Modernidade Líquida
Posfácio: Escrever; Escrever Sociologia
POSFÁCIO
ESCREVER; ESCREVER SOCIOLOGIA1
A necessidade de pensar é o que nos faz pensar.
Theodor W. Adorno
Citando a opinião do poeta tcheco Jan Skácel sobre a condição do poeta
(que, nas palavras de Skácel, apenas descobre os versos que “estiveram
sempre, profundamente, lá”), Milan Kundera comenta (em L’Art du roman,
1986): “Escrever significa para o poeta romper a muralha atrás da qual se
esconde alguma coisa que ‘sempre esteve lá’.” Sob esse aspecto, a tarefa do
poeta não é diferente da obra da história, que também descobre, e não
inventa: a história, como os poetas, descobre, em sempre novas situações,
possibilidades humanas antes ocultas.
O que a história faz corriqueiramente é um desafio, uma tarefa e uma
missão para o poeta. Para elevar-se a essa missão, o poeta deve recusar
servir verdades conhecidas de antemão e bem usadas, verdades já “óbvias”
porque trazidas à superfície e aí deixadas a flutuar. Não importa que essas
verdades “supostas de antemão” sejam classificadas como revolucionárias
ou dissidentes, cristãs ou atéias — ou quão corretas e apropriadas, nobres e
justas sejam ou tenham sido proclamadas. Qualquer que seja sua
denominação, essas “verdades” não são as “coisas ocultas” que o poeta é
chamado a desvelar; são antes partes da muralha que é missão do poeta
destruir. Os porta-vozes do óbvio, do auto-evidente e “daquilo em que todos
acreditamos” são falsos poetas, diz Kundera.
Mas o que tem que ver a vocação do poeta com a do sociólogo? Nós
sociólogos raramente escrevemos poemas. (Alguns de nós que o fazemos
tomamos uma licença, para a atividade de escrever, de nossos afazeres
profissionais.) E no entanto, se não quisermos partilhar do destino dos
“falsos poetas” e não quisermos ser “falsos sociólogos”, devemos nos aproximar tanto quanto os verdadeiros poetas das possibilidades humanas
ainda ocultas; e por essa razão devemos perfurar as muralhas do óbvio e do
evidente, da moda ideológica do dia cuja trivialidade é tomada como prova
de seu sentido. Demolir tais muralhas é vocação tanto do sociólogo quanto
do poeta, e pela mesma razão: o emparedamento das possibilidades
desvirtua o potencial humano ao mesmo tempo em que obstrui a revelação
de seu blefe.
Talvez o verso que o poeta procura tenha Estado “sempre lá”. Não se
pode estar tão certo, porém, sobre o potencial humano descoberto pela
história. Será que os humanos — os que fazem e os que foram feitos, os
heróis e as vítimas da história — sempre carregarão consigo o mesmo
volume de possibilidades à espera do momento certo para serem reveladas?
Ou a oposição entre descoberta e criação é nula e vazia e não faz sentido?
Como a história é o processo infindável da criação humana, não seria ela
pela mesma razão o processo infindável do autodescobrimento humano? A
propensão para revelar/criar sempre novas possibilidades, para expandir o
inventário das possibilidades já descobertas e tornadas reais, não é o único
potencial humano que sempre “esteve lá”, e sempre estará? Saber se a nova
possibilidade foi criada ou “meramente” revelada pela história é sem dúvida
um estímulo bem-vindo para mentes escolásticas; quanto à própria história,
ela não espera pela resposta e pode seguir sem ela.
O legado mais precioso de Niklas Luhmann a seus colegas sociólogos é
a noção de autopoiesis — autocriação (do grego ποιειη, fazer, criar, dar
forma, o oposto de πασχειη, sofrer, ser um objeto e não a fonte do ato) —,
que pretende captar e encapsular a essência da condição humana. A escolha
do termo foi em si mesma uma criação ou descoberta da ligação (parentesco
herdado mais que afinidade escolhida) entre a história e a poesia. A poesia e
a história são duas correntes paralelas (“paralelas” no sentido do universo
não-euclidiano regulado pela geometria de Bolyai e Lobachevski) dessa
autopoiesis das potencialidades humanas, em que a criação é a única forma
que pode tomar a descoberta e a autodescoberta é o principal ato de criação.
