Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 14 de 42

Páginas do PDF

Modernidade Líquida

O corpo do consumidor

que, em última análise, dá lugar a uma “economia” psíquica muito

diferente. O querer substitui o desejo como força motivadora do

consumo.14

 

A história do consumismo é a história da quebra e descarte de

sucessivos obstáculos “sólidos” que limitam o vôo livre da fantasia e

reduzem o “princípio do prazer” ao tamanho ditado pelo “princípio da

realidade”. A “necessidade”, considerada pelos economistas do século XIX

como a própria epítome da “solidez” — inflexível, permanentemente

circunscrita e finita — foi descartada e substituída durante algum tempo

pelo desejo, que era muito mais “fluido” e expansível que a necessidade por

causa de suas relações meio ilícitas com sonhos plásticos e volúveis sobre a

autenticidade de um “eu íntimo” à espera de expressão. Agora é a vez de

descartar o desejo. Ele sobreviveu à sua utilidade: tendo trazido o vício do

consumidor a seu Estado presente, não pode mais ditar o ritmo. Um

estimulante mais poderoso, e, acima de tudo, mais versátil é necessário para

manter a demanda do consumidor no nível da oferta. O “querer” é o

substituto tão necessário; ele completa a libertação do princípio do prazer,

limpando e dispondo dos últimos resíduos dos impedimentos do “princípio

de realidade”: a substância naturalmente gasosa foi finalmente liberada do

contêiner. Citando Ferguson uma vez mais:

 

Enquanto a facilitação do desejo se fundava na comparação, vaidade,

inveja e a “necessidade” de auto-aprovação, nada está por baixo do

imediatismo do querer. A compra é casual, inesperada e espontânea.

Ela tem uma qualidade de sonho tanto ao expressar quanto ao realizar

um querer, que, como todos os quereres, é insincero e infantil.15

 

O corpo do consumidor

 

Como afirmei em Life in Fragments (Polity Press, 1996), a sociedade pós-

moderna envolve seus membros primariamente em sua condição de

consumidores, e não de produtores. A diferença é fundamental.

A vida organizada em torno do papel de produtor tende a ser

normativamente regulada. Há um mínimo de que se precisa a fim de

manter-se vivo e ser capaz de fazer o que quer que o papel de produtor possa requerer, mas também um máximo com que se pode sonhar, desejar e

perseguir, contando com a aprovação social das ambições, sem medo de ser

desprezado, rejeitado e posto na linha. O que passar acima desse limite é

luxo, e desejar o luxo é pecado. O principal cuidado, portanto, é com a

conformidade: manter-se seguramente entre a linha inferior e o limite

superior — manter-se no mesmo nível (tão alto ou baixo, conforme o caso)

do vizinho.

A vida organizada em torno do consumo, por outro lado, deve se bastar

sem normas: ela é orientada pela sedução, por desejos sempre crescentes e

quereres voláteis — não mais por regulação normativa. Nenhum vizinho em

particular oferece um ponto de referência para uma vida de sucesso; uma

sociedade de consumidores se baseia na comparação universal — e o céu é

o único limite. A idéia de “luxo” não faz muito sentido, pois a idéia é fazer

dos luxos de hoje as necessidades de amanhã, e reduzir a distância entre o

“hoje” e o “amanhã” ao mínimo — tirar a espera da vontade. Como não há

normas para transformar certos desejos em necessidades e para deslegitimar

outros desejos como “falsas necessidades”, não há teste para que se possa

medir o padrão de “conformidade”. O principal cuidado diz respeito, então,

à adequação — a estar “sempre pronto” a ter a capacidade de aproveitar a

oportunidade quando ela se apresentar; a desenvolver novos desejos feitos

sob medida para as novas, nunca vistas e inesperadas seduções; e a não

permitir que as necessidades estabelecidas tornem as novas sensações

dispensáveis ou restrinjam nossa capacidade de absorvê-las e experimentá-

las.

Se a sociedade dos produtores coloca a saúde como o padrão que seus

membros devem atingir, a sociedade dos consumidores acena aos seus com

o ideal da aptidão (fitness). Os dois termos — saúde e aptidão — são

freqüentemente tomados como coextensivos e usados como sinônimos;

afinal, ambos se referem a cuidados com o corpo, ao Estado que se quer que

o corpo alcance e ao regime que se deve seguir para realizar essa vontade.

