Modernidade Líquida
Cloakroom communities
Em sua reprovação das práticas territoriais, as elites nômades podem
contar com o apoio popular. O ultraje experimentado à vista das massivas
expulsões chamadas de “limpeza étnica” ganha vigor adicional pelo fato de
que elas parecem estranhamente uma versão ampliada das tendências
manifestadas diariamente, ainda que em menor escala, perto de casa — em
todos os espaços urbanos das terras que fazem a cruzada civilizadora.
Lutando contra os “faxineiros étnicos”, exorcizamos nossos “demônios”,
que nos estimulam a pôr em guetos os indesejáveis “estrangeiros”, a
aplaudir o estreitamento do direito de asilo, a demandar a remoção dos
constrangedores estrangeiros das ruas da cidade e a pagar qualquer preço
pelos abrigos cercados de câmeras de vigilância e guardas armados. Na
guerra iugoslava o que estava em jogo para os dois lados era notavelmente
semelhante, embora o que era o objetivo declarado de um dos lados fosse
um segredo ansiosamente guardado pelo outro. Os sérvios queriam expulsar
de seu território uma minoria albanesa recalcitrante e embaraçosa, enquanto
os países da OTAN, por assim dizer, “respondiam à altura”: sua campanha
militar foi deslanchada pelo desejo dos outros europeus de manterem os
albaneses na Sérvia, matando assim no ninho a ameaça de sua reencarnação
como migrantes constrangedores e indesejados.
Cloakroom communities a
A ligação entre a comunidade explosiva em sua encarnação moderna
especificamente líquida e a territorialidade não é porém necessária, nem,
certamente, universal. A maioria das comunidades explosