Modernidade Líquida
O indivíduo em combate com o cidadão
de hoje é leve no alto, tendo se livrado de seus deveres “emancipatórios”,
exceto o dever de ceder a questão da emancipação às camadas média e
inferior, às quais foi relegada a maior parte do peso da modernização
contínua. “Não mais a salvação pela sociedade”, proclamou o apóstolo do
novo espírito da empresa, Peter Drucker. “Não existe essa coisa de
sociedade”, declarou Margaret Thatcher, mais ostensivamente. Não olhe
para trás, ou para cima; olhe para dentro de você mesmo, onde
supostamente residem todas as ferramentas necessárias ao aperfeiçoamento
da vida — sua astúcia, vontade e poder.
E não há mais “o Grande Irmão à espreita” sua tarefa agora é observar
as fileiras crescentes de Grandes Irmãos e Grandes Irmãs e observá-las
atenta e avidamente, na esperança de encontrar algo de útil para você
mesmo: um exemplo a imitar ou uma palavra de conselho sobre como lidar
com seus problemas, que, como os deles, devem ser enfrentados
individualmente e só podem ser enfrentados individualmente. Não mais
grandes líderes para lhe dizer o que fazer e para aliviá-lo da
responsabilidade pela conseqüência de seus atos; no mundo dos indivíduos
há apenas outros indivíduos cujo exemplo seguir na condução das tarefas da
própria vida, assumindo toda a responsabilidade pelas conseqüências de ter
investido a confiança nesse e não em qualquer outro exemplo.
O indivíduo em combate com o cidadão
O título dado por Norbert Elias a seu último livro, publicado postumamente,
A sociedade dos indivíduos, capta com perfeição a essência do problema
que assombra a teoria social desde seu começo. Rompendo com uma
tradição estabelecida desde Hobbes e forjada novamente por John Stuart
Mill, Herbert Spencer e a ortodoxia liberal na doxa (o quadro não
examinado de toda cognição adicional) de nosso século, Elias substituiu o
“e” e o “versus” pelo “de” e, assim, deslocou o discurso do imaginário das
duas forças, travadas numa batalha mortal mas infindável entre liberdade e
dominação, para uma “concepção recíproca”: a sociedade dando forma à
individualidade de seus membros, e os indivíduos formando a sociedade a
partir de suas ações na vida, enquanto seguem estratégias plausíveis e
factíveis na rede socialmente tecida de suas dependências.
A apresentação dos membros como indivíduos é a marca registrada da
sociedade moderna. Essa apresentação, porém, não foi uma peça de um ato:
é uma atividade reencenada diariamente. A sociedade moderna existe em
sua atividade incessante de “individualização”, assim como as atividades
dos indivíduos consistem na reformulação e renegociação diárias da rede de
entrelaçamentos chamada “sociedade”. Nenhum dos dois parceiros fica
parado por muito tempo. E assim o significado da “individualização” muda,
assumindo sempre novas formas — à medida que os resultados acumulados
de sua história passada solapam as regras herdadas, estabelecem novos
preceitos comportamentais e fazem surgir novos prêmios no jogo. A
“individualização” agora significa uma coisa muito diferente do que
significava há cem anos e do que implicava nos primeiros tempos da era
moderna — os tempos da exaltada “emancipação” do homem da trama
estreita da dependência, da vigilância e da imposição comunitárias.
