Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 5 de 42

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Modernidade Líquida

O indivíduo em combate com o cidadão

de hoje é leve no alto, tendo se livrado de seus deveres “emancipatórios”,

exceto o dever de ceder a questão da emancipação às camadas média e

inferior, às quais foi relegada a maior parte do peso da modernização

contínua. “Não mais a salvação pela sociedade”, proclamou o apóstolo do

novo espírito da empresa, Peter Drucker. “Não existe essa coisa de

sociedade”, declarou Margaret Thatcher, mais ostensivamente. Não olhe

para trás, ou para cima; olhe para dentro de você mesmo, onde

supostamente residem todas as ferramentas necessárias ao aperfeiçoamento

da vida — sua astúcia, vontade e poder.

E não há mais “o Grande Irmão à espreita” sua tarefa agora é observar

as fileiras crescentes de Grandes Irmãos e Grandes Irmãs e observá-las

atenta e avidamente, na esperança de encontrar algo de útil para você

mesmo: um exemplo a imitar ou uma palavra de conselho sobre como lidar

com seus problemas, que, como os deles, devem ser enfrentados

individualmente e só podem ser enfrentados individualmente. Não mais

grandes líderes para lhe dizer o que fazer e para aliviá-lo da

responsabilidade pela conseqüência de seus atos; no mundo dos indivíduos

há apenas outros indivíduos cujo exemplo seguir na condução das tarefas da

própria vida, assumindo toda a responsabilidade pelas conseqüências de ter

investido a confiança nesse e não em qualquer outro exemplo.

 

O indivíduo em combate com o cidadão

 

O título dado por Norbert Elias a seu último livro, publicado postumamente,

A sociedade dos indivíduos, capta com perfeição a essência do problema

que assombra a teoria social desde seu começo. Rompendo com uma

tradição estabelecida desde Hobbes e forjada novamente por John Stuart

Mill, Herbert Spencer e a ortodoxia liberal na doxa (o quadro não

examinado de toda cognição adicional) de nosso século, Elias substituiu o

“e” e o “versus” pelo “de” e, assim, deslocou o discurso do imaginário das

duas forças, travadas numa batalha mortal mas infindável entre liberdade e

dominação, para uma “concepção recíproca”: a sociedade dando forma à

individualidade de seus membros, e os indivíduos formando a sociedade a

partir de suas ações na vida, enquanto seguem estratégias plausíveis e

factíveis na rede socialmente tecida de suas dependências.

A apresentação dos membros como indivíduos é a marca registrada da

sociedade moderna. Essa apresentação, porém, não foi uma peça de um ato:

é uma atividade reencenada diariamente. A sociedade moderna existe em

sua atividade incessante de “individualização”, assim como as atividades

dos indivíduos consistem na reformulação e renegociação diárias da rede de

entrelaçamentos chamada “sociedade”. Nenhum dos dois parceiros fica

parado por muito tempo. E assim o significado da “individualização” muda,

assumindo sempre novas formas — à medida que os resultados acumulados

de sua história passada solapam as regras herdadas, estabelecem novos

preceitos comportamentais e fazem surgir novos prêmios no jogo. A

“individualização” agora significa uma coisa muito diferente do que

significava há cem anos e do que implicava nos primeiros tempos da era

moderna — os tempos da exaltada “emancipação” do homem da trama

estreita da dependência, da vigilância e da imposição comunitárias.

