Modernidade Líquida
Capítulo 3. Tempo/Espaço
3 • TEMPO/ESPAÇO
George Hazeldon, arquiteto inglês estabelecido na África do Sul, tem um
sonho: uma cidade diferente das cidades comuns, cheia de estrangeiros
sinistros que se esgueiram de esquinas escuras, surgem de ruas esquálidas e
brotam de distritos notoriamente perigosos. A cidade do sonho de Hazeldon
é como uma versão atualizada, high tech, da aldeia medieval que abriga
detrás de seus grossos muros, torres, fossos e pontes levadiças uma aldeia
protegida dos riscos e perigos do mundo. Uma cidade feita sob medida para
indivíduos que querem administrar e monitorar seu estar juntos. Alguma
coisa, como ele mesmo disse, parecida com o Monte Saint-Michel,
simultaneamente um claustro e uma fortaleza inacessível e bem guardada.
Quem olha os projetos de Hazeldon concorda que a parte do “claustro”
foi imaginada pelo desenhista à semelhança da Thélème de Rabelais, a
cidade da alegria e do divertimento compulsórios, onde a felicidade é o
único mandamento, e não se parece nada com o esconderijo dos ascetas
voltados para os céus, que se autoimolam, são piedosos, oram e jejuam. A
parte da “fortaleza”, por outro lado, é original. Heritage Park, a cidade que
Hazeldon está para construir em 500 acres de terra não muito longe da
Cidade do Cabo, deve diferenciar-se das outras cidades por seu
autocercamento: cercas elétricas de alta voltagem, vigilância eletrônica das
vias de acesso, barreiras por todo o caminho e guardas fortemente armados.
Se você puder se dar ao luxo de comprar uma casa em Heritage Park,
pode passar boa parte de sua vida afastado dos riscos e perigos da
turbulenta, hostil e assustadora selva que começa logo que terminam os
portões da cidade. Tudo o que uma vida agradável requer está lá: Heritage
Park terá suas próprias lojas, igrejas, restaurantes, teatros, áreas de lazer,
florestas, um parque central, lagos com salmões, playgrounds, pistas de
corrida, campos de esportes e quadras de tênis — e área livre suficiente
para se acrescentar o que quer que a moda de uma vida decente possa
demandar no futuro. Hazeldon é bastante explícito quando esclarece as vantagens de Heritage Park sobre os lugares onde a maioria das pessoas
vive hoje em dia:
Hoje a primeira questão é a segurança. Queiramos ou não, é o que faz a
diferença … Quando eu cresci, em Londres, tínhamos uma
comunidade. Você não fazia nada errado porque todos o conheciam e
contariam para seu pai ou mãe … Queremos recriar isso aqui, uma
comunidade que não precisa se preocupar.1
Então é assim: ao preço de uma casa no Heritage Park você ganha
acesso a uma comunidade. “Comunidade” é, hoje, a última relíquia das
utopias da boa sociedade de outrora; é o que sobra dos sonhos de uma vida
melhor, compartilhada com vizinhos melhores, todos seguindo melhores
regras de convívio. Pois a utopia da harmonia reduziu-se, realisticamente,
ao tamanho da vizinhança mais próxima. Por isso, a “comunidade” é um
bom argumento de venda. Por isso também, nos prospectos distribuídos por
George Hazeldon, o incorporador, a comunidade foi colocada como o
complemento indispensável, embora ausente em outros projetos, dos bons
restaurantes e pitorescas pistas de treinamento que outras cidades também
oferecem.
Note-se, no entanto, qual é o sentido dessa reunião comunitária. A
comunidade que Hazeldon lembra de seus anos de infância em Londres e
quer recriar nas terras virgens da África do Sul é, antes e acima de tudo,
senão apenas, um território vigiado de perto, onde aqueles que fazem algo
que desagrada aos outros provocam seu ressentimento e são por isso
prontamente punidos e postos na linha — enquanto os desocupados,
vagabundos e outros intrusos que “não fazem parte” são impedidos de
entrar ou, então, cercados e expulsos. A diferença entre o passado
afetuosamente lembrado e sua réplica atualizada é que o que a comunidade
das memórias da infância de Hazeldon obtinha usando os olhos, línguas e
mãos, casualmente e sem muito pensar, no Heritage Park é confiado a
câmeras de TV ocultas e dúzias de seguranças armados verificando senhas
nos portões e discretamente (ou ostensivamente, se necessário) patrulhando
as ruas.
Um grupo de psiquiatras do Victorian Institute of Forensic Mental
Health, na Austrália, advertiu recentemente que “mais e mais pessoas estão
denunciando falsamente terem sido vítimas de assaltantes, gastando credibilidade e dinheiro público” — dinheiro que, como dizem os autores
do relato, “deveria ser canalizado para as verdadeiras vítimas”.2 Alguns dos
“falsos denunciantes” investigados foram diagnosticados como vítimas de
“severas desordens mentais”, e “acreditavam estar sendo assaltados em seus
delírios de que todos conspiravam contra eles”.
Poderíamos comentar as observações dos psiquiatras dizendo que a
crença na conspiração dos outros contra nós não é novidade; seguramente
atormentou certos homens em todos os tempos e em todos os cantos do
mundo. Nunca e em nenhum lugar faltaram pessoas prontas a encontrar
uma lógica para sua infelicidade, frustrações e derrotas humilhantes
atribuindo a culpa a intenções malévolas e mal-intencionados planos
alheios. O que é novo é que são os assaltantes (juntamente com os
vagabundos e outros desocupados, personagens estranhos ao lugar em que
se movem) que levam agora a culpa, representando o diabo, os íncubos,
maus espíritos, duendes, mau-olhado, gnomos malvados, bruxas ou
comunistas embaixo da cama. Se as “falsas vítimas” podem “gastar a
credibilidade pública” é porque “assaltante” já se tornou um nome comum e
popular para o medo ambiente que assola nossos contemporâneos; e assim a
presença ubíqua dos assaltantes tornou-se crível e o temor de ser assaltado,
amplamente compartilhado. E, se pessoas falsamente obcecadas pela
ameaça de serem assaltadas podem “gastar o dinheiro público”, é porque o
dinheiro público já foi destinado de antemão, em quantidades que crescem a
cada ano, para o propósito de identificar e caçar os assaltantes, vagabundos
e outras versões atualizadas daquele terror moderno, o mobile vulgus — os
tipos inferiores de pessoas em movimento, surgindo e se espalhando em
lugares onde só deveriam estar as pessoas certas — e porque a defesa das
ruas perigosas, como outrora o exorcismo das casas assombradas, é
reconhecida como um objetivo digno de ser perseguido e como a maneira
apropriada de proteger as pessoas que precisam de proteção contra os
medos e perigos que as fazem sobressaltadas, nervosas, tímidas e
assustadas.
Citando City of Quartz (1990), de Mike Davis, Sharon Zukin descreve a
nova aparência dos espaços públicos de Los Angeles reformados pelas
preocupações com a segurança dos seus habitantes e de seus defensores
eleitos ou nomeados: “Os helicópteros zunem nos céus sobre os guetos, a
polícia hostiliza os jovens como possíveis membros de gangues, os
proprietários compram a defesa armada que podem … ou têm coragem de usar.” Os anos 1960 e 1970 foram, diz Zukin, “um divisor de águas na