A sociologia, sou tentado a dizer, é uma terceira corrente, paralela a
essas duas. Ou pelo menos isso é o que ela deveria ser para ficar dentro
dessa condição humana que tenta entender e tornar inteligível; e é o que ela
vem tentando ser desde o início, embora tenha sido repetidas vezes
desviada por ter tomado equivocadamente as aparentemente impenetráveis
e ainda não decompostas muralhas como os limites últimos do potencial humano, e por ter se apressado a garantir aos comandantes e às tropas sob
seu comando que as linhas que traçaram para marcar os limites jamais
seriam ultrapassadas.
Alfred de Musset sugeriu há quase dois séculos que os “grandes artistas não
têm pátria”. Há dois séculos essas palavras eram militantes, uma espécie de
grito de guerra. Foram escritas em meio às ensurdecedoras fanfarras do
patriotismo juvenil e crédulo, e por isso mesmo belicoso e arrogante.
Muitos políticos estavam descobrindo sua vocação para a construção de
Estados-nação com uma só lei, uma só língua, uma só visão de mundo, uma
só história e um só futuro. Muitos poetas e pintores estavam descobrindo
sua missão de nutrir os tenros brotos do espírito nacional, ressuscitando
tradições nacionais há muito tidas como mortas ou concebendo outras
novas e oferecendo à nação as histórias, canções, semelhanças e nomes de
ancestrais heróicos — algo a compartilhar, amar e guardar em comum, e
assim elevar o mero viver juntos ao nível do pertencer à mesma coisa,
abrindo os olhos dos vivos para a beleza e doçura do pertencimento ao levá-
los a lembrar e venerar seus mortos e a alegrar-se por cultivar seu legado.
Contra esse clima, o rude veredicto de Musset tinha todas as marcas de uma
rebelião e um chamado às armas: concitava seus colegas escritores a recusar
cooperação ao empreendimento dos políticos, profetas e pregadores das
fronteiras vigiadas e das trincheiras armadas. Não sei se de Musset intuiu a
capacidade fratricida dos tipos de fraternidades que os políticos
nacionalistas e ideólogos laureados estavam determinados a erguer, ou se
suas palavras não passavam de expressões de seu desagrado intelectual com
os estreitos horizontes e com a mentalidade paroquial. Qualquer que fosse o
caso então, quando lidas agora, com a vantagem do tempo, pela lente de
aumento manchada com as marcas escuras das limpezas étnicas, genocídios
e túmulos coletivos, as palavras de Musset parecem não ter perdido nada de
sua urgência e desafio, e tampouco de sua capacidade de gerar controvérsia.
Agora como então, elas miram o coração da missão do escritor e desafiam
sua consciência com a questão decisiva para a raison d’être de qualquer
escritor.
Um século e meio depois, Juan Goytisolo, provavelmente o maior entre
os escritores espanhóis vivos, assume uma vez mais a questão. Em
entrevista recente (“Les batailles de Juan Goytisolo”, no Monde, de
12.2.1999) ele diz que quando a Espanha aceitou, em nome da piedade católica e sob influência da Inquisição, uma noção altamente restritiva da
identidade nacional, o país se tornou, por volta do final do século XVII, um
“deserto cultural”. Note-se que Goytisolo escreve em espanhol, mas viveu
muitos anos em Paris e nos EUA, antes de fixar-se finalmente no Marrocos.
E note-se também que nenhum outro escritor espanhol tem tantas obras
traduzidas para o árabe. Por quê? Goytisolo não duvida da razão. E explica:
“A intimidade e a distância criam uma situação privilegiada. Ambas são
necessárias.” Ainda que por razões diferentes, ambas essas qualidades se
fazem presentes nas relações de Goytisolo com seu espanhol nativo e com o
árabe, o francês e o inglês adquiridos — as línguas dos países que
sucessivamente se tornaram suas pátrias substitutas escolhidas.
