, por baixo) o valor de todas as unidades no campo dos objetivos
potenciais. O ponto de interrogação moveu-se do lado dos meios para o
lado dos fins. Se aplicado à relação tempo-espaço, isso significa que, como
todas as partes do espaço podem ser atingidas no mesmo período de tempo
(isto é, em “tempo nenhum”), nenhuma parte do espaço é privilegiada,
nenhuma tem um “valor especial”. Se todas as partes do espaço podem ser
alcançadas a qualquer momento, não há razão para alcançar qualquer uma
delas num dado momento e nem tampouco razão para se preocupar em
garantir o direito de acesso a qualquer uma delas. Se soubermos que
podemos visitar um lugar em qualquer momento que quisermos, não há
urgência em visitá-lo nem em gastar dinheiro em uma passagem válida para
sempre. Há ainda menos razão para suportar o gasto da supervisão e
administração permanentes, do laborioso e arriscado cultivo de terras que
podem ser facilmente ocupadas e abandonadas conforme interesses de
momento e “relevâncias tópicas”.
A sedutora leveza do ser
O tempo instantâneo e sem substância do mundo do software é também um
tempo sem conseqüências. “Instantaneidade” significa realização imediata,
“no ato” — mas também exaustão e desaparecimento do interesse. A distância em tempo que separa o começo do fim está diminuindo ou mesmo
desaparecendo; as duas noções, que outrora eram usadas para marcar a
passagem do tempo, e portanto para calcular seu “valor perdido”, perderam
muito de seu significado — que, como todos os significados, derivava de
sua rígida oposição. Há apenas “momentos” — pontos sem dimensões.
Mas, será ainda um tal tempo — tempo com a morfologia de um agregado
de momentos — o tempo “como o conhecemos”? A expressão “momento
de tempo” parece, pelo menos em certos aspectos vitais, um oxímoro. Teria
o tempo, depois de matar o espaço enquanto valor, cometido suicídio? Não
teria sido o espaço apenas a primeira baixa na corrida do tempo para a auto-
aniquilação?
O que foi aqui descrito é, claro, uma condição liminar na história do
tempo — o que parece ser, em seu estágio presente, a tendência última
dessa história. Por mais próximo de zero que seja o tempo necessário para
alcançar um destino espacial, ele ainda não chegou lá. Mesmo a tecnologia
mais avançada, armada de processadores cada vez mais poderosos, ainda
tem muito caminho pela frente até atingir a genuína “instantaneidade”. E
em verdade a conseqüência lógica da irrelevância do espaço ainda não se
realizou plenamente, como também não se realizou a leveza e a infinita
volatilidade e flexibilidade da agência humana. Mas a condição descrita é,
de fato, o horizonte do desenvolvimento da modernidade leve. E, o que é
ainda mais importante, é o ideal do buscar sempre, ainda que (ou será
porque?) para nunca alcançar plenamente, de seus principais operadores, o
ideal que, no surgimento de uma nova norma, penetra e satura cada órgão,
tecido e célula do corpo social. Milan Kundera retratou “a insustentável
leveza do ser” como o centro da tragédia do mundo moderno. A leveza e a
velocidade (juntas!) foram oferecidas por Ítalo Calvino, inventor de
personagens totalmente livres (completamente livres porque são
inalcançáveis, escorregadios e impossíveis de prender) — o barão que
saltava sobre as árvores e o cavaleiro sem corpo — como as últimas e mais
plenas encarnações da eterna função emancipatória da arte literária.
Há mais de 30 anos (em seu clássico Fenômeno burocrático), Michel
Crozier identificava a dominação (em todas suas variantes) com a
proximidade das fontes da incerteza. Seu veredicto ainda vale: quem manda
são as pessoas que conseguem manter suas ações livres, sem normas e
portanto imprevisíveis, ao mesmo tempo em que regulam normativamente
(rotinizando e portanto tornando monótonas, repetitivas e previsíveis) as ações dos protagonistas. Pessoas com as mãos livres mandam em pessoas
com as mãos atadas; a liberdade das primeiras é a causa principal da falta
de liberdade das últimas — ao mesmo tempo em que a falta de liberdade
das últimas é o significado último da liberdade das primeiras.