Tratar esses termos como sinônimos é, porém, um erro — e não meramente

pelos fatos conhecidos de que nem todos os regimes de aptidão “são bons

para a saúde” e de que o que ajuda a manter a saúde não necessariamente

leva à aptidão. Saúde e aptidão pertencem a dois discursos muito diferentes

e apelam a preocupações muito diferentes.

A saúde, como todos os conceitos normativos da sociedade dos

produtores, demarca e protege os limites entre “norma” e “anormalidade”. “Saúde” é o estado próprio e desejável do corpo e do espírito humanos —

um Estado que (pelo menos em princípio) pode ser mais ou menos

exatamente descrito e também precisamente medido. Refere-se a uma

condição corporal e psíquica que permite a satisfação das demandas do

papel socialmente designado e atribuído — e essas demandas tendem a ser

constantes e firmes. “Ser saudável” significa na maioria dos casos “ser

empregável”: ser capaz de um bom desempenho na fábrica, de “carregar o

fardo” com que o trabalho pode rotineiramente onerar a resistência física e

psíquica do empregado.

O estado de “aptidão”, ao contrário, é tudo menos “sólido” não pode,

por sua natureza, ser fixado e circunscrito com qualquer precisão. Ainda

que muitas vezes tomado como resposta à pergunta “como você está se

sentindo?” (se estou “apto”, provavelmente responderei “ótimo”), seu

verdadeiro teste fica para sempre no futuro: “estar apto” significa ter um

corpo flexível, absorvente e ajustável, pronto para viver sensações ainda

não testadas e impossíveis de descrever de antemão. Se a saúde é uma

condição “nem mais nem menos”, a aptidão está sempre aberta do lado do

“mais”: não se refere a qualquer padrão particular de capacidade corporal,

mas a seu (preferivelmente ilimitado) potencial de expansão. “Aptidão”

significa estar pronto a enfrentar o não-usual, o não-rotineiro, o

extraordinário — e acima de tudo o novo e o surpreendente. Quase se

poderia dizer que, se a saúde diz respeito a “seguir as normas”, a aptidão

diz respeito a quebrar todas as normas e superar todos os padrões.

Chegar a um padrão interpessoal seria de qualquer forma demais, pois

uma comparação objetiva de graus de aptidão individuais não é possível. A

aptidão, por contraste com a saúde, diz respeito a uma experiência subjetiva

(no sentido de experiência “vivida”, “sentida” — e não a um Estado ou

evento que possa ser observado de fora, e verbalizado e comunicado).

Como todos os estados subjetivos, a experiência de “estar apto” é

notoriamente difícil de articular de modo adequado à comunicação

interpessoal, e menos ainda à comparação interpessoal. A satisfação e o

prazer são sensações que não podem ser postas em termos abstratos:

precisam ser “subjetivamente experimentadas” — vividas. Nunca

saberemos com certeza se nossas sensações são tão profundas e excitantes,

tão prazerosas em suma, como as do próximo. A busca da “aptidão” é como

garimpar em busca de uma pedra preciosa que não podemos descrever até

encontrar; não temos, porém, meios de decidir que encontramos a pedra, mas temos todas as razões para suspeitar de que não a encontramos. A vida

organizada em torno da busca da aptidão promete uma série de escaramuças

vitoriosas, mas nunca o triunfo definitivo.

Ao contrário do cuidado com a saúde, a busca da aptidão não tem,

portanto, um fim natural. Os objetivos podem ser estabelecidos apenas para

a presente etapa do esforço sem fim — e a satisfação de alcançar um

objetivo é apenas momentânea. Na longa busca pela aptidão não há tempo

para descanso, e toda celebração de sucessos momentâneos não passa de

um intervalo antes de outra rodada de trabalho duro. Uma coisa que os que

buscam a “aptidão” sabem com certeza é que ainda não estão

suficientemente aptos, e que devem continuar tentando. A busca da aptidão

é um estado de auto-exame minucioso, auto-recriminação e auto-

depreciação permanentes, e assim também de ansiedade contínua.