Como Goytisolo passou grande parte de sua vida longe da Espanha, a
língua espanhola deixou de ser para ele a ferramenta familiar da
comunicação diária, mundana e ordinária, sempre à mão e dispensando a
reflexão. Sua intimidade com a língua da infância não foi — nem poderia
ter sido — afetada, mas agora está complementada pela distância. A língua
espanhola se tornou o “lar autêntico em seu exílio”, um território conhecido
e sentido e vivido de dentro e no entanto — como também se tornou remoto
— cheio de surpresas e descobertas. Esse território íntimo/distante se presta
ao escrutínio tranqüilo e distante sine ira et studio, pondo a nu as
armadilhas e as possibilidades não-testadas, invisíveis no uso vernacular,
mostrando uma plasticidade insuspeitada, admitindo e convidando à
intervenção criativa. Foi a combinação de intimidade e distância que
permitiu a Goytisolo perceber que a imersão não-refletida na língua —
exatamente a espécie de imersão que o exílio torna quase impossível — é
cheia de perigos: “Se vivemos apenas no presente, arriscamo-nos a
desaparecer juntamente com o presente.” Foi o olhar “de fora” e distante de
sua língua nativa que permitiu a Goytisolo dar um passo além do presente
que constantemente se esvai e enriquecer seu espanhol de um modo de
outra maneira improvável, talvez de todo inconcebível. Trouxe de volta à
sua prosa e poesia termos antigos, há muito caídos em desuso, e ao fazê-lo
soprou a poeira que os cobria, limpou a pátina do tempo e ofereceu às
palavras uma vitalidade nova e insuspeitada (ou há muito esquecida).
Em Contre-allée, livro recentemente publicado em colaboração com
Catherine Malabou, Jacques Derrida convida seus leitores a pensar em
viagem — ou, mais precisamente, a “pensar viajar”. O que quer dizer
pensar a atividade única de partir, ir embora de chez soi, ir para longe, para o desconhecido, arriscando todos os riscos, prazeres e perigos que o
“desconhecido” oculta (até mesmo o risco de não voltar).
“Estar longe” é uma obsessão de Derrida. Há alguma razão para supor
que a ela nasceu quando, em 1942, aos 12 anos, Jacques foi expulso da
escola, que recebera do governo de Vichy a ordem de purificar-se dos
alunos judeus. Assim começou o “exílio perpétuo” de Derrida. Desde então,
ele divide sua vida entre a França e os EUA. Nos EUA, era um francês; na
França, por mais que tentasse, vez por outra o sotaque argelino de sua
infância irrompia através de sua refinada parole francesa, traindo o pied
noir escondido sob a fina pele do professor da Sorbonne. (Alguns pensam
que foi por isso que Derrida passou a exaltar a superioridade da escrita e
compôs o mito etiológico da prioridade para sustentar a afirmação
axiológica.) Culturalmente, Derrida continuaria “sem Estado”. Isso não
significava não ter uma terra natal cultural. Ao contrário: ser “culturalmente
sem Estado” significava ter mais de uma terra natal, construir um lar
próprio na encruzilhada das culturas. Derrida se tornou e permaneceu um
métèque, um híbrido cultural. Seu “lar na encruzilhada” foi feito da língua.
Construir um lar na encruzilhada cultural foi a melhor das
oportunidades para submeter a língua a provas com que ela poucas vezes se
depara, para ver suas qualidades não-percebidas, descobrir do que ela é
capaz e quais as promessas que não pode realizar. Desse lar na
encruzilhada, para abrir-nos os olhos, veio a notícia da inerente pluralidade
e da indecidibilidade do sentido (em L’Écriture et la différence), da
impureza das origens (em De la grammatologie) e da perpétua não-
realização da comunicação (em La Carte postale) — como notou Christian
Delacampagne no Monde de 12 de março de 1999.
As mensagens de Goytisolo e de Derrida são diferentes da de Musset:
não é verdade, sugerem o romancista e o filósofo em uníssono, que a grande
arte não tem pátria — ao contrário, a arte e os artistas podem ter muitas
pátrias, e a maioria deles certamente tem mais de uma. Em vez de ser sem
pátria, o segredo é estar à vontade em muitas pátrias, mas estar em cada
uma ao mesmo tempo dentro e fora, combinar a intimidade com a visão
crítica de um estranho, envolvimento com distanciamento — o que as
pessoas sedentárias dificilmente aprendem. Pegar o jeito é a oportunidade
do exílio: tecnicamente um exílio — que é no lugar, mas não do lugar. A
liberdade que resulta dessa condição (que é essa condição) revela que as
verdades caseiras são feitas e desfeitas pelo homem e que a língua materna é um fluxo infindável de comunicação entre as gerações e um tesouro de
mensagens sempre mais ricas que quaisquer de suas leituras e sempre à
espera de serem novamente reveladas.
