Modernidade Líquida
As bênçãos mistas da liberdade
ser livres e rejeitassem a perspectiva da libertação pelas dificuldades que o
exercício da liberdade pode acarretar.
As bênçãos mistas da liberdade
Numa versão apócrifa da Odisséia (“Odysseus und die Schweine: das
Unbehagen an der Kultur”), Lion Feuchtwanger propôs que os marinheiros
enfeitiçados por Circe e transformados em porcos gostaram de sua nova
condição e resistiram desesperadamente aos esforços de Ulisses para
quebrar o encanto e trazê-los de volta à forma humana. Quando informados
por Ulisses de que ele tinha encontrado as ervas mágicas capazes de
desfazer a maldição e de que logo seriam humanos novamente, fugiram
numa velocidade que seu zeloso salvador não pôde acompanhar. Ulisses
conseguiu afinal prender um dos suínos; esfregada com a erva maravilhosa,
a pele eriçada deu lugar a Elpenoros — um marinheiro, como insiste
Feuchtwanger, em todos os sentidos mediano e comum, exatamente “como
todos os outros, sem se destacar por sua força ou por sua esperteza”. O
“libertado” Elpenoros não ficou nada grato por sua liberdade, e
furiosamente atacou seu “libertador”:
Então voltaste, ó tratante, ó intrometido? Queres novamente nos
aborrecer e importunar, queres novamente expor nossos corpos ao
perigo e forçar nossos corações sempre a novas decisões? Eu estava tão
feliz, eu podia chafurdar na lama e aquecer-me ao sol, eu podia comer e
beber, grunhir e guinchar, e estava livre de meditações e dúvidas: “O
que devo fazer, isto ou aquilo?” Por que vieste? Para jogar-me outra
vez na vida odiosa que eu levava antes?
A libertação é uma bênção ou uma maldição? Uma maldição disfarçada
de bênção, ou uma bênção temida como maldição? Tais questões
assombraram os pensadores durante a maior parte da era moderna, que
punha a “libertação” no topo da agenda da reforma política e a “liberdade”
no alto da lista de valores — quando ficou suficientemente claro que a
liberdade custava a chegar e os que deveriam dela gozar relutavam em dar-
lhe as boas-vindas. Houve dois tipos de resposta. A primeira lançava dúvidas sobre a prontidão do “povo comum” para a liberdade. Como o
escritor norte-americano Herbert Sebastian Agar dizia (em A Time for
Greatness, 1942), “a verdade que torna os homens livres é, na maioria dos
casos, a verdade que os homens preferem não ouvir”. A segunda inclinava-
se a aceitar que os homens podem não estar inteiramente equivocados
quando questionam os benefícios que as liberdades oferecidas podem lhes
trazer.
Respostas do primeiro tipo inspiram, intermitentemente, compaixão
pelo “povo” desorientado, enganado e levado a desistir de sua chance de
liberdade, ou desprezo e ultraje contra a “massa” que não quer assumir os
riscos e responsabilidades que acompanham a autonomia e a auto-afirmação
genuínas. O protesto de Marcuse envolve uma mistura das duas, além de
uma tentativa de deixar na soleira da nova prosperidade a culpa pela
reconciliação evidente dos não-livres com sua falta de liberdade. Outros
discursos freqüentes para protestos semelhantes foram os do
“aburguesamento” dos despossuídos (a substituição de “ser” por “ter”, e a
de “agir” por “ser” como os valores mais altos) e da “cultura de massas”
(uma lesão cerebral coletiva causada pela “indústria cultural”, plantando
uma sede de entretenimento e diversão no lugar que — como diria Mathew
Arnold — deveria ser ocupado pela “paixão pela doçura e pela luz e pela
paixão de fazer com que estas triunfem”).