“Jenseits von Klasse und Stand?”, de Ulrich Beck, e poucos anos depois
seu “Risikogesellschaft: auf dem Weg in eine andere Moderne”9
(juntamente com “Ein Stück eigenes Leben: Frauen im Individualisierung
Prozess”, de Elisabeth Beck-Gernsheim) abriram um novo capítulo em
nossa compreensão do “processo de individualização”. Esses trabalhos
apresentaram o processo como uma história em curso e infindável, com
seus distintos estágios — ainda que com um horizonte móvel e uma lógica
errática de giros e curvas abruptos em lugar de um telos ou um destino
predeterminado. Pode-se dizer que, assim como Elias historicizou a teoria
de Sigmund Freud do “indivíduo civilizado” explorando a civilização como
um evento na história (moderna), Beck historicizou a narrativa de Elias do
nascimento do indivíduo ao reapresentar esse nascimento como um aspecto
perpétuo da contínua, compulsiva e obsessiva modernização. Beck também
estabeleceu o retrato da individualização liberta de suas roupagens
transitórias, hoje mais obscurecedoras que clarificadoras da compreensão
(antes e acima de tudo, liberta de suas visões do desenvolvimento linear,
uma progressão assinalada ao longo dos eixos da emancipação, da crescente
autonomia e da liberdade de auto-afirmação), expondo assim para exame a
variedade de tendências à individualização e seus produtos, e permitindo
uma melhor compreensão das características distintivas de seu estágio
presente.
Resumidamente, a “individualização” consiste em transformar a
“identidade” humana de um “dado” em uma “tarefa” e encarregar os atores da responsabilidade de realizar essa tarefa e das conseqüências (assim como
dos efeitos colaterais) de sua realização. Em outras palavras, consiste no
estabelecimento de uma autonomia de jure (independentemente de a
autonomia de facto também ter sido estabelecida).
Os seres humanos não mais “nascem” em suas identidades. Como disse
Jean-Paul Sartre em frase célebre: não basta ter nascido burguês — é
preciso viver a vida como burguês. (Note-se que o mesmo não precisaria ser
nem poderia ser dito sobre príncipes, cavaleiros ou servos da era pré-
moderna; nem poderia ser dito de modo tão resoluto dos ricos nem dos
pobres de berço dos tempos modernos). Precisar tornar-se o que já se é é a
característica da vida moderna — e só da vida moderna (não da
“individualização moderna”, a expressão sendo evidentemente pleonástica;
falar da individualização e da modernidade é falar de uma e da mesma
condição social). A modernidade substitui a determinação heterônoma da
posição social pela autodeterminação compulsiva e obrigatória. Isso vale
para a “individualização” por toda a era moderna — para todos os períodos
e todos os setores da sociedade. No entanto, dentro daquela condição
compartilhada há variações significativas, que distinguem gerações
sucessivas e também as várias categorias de atores que compartilham o
mesmo cenário histórico.
A antiga modernidade “desacomodava” a fim de “reacomodar”.
Enquanto a desacomodação era o destino socialmente sancionado, a
reacomodação era tarefa posta diante dos indivíduos. Uma vez rompidas as
rígidas molduras dos estamentos, a tarefa de “auto-identificação” posta
diante de homens e mulheres do princípio da era moderna se resumia ao
desafio de viver “de acordo” (não ficar atrás dos outros), de conformar-se
ativamente aos emergentes tipos sociais de classe e modelos de conduta, de
imitar, seguir o padrão, “aculturar-se”, não sair da linha nem se desviar da
norma. Os “estamentos” enquanto lugares a que se pertencia por
hereditariedade vieram a ser substituídos pelas “classes” como objetivo de
pertencimento fabricado. Enquanto os estamentos eram uma questão de
atribuição, o pertencimento às classes era em grande medida uma
realização; diferentemente dos estamentos, o pertencimento às classes devia
ser buscado, e continuamente renovado, reconfirmado e testado na conduta
diária.
Retrospectivamente, pode-se dizer que a divisão em classes (ou em
gêneros) foi um resultado secundário do acesso desigual aos recursos necessários para tornar a auto-afirmação eficaz. As classes diferiam na
gama de identidades disponíveis e na facilidade de escolher entre elas e
adotá-las. As pessoas com menos recursos e, portanto, com menos escolha,
tinham que compensar suas fraquezas individuais pela “força do número”
— cerrando fileiras e partindo para a ação coletiva. Como assinalou Claus
Offe, a ação coletiva, orientada pela classe, era tão natural e corriqueira
para os que estavam nos níveis mais baixos da escala social quanto a
perseguição individual de seus objetivos de vida o era para seus patrões.