George Steiner considerava Samuel Beckett, Jorge Luis Borges e
Vladimir Nabokov os maiores escritores contemporâneos. O que os une,
disse, e o que os fez grandes, é que os três se moviam com a mesma
facilidade — estavam igualmente “à vontade” — em vários universos
lingüísticos, e não em apenas um. (Cabe um lembrete: “universo
lingüístico” é um pleonasmo: o universo em que cada um de nós vive é
lingüístico, e não pode ser senão lingüístico — é feito de palavras. As
palavras iluminam as ilhas das formas visíveis no oceano escuro do
invisível e marcam os dispersos pontos de relevância na massa informe da
insignificância. São as palavras que dividem o mundo em classes de objetos
nomeáveis e fazem surgir seu parentesco ou oposição, proximidade ou
distância, afinidade ou estranhamento — e enquanto estiverem sozinhas no
campo elevam todos esses artefatos ao nível da realidade, a única realidade
que existe.) É preciso viver, visitar, conhecer intimamente mais de um
desses universos para descobrir a invenção humana por trás da estrutura
impositiva e aparentemente irredutível de qualquer desses universos, e para
descobrir quanto esforço cultural humano é necessário para adivinhar a
idéia da natureza com suas leis e necessidades; tudo isso é preciso para se
reunir, ao final, a audácia e a determinação para juntar-se, conscientemente,
a esse esforço cultural, ciente de seus riscos e armadilhas, mas também do
ilimitado de seus horizontes.
Criar (e também descobrir) significa sempre quebrar uma regra; seguir a
regra é mera rotina, mais do mesmo — não um ato de criação. Para o
exilado, romper regras não é uma questão de livre escolha, mas uma
eventualidade que não pode ser evitada. Os exilados não sabem o bastante
sobre as regras que reinam em seu país de chegada, nem as tratam com
suficiente fervor para que seus esforços para observá-las e conformar-se a
elas sejam percebidos como sérios e aprovados. Em relação a seu país de
origem, a partida para o exílio foi lá registrada como o pecado original dos
exilados, à luz do qual tudo o que eles venham a fazer mais tarde poderá ser
usado contra eles como evidência de sua quebra das regras. Por ação ou
omissão, quebrar as regras se torna a marca registrada dos exilados.
Dificilmente isso os fará queridos pelos nativos dos países pelos quais
fazem seus itinerários. Mas, paradoxalmente, também lhes permite trazer para todos os países envolvidos dons de que eles muito precisam e que não
poderiam receber de outras fontes.
Esclareço. O “exílio” em discussão não é necessariamente um caso de
mobilidade física, corporal. Pode envolver trocar um país por outro, mas
não obrigatoriamente. Como disse Christine Brooke-Rose (em seu ensaio
“Exsul”), a marca distintiva de todo exílio, e particularmente do exílio do
escritor (isto é, o exílio articulado em palavras e assim transformado em
uma experiência comunicável) é a recusa a ser integrado — a determinação
de situar-se fora do espaço, de construir um lugar próprio, diferente do lugar
em que os outros à volta se inserem, um lugar diferente dos lugares
abandonados e diferente do lugar em que se está. O exílio é definido não em
relação a qualquer espaço físico particular ou às oposições entre vários
espaços físicos, mas por uma posição autônoma assumida em relação ao
espaço como tal. “Em última análise”, pergunta Brooke-Rose,
cada poeta ou romancista “poético” (explorador, rigoroso) não é uma
espécie de exilado, que olha de fora para dentro, com os olhos da
mente, uma imagem brilhante e desejável do pequeno mundo criado,
para o espaço do esforço de escrever e do espaço mais curto do ler?
Esse tipo de escrita, muitas vezes contra editor e público, é a última arte
criativa solitária, não-socializada.
A resoluta determinação de permanecer “não-socializado” o
consentimento a integrar-se apenas sob a condição de não-integração; a
resistência — muitas vezes penosa e agoniante, mas em última análise
vitoriosa — à grande pressão do lugar, tanto o antigo quanto o novo; a
áspera defesa do direito de julgar e de escolher; a adesão à ambivalência ou
a invocação dela — essas são, podemos dizer, as características
constitutivas do “exilado”. Todas elas — note-se — referem-se a atitudes e
estratégias de vida, à mobilidade espiritual mais que à física.
