Modernidade Líquida
O corpo do consumidor
que, em última análise, dá lugar a uma “economia” psíquica muito
diferente. O querer substitui o desejo como força motivadora do
consumo.14
A história do consumismo é a história da quebra e descarte de
sucessivos obstáculos “sólidos” que limitam o vôo livre da fantasia e
reduzem o “princípio do prazer” ao tamanho ditado pelo “princípio da
realidade”. A “necessidade”, considerada pelos economistas do século XIX
como a própria epítome da “solidez” — inflexível, permanentemente
circunscrita e finita — foi descartada e substituída durante algum tempo
pelo desejo, que era muito mais “fluido” e expansível que a necessidade por
causa de suas relações meio ilícitas com sonhos plásticos e volúveis sobre a
autenticidade de um “eu íntimo” à espera de expressão. Agora é a vez de
descartar o desejo. Ele sobreviveu à sua utilidade: tendo trazido o vício do
consumidor a seu Estado presente, não pode mais ditar o ritmo. Um
estimulante mais poderoso, e, acima de tudo, mais versátil é necessário para
manter a demanda do consumidor no nível da oferta. O “querer” é o
substituto tão necessário; ele completa a libertação do princípio do prazer,
limpando e dispondo dos últimos resíduos dos impedimentos do “princípio
de realidade”: a substância naturalmente gasosa foi finalmente liberada do
contêiner. Citando Ferguson uma vez mais:
Enquanto a facilitação do desejo se fundava na comparação, vaidade,
inveja e a “necessidade” de auto-aprovação, nada está por baixo do
imediatismo do querer. A compra é casual, inesperada e espontânea.
Ela tem uma qualidade de sonho tanto ao expressar quanto ao realizar
um querer, que, como todos os quereres, é insincero e infantil.15
O corpo do consumidor
Como afirmei em Life in Fragments (Polity Press, 1996), a sociedade pós-
moderna envolve seus membros primariamente em sua condição de
consumidores, e não de produtores. A diferença é fundamental.
A vida organizada em torno do papel de produtor tende a ser
normativamente regulada. Há um mínimo de que se precisa a fim de
manter-se vivo e ser capaz de fazer o que quer que o papel de produtor possa requerer, mas também um máximo com que se pode sonhar, desejar e
perseguir, contando com a aprovação social das ambições, sem medo de ser
desprezado, rejeitado e posto na linha. O que passar acima desse limite é
luxo, e desejar o luxo é pecado. O principal cuidado, portanto, é com a
conformidade: manter-se seguramente entre a linha inferior e o limite
superior — manter-se no mesmo nível (tão alto ou baixo, conforme o caso)
do vizinho.
A vida organizada em torno do consumo, por outro lado, deve se bastar
sem normas: ela é orientada pela sedução, por desejos sempre crescentes e
quereres voláteis — não mais por regulação normativa. Nenhum vizinho em
particular oferece um ponto de referência para uma vida de sucesso; uma
sociedade de consumidores se baseia na comparação universal — e o céu é
o único limite. A idéia de “luxo” não faz muito sentido, pois a idéia é fazer
dos luxos de hoje as necessidades de amanhã, e reduzir a distância entre o
“hoje” e o “amanhã” ao mínimo — tirar a espera da vontade. Como não há
normas para transformar certos desejos em necessidades e para deslegitimar
outros desejos como “falsas necessidades”, não há teste para que se possa
medir o padrão de “conformidade”. O principal cuidado diz respeito, então,
à adequação — a estar “sempre pronto” a ter a capacidade de aproveitar a
oportunidade quando ela se apresentar; a desenvolver novos desejos feitos
sob medida para as novas, nunca vistas e inesperadas seduções; e a não
permitir que as necessidades estabelecidas tornem as novas sensações
dispensáveis ou restrinjam nossa capacidade de absorvê-las e experimentá-
las.
Se a sociedade dos produtores coloca a saúde como o padrão que seus
membros devem atingir, a sociedade dos consumidores acena aos seus com
o ideal da aptidão (fitness). Os dois termos — saúde e aptidão — são
freqüentemente tomados como coextensivos e usados como sinônimos;
afinal, ambos se referem a cuidados com o corpo, ao Estado que se quer que
o corpo alcance e ao regime que se deve seguir para realizar essa vontade.