“Jenseits von Klasse und Stand?”, de Ulrich Beck, e poucos anos depois

seu “Risikogesellschaft: auf dem Weg in eine andere Moderne”9

(juntamente com “Ein Stück eigenes Leben: Frauen im Individualisierung

Prozess”, de Elisabeth Beck-Gernsheim) abriram um novo capítulo em

nossa compreensão do “processo de individualização”. Esses trabalhos

apresentaram o processo como uma história em curso e infindável, com

seus distintos estágios — ainda que com um horizonte móvel e uma lógica

errática de giros e curvas abruptos em lugar de um telos ou um destino

predeterminado. Pode-se dizer que, assim como Elias historicizou a teoria

de Sigmund Freud do “indivíduo civilizado” explorando a civilização como

um evento na história (moderna), Beck historicizou a narrativa de Elias do

nascimento do indivíduo ao reapresentar esse nascimento como um aspecto

perpétuo da contínua, compulsiva e obsessiva modernização. Beck também

estabeleceu o retrato da individualização liberta de suas roupagens

transitórias, hoje mais obscurecedoras que clarificadoras da compreensão

(antes e acima de tudo, liberta de suas visões do desenvolvimento linear,

uma progressão assinalada ao longo dos eixos da emancipação, da crescente

autonomia e da liberdade de auto-afirmação), expondo assim para exame a

variedade de tendências à individualização e seus produtos, e permitindo

uma melhor compreensão das características distintivas de seu estágio

presente.

Resumidamente, a “individualização” consiste em transformar a

“identidade” humana de um “dado” em uma “tarefa” e encarregar os atores da responsabilidade de realizar essa tarefa e das conseqüências (assim como

dos efeitos colaterais) de sua realização. Em outras palavras, consiste no

estabelecimento de uma autonomia de jure (independentemente de a

autonomia de facto também ter sido estabelecida).

Os seres humanos não mais “nascem” em suas identidades. Como disse

Jean-Paul Sartre em frase célebre: não basta ter nascido burguês — é

preciso viver a vida como burguês. (Note-se que o mesmo não precisaria ser

nem poderia ser dito sobre príncipes, cavaleiros ou servos da era pré-

moderna; nem poderia ser dito de modo tão resoluto dos ricos nem dos

pobres de berço dos tempos modernos). Precisar tornar-se o que já se é é a

característica da vida moderna — e só da vida moderna (não da

“individualização moderna”, a expressão sendo evidentemente pleonástica;

falar da individualização e da modernidade é falar de uma e da mesma

condição social). A modernidade substitui a determinação heterônoma da

posição social pela autodeterminação compulsiva e obrigatória. Isso vale

para a “individualização” por toda a era moderna — para todos os períodos

e todos os setores da sociedade. No entanto, dentro daquela condição

compartilhada há variações significativas, que distinguem gerações

sucessivas e também as várias categorias de atores que compartilham o

mesmo cenário histórico.

A antiga modernidade “desacomodava” a fim de “reacomodar”.

Enquanto a desacomodação era o destino socialmente sancionado, a

reacomodação era tarefa posta diante dos indivíduos. Uma vez rompidas as

rígidas molduras dos estamentos, a tarefa de “auto-identificação” posta

diante de homens e mulheres do princípio da era moderna se resumia ao

desafio de viver “de acordo” (não ficar atrás dos outros), de conformar-se

ativamente aos emergentes tipos sociais de classe e modelos de conduta, de

imitar, seguir o padrão, “aculturar-se”, não sair da linha nem se desviar da

norma. Os “estamentos” enquanto lugares a que se pertencia por

hereditariedade vieram a ser substituídos pelas “classes” como objetivo de

pertencimento fabricado. Enquanto os estamentos eram uma questão de

atribuição, o pertencimento às classes era em grande medida uma

realização; diferentemente dos estamentos, o pertencimento às classes devia

ser buscado, e continuamente renovado, reconfirmado e testado na conduta

diária.

Retrospectivamente, pode-se dizer que a divisão em classes (ou em

gêneros) foi um resultado secundário do acesso desigual aos recursos necessários para tornar a auto-afirmação eficaz. As classes diferiam na

gama de identidades disponíveis e na facilidade de escolher entre elas e

adotá-las. As pessoas com menos recursos e, portanto, com menos escolha,

tinham que compensar suas fraquezas individuais pela “força do número”

— cerrando fileiras e partindo para a ação coletiva. Como assinalou Claus

Offe, a ação coletiva, orientada pela classe, era tão natural e corriqueira

para os que estavam nos níveis mais baixos da escala social quanto a

perseguição individual de seus objetivos de vida o era para seus patrões.

As privações se somavam, por assim dizer; e, uma vez somadas,

congelavam-se em “interesses comuns” e eram vistas como tratáveis apenas

com um remédio coletivo. O “coletivismo” foi a primeira opção de

estratégia para aqueles situados na ponta receptora da individualização mas

incapazes de se auto-afirmar enquanto indivíduos se limitados a seus

próprios recursos individuais, claramente inadequados. A orientação de

classe dos mais bem-aquinhoados era, por outro lado, parcial e, em certo

sentido, derivativa; assumia o primeiro plano principalmente quando a

distribuição desigual dos recursos era desafiada e contestada. Qualquer que

fosse o caso, porém, os indivíduos da modernidade “clássica”, deixados

“desacomodados” pela decomposição da ordem estamental, dispunham de

seus novos poderes e autonomia na busca frenética da “reacomodação”.

E não faltavam “camas” à espera e prontas para acomodá-los. A classe

— embora formada e negociável, e não herdada, como eram os estamentos

— tendia a prender seus membros tão firme e fortemente quanto o

estamento hereditário pré-moderno. Classe e gênero projetavam-se

pesadamente sobre a gama de escolhas do indivíduo; escapar a esses limites

não era muito mais fácil do que contestar o lugar ocupado na “cadeia divina

do ser” pré-moderna. Para todos os efeitos, a classe e o gênero eram “fatos

da natureza”, e a tarefa reservada à auto-afirmação da maioria dos

indivíduos era “adaptar-se” ao nicho alocado, comportando-se como os

demais ocupantes.

Isso é precisamente o que distingue a “individualização” de outrora da

forma que veio a tomar na Risikogesellschaft, em tempos de “modernidade

reflexiva” ou “segunda modernidade” (nas diferentes formas como Ulrich

Beck se refere à era contemporânea). Não são fornecidos “lugares” para a

“reacomodação”, e os lugares que podem ser postulados e perseguidos

mostram-se frágeis e freqüentemente desaparecem antes que o trabalho de

“reacomodação” seja completado. O que há são “cadeiras musicais” de vários tamanhos e estilos, assim como em números e posições cambiantes,

que fazem com que as pessoas estejam constantemente em movimento, e

não prometem nem a “realização”, nem o descanso, nem a satisfação de

“chegar”, de alcançar o destino final, quando se pode desarmar-se, relaxar e

deixar de se preocupar. Não há perspectiva de “reacomodação” no final do

caminho tomado pelos indivíduos (agora cronicamente) desacomodados.

Não se engane: agora, como antes — tanto no estágio leve e fluido da

modernidade quanto no sólido e pesado —, a individualização é uma

fatalidade, não uma escolha. Na terra da liberdade individual de escolher, a

opção de escapar à individualização e de se recusar a participar do jogo da

individualização está decididamente fora da jogada. A autocontenção e a

auto-suficiência do indivíduo podem ser outra ilusão: que homens e

mulheres não tenham nada a que culpar por suas frustrações e problemas

não precisa agora significar, não mais que no passado, que possam se

proteger contra a frustração utilizando suas próprias estratégias, ou que

escapem de seus problemas puxando-se, como o Barão de Munchausen,

pelas próprias botas. E, no entanto, se ficam doentes, supõe-se que foi

porque não foram suficientemente decididos e industriosos para seguir seus

tratamentos; se ficam desempregados, foi porque não aprenderam a passar

por uma entrevista, ou porque não se esforçaram o suficiente para encontrar

trabalho ou porque são, pura e simplesmente, avessos ao trabalho; se não

estão seguros sobre as perspectivas de carreira e se agoniam sobre o futuro,

é porque não são suficientemente bons em fazer amigos e influenciar

pessoas e deixaram de aprender e dominar, como deveriam, as artes da

auto-expressão e da impressão que causam. Isto é, em todo caso, o que lhes

é dito hoje, e aquilo em que passaram a acreditar, de modo que agora se

comportam como se essa fosse a verdade. Como Beck adequada e

pungentemente diz, “a maneira como se vive torna-se uma solução

biográfica das contradições sistêmicas”.10 Riscos e contradições continuam

a ser socialmente produzidos; são apenas o dever e a necessidade de

enfrentá-los que estão sendo individualizados.

Para resumir: o abismo entre a individualidade como fatalidade e a

individualidade como capacidade realista e prática de autoafirmação está

aumentando. (Melhor ser afastado da “individualidade por atribuição”,

como “individuação”: o termo escolhido por Beck para distinguir o

indivíduo auto-sustentado e auto-impulsionado daquele que não tem

escolha senão a de agir, ainda que contrafactualmente, como se a individualização tivesse sido alcançada). Saltar sobre esse abismo não é —

isso é crucial — parte dessa capacidade.

A capacidade auto-assertiva de homens e mulheres individualizados

deixa a desejar, como regra, em relação ao que a genuína autoconstituição

requereria. Como observou Leo Strauss, o outro lado da liberdade ilimitada

é a insignificância da escolha, cada lado condicionando o outro: por que

cuidar de proibir o que será, de qualquer modo, de pouca conseqüência?

Um observador cínico diria que a liberdade chega quando não faz mais

diferença. Há um desagradável ar de impotência no temperado caldo da

liberdade preparado no caldeirão da individualização; essa impotência é

sentida como ainda mais odiosa, frustrante e perturbadora em vista do

aumento de poder que se esperava que a liberdade trouxesse.

Quem sabe não seria um remédio manter-se, como no passado, ombro a

ombro e marchar unidos? Quem sabe se, caso os poderes individuais, tão

frágeis e impotentes isoladamente, fossem condensados em posições e

ações coletivas, poderíamos realizar em conjunto o que ninguém poderia

realizar sozinho? Quem sabe… O problema é, porém, que essa

convergência e condensação das queixas individuais em interesses

compartilhados, e depois em ação conjunta, é uma tarefa assustadora, dado

que as aflições mais comuns dos “indivíduos por fatalidade” nos dias de

hoje são não-aditivas, não podem ser “somadas” numa “causa comum”.

Podem ser postas lado a lado, mas não se fundirão. Pode-se dizer que desde

o começo são moldadas de tal maneira que lhes faltam interfaces para

combinar-se com os problemas das demais pessoas.

Os problemas podem ser semelhantes (e os cada vez mais populares

programas de entrevistas insistem em demonstrar sua semelhança, enquanto

martelam a mensagem de que sua semelhança mais importante consiste em

que são enfrentados por conta própria pelos que os sofrem), mas não

formam uma “totalidade que é maior que a soma de suas partes” não

adquirem qualquer qualidade nova, nem se tornam mais fáceis de manejar

por serem enfrentados, confrontados e trabalhados em conjunto. A única

vantagem que a companhia de outros sofredores pode trazer é garantir a

cada um deles que enfrentar os problemas solitariamente é o que todos

fazem diariamente — e portanto renovar e encorajar a fatigada decisão de

continuar a fazer o mesmo. Talvez possa-se também aprender da

experiência de outras pessoas a como sobreviver à nova rodada de “redução

de tamanho” (downsizing); como lidar com crianças que pensam que são adolescentes e adolescentes que se recusam a se tornar adultos; como pôr a

gordura e outros “corpos estranhos” indesejáveis “para fora do sistema”

como livrar-se de um vício que não dá mais prazer ou de parceiros que não

são mais satisfatórios. Mas o que aprendemos antes de mais nada da

companhia de outros é que o único auxílio que ela pode prestar é como

sobreviver em nossa solidão irremível, e que a vida de todo mundo é cheia

de riscos que devem ser enfrentados solitariamente.