Michel Maffesoli (em Du nomadisme: Vagabondages initiatiques, 1997)
escreve sobre o mundo que todos habitamos nos dias de hoje como um
“território flutuante” em que “indivíduos frágeis” encontram uma
“realidade porosa”. A esse território só se adaptam coisas ou pessoas
fluidas, ambíguas, num estado de permanente transformar-se, num estado
constante de autotransgressão. O “enraizamento”, se existir, só pode ser
dinâmico: ele deve ser reafirmado e reconstituído diariamente — precisamente pelo ato repetido de “autodistanciamento”, esse ato fundador,
iniciático, de “estar de viagem”, na estrada. Depois de comparar a todos nós
— os habitantes do mundo de hoje — aos nômades, Jacques Attali (em
Chemins de sagesse, 1996) sugere que, além de viajar leves e ser gentis,
amigáveis e hospitaleiros em relação aos estranhos que encontram em seu
caminho, os nômades devem estar constantemente alertas, lembrando que
seus acampamentos são vulneráveis e não têm muros ou fossos que
impeçam a entrada de intrusos. Acima de tudo, lutando para sobreviver no
mundo dos nômades, precisam acostumar-se ao estado de desorientação
perpétua, a viajar por estradas de rumo e tamanho desconhecidos, raramente
olhando além da próxima curva ou cruzamento; eles precisam concentrar
toda sua atenção no pequeno trecho de estrada que têm que vencer antes do
escurecer.
“Indivíduos frágeis”, destinados a conduzir suas vidas numa “realidade
porosa”, sentem-se como que patinando sobre gelo fino; e “ao patinar sobre
gelo fino”, observou Ralph Waldo Emerson em seu ensaio “Prudence”,
“nossa segurança está em nossa velocidade”. Indivíduos, frágeis ou não,
precisam de segurança, anseiam por segurança, buscam a segurança e assim
tentam, ao máximo, fazer o que fazem com a máxima velocidade. Estando
entre corredores rápidos, diminuir a velocidade significa ser deixado para
trás; ao patinar em gelo fino, diminuir a velocidade também significa a
ameaça real de afogar-se. Portanto, a velocidade sobe para o topo da lista
dos valores de sobrevivência.
A velocidade, no entanto, não é propícia ao pensamento, pelo menos ao
pensamento de longo prazo. O pensamento demanda pausa e descanso,
“tomar seu tempo”, recapitular os passos já dados, examinar de perto o
ponto alcançado e a sabedoria (ou imprudência, se for o caso) de o ter
alcançado. Pensar tira nossa mente da tarefa em curso, que requer sempre a
corrida e a manutenção da velocidade. E na falta do pensamento, o patinar
sobre o gelo fino que é uma fatalidade para todos os indivíduos frágeis na
realidade porosa pode ser equivocadamente tomado como seu destino.
Tomar a fatalidade por destino, como insistia Max Scheler em sua Ordo
amoris, é um erro grave: “O destino do homem não é uma fatalidade … A
suposição de que fatalidade e destino são a mesma coisa merece ser
chamada de fatalismo.” O fatalismo é um erro do juízo, pois de fato a
fatalidade “tem uma origem natural e basicamente compreensível”. Além
disso, embora não seja uma questão de livre escolha, e particularmente de livre escolha individual, a fatalidade “tem origem na vida de um homem ou
de um povo”. Para ver tudo isso, para notar a diferença e a distância entre
fatalidade e destino, e escapar à armadilha do fatalismo, são necessários
recursos difíceis de obter quando se patina sobre gelo fino: tempo para
pensar, e distanciamento para uma visão de conjunto. “A imagem de nosso
destino”, adverte Scheler, “só nos abandona quando lhe damos as costas”.
Mas o fatalismo é uma atitude que se auto-referenda: faz com que o “voltar
as costas”, essa conditio sine qua non do pensamento, pareça inútil e
indigno de ser tentado.
Tomar distância, tomar tempo — a fim de separar destino e fatalidade,
de emancipar o destino da fatalidade, de torná-lo livre para confrontar a
fatalidade e desafiá-la: essa é a vocação da sociologia. E é o que os
sociólogos podem fazer caso se esforcem consciente, deliberada e
honestamente para refundir a vocação a que atendem — sua fatalidade —
em seu destino.
“A sociologia é a resposta. Mas qual era a pergunta?”, diz e pergunta Ulrich
Beck em Politik in der Risikogesellschaft. Algumas páginas antes, Beck
parecera articular a pergunta que procura: a possibilidade de uma
democracia que vá além da “especialistocracia”, uma espécie de
democracia que “começa onde se abre o debate e a formação de decisões
sobre se queremos uma vida nas condições que nos são apresentadas …”.