Tratar esses termos como sinônimos é, porém, um erro — e não meramente
pelos fatos conhecidos de que nem todos os regimes de aptidão “são bons
para a saúde” e de que o que ajuda a manter a saúde não necessariamente
leva à aptidão. Saúde e aptidão pertencem a dois discursos muito diferentes
e apelam a preocupações muito diferentes.
A saúde, como todos os conceitos normativos da sociedade dos
produtores, demarca e protege os limites entre “norma” e “anormalidade”. “Saúde” é o estado próprio e desejável do corpo e do espírito humanos —
um Estado que (pelo menos em princípio) pode ser mais ou menos
exatamente descrito e também precisamente medido. Refere-se a uma
condição corporal e psíquica que permite a satisfação das demandas do
papel socialmente designado e atribuído — e essas demandas tendem a ser
constantes e firmes. “Ser saudável” significa na maioria dos casos “ser
empregável”: ser capaz de um bom desempenho na fábrica, de “carregar o
fardo” com que o trabalho pode rotineiramente onerar a resistência física e
psíquica do empregado.
O estado de “aptidão”, ao contrário, é tudo menos “sólido” não pode,
por sua natureza, ser fixado e circunscrito com qualquer precisão. Ainda
que muitas vezes tomado como resposta à pergunta “como você está se
sentindo?” (se estou “apto”, provavelmente responderei “ótimo”), seu
verdadeiro teste fica para sempre no futuro: “estar apto” significa ter um
corpo flexível, absorvente e ajustável, pronto para viver sensações ainda
não testadas e impossíveis de descrever de antemão. Se a saúde é uma
condição “nem mais nem menos”, a aptidão está sempre aberta do lado do
“mais”: não se refere a qualquer padrão particular de capacidade corporal,
mas a seu (preferivelmente ilimitado) potencial de expansão. “Aptidão”
significa estar pronto a enfrentar o não-usual, o não-rotineiro, o
extraordinário — e acima de tudo o novo e o surpreendente. Quase se
poderia dizer que, se a saúde diz respeito a “seguir as normas”, a aptidão
diz respeito a quebrar todas as normas e superar todos os padrões.
Chegar a um padrão interpessoal seria de qualquer forma demais, pois
uma comparação objetiva de graus de aptidão individuais não é possível. A
aptidão, por contraste com a saúde, diz respeito a uma experiência subjetiva
(no sentido de experiência “vivida”, “sentida” — e não a um Estado ou
evento que possa ser observado de fora, e verbalizado e comunicado).
Como todos os estados subjetivos, a experiência de “estar apto” é
notoriamente difícil de articular de modo adequado à comunicação
interpessoal, e menos ainda à comparação interpessoal. A satisfação e o
prazer são sensações que não podem ser postas em termos abstratos:
precisam ser “subjetivamente experimentadas” — vividas. Nunca
saberemos com certeza se nossas sensações são tão profundas e excitantes,
tão prazerosas em suma, como as do próximo. A busca da “aptidão” é como
garimpar em busca de uma pedra preciosa que não podemos descrever até
encontrar; não temos, porém, meios de decidir que encontramos a pedra, mas temos todas as razões para suspeitar de que não a encontramos. A vida
organizada em torno da busca da aptidão promete uma série de escaramuças
vitoriosas, mas nunca o triunfo definitivo.
Ao contrário do cuidado com a saúde, a busca da aptidão não tem,
portanto, um fim natural. Os objetivos podem ser estabelecidos apenas para
a presente etapa do esforço sem fim — e a satisfação de alcançar um
objetivo é apenas momentânea. Na longa busca pela aptidão não há tempo
para descanso, e toda celebração de sucessos momentâneos não passa de
um intervalo antes de outra rodada de trabalho duro. Uma coisa que os que
buscam a “aptidão” sabem com certeza é que ainda não estão
suficientemente aptos, e que devem continuar tentando. A busca da aptidão
é um estado de auto-exame minucioso, auto-recriminação e auto-
depreciação permanentes, e assim também de ansiedade contínua.