E assim há também outro obstáculo: como de Tocqueville há muito

suspeitava, libertar as pessoas pode torná-las indiferentes. O indivíduo é o

pior inimigo do cidadão, sugeriu ele. O “cidadão” é uma pessoa que tende a

buscar seu próprio bem-estar através do bem-estar da cidade — enquanto o

indivíduo tende a ser morno, cético ou prudente em relação à “causa

comum”, ao “bem comum”, à “boa sociedade” ou à “sociedade justa”. Qual

é o sentido de “interesses comuns” senão permitir que cada indivíduo

satisfaça seus próprios interesses? O que quer que os indivíduos façam

quando se unem, e por mais benefícios que seu trabalho conjunto possa

trazer, eles o perceberão como limitação à sua liberdade de buscar o que

quer que lhes pareça adequado separadamente, e não ajudarão. As únicas

duas coisas úteis que se espera e se deseja do “poder público” são que ele

observe os “direitos humanos”, isto é, que permita que cada um siga seu

próprio caminho, e que permita que todos o façam “em paz” — protegendo

a segurança de seus corpos e posses, trancando criminosos reais ou

potenciais nas prisões e mantendo as ruas livres de assaltantes, pervertidos,

pedintes e todo tipo de estranhos constrangedores e maus.

Com seu humor habitual e inimitável, Woody Allen aponta as modas e

manias dos “indivíduos por decreto” ao folhear os anúncios de imaginários

cursos de verão do tipo que os norte-americanos adorariam freqüentar. O

curso de teoria econômica inclui o item “Inflação e depressão — como

vestir-se para cada ocasião” o curso de ética envolve “O imperativo

categórico — e seis maneiras de fazê-lo funcionar a seu favor”, enquanto o

prospecto de astronomia informa que “o Sol, que é feito de gás, pode

explodir a qualquer momento, mandando nosso planeta inteiro pelos ares;

os estudantes são instruídos sobre o que o cidadão médio pode fazer em tal

caso”.

Em suma: o outro lado da individualização parece ser a corrosão e a

lenta desintegração da cidadania. Joël Roman, co-editor de Ésprit, assinala

em seu livro recente (La démocratie des individus, 1998) que “a vigilância é degradada à guarda dos bens, enquanto o interesse geral não é mais que um

sindicato de egoísmos, que envolve emoções coletivas e o medo do

vizinho”. Roman concita os leitores a buscarem uma “renovada capacidade

de decidir em conjunto” — hoje notável por sua inexistência.

Se o indivíduo é o pior inimigo do cidadão, e se a individualização

anuncia problemas para a cidadania e para a política fundada na cidadania,

é porque os cuidados e preocupações dos indivíduos enquanto indivíduos

enchem o espaço público até o topo, afirmando-se como seus únicos

ocupantes legítimos e expulsando tudo mais do discurso público. O

“público” é colonizado pelo “privado” o “interesse público” é reduzido à

curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida

pública é reduzida à exposição pública das questões privadas e a confissões

de sentimentos privados (quanto mais íntimos, melhor). As “questões

públicas” que resistem a essa redução tornam-se quase incompreensíveis.

As perspectivas de que os atores individualizados sejam

“reacomodados” no corpo republicano dos cidadãos são nebulosas. O que

os leva a aventurar-se no palco público não é tanto a busca de causas

comuns e de meios de negociar o sentido do bem comum e dos princípios

da vida em comum quanto a necessidade desesperada de “fazer parte da

rede”. Compartilhar intimidades, como Richard Sennett insiste, tende a ser

o método preferido, e talvez o único que resta, de “construção da

comunidade”. Essa técnica de construção só pode criar “comunidades” tão

frágeis e transitórias como emoções esparsas e fugidias, saltando

erraticamente de um objetivo a outro na busca sempre inconclusiva de um

porto seguro: comunidades de temores, ansiedades e ódios compartilhados

— mas em cada caso comunidades “cabide”, reuniões momentâneas em que

muitos indivíduos solitários penduram seus solitários medos individuais.

Como diz Ulrich Beck (no ensaio “Sobre a mortalidade da sociedade

industrial”),

 

O que emerge no lugar das normas sociais evanescentes é o ego nu,

atemorizado e agressivo à procura de amor e de ajuda. Na procura de si

mesmo e de uma sociabilidade afetuosa, ele facilmente se perde na

selva do eu … Alguém que tateia na bruma de seu próprio eu não é

mais capaz de perceber que esse isolamento, esse “confinamento

solitário do ego”, é uma sentença de massa.11