Essa possibilidade é marcada por um ponto de interrogação não porque
alguém deliberada e maldosamente tenha fechado a porta do debate e
proibido a tomada de decisões bem embasada; a liberdade de falar e reunir-
se para discutir questões de interesse comum jamais foi tão completa e
incondicional como agora. A questão é que é preciso mais que a simples
liberdade formal de falar e aprovar decisões para começar seriamente o tipo
de democracia que na opinião de Beck é nosso imperativo. Também
precisamos saber sobre o que devemos falar e do que devem se ocupar as
decisões que devemos tomar. E isso precisa ser feito na sociedade em que
vivemos, onde a autoridade de falar e decidir é reservada aos especialistas
que detêm o direito exclusivo de definir a diferença entre realidade e
fantasia e de separar o possível do impossível. (Especialistas, podemos
dizer, são quase por definição pessoas que “sabem das coisas”, que as
tomam como são e pensam sobre a maneira menos arriscada de viver com
elas.)
Por que isso não é fácil e provavelmente não vai ficar mais fácil a
menos que se faça alguma coisa é o que Beck explica em seu
Risikogesellschaft: auf dem Weg in eine andere Moderne. Escreve: “O que o
alimento é para a fome, a eliminação dos riscos, ou a interpretação que os
exclui, é para a consciência do risco.” Numa sociedade pressionada
principalmente pela necessidade material não havia opção entre “eliminar”
a miséria e “interpretá-la como inexistente”. Em nossa sociedade, mais
assombrada pelo risco que pela necessidade material, a opção existe — e é
feita diariamente. A fome não pode ser aliviada pela negação; na fome, o
sofrimento subjetivo e suas causas objetivas estão indissoluvelmente
ligados, e a ligação é evidente e não pode ser desmentida. Mas os riscos, ao
contrário da necessidade material, não são experimentados subjetivamente;
pelo menos não são “vividos” diretamente a não ser que sejam mediados
pelo conhecimento. Podem nunca chegar ao domínio da experiência
subjetiva — podem ser trivializados ou expressamente negados antes de
chegar lá, e a possibilidade de que sejam impedidos de chegar cresce junto
com a extensão dos riscos.
Segue-se que a sociologia é mais necessária que nunca. O trabalho em
que os sociólogos são especialistas, o trabalho de trazer novamente à vista o
elo perdido entre a aflição objetiva e a experiência subjetiva, se tornou mais
vital e indispensável que nunca; e isso precisará da ajuda profissional dos
sociólogos, porque é cada vez menos provável que possa ser feito pelos
praticantes de outros campos de especialização. Todos os especialistas
lidam com problemas práticos e todo conhecimento especializado se dedica
à sua solução, e a sociologia é um ramo do conhecimento especializado
cujo problema prático a resolver é o esclarecimento que tem por objetivo a
compreensão humana. A sociologia é talvez o único campo de
especialização em que (como observou Pierre Bourdieu em La misère du
monde) a famosa distinção de Dilthey entre explicação e compreensão foi
superada e cancelada.
Compreender aquilo a que estamos fadados significa estarmos conscientes
de que isso é diferente de nosso destino. E compreender aquilo a que
estamos fadados é conhecer a rede complexa de causas que provocaram
essa fatalidade e sua diferença daquele destino. Para operar no mundo (por
contraste a ser “operado” por ele) é preciso entender como o mundo opera.
O tipo de esclarecimento que a sociologia é capaz de dar se endereça a
indivíduos que escolhem livremente e têm por objetivo aperfeiçoar e
reforçar sua liberdade de escolha. Seu objetivo imediato é reabrir o caso
supostamente fechado da explicação e promover a compreensão. A
autoformação e a auto-afirmação dos homens e mulheres individuais,
condição preliminar de sua capacidade de decidir se querem o tipo de vida
que lhes foi apresentada como uma fatalidade, é que pode ganhar em vigor,
eficácia e racionalidade como resultado do esclarecimento sociológico. A
causa da sociedade autônoma pode ganhar junto com a causa do indivíduo
autônomo; elas só podem vencer ou perder juntas.
Citando de Le délabrement de l’Occident, de Cornelius Castoriadis,
uma sociedade autônoma, uma sociedade verdadeiramente democrática,
é uma sociedade que questiona tudo o que é pré-determinado e assim
libera a criação de novos significados. Em tal sociedade, todos os
indivíduos são livres para escolher criar para suas vidas os significados
que quiserem (e puderem).
A sociedade é verdadeiramente autônoma quando “sabe, tem que saber,
que não há significados ‘assegurados’, que vive na superfície do caos, que
ela própria é um caos em busca de forma, mas uma forma que nunca é
fixada de uma vez por todas”. A falta de significados garantidos — de
verdades absolutas, de normas de conduta pré-ordenadas, de fronteiras pré-
traçadas entre o certo e o errado, de regras de ação garantidas — é a
conditio sine qua non de, ao mesmo tempo, uma sociedade verdadeiramente
autônoma e indivíduos verdadeiramente livres; a sociedade autônoma e a
liberdade de seus membros se condicionam mutuamente. A segurança que a
democracia e a individualidade podem alcançar depende não de lutar contra
a contingência e a incerteza da condição humana, mas de reconhecer e
encarar de frente suas conseqüências.
Se a sociologia ortodoxa, nascida e desenvolvida sob a égide da
modernidade sólida, se preocupava com as condições da obediência e
conformidade humanas, a primeira ocupação da sociologia feita sob medida
para a modernidade líquida deve ser a promoção da autonomia e da
liberdade; tal sociologia deve enfocar a autoconsciência, a compreensão e a
responsabilidade individuais. Para os habitantes da sociedade moderna em
sua fase sólida e administrada, a oposição principal se dava entre conformidade e desvio; a oposição principal da sociedade moderna em sua
fase liquefeita e descentrada, a oposição que precisa ser enfrentada para
pavimentar o caminho para uma sociedade verdadeiramente autônoma, se
dá entre assumir a responsabilidade e buscar um abrigo onde a
responsabilidade pelas próprias ações não precisa ser assumida pelos atores.
Este outro lado da oposição, buscar abrigo, é uma opção sedutora e uma
perspectiva realista. Alexis de Tocqueville (no segundo volume de sua De
la démocratie en Amérique) observou que se o egoísmo, fantasma que
atormentou a espécie humana em todos os períodos de sua história, “seca as
sementes de todas as virtudes”, o individualismo, aflição nova e tipicamente
moderna, seca apenas “a fonte das virtudes públicas” os indivíduos afetados
estão ocupados “criando pequenos grupos para seu próprio desfrute” e
deixando a “sociedade maior” de lado. Essa tentação cresceu
consideravelmente desde que Tocqueville fez sua observação.
Viver entre uma multidão de valores, normas e estilos de vida em
competição, sem uma garantia firme e confiável de estarmos certos, é
perigoso e cobra um alto preço psicológico. Não surpreende que a atração
da segunda resposta, de fugir da escolha responsável, ganhe força. Como
diz Julia Kristeva (em Nações sem nacionalismo), “é rara a pessoa que não
invoca uma proteção primal para compensar a desordem pessoal”. E todos
nós, em medida maior ou menor, às vezes mais e às vezes menos, nos
encontramos em Estado de “desordem pessoal”. Vez por outra, sonhamos
com uma “grande simplificação” sem aviso, nos envolvemos em fantasias
regressivas cuja principal inspiração são o útero materno e o lar protegido
por muros. A busca de um abrigo primal é o “outro” da responsabilidade,
exatamente como o desvio e a rebelião eram o “outro” da conformidade. O
anseio por um abrigo primal veio hoje a substituir a rebelião, que deixou de
ser uma opção razoável; como diz Pierre Rosanvallon (em novo prefácio a
seu clássico Le capitalisme utopique), não há mais “uma autoridade no
poder para depor e substituir. Parece não haver mais espaço para a revolta,
como atesta o fatalismo diante do fenômeno do desemprego”.
Sinais da doença são abundantes e visíveis, mas, como repetidamente
observa Pierre Bourdieu, procuram em vão uma expressão legítima no
mundo da política. Sem expressão articulada, precisam ser lidos,
obliquamente, nas explosões da fúria xenófoba e racista — manifestações
mais comuns da nostalgia do abrigo primal. A alternativa disponível e não menos popular da busca de bodes-expiatórios e da intolerância militante
neotribais — a retirada da arena política e a fuga para trás dos muros
fortificados do privado — não é mais a estratégia dominante e, acima de
tudo, não é mais uma resposta adequada à fonte verdadeira da aflição. E é
neste ponto que a sociologia, com seu potencial de explicação que promove
a compreensão, atinge seu lugar mais que em qualquer outro momento em
sua história.
Segundo a antiga e ainda válida tradição hipocrática, como Pierre
Bourdieu lembra aos leitores de La misère du monde, a verdadeira medicina
começa com o reconhecimento da doença invisível — “fatos de que o
doente não fala ou esquece de relatar”. O que é preciso no caso da
sociologia é a “revelação das causas estruturais que os sinais e falas
aparentes só evidenciam por distorção [ne dévoilent qu’en les voilant]”. É
preciso enxergar — explicar e compreender — os sofrimentos
característicos de uma ordem social que “sem dúvida fez recuar a grande
miséria (ainda que talvez menos do que se diz freqüentemente), ao mesmo
tempo em que multiplicava os espaços sociais … que ofereciam condições
favoráveis para o crescimento sem precedentes de todos os tipos de
pequenas misérias”.
Diagnosticar uma doença não é o mesmo que curá-la — essa regra geral
vale tanto para os diagnósticos sociológicos como para os médicos. Mas
note-se que a doença da sociedade difere das doenças do corpo num aspecto
tremendamente importante: no caso de uma ordem social doente, a falta de
um diagnóstico adequado (silenciado pela tendência de “interpretar como
inexistentes” os riscos observada por Ulrich Beck) é parte crucial e talvez
decisiva da doença. Como bem disse Cornelius Castoriadis, está doente a
sociedade que deixa de se questionar; e nem poderia ser diferente,
considerando que — quer o saiba ou não — a sociedade é autônoma (suas
instituições são feitas por humanos e, portanto, podem ser desfeitas por
humanos), e que a suspensão do autoquestionamento impede a consciência
da autonomia ao mesmo tempo em que promove a ilusão de heteronomia
com suas conseqüências fatalistas inevitáveis. Recomeçar o questionamento
significa dar um grande passo para a cura. Do mesmo modo como na
história da condição humana a descoberta equivale à criação e no
pensamento sobre a condição humana explicação e compreensão são uma
só coisa, assim também, nos esforços de melhorar a condição humana,
diagnóstico e terapia se misturam.
Pierre Bourdieu expressou isso perfeitamente na conclusão a La misère
du monde: “Tornar-se consciente dos mecanismos que fazem a vida penosa,
mesmo impossível de ser vivida, não significa neutralizá-los; trazer à luz as
contradições não significa resolvê-las.” E, no entanto, por mais céticos que
possamos ser quanto à eficácia social da mensagem sociológica, não
podemos negar os efeitos de permitir que aqueles que sofrem descubram a
possibilidade de relacionar seus sofrimentos a causas sociais; nem podemos
descartar os efeitos de tornarem-se conscientes da origem social da
infelicidade “em todas as suas formas, inclusive as mais íntimas e secretas”.
Nada é menos inocente, lembra Bourdieu, que o laissez-faire. Observar
a miséria humana com equanimidade, aplacando a dor da consciência com
o encantamento ritual do credo “não há alternativa”, implica cumplicidade.
Quem quer que, por ação ou omissão, participe do acobertamento ou, pior
ainda, da negação da natureza alterável e contingente, humana e não-
inevitável da ordem social, notadamente do tipo de ordem responsável pela
infelicidade, é culpado de imoralidade — de recusar ajuda a uma pessoa em
perigo.
Fazer sociologia e escrever sociologia têm por objetivo revelar a
possibilidade de viver em conjunto de modo diferente, com menos miséria
ou sem miséria: essa possibilidade diariamente subtraída, subestimada ou
não-percebida. Não enxergar, não procurar e assim suprimir essa
possibilidade é parte da miséria humana e fator importante em sua
perpetuação. Sua revelação não predetermina sua utilização; quando
conhecidas, as possibilidades também podem não ser submetidas ao teste da
realidade, porque talvez não confiemos nelas o bastante. A revelação é o
começo e não o fim da guerra contra a miséria humana. Mas essa guerra
não pode ser empreendida seriamente, e menos ainda com uma
possibilidade pelo menos parcial de sucesso, a menos que a escala da
liberdade humana seja revelada e reconhecida, de tal modo que a liberdade
possa ser plenamente utilizada na luta contra as fontes sociais de toda
infelicidade, inclusive a mais individual e privada.
Não há escolha entre maneiras “engajadas” e “neutras” de fazer
sociologia. Uma sociologia descomprometida é uma impossibilidade.
Buscar uma posição moralmente neutra entre as muitas marcas de
sociologia hoje praticadas, marcas que vão da declaradamente libertária à
francamente comunitária, é um esforço vão. Os sociólogos só podem negar
ou esquecer os efeitos de seu trabalho sobre a “visão de mundo”, e o impacto dessa visão sobre as ações humanas singulares ou em conjunto, ao
custo de fugir à responsabilidade de escolha que todo ser humano enfrenta
diariamente. A tarefa da sociologia é assegurar que essas escolhas sejam
verdadeiramente livres e que assim continuem, cada vez mais, enquanto
durar a humanidade.
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