Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 11 de 42

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Modernidade Líquida

Tenho carro, posso viajar

Joshua soa vazio quando o mundo, que uma vez teve legislador, árbitro e

corte de apelação reunidos em uma só entidade, parece cada vez mais com

um dos jogadores, escondendo as cartas, preparando armadilhas e

aguardando sua vez de blefar.

Os passageiros do navio “Capitalismo Pesado” confiavam (nem sempre

sabiamente) em que os seletos membros da tripulação com direito a chegar

à ponte de comando conduziriam o navio a seu destino. Os passageiros

podiam devotar toda sua atenção a aprender e seguir as regras a eles

destinadas e exibidas ostensivamente em todas as passagens. Se

reclamavam (ou às vezes se amotinavam), era contra o capitão, que não

levava o navio a porto com a suficiente rapidez, ou por negligenciar

excepcionalmente o conforto dos passageiros. Já os passageiros do avião

“Capitalismo Leve” descobrem horrorizados que a cabine do piloto está

vazia e que não há meio de extrair da “caixa preta” chamada piloto

automático qualquer informação sobre para onde vai o avião, onde

aterrizará, quem escolherá o aeroporto e sobre se existem regras que

permitam que os passageiros contribuam para a segurança da chegada.

 

Tenho carro, posso viajar

 

Podemos dizer que o rumo dos eventos no mundo do capitalismo provou

ser o exato oposto do que Max Weber previa quando escolheu a burocracia

como protótipo da sociedade por vir e a retratou como a forma por

excelência da ação racional. Extrapolando sua visão do futuro a partir da

experiência contemporânea do capitalismo pesado (o homem que cunhou a

expressão “gaiola de ferro” não podia estar ciente de que o “peso” era um

mero atributo temporário do capitalismo e que outras modalidades da

ordem capitalista eram concebíveis e estavam em gestação), Weber previu o

triunfo iminente da “racionalidade instrumental”: com o destino da história

humana dado como sabido, e a questão dos fins da ação humana acertada e

não mais aberta à contestação, as pessoas passariam a se ocupar mais,

talvez exclusivamente, da questão dos meios — o futuro seria, por assim

dizer, obcecado com os meios. Toda racionalização adicional, em si mesma

uma conclusão antecipada, consistiria em afiar, ajustar e aperfeiçoar os

meios. Sabendo que a capacidade racional dos seres humanos tende a ser solapada constantemente por propensões afetivas e outras inclinações

igualmente irracionais, poder-se-ia suspeitar de que a disputa sobre os fins

dificilmente chegaria a um final; mas essa disputa seria no futuro expulsa

da corrente principal, impulsionada pela inexorável racionalização — e

deixada para os profetas e pregadores à margem dos superiores (e

decisivos) afazeres da vida.

Weber também se referiu a outro tipo de ação orientada, a que chamou

de racional por referência a valores; mas aí se referia à procura de valores

“enquanto tais” e “independente da perspectiva de sucesso exterior”.

Também deixou claro que os valores em que pensava eram de tipo ético,

estético ou religioso — isto é, pertencentes à categoria que o capitalismo

moderno degradou e declarou praticamente dispensável e irrelevante,

quando não prejudicial, para a conduta racional que promovia.5 Podemos

apenas especular que a necessidade de adicionar a racionalidade por

referência a valores a seu inventário dos tipos de ação ocorreu a Weber

tardiamente, sob o impacto da revolução bolchevique, que parecia refutar a

conclusão de que a questão dos objetivos tinha sido resolvida de uma vez

por todas, e implicava, ao contrário, que ainda poderia surgir uma situação

em que algumas pessoas se manteriam fiéis a seus ideais, por mais remota e

ínfima que fosse a chance de realizá-los e por mais exorbitante que fosse o

custo da tentativa — e assim se desviariam da única preocupação legítima,

a saber, o cálculo dos meios apropriados à obtenção de determinados fins.

Quaisquer que sejam as aplicações do conceito da racionalidade referida

a valores no esquema weberiano da história, esse conceito é inútil se

quisermos captar a essência do momento histórico presente. O capitalismo

leve de hoje não é “racional por referência a valores” no sentido de Weber,

ainda que se afaste do tipo ideal da ordem racional-instrumental. O

capitalismo leve parece estar a anos-luz de distância da racionalidade

referida a valores no estilo weberiano; se alguma vez na história os valores

foram abraçados “em termos absolutos”, isso certamente não é o que

acontece hoje. O que realmente aconteceu no curso da passagem do

capitalismo pesado para o leve foi o desbaratamento dos invisíveis

“politburos” capazes de “absolutizar” os valores, das cortes supremas

destinadas a pronunciar veredictos sem apelação sobre os objetivos dignos

de perseguição (as instituições indispensáveis e centrais para o discurso de

Joshua).

Na falta de uma Suprema Repartição (ou melhor, na presença de muitas

repartições competindo pela supremacia, nenhuma delas com grandes

chances de vencer), a questão dos objetivos está novamente posta e

destinada a tornar-se causa de muita hesitação e de agonia sem fim, a

solapar a confiança e a gerar a sensação enervante de incerteza e, portanto,

também um Estado de ansiedade perpétua. Nas palavras de Gerhard

Schulze, este é um novo tipo de incerteza: “não saber os fins, em lugar da

incerteza tradicional de não saber os meios”.6 Não é mais o caso de tentar,

sem ter o conhecimento completo, calcular os meios (os já disponíveis e os

tidos como necessários e zelosamente buscados) em relação a determinado

fim. O que está em pauta é a questão de considerar e decidir, em face de

todos os riscos conhecidos ou meramente adivinhados, quais dos muitos

flutuantes e sedutores fins “ao alcance” (isto é, que podem ser

razoavelmente perseguidos) devem ter prioridade — dada a quantidade de

meios disponíveis e levando em consideração as ínfimas chances de sua

utilidade duradoura.

Nas novas circunstâncias, o mais provável é que a maior parte da vida

humana e a maioria das vidas humanas consuma-se na agonia quanto à

escolha de objetivos, e não na procura dos meios para os fins, que não

exigem tanta reflexão. Ao contrário de seu antecessor, o capitalismo leve

tende a ser obcecado por valores. O pequeno anúncio apócrifo na coluna de

“empregos procurados” — “tenho carro, posso viajar” — pode servir de

epítome às novas problemáticas da vida, ao lado da questão atribuída aos

chefes dos institutos e laboratórios técnicos e científicos de hoje: “Achamos

a solução. Vamos agora procurar o problema.” A pergunta “o que posso

fazer?” passou a dominar a ação, minimizando e excluindo a questão “como

fazer da melhor maneira possível aquilo que tenho que não posso deixar de

fazer?”

Como as Supremas Repartições que cuidavam da regularidade do

mundo e guardavam os limites entre o certo e o errado não estão mais à

vista, o mundo se torna uma coleção infinita de possibilidades: um

contêiner cheio até a boca com uma quantidade incontável de oportunidades

a serem exploradas ou já perdidas. Há mais — muitíssimo mais —

possibilidades do que qualquer vida individual, por mais longa, aventurosa

e industriosa que seja, pode tentar explorar, e muito menos adotar. É a

infinidade das oportunidades que preenche o espaço deixado vazio pelo

desaparecimento da Suprema Repartição.

Não surpreende que não mais se escrevam distopias nestes tempos: o

mundo pós-fordista, “moderno fluido”, dos indivíduos que escolhem em

liberdade, não mais se ocupa do sinistro Grande Irmão, que puniria os que

saíssem da linha. Neste mundo, no entanto, tampouco há espaço para o

benigno e cuidadoso Irmão Mais Velho em quem se podia confiar e buscar

apoio para decidir que coisas eram dignas de ser feitas ou possuídas e com

quem se podia contar para proteger o irmão mais novo dos valentões que se

punham em seu caminho; e assim as utopias da boa sociedade também

deixaram de ser escritas. Tudo, por assim dizer, corre agora por conta do

indivíduo. Cabe ao indivíduo descobrir o que é capaz de fazer, esticar essa

capacidade ao máximo e escolher os fins a que essa capacidade poderia

melhor servir — isto é, com a máxima satisfação concebível. Compete ao

indivíduo “amansar o inesperado para que se torne um entretenimento”.7

Viver num mundo cheio de oportunidades — cada uma mais apetitosa e

atraente que a anterior, cada uma “compensando a anterior, e preparando o

terreno para a mudança para a seguinte”8 — é uma experiência divertida.

Nesse mundo, poucas coisas são predeterminadas, e menos ainda

irrevogáveis. Poucas derrotas são definitivas, pouquíssimos contratempos,

irreversíveis; mas nenhuma vitória é tampouco final. Para que as

possibilidades continuem infinitas, nenhuma deve ser capaz de petrificar-se

em realidade para sempre. Melhor que permaneçam líquidas e fluidas e

tenham “data de validade”, caso contrário poderiam excluir as

oportunidades remanescentes e abortar o embrião da próxima aventura.

Como dizem Zbyszko Melosik e Tomasz Szkudlarek em seu interessante

estudo de problemas da identidade,9 viver em meio a chances

aparentemente infinitas (ou pelo menos em meio a maior número de

chances do que seria razoável experimentar) tem o gosto doce da “liberdade

de tornar-se qualquer um”. Porém essa doçura tem uma cica amarga porque,

enquanto o “tornar-se” sugere que nada está acabado e temos tudo pela

frente, a condição de “ser alguém”, que o tornar-se deve assegurar, anuncia

o apito final do árbitro, indicando o fim do jogo: “Você não está mais livre

quando chega o final; você não é você, mesmo que tenha se tornado

alguém.” Estar inacabado, incompleto e subdeterminado é um estado cheio

de riscos e ansiedade, mas seu contrário também não traz um prazer pleno,

pois fecha antecipadamente o que a liberdade precisa manter aberto.

A consciência de que o jogo continua, de que muito vai ainda acontecer,

e o inventário das maravilhas que a vida pode oferecer são muito agradáveis e satisfatórios. A suspeita de que nada do que já foi testado e apropriado é