Nesse aspecto, nada mudou com a passagem da modernidade pesada à
leve. Mas a moldura foi preenchida com um novo conteúdo; mais
precisamente, a busca da “proximidade das fontes da incerteza” reduziu-se
a um só objetivo — a instantaneidade. As pessoas que se movem e agem
com maior rapidez, que mais se aproximam do momentâneo do movimento,
são as pessoas que agora mandam. E são as pessoas que não podem se
mover tão rápido — e, de modo ainda mais claro, a categoria das pessoas
que não podem deixar seu lugar quando quiserem — as que obedecem. A
dominação consiste em nossa própria capacidade de escapar, de nos
desengajarmos, de estar “em outro lugar”, e no direito de decidir sobre a
velocidade com que isso será feito — e ao mesmo tempo de destituir os que
estão do lado dominado de sua capacidade de parar, ou de limitar seus
movimentos ou ainda torná-los mais lentos. A batalha contemporânea da
dominação é travada entre forças que empunham, respectivamente, as
armas da aceleração e da procrastinação.
O acesso diferencial à instantaneidade é crucial entre as versões
correntes do fundamento duradouro e indestrutível da divisão social em
todas as suas formas historicamente cambiantes: o acesso diferencial à
imprevisibilidade e, portanto, à liberdade. Num mundo povoado por servos
que semeavam a terra, saltar sobre as árvores era a receita perfeita dos
barões para a liberdade. É a facilidade com que os barões de hoje se
comportam de modo semelhante ao saltar sobre as árvores que mantém os
sucessores dos servos em seus lugares, e é a imobilidade forçada desses
sucessores, sua ligação à terra, que permite que os barões continuem a
saltar. Por mais profunda e deprimente que seja a miséria dos servos, não há
ninguém contra quem se rebelar, e se tivessem se rebelado não teriam
alcançado os rápidos alvos de sua rebelião. A modernidade pesada
mantinha capital e trabalho numa gaiola de ferro de que não podiam
escapar.
A modernidade leve permitiu que um dos parceiros saísse da gaiola. A
modernidade “sólida” era uma era de engajamento mútuo. A modernidade
“fluida” é a época do desengajamento, da fuga fácil e da perseguição inútil. Na modernidade “líquida” mandam os mais escapadiços, os que são livres
para se mover de modo imperceptível.
Karl Polanyi (em A grande transformação: a origem política e
econômica de nosso tempo, publicado em 1944) proclamou a ficção do
tratamento do trabalho como “mercadoria” e desenvolveu as conseqüências
do arranjo social fundado nessa ficção. O trabalho, observou Polanyi, não
pode ser uma mercadoria (pelo menos não uma mercadoria como as outras),
dado que não pode ser vendido ou comprado separado de seus portadores.
O trabalho sobre o qual Polanyi escrevia era de fato trabalho incorporado:
trabalho que não podia ser movido sem mover os corpos dos trabalhadores.
Só se podia alugar e empregar trabalho humano junto com o resto dos
corpos dos trabalhadores, e a inércia dos corpos alugados punha limites à
liberdade dos empregadores. Para supervisionar o trabalho e canalizá-lo
conforme o projeto era preciso administrar e vigiar os trabalhadores; para
controlar o processo de trabalho era preciso controlar os trabalhadores. Esse
requisito colocou o capital e o trabalho face a face e, para o bem ou para o
mal, os manteve juntos. O resultado foi muito conflito, mas também muita
acomodação mútua: ácidas acusações, lutas amargas e pouco amor perdido,
mas também um tremendo engenho na formulação de regras de convívio
razoavelmente satisfatórias ou apenas suportáveis. Revoluções e o Estado
de bem-estar foram o resultado não previsto mas inevitável da condição que
impedia a separação como opção factível e viável.
Vivemos agora uma outra “grande transformação”, e um de seus
aspectos mais visíveis é um fenômeno que é o exato oposto da condição que
Polanyi supunha: a “descorporificação” daquele tipo de trabalho humano
que serve como principal fonte de nutrição, ou campo de pastagem, para o
capital contemporâneo. Instalações de vigilância e treinamento à la
Panóptico, volumosas, confusas e desajeitadas, não são mais necessárias. O
trabalho foi libertado do Panóptico, mas, o que é mais importante, o capital
se livrou do peso e dos custos exorbitantes de mantê-lo; o capital ficou livre
da tarefa que o prendia e o forçava ao enfrentamento direto com os agentes
explorados em nome de sua reprodução e engrandecimento.
O trabalho sem corpo da era do software não mais amarra o capital:
permite ao capital ser extraterritorial, volátil e inconstante. A
descorporificação do trabalho anuncia a ausência de peso do capital. Sua
dependência mútua foi unilateralmente rompida: enquanto a capacidade do
trabalho é, como antes, incompleta e irrealizável isoladamente, o inverso não mais se aplica. O capital viaja esperançoso, contando com breves e
lucrativas aventuras e confiante em que não haverá escassez delas ou de
parceiros com quem compartilhá-las. O capital pode viajar rápido e leve, e
sua leveza e mobilidade se tornam as fontes mais importantes de incerteza
para todo o resto. Essa é hoje a principal base da dominação e o principal
fator das divisões sociais.