Respostas da segunda espécie sugerem que o tipo de liberdade louvada
pelos libertários não é, ao contrário do que eles dizem, uma garantia de
felicidade. Vai trazer mais tristeza que alegria. Segundo este ponto de vista,
os libertários estão errados quando afirmam — como o faz, por exemplo,
David Conway,2 seguindo o princípio de Henry Sidgwick — que a
felicidade geral é promovida mais eficazmente se mantivermos nos adultos
“a expectativa de que cada um será deixado com seus próprios recursos
para prover suas próprias necessidades” ou Charles Murray,3 que beira o
lírico ao descrever a felicidade intrínseca à busca solitária: “O que faz um
acontecimento causar satisfação é que você o produziu … com
responsabilidade substancial sobre seus ombros, sendo uma parte
substancial do bem alcançado uma contribuição sua.” “Ser abandonado a
seus próprios recursos” anuncia tormentos mentais e a agonia da indecisão,
enquanto a “responsabilidade sobre os próprios ombros” prenuncia um
medo paralisante do risco e do fracasso, sem direito a apelação ou
desistência. Esse não pode ser o significado real da “liberdade” e se a liberdade “realmente existente”, a liberdade oferecida, significar tudo isso,
ela não pode ser nem a garantia da felicidade, nem um objetivo digno de
luta.
Respostas do segundo tipo nascem em última análise do horror visceral
hobbesiano ao “homem à solta”. Derivam sua credibilidade da suposição de
que um ser humano dispensado das limitações sociais coercitivas (ou nunca
submetido a elas) é uma besta e não um indivíduo livre; e o horror que ele
gera vem de outra suposição: a de que a falta de limites eficazes faz a vida
“detestável, brutal e curta” — e, assim, qualquer coisa, menos feliz. A
mesma visão hobbesiana foi desenvolvida por Émile Durkheim numa
filosofia social compreensiva, de acordo com a qual é a “norma”, medida
pela média ou pelo mais comum, e apoiada em duras sanções punitivas, que
verdadeiramente liberta os pseudo-humanos da mais horrenda e temível das
escravidões; o tipo de escravidão que não se esconde em nenhuma pressão
externa, mas dentro, na natureza pré-social ou associal do homem. A
coerção social é, nessa filosofia, a força emancipadora, e a única esperança
de liberdade a que um humano pode razoavelmente aspirar.
O indivíduo se submete à sociedade e essa submissão é a condição de
sua libertação. Para o homem a liberdade consiste em não estar sujeito
às forças físicas cegas; ele chega a isso opondo-lhes a grande e
inteligente força da sociedade, sob cuja proteção se abriga. Ao colocar-
se sob as asas da sociedade, ele se torna, até certo ponto, dependente
dela. Mas é uma dependência libertadora; não há nisso contradição.4
Não só não há contradição entre dependência e libertação: não há outro
caminho para buscar a libertação senão “submeter-se à sociedade” e seguir
suas normas. A liberdade não pode ser ganha contra a sociedade. O
resultado da rebelião contra as normas, mesmo que os rebelados não
tenham se tornado bestas de uma vez por todas, e, portanto, perdido a
capacidade de julgar sua própria condição, é uma agonia perpétua de
indecisão ligada a um Estado de incerteza sobre as intenções e movimentos
dos outros ao redor — o que faz da vida um inferno. Padrões e rotinas
impostos por pressões sociais condensadas poupam essa agonia aos
homens; graças à monotonia e à regularidade de modos de conduta
recomendados, para os quais foram treinados e a que podem ser obrigados,
os homens sabem como proceder na maior parte do tempo e raramente se encontram em situações sem sinalização, aquelas situações em que as
decisões devem ser tomadas com a própria responsabilidade e sem o
conhecimento tranqüilizante de suas conseqüências, fazendo com que cada
movimento seja impregnado de riscos difíceis de calcular. A ausência, ou a
mera falta de clareza, das normas — anomia — é o pior que pode acontecer
às pessoas em sua luta para dar conta dos afazeres da vida. As normas
capacitam tanto quanto incapacitam; a anomia anuncia a pura e simples
incapacitação. Uma vez que as tropas da regulamentação normativa
abandonam o campo de batalha da vida, sobram apenas a dúvida e o medo.