As privações se somavam, por assim dizer; e, uma vez somadas,
congelavam-se em “interesses comuns” e eram vistas como tratáveis apenas
com um remédio coletivo. O “coletivismo” foi a primeira opção de
estratégia para aqueles situados na ponta receptora da individualização mas
incapazes de se auto-afirmar enquanto indivíduos se limitados a seus
próprios recursos individuais, claramente inadequados. A orientação de
classe dos mais bem-aquinhoados era, por outro lado, parcial e, em certo
sentido, derivativa; assumia o primeiro plano principalmente quando a
distribuição desigual dos recursos era desafiada e contestada. Qualquer que
fosse o caso, porém, os indivíduos da modernidade “clássica”, deixados
“desacomodados” pela decomposição da ordem estamental, dispunham de
seus novos poderes e autonomia na busca frenética da “reacomodação”.
E não faltavam “camas” à espera e prontas para acomodá-los. A classe
— embora formada e negociável, e não herdada, como eram os estamentos
— tendia a prender seus membros tão firme e fortemente quanto o
estamento hereditário pré-moderno. Classe e gênero projetavam-se
pesadamente sobre a gama de escolhas do indivíduo; escapar a esses limites
não era muito mais fácil do que contestar o lugar ocupado na “cadeia divina
do ser” pré-moderna. Para todos os efeitos, a classe e o gênero eram “fatos
da natureza”, e a tarefa reservada à auto-afirmação da maioria dos
indivíduos era “adaptar-se” ao nicho alocado, comportando-se como os
demais ocupantes.
Isso é precisamente o que distingue a “individualização” de outrora da
forma que veio a tomar na Risikogesellschaft, em tempos de “modernidade
reflexiva” ou “segunda modernidade” (nas diferentes formas como Ulrich
Beck se refere à era contemporânea). Não são fornecidos “lugares” para a
“reacomodação”, e os lugares que podem ser postulados e perseguidos
mostram-se frágeis e freqüentemente desaparecem antes que o trabalho de
“reacomodação” seja completado. O que há são “cadeiras musicais” de vários tamanhos e estilos, assim como em números e posições cambiantes,
que fazem com que as pessoas estejam constantemente em movimento, e
não prometem nem a “realização”, nem o descanso, nem a satisfação de
“chegar”, de alcançar o destino final, quando se pode desarmar-se, relaxar e
deixar de se preocupar. Não há perspectiva de “reacomodação” no final do
caminho tomado pelos indivíduos (agora cronicamente) desacomodados.
Não se engane: agora, como antes — tanto no estágio leve e fluido da
modernidade quanto no sólido e pesado —, a individualização é uma
fatalidade, não uma escolha. Na terra da liberdade individual de escolher, a
opção de escapar à individualização e de se recusar a participar do jogo da
individualização está decididamente fora da jogada. A autocontenção e a
auto-suficiência do indivíduo podem ser outra ilusão: que homens e
mulheres não tenham nada a que culpar por suas frustrações e problemas
não precisa agora significar, não mais que no passado, que possam se
proteger contra a frustração utilizando suas próprias estratégias, ou que
escapem de seus problemas puxando-se, como o Barão de Munchausen,
pelas próprias botas. E, no entanto, se ficam doentes, supõe-se que foi
porque não foram suficientemente decididos e industriosos para seguir seus
tratamentos; se ficam desempregados, foi porque não aprenderam a passar
por uma entrevista, ou porque não se esforçaram o suficiente para encontrar
trabalho ou porque são, pura e simplesmente, avessos ao trabalho; se não
estão seguros sobre as perspectivas de carreira e se agoniam sobre o futuro,
é porque não são suficientemente bons em fazer amigos e influenciar
pessoas e deixaram de aprender e dominar, como deveriam, as artes da
auto-expressão e da impressão que causam. Isto é, em todo caso, o que lhes
é dito hoje, e aquilo em que passaram a acreditar, de modo que agora se
comportam como se essa fosse a verdade. Como Beck adequada e
pungentemente diz, “a maneira como se vive torna-se uma solução
biográfica das contradições sistêmicas”.10 Riscos e contradições continuam
a ser socialmente produzidos; são apenas o dever e a necessidade de
enfrentá-los que estão sendo individualizados.
Para resumir: o abismo entre a individualidade como fatalidade e a
individualidade como capacidade realista e prática de autoafirmação está
aumentando. (Melhor ser afastado da “individualidade por atribuição”,
como “individuação”: o termo escolhido por Beck para distinguir o
indivíduo auto-sustentado e auto-impulsionado daquele que não tem
escolha senão a de agir, ainda que contrafactualmente, como se a individualização tivesse sido alcançada). Saltar sobre esse abismo não é —
isso é crucial — parte dessa capacidade.
A capacidade auto-assertiva de homens e mulheres individualizados
deixa a desejar, como regra, em relação ao que a genuína autoconstituição
requereria. Como observou Leo Strauss, o outro lado da liberdade ilimitada
é a insignificância da escolha, cada lado condicionando o outro: por que
cuidar de proibir o que será, de qualquer modo, de pouca conseqüência?
Um observador cínico diria que a liberdade chega quando não faz mais
diferença. Há um desagradável ar de impotência no temperado caldo da
liberdade preparado no caldeirão da individualização; essa impotência é
sentida como ainda mais odiosa, frustrante e perturbadora em vista do
aumento de poder que se esperava que a liberdade trouxesse.
Quem sabe não seria um remédio manter-se, como no passado, ombro a
ombro e marchar unidos? Quem sabe se, caso os poderes individuais, tão
frágeis e impotentes isoladamente, fossem condensados em posições e
ações coletivas, poderíamos realizar em conjunto o que ninguém poderia
realizar sozinho? Quem sabe… O problema é, porém, que essa
convergência e condensação das queixas individuais em interesses
compartilhados, e depois em ação conjunta, é uma tarefa assustadora, dado
que as aflições mais comuns dos “indivíduos por fatalidade” nos dias de
hoje são não-aditivas, não podem ser “somadas” numa “causa comum”.
Podem ser postas lado a lado, mas não se fundirão. Pode-se dizer que desde
o começo são moldadas de tal maneira que lhes faltam interfaces para
combinar-se com os problemas das demais pessoas.
Os problemas podem ser semelhantes (e os cada vez mais populares
programas de entrevistas insistem em demonstrar sua semelhança, enquanto
martelam a mensagem de que sua semelhança mais importante consiste em
que são enfrentados por conta própria pelos que os sofrem), mas não
formam uma “totalidade que é maior que a soma de suas partes” não
adquirem qualquer qualidade nova, nem se tornam mais fáceis de manejar
por serem enfrentados, confrontados e trabalhados em conjunto. A única
vantagem que a companhia de outros sofredores pode trazer é garantir a
cada um deles que enfrentar os problemas solitariamente é o que todos
fazem diariamente — e portanto renovar e encorajar a fatigada decisão de
continuar a fazer o mesmo. Talvez possa-se também aprender da
experiência de outras pessoas a como sobreviver à nova rodada de “redução
de tamanho” (downsizing); como lidar com crianças que pensam que são adolescentes e adolescentes que se recusam a se tornar adultos; como pôr a
gordura e outros “corpos estranhos” indesejáveis “para fora do sistema”
como livrar-se de um vício que não dá mais prazer ou de parceiros que não
são mais satisfatórios. Mas o que aprendemos antes de mais nada da
companhia de outros é que o único auxílio que ela pode prestar é como
sobreviver em nossa solidão irremível, e que a vida de todo mundo é cheia
de riscos que devem ser enfrentados solitariamente.