Volume e tamanho deixam de ser recursos para se tornar riscos. Para os
capitalistas que preferem trocar maciços prédios de escritórios por cabines
em balões, flutuar é o mais lucrativo e desejado dos recursos; e a melhor
maneira de garantir a flutuação é jogar pela amurada todo peso não-vital,
deixando os membros não-indispensáveis da tripulação em terra. Um dos
itens mais embaraçosos do lastro de que é preciso livrar-se é a onerosa
tarefa da administração e supervisão de uma equipe grande — tarefa que
tem a tendência irritante de crescer incessantemente e aumentar de peso
com a adição de camadas sempre novas de compromissos e obrigações. Se
a “ciência da administração” do capitalismo pesado se centrava em
conservar a “mão-de-obra” e forçá-la ou suborná-la a permanecer de
prontidão e trabalhar segundo os prazos, a arte da administração na era do
capitalismo leve consiste em manter afastada a “mão-de-obra humana” ou,
melhor ainda, forçá-la a sair. Encontros breves substituem engajamentos
duradouros. Não se faz uma plantação de limoeiros para espremer um
limão.
O equivalente gerencial da lipoaspiração se tornou o principal
estratagema da arte de administrar: emagrecer, reduzir de tamanho
(downsizing), superar, fechar ou vender algumas unidades porque não são
suficientemente eficazes, e outras porque é mais barato deixar que lutem
por sua conta pela sobrevivência do que assumir a tarefa cansativa e
demorada da supervisão gerencial, são as principais aplicações dessa nova
arte.
Alguns observadores se apressaram a concluir que “maior” não é mais
considerado “mais eficiente”. Nessa apresentação muito geral, porém, a
conclusão não é correta. A obsessão pela redução de tamanho é um
complemento inseparável da mania das fusões. Os melhores jogadores
nesse campo são conhecidos por negociar ou forçar fusões para adquirir
mais espaço para operações de redução de tamanho, ao mesmo tempo em
que a redução “até o osso” dos ativos é amplamente aceita como
precondição fundamental para o sucesso dos planos de fusão. Fusões e redução de tamanho não se contrapõem; ao contrário, se condicionam e
reforçam mutuamente. É um paradoxo apenas aparente: a contradição
aparente se dissolve se considerarmos uma “nova e melhorada”
apresentação do princípio de Michel Crozier. É a mistura de estratégias de
fusão e redução de tamanho que oferece ao capital e ao poder financeiro o
espaço para se mover rapidamente, tornando a amplitude de sua viagem
cada vez mais global, ao mesmo tempo em que priva o trabalho de seu
poder de barganha e de ruído, imobilizando-o e atando suas mãos ainda
mais firmemente.
A fusão prenuncia uma corda mais longa para o capital esguio,
flutuante, ao estilo Houdini, que transformou a evasão e a fuga nos maiores
veículos de sua dominação, substituiu compromissos duradouros por
negócios de curto-prazo e encontros fugazes, mantendo sempre aberta a
possibilidade do “ato de desaparecimento”. O capital ganha mais campo de
manobra — mais abrigos para esconder-se, maior matriz de permutações
possíveis, mais amplo sortimento de transformações disponíveis, e portanto
mais força para manter o trabalho que emprega sob controle, juntamente
com a capacidade de lavar as mãos das conseqüências devastadoras de
sucessivas rodadas de redução de tamanho; essa é a cara contemporânea da
dominação — sobre aqueles que já foram atingidos e sobre os que temem
estar na fila para golpes futuros. Como a Associação Norte-Americana de
Administração aprendeu com um estudo que comissionou, “o moral e a
motivação dos trabalhadores caiu acentuadamente depois de vários arrochos
de redução de tamanho. Os trabalhadores sobreviventes esperavam pelo
novo golpe de foice em vez de exultarem com a vitória sobre os
demitidos”.23
A competição pela sobrevivência certamente não é apenas o destino dos
trabalhadores — ou, de maneira mais geral, de todos os que estão do lado
que sofre a mudança da relação entre tempo e espaço. Ela domina de alto a
baixo a empresa obcecada com a “dieta de emagrecimento”. Os gerentes
devem reduzir o tamanho de setores que empregam trabalhadores para
continuar vivos; a alta gerência deve reduzir o tamanho de seus escritórios
para merecer o reconhecimento das bolsas, ganhar os votos dos acionistas e
garantir o direito aos cumprimentos quando completar a rodada de cortes.
Depois de começada, a tendência “ao emagrecimento” ganha força própria.
A tendência se torna autopropelida e autoacelerada, e (como os empresários
perfeccionistas de Max Weber, que não mais precisavam das exortações de Calvino ao arrependimento) o motivo original — maior eficiência — torna-