Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 18 de 42

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Modernidade Líquida

Capítulo 3. Tempo/Espaço

3 • TEMPO/ESPAÇO

 

 

George Hazeldon, arquiteto inglês estabelecido na África do Sul, tem um

sonho: uma cidade diferente das cidades comuns, cheia de estrangeiros

sinistros que se esgueiram de esquinas escuras, surgem de ruas esquálidas e

brotam de distritos notoriamente perigosos. A cidade do sonho de Hazeldon

é como uma versão atualizada, high tech, da aldeia medieval que abriga

detrás de seus grossos muros, torres, fossos e pontes levadiças uma aldeia

protegida dos riscos e perigos do mundo. Uma cidade feita sob medida para

indivíduos que querem administrar e monitorar seu estar juntos. Alguma

coisa, como ele mesmo disse, parecida com o Monte Saint-Michel,

simultaneamente um claustro e uma fortaleza inacessível e bem guardada.

Quem olha os projetos de Hazeldon concorda que a parte do “claustro”

foi imaginada pelo desenhista à semelhança da Thélème de Rabelais, a

cidade da alegria e do divertimento compulsórios, onde a felicidade é o

único mandamento, e não se parece nada com o esconderijo dos ascetas

voltados para os céus, que se autoimolam, são piedosos, oram e jejuam. A

parte da “fortaleza”, por outro lado, é original. Heritage Park, a cidade que

Hazeldon está para construir em 500 acres de terra não muito longe da

Cidade do Cabo, deve diferenciar-se das outras cidades por seu

autocercamento: cercas elétricas de alta voltagem, vigilância eletrônica das

vias de acesso, barreiras por todo o caminho e guardas fortemente armados.

Se você puder se dar ao luxo de comprar uma casa em Heritage Park,

pode passar boa parte de sua vida afastado dos riscos e perigos da

turbulenta, hostil e assustadora selva que começa logo que terminam os

portões da cidade. Tudo o que uma vida agradável requer está lá: Heritage

Park terá suas próprias lojas, igrejas, restaurantes, teatros, áreas de lazer,

florestas, um parque central, lagos com salmões, playgrounds, pistas de

corrida, campos de esportes e quadras de tênis — e área livre suficiente

para se acrescentar o que quer que a moda de uma vida decente possa

demandar no futuro. Hazeldon é bastante explícito quando esclarece as vantagens de Heritage Park sobre os lugares onde a maioria das pessoas

vive hoje em dia:

 

Hoje a primeira questão é a segurança. Queiramos ou não, é o que faz a

diferença … Quando eu cresci, em Londres, tínhamos uma

comunidade. Você não fazia nada errado porque todos o conheciam e

contariam para seu pai ou mãe … Queremos recriar isso aqui, uma

comunidade que não precisa se preocupar.1

 

Então é assim: ao preço de uma casa no Heritage Park você ganha

acesso a uma comunidade. “Comunidade” é, hoje, a última relíquia das

utopias da boa sociedade de outrora; é o que sobra dos sonhos de uma vida

melhor, compartilhada com vizinhos melhores, todos seguindo melhores

regras de convívio. Pois a utopia da harmonia reduziu-se, realisticamente,

ao tamanho da vizinhança mais próxima. Por isso, a “comunidade” é um

bom argumento de venda. Por isso também, nos prospectos distribuídos por

George Hazeldon, o incorporador, a comunidade foi colocada como o

complemento indispensável, embora ausente em outros projetos, dos bons

restaurantes e pitorescas pistas de treinamento que outras cidades também

oferecem.

Note-se, no entanto, qual é o sentido dessa reunião comunitária. A

comunidade que Hazeldon lembra de seus anos de infância em Londres e

quer recriar nas terras virgens da África do Sul é, antes e acima de tudo,

senão apenas, um território vigiado de perto, onde aqueles que fazem algo

que desagrada aos outros provocam seu ressentimento e são por isso

prontamente punidos e postos na linha — enquanto os desocupados,

vagabundos e outros intrusos que “não fazem parte” são impedidos de

entrar ou, então, cercados e expulsos. A diferença entre o passado

afetuosamente lembrado e sua réplica atualizada é que o que a comunidade

das memórias da infância de Hazeldon obtinha usando os olhos, línguas e

mãos, casualmente e sem muito pensar, no Heritage Park é confiado a

câmeras de TV ocultas e dúzias de seguranças armados verificando senhas

nos portões e discretamente (ou ostensivamente, se necessário) patrulhando

as ruas.

Um grupo de psiquiatras do Victorian Institute of Forensic Mental

Health, na Austrália, advertiu recentemente que “mais e mais pessoas estão

denunciando falsamente terem sido vítimas de assaltantes, gastando credibilidade e dinheiro público” — dinheiro que, como dizem os autores

do relato, “deveria ser canalizado para as verdadeiras vítimas”.2 Alguns dos

“falsos denunciantes” investigados foram diagnosticados como vítimas de

“severas desordens mentais”, e “acreditavam estar sendo assaltados em seus

delírios de que todos conspiravam contra eles”.

Poderíamos comentar as observações dos psiquiatras dizendo que a

crença na conspiração dos outros contra nós não é novidade; seguramente

atormentou certos homens em todos os tempos e em todos os cantos do

mundo. Nunca e em nenhum lugar faltaram pessoas prontas a encontrar

uma lógica para sua infelicidade, frustrações e derrotas humilhantes

atribuindo a culpa a intenções malévolas e mal-intencionados planos

alheios. O que é novo é que são os assaltantes (juntamente com os

vagabundos e outros desocupados, personagens estranhos ao lugar em que

se movem) que levam agora a culpa, representando o diabo, os íncubos,

maus espíritos, duendes, mau-olhado, gnomos malvados, bruxas ou

comunistas embaixo da cama. Se as “falsas vítimas” podem “gastar a

credibilidade pública” é porque “assaltante” já se tornou um nome comum e

popular para o medo ambiente que assola nossos contemporâneos; e assim a

presença ubíqua dos assaltantes tornou-se crível e o temor de ser assaltado,

amplamente compartilhado. E, se pessoas falsamente obcecadas pela

ameaça de serem assaltadas podem “gastar o dinheiro público”, é porque o

dinheiro público já foi destinado de antemão, em quantidades que crescem a

cada ano, para o propósito de identificar e caçar os assaltantes, vagabundos

e outras versões atualizadas daquele terror moderno, o mobile vulgus — os

tipos inferiores de pessoas em movimento, surgindo e se espalhando em

lugares onde só deveriam estar as pessoas certas — e porque a defesa das

ruas perigosas, como outrora o exorcismo das casas assombradas, é

reconhecida como um objetivo digno de ser perseguido e como a maneira

apropriada de proteger as pessoas que precisam de proteção contra os

medos e perigos que as fazem sobressaltadas, nervosas, tímidas e

assustadas.

Citando City of Quartz (1990), de Mike Davis, Sharon Zukin descreve a

nova aparência dos espaços públicos de Los Angeles reformados pelas

preocupações com a segurança dos seus habitantes e de seus defensores

eleitos ou nomeados: “Os helicópteros zunem nos céus sobre os guetos, a

polícia hostiliza os jovens como possíveis membros de gangues, os

proprietários compram a defesa armada que podem … ou têm coragem de usar.” Os anos 1960 e 1970 foram, diz Zukin, “um divisor de águas na