E assim há também outro obstáculo: como de Tocqueville há muito
suspeitava, libertar as pessoas pode torná-las indiferentes. O indivíduo é o
pior inimigo do cidadão, sugeriu ele. O “cidadão” é uma pessoa que tende a
buscar seu próprio bem-estar através do bem-estar da cidade — enquanto o
indivíduo tende a ser morno, cético ou prudente em relação à “causa
comum”, ao “bem comum”, à “boa sociedade” ou à “sociedade justa”. Qual
é o sentido de “interesses comuns” senão permitir que cada indivíduo
satisfaça seus próprios interesses? O que quer que os indivíduos façam
quando se unem, e por mais benefícios que seu trabalho conjunto possa
trazer, eles o perceberão como limitação à sua liberdade de buscar o que
quer que lhes pareça adequado separadamente, e não ajudarão. As únicas
duas coisas úteis que se espera e se deseja do “poder público” são que ele
observe os “direitos humanos”, isto é, que permita que cada um siga seu
próprio caminho, e que permita que todos o façam “em paz” — protegendo
a segurança de seus corpos e posses, trancando criminosos reais ou
potenciais nas prisões e mantendo as ruas livres de assaltantes, pervertidos,
pedintes e todo tipo de estranhos constrangedores e maus.
Com seu humor habitual e inimitável, Woody Allen aponta as modas e
manias dos “indivíduos por decreto” ao folhear os anúncios de imaginários
cursos de verão do tipo que os norte-americanos adorariam freqüentar. O
curso de teoria econômica inclui o item “Inflação e depressão — como
vestir-se para cada ocasião” o curso de ética envolve “O imperativo
categórico — e seis maneiras de fazê-lo funcionar a seu favor”, enquanto o
prospecto de astronomia informa que “o Sol, que é feito de gás, pode
explodir a qualquer momento, mandando nosso planeta inteiro pelos ares;
os estudantes são instruídos sobre o que o cidadão médio pode fazer em tal
caso”.
Em suma: o outro lado da individualização parece ser a corrosão e a
lenta desintegração da cidadania. Joël Roman, co-editor de Ésprit, assinala
em seu livro recente (La démocratie des individus, 1998) que “a vigilância é degradada à guarda dos bens, enquanto o interesse geral não é mais que um
sindicato de egoísmos, que envolve emoções coletivas e o medo do
vizinho”. Roman concita os leitores a buscarem uma “renovada capacidade
de decidir em conjunto” — hoje notável por sua inexistência.
Se o indivíduo é o pior inimigo do cidadão, e se a individualização
anuncia problemas para a cidadania e para a política fundada na cidadania,
é porque os cuidados e preocupações dos indivíduos enquanto indivíduos
enchem o espaço público até o topo, afirmando-se como seus únicos
ocupantes legítimos e expulsando tudo mais do discurso público. O
“público” é colonizado pelo “privado” o “interesse público” é reduzido à
curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida
pública é reduzida à exposição pública das questões privadas e a confissões
de sentimentos privados (quanto mais íntimos, melhor). As “questões
públicas” que resistem a essa redução tornam-se quase incompreensíveis.
As perspectivas de que os atores individualizados sejam
“reacomodados” no corpo republicano dos cidadãos são nebulosas. O que
os leva a aventurar-se no palco público não é tanto a busca de causas
comuns e de meios de negociar o sentido do bem comum e dos princípios
da vida em comum quanto a necessidade desesperada de “fazer parte da
rede”. Compartilhar intimidades, como Richard Sennett insiste, tende a ser
o método preferido, e talvez o único que resta, de “construção da
comunidade”. Essa técnica de construção só pode criar “comunidades” tão
frágeis e transitórias como emoções esparsas e fugidias, saltando
erraticamente de um objetivo a outro na busca sempre inconclusiva de um
porto seguro: comunidades de temores, ansiedades e ódios compartilhados
— mas em cada caso comunidades “cabide”, reuniões momentâneas em que
muitos indivíduos solitários penduram seus solitários medos individuais.
Como diz Ulrich Beck (no ensaio “Sobre a mortalidade da sociedade
industrial”),
O que emerge no lugar das normas sociais evanescentes é o ego nu,
atemorizado e agressivo à procura de amor e de ajuda. Na procura de si
mesmo e de uma sociabilidade afetuosa, ele facilmente se perde na
selva do eu … Alguém que tateia na bruma de seu próprio eu não é
mais capaz de perceber que esse isolamento, esse “confinamento
solitário do ego”, é uma sentença de massa.11