Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 39 de 42

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Modernidade Líquida

Cloakroom communities

Em sua reprovação das práticas territoriais, as elites nômades podem

contar com o apoio popular. O ultraje experimentado à vista das massivas

expulsões chamadas de “limpeza étnica” ganha vigor adicional pelo fato de

que elas parecem estranhamente uma versão ampliada das tendências

manifestadas diariamente, ainda que em menor escala, perto de casa — em

todos os espaços urbanos das terras que fazem a cruzada civilizadora.

Lutando contra os “faxineiros étnicos”, exorcizamos nossos “demônios”,

que nos estimulam a pôr em guetos os indesejáveis “estrangeiros”, a

aplaudir o estreitamento do direito de asilo, a demandar a remoção dos

constrangedores estrangeiros das ruas da cidade e a pagar qualquer preço

pelos abrigos cercados de câmeras de vigilância e guardas armados. Na

guerra iugoslava o que estava em jogo para os dois lados era notavelmente

semelhante, embora o que era o objetivo declarado de um dos lados fosse

um segredo ansiosamente guardado pelo outro. Os sérvios queriam expulsar

de seu território uma minoria albanesa recalcitrante e embaraçosa, enquanto

os países da OTAN, por assim dizer, “respondiam à altura”: sua campanha

militar foi deslanchada pelo desejo dos outros europeus de manterem os

albaneses na Sérvia, matando assim no ninho a ameaça de sua reencarnação

como migrantes constrangedores e indesejados.

 

Cloakroom communities a

 

A ligação entre a comunidade explosiva em sua encarnação moderna

especificamente líquida e a territorialidade não é porém necessária, nem,

certamente, universal. A maioria das comunidades explosivas

contemporâneas são feitas sob medida para os tempos líquidos modernos

mesmo que sua disseminação possa ser projetada territorialmente; elas são

extraterritoriais (e tendem a obter sucesso mais espetacular quanto mais

livres forem das limitações territoriais) — precisamente como as

identidades que invocam e mantêm precariamente vivas no breve intervalo

entre a explosão e a extinção. Sua natureza “explosiva” combina bem com

as identidades da era moderna líquida: de modo semelhante a tais

identidades, as comunidades em questão tendem a ser voláteis, transitórias e

voltadas ao “aspecto único” ou “propósito único”. Sua duração é curta,

embora cheia de som e fúria. Extraem poder não de sua possível duração

mas, paradoxalmente, de sua precariedade e de seu futuro incerto, da vigilância e investimento emocional que sua frágil existência demanda a

gritos.

O termo “cloakroom community” capta bem alguns de seus traços

característicos. Os freqüentadores de um espetáculo se vestem para a

ocasião, obedecendo a um código distinto do que seguem diariamente — o

ato que simultaneamente separa a visita como uma “ocasião especial” e faz

com que os freqüentadores pareçam, enquanto durar o evento, mais

uniformes do que na vida fora do teatro. É a apresentação noturna que leva

todos ao lugar — por diferentes que sejam seus interesses e passatempos

durante o dia. Antes de entrar no auditório, deixam os sobretudos ou capas

que vestiram nas ruas no cloakroom da casa de espetáculos (contando o

número de cabides usados pode-se julgar quão cheia está a casa e quão

garantido está o futuro imediato da produção). Durante a apresentação,

todos os olhos estão no palco; e também a atenção de todos. Alegria e

tristeza, risos e silêncios, ondas de aplauso, gritos de aprovação e

exclamações de surpresa são sincronizados — como se cuidadosamente

planejados e dirigidos. Depois que as cortinas se fecham, porém, os

espectadores recolhem seus pertences do cloakroom e, ao vestirem suas

roupas de rua outra vez, retornam a seus papéis mundanos, ordinários e

diferentes, dissolvendo-se poucos momentos depois na variada multidão

que enche as ruas da cidade e da qual haviam emergido algumas horas

antes.

Cloakroom communities precisam de um espetáculo que apele a

interesses semelhantes em indivíduos diferentes e que os reúna durante um

certo tempo em que outros interesses — que os separam em vez de uni-los

— são temporariamente postos de lado, deixados em fogo brando ou

inteiramente silenciados. Os espetáculos enquanto ocasiões para a breve

existência de cloakroom communities não fundem e misturam cuidados

individuais em “interesses de grupo” adicionadas, as preocupações em

questão não adquirem uma nova qualidade, e a ilusão de compartilhar que o

espetáculo pode gerar não dura muito mais que a excitação da performance.

Os espetáculos passaram a substituir a “causa comum” da era da

modernidade sólida, do hardware — o que faz diferença para a natureza das

identidades ao novo estilo e leva a dar sentido às tensões emocionais e

traumas geradores de agressividade que de tempos em tempos as

acompanham.

“Comunidades de carnaval” parece ser outro nome adequado para as

comunidades em discussão. Tais comunidades, afinal, dão um alívio

temporário às agonias de solitárias lutas cotidianas, à cansativa condição de

indivíduos de jure persuadidos ou forçados a puxar a si mesmos pelos

próprios cabelos. Comunidades explosivas são eventos que quebram a

monotonia da solidão cotidiana, e como todos os eventos de carnaval

liberam a pressão e permitem que os foliões suportem melhor a rotina a que

devem retornar no momento em que a brincadeira terminar. E, como a

filosofia, nas melancólicas meditações de Wittgenstein, “deixam tudo como

estava” (sem contar os feridos e as cicatrizes morais dos que escaparam ao

destino de “baixas marginais”).

“Cloakroom” ou “de carnaval”, as comunidades explosivas são uma

característica tão indispensável da paisagem da modernidade líquida quanto

o pleito essencialmente solitário dos indivíduos de jure em seus ardentes

(embora vãos) esforços de elevar-se a indivíduos de facto. Os espetáculos e

cabides no cloakroom e as folias carnavalescas que atraem multidões são

muitos e variados, para todos os tipos de gostos. O admirável mundo novo

de Huxley tomou emprestado ao 1984 de Orwell o estratagema dos “cinco

minutos de ódio (coletivizado)”, complementando-o esperta e

engenhosamente com o expediente dos “cinco minutos de adoração

(coletivizada)”. A cada dia, as manchetes de primeira página da imprensa e

dos cinco primeiros minutos da TV acenam com novas bandeiras sob as

quais reunir-se e marchar ombro (virtual) a ombro (virtual). Oferecem um

“objetivo comum” (virtual) em torno do qual comunidades virtuais podem

se entrelaçar, alternadamente atraídas e repelidas pelas sensações

sincronizadas de pânico (às vezes moral, mas geralmente imoral ou amoral)

e êxtase.

Um efeito das cloakroom communities/comunidades de carnaval é que

elas eficazmente impedem a condensação de comunidades “genuínas” (isto

é, compreensivas e duradouras), que imitam e prometem replicar ou fazer

surgir do nada. Espalham em vez de condensar a energia dos impulsos de

sociabilidade, e assim contribuem para a perpetuação da solidão que busca

desesperadamente redenção nas raras e intermitentes realizações coletivas

orquestradas e harmoniosas.

Longe de ser uma cura para o sofrimento nascido do abismo não-

transposto e aparentemente intransponível entre o destino do indivíduo de jure e o do indivíduo de facto, são os sintomas e às vezes fatores causais da

desordem social específica da condição de modernidade líquida.

 

a Literalmente, “comunidades de guarda-casacos”, em alusão aos locais onde, em museus e teatros, deixam-se capas e casacos, que são retirados à saída. (N.T.)

 

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