Quando (como notavelmente formulado por Erich Fromm) “cada indivíduo
deve ir em frente e tentar sua sorte”, quando “ele tem que nadar ou afundar”
— “a busca compulsiva da certeza” se instala, começa a desesperada busca
por “soluções” capazes de “eliminar a consciência da dúvida” — o que quer
que prometa “assumir a responsabilidade pela ‘certeza’” é bem-vindo.5
“A rotina pode apequenar, mas ela também pode proteger” é o que diz
Richard Sennett, para então lembrar seus leitores da velha controvérsia
entre Adam Smith e Dennis Diderot. Enquanto Smith advertia contra os
efeitos degradantes e estupidificantes da rotina de trabalho, “Diderot não
acreditava que o trabalho rotineiro é degradante … O maior herdeiro
moderno de Diderot, o sociólogo Anthony Giddens, tentou manter viva a
percepção diderotia na, apontando para o valor primário do hábito tanto
para as práticas sociais quanto para a autocompreensão”. A proposição do
próprio Sennett é direta: “Imaginar uma vida de impulsos momentâneos, de
ações de curto prazo, destituída de rotinas sustentáveis, uma vida sem
hábitos, é imaginar, de fato, uma existência sem sentido.”6
A vida ainda não atingiu os extremos que a fariam sem sentido, mas
muito dano foi causado, e todas as futuras ferramentas da certeza, inclusive
as novíssimas rotinas (que provavelmente não durarão o suficiente para se
tornarem hábitos) não poderão ser mais que muletas, artifícios do engenho
humano que só parecem a coisa em si se nos abstivermos de examiná-las
muito de perto. Toda certeza alcançada depois do “pecado original” de
desmantelar o mundo cotidiano cheio de rotina e vazio de reflexão terá que
ser uma certeza manufaturada, uma certeza escancarada e
desavergonhadamente “fabricada”, sobrecarregada com toda a
vulnerabilidade inata das decisões tomadas por humanos. De fato, como
insistem Deleuze e Guattari,
não acreditamos mais no mito da existência de fragmentos que, como
peças de uma antiga estátua, estão meramente esperando que apareça o
último caco para que todas possam ser coladas novamente para criar
uma unidade que é precisamente a mesma que a unidade original. Não
mais acreditamos numa totalidade primordial que existiu uma vez, nem
numa totalidade final que espera por nós numa data futura.7
O que foi separado não pode ser colado novamente. Abandonai toda
esperança de totalidade, tanto futura como passada, vós que entrais no
mundo da modernidade fluida. Chegou o tempo de anunciar, como o fez
recentemente Alain Touraine, “o fim da definição do ser humano como um
ser social, definido por seu lugar na sociedade, que determina seu
comportamento e ações”. Em seu lugar, o princípio da combinação da
“definição estratégica da ação social que não é orientada por normas
sociais” e “a defesa, por todos os atores sociais, de sua especificidade
cultural e psicológica” “pode ser encontrado dentro do indivíduo, e não
mais em instituições sociais ou em princípios universais”.8
A suposição tácita que apóia uma tomada de posição tão radical é que a
liberdade concebível e possível de alcançar já foi atingida; nada resta a
fazer senão limpar os poucos cantos restantes e preencher os poucos lugares
vazios — trabalho que será completado em pouco tempo. Os homens e as
mulheres são inteira e verdadeiramente livres, e assim a agenda da
libertação está praticamente esgotada. O protesto de Marcuse e a nostalgia
comunitária da comunidade perdida podem ser manifestações de valores
mutuamente opostos, mas são igualmente anacrônicos. Nem o reenraizar
dos desenraizados, nem o “despertar do povo” para a tarefa não-realizada
da libertação estão nas cartas. A perplexidade de Marcuse está ultrapassada,
pois “o indivíduo” já ganhou toda a liberdade com que poderia sonhar e que
seria razoável esperar; as instituições sociais estão mais que dispostas a
deixar à iniciativa individual o cuidado com as definições e identidades, e
os princípios universais contra os quais se rebelar estão em falta. Quanto ao
sonho comunitário de “reacomodar os desacomodados”, nada pode mudar o
fato de que o que está disponível para a reacomodação são somente camas
de motel, sacos de dormir e divãs de analistas, e que de agora em diante as
comunidades — mais postuladas que “imaginadas” — podem ser apenas
artefatos efêmeros da peça da individualidade em curso, e não mais as
forças determinantes e definidoras das identidades.