A saúde, circunscrita por seus padrões (quantificável e mensurável,

como a temperatura do corpo ou a pressão sanguínea) e armada de uma

clara distinção entre “norma” e “anormalidade”, deveria estar, a princípio,

livre dessa ansiedade insaciável. Também a princípio, deveria ser claro o

que deve ser feito a fim de alcançar um estado saudável e protegê-lo, em

que condições podemos declarar que uma pessoa goza de “boa saúde”, ou

em que ponto do tratamento podemos declarar que o estado de saúde foi

restaurado e nada mais precisa ser feito. A princípio sim…

Na verdade, porém, o status de todas as normas, inclusive a norma da

saúde, foi severamente abalado e se tornou frágil, numa sociedade de

infinitas e indefinidas possibilidades. O que ontem era considerado normal

e, portanto, satisfatório, pode hoje ser considerado preocupante, ou mesmo

patológico, requerendo um remédio. Primeiro, estados do corpo sempre

renovados tornam-se razões legítimas para intervenção médica — e as

terapias disponíveis também não ficam estáticas. Segundo, a idéia de

“doença”, outrora claramente circunscrita, torna-se cada vez mais confusa e

nebulosa. Em vez de ser percebida como um evento excepcional com um

começo e um fim, tende a ser vista como permanente companhia da saúde,

seu “outro lado” e ameaça sempre presente: clama por vigilância incessante

e precisa ser combatida e repelida dia e noite, sete dias por semana. O

cuidado com a saúde torna-se uma guerra permanente contra a doença. E,

finalmente, o significado de um “regime saudável de vida” não fica parado.

Os conceitos de “dieta saudável” mudam em menos tempo do que duram as

dietas recomendadas simultânea ou sucessivamente. O alimento que se pensava benéfico para a saúde ou inócuo é denunciado por seus efeitos

prejudiciais a longo prazo antes que sua influência benigna tenha sido

devidamente saboreada. Terapias e regimes preventivos voltados para

algum tipo de enfermidade aparecem como patogênicos em outros aspectos;

a intervenção médica é cada vez mais requerida pelas doenças

“iatrogênicas” — enfermidades causadas por terapias passadas. Quase

qualquer cura apresenta grandes riscos, e mais curas são necessárias para

enfrentar as conseqüências de riscos assumidos no passado.

Por tudo isso, o cuidado com a saúde, contrariamente à sua natureza,

torna-se estranhamente semelhante à busca da aptidão: contínuo, fadado à

insatisfação permanente, incerto quanto à adequação de sua direção atual e

gerando muita ansiedade.

Enquanto o cuidado com a saúde se torna cada vez mais semelhante à

busca da aptidão, esta tenta imitar, quase sempre em vão, o que era a base

da autoconfiança em relação aos cuidados com a saúde: a mensurabilidade

do padrão de saúde, e conseqüentemente também do progresso terapêutico.

Essa ambição explica, por exemplo, a notável popularidade do controle do

peso entre os muitos “regimes de aptidão” disponíveis: os centímetros e

gramas que desaparecem são dois dos poucos ganhos visíveis que podem

realmente ser medidos com algum grau de precisão — como a temperatura

do corpo no diagnóstico da saúde. A semelhança é uma ilusão: seria preciso

imaginar um termômetro sem base em sua escala ou uma temperatura que

melhoraria quanto mais a marca baixasse.

Na esteira dos ajustes recentes ao modelo da “aptidão”, o cuidado com a

saúde se expande a tal ponto que Ivan Illich recentemente sugeriu que “a

própria busca da saúde tornou-se o fator patogênico mais importante”. O

diagnóstico não tem mais como objeto o indivíduo: seu verdadeiro objeto,

em cada vez mais casos, é a distribuição das probabilidades, uma estimativa

do que pode derivar da condição em que o paciente diagnosticado se

encontra.

A saúde é cada vez mais identificada com a otimização dos riscos. Isso

é, em todo caso, o que os habitantes da sociedade de consumo treinados a

trabalhar por sua aptidão física esperam e desejam que seus médicos façam

— e o que os irrita e os torna hostis aos médicos que não cumprem com

esse papel. Num caso que gerou jurisprudência, um médico de Tübingen foi

condenado por dizer à grávida que a probabilidade de a criança nascer com alguma má-formação não era “grande demais”, em vez de citar a