A saúde, circunscrita por seus padrões (quantificável e mensurável,
como a temperatura do corpo ou a pressão sanguínea) e armada de uma
clara distinção entre “norma” e “anormalidade”, deveria estar, a princípio,
livre dessa ansiedade insaciável. Também a princípio, deveria ser claro o
que deve ser feito a fim de alcançar um estado saudável e protegê-lo, em
que condições podemos declarar que uma pessoa goza de “boa saúde”, ou
em que ponto do tratamento podemos declarar que o estado de saúde foi
restaurado e nada mais precisa ser feito. A princípio sim…
Na verdade, porém, o status de todas as normas, inclusive a norma da
saúde, foi severamente abalado e se tornou frágil, numa sociedade de
infinitas e indefinidas possibilidades. O que ontem era considerado normal
e, portanto, satisfatório, pode hoje ser considerado preocupante, ou mesmo
patológico, requerendo um remédio. Primeiro, estados do corpo sempre
renovados tornam-se razões legítimas para intervenção médica — e as
terapias disponíveis também não ficam estáticas. Segundo, a idéia de
“doença”, outrora claramente circunscrita, torna-se cada vez mais confusa e
nebulosa. Em vez de ser percebida como um evento excepcional com um
começo e um fim, tende a ser vista como permanente companhia da saúde,
seu “outro lado” e ameaça sempre presente: clama por vigilância incessante
e precisa ser combatida e repelida dia e noite, sete dias por semana. O
cuidado com a saúde torna-se uma guerra permanente contra a doença. E,
finalmente, o significado de um “regime saudável de vida” não fica parado.
Os conceitos de “dieta saudável” mudam em menos tempo do que duram as
dietas recomendadas simultânea ou sucessivamente. O alimento que se pensava benéfico para a saúde ou inócuo é denunciado por seus efeitos
prejudiciais a longo prazo antes que sua influência benigna tenha sido
devidamente saboreada. Terapias e regimes preventivos voltados para
algum tipo de enfermidade aparecem como patogênicos em outros aspectos;
a intervenção médica é cada vez mais requerida pelas doenças
“iatrogênicas” — enfermidades causadas por terapias passadas. Quase
qualquer cura apresenta grandes riscos, e mais curas são necessárias para
enfrentar as conseqüências de riscos assumidos no passado.
Por tudo isso, o cuidado com a saúde, contrariamente à sua natureza,
torna-se estranhamente semelhante à busca da aptidão: contínuo, fadado à
insatisfação permanente, incerto quanto à adequação de sua direção atual e
gerando muita ansiedade.
Enquanto o cuidado com a saúde se torna cada vez mais semelhante à
busca da aptidão, esta tenta imitar, quase sempre em vão, o que era a base
da autoconfiança em relação aos cuidados com a saúde: a mensurabilidade
do padrão de saúde, e conseqüentemente também do progresso terapêutico.
Essa ambição explica, por exemplo, a notável popularidade do controle do
peso entre os muitos “regimes de aptidão” disponíveis: os centímetros e
gramas que desaparecem são dois dos poucos ganhos visíveis que podem
realmente ser medidos com algum grau de precisão — como a temperatura
do corpo no diagnóstico da saúde. A semelhança é uma ilusão: seria preciso
imaginar um termômetro sem base em sua escala ou uma temperatura que
melhoraria quanto mais a marca baixasse.
Na esteira dos ajustes recentes ao modelo da “aptidão”, o cuidado com a
saúde se expande a tal ponto que Ivan Illich recentemente sugeriu que “a
própria busca da saúde tornou-se o fator patogênico mais importante”. O
diagnóstico não tem mais como objeto o indivíduo: seu verdadeiro objeto,
em cada vez mais casos, é a distribuição das probabilidades, uma estimativa
do que pode derivar da condição em que o paciente diagnosticado se
encontra.
A saúde é cada vez mais identificada com a otimização dos riscos. Isso
é, em todo caso, o que os habitantes da sociedade de consumo treinados a
trabalhar por sua aptidão física esperam e desejam que seus médicos façam
— e o que os irrita e os torna hostis aos médicos que não cumprem com
esse papel. Num caso que gerou jurisprudência, um médico de Tübingen foi
condenado por dizer à grávida que a probabilidade de a criança nascer com alguma má-formação não era “grande demais”, em vez de citar a