Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 15 de 42

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Modernidade Líquida

Comprar como ritual de exorcismo

probabilidade exata.16

 

Comprar como ritual de exorcismo

 

Pode-se conjecturar que os temores que assolam o “dono do corpo”

obcecado com níveis inalcançáveis de aptidão e com uma saúde cada vez

menos definida e cada vez mais à imagem da aptidão provocariam cautela e

circunspecção, moderação e austeridade — atitudes que destoam da lógica

da sociedade de consumidores, para a qual podem ser desastrosas. Mas essa

conclusão seria errônea. Exercitar os demônios interiores requer uma

atitude positiva e muita ação — e não a retirada e o silêncio. Como quase

toda ação numa sociedade de consumidores, esta custa caro; requer diversos

mecanismos e ferramentas especiais que só o mercado de consumo pode

fornecer. A atitude “meu corpo é uma fortaleza sitiada” não leva ao

ascetismo, à abstinência ou à renúncia; significa consumir mais — porém

consumir alimentos especiais, “saudáveis”, comprados no comércio. Antes

de ser retirada do mercado por seus efeitos prejudiciais, a droga mais

popular entre as pessoas preocupadas com controle de peso era o Xenilin,

anunciada pelo slogan “coma mais e pese menos”. Segundo os cálculos de

Barry Glassner, em um ano — 1987 — os norte-americanos preocupados

com o corpo gastaram 74 bilhões de dólares em alimentos dietéticos, cinco

bilhões em academias, 2,7 bilhões em vitaminas e 738 milhões em

equipamentos de exercícios.17

Há, em suma, razões mais que suficientes para “ir às compras”.

Qualquer explicação da obsessão de comprar que se reduza a uma causa

única está arriscada a ser um erro. As interpretações comuns do comprar

compulsivo como manifestação da revolução pós-moderna dos valores, a

tendência a representar o vício das compras como manifestação aberta de

instintos materialistas e hedonistas adormecidos, ou como produto de uma

“conspiração comercial” que é uma incitação artificial (e cheia de arte) à

busca do prazer como propósito máximo da vida, capturam na melhor das

hipóteses apenas parte da verdade. Outra parte, e necessário complemento

de todas essas explicações, é que a compulsão-transformadaem-vício de

comprar é uma luta morro acima contra a incerteza aguda e enervante e

contra um sentimento de insegurança incômodo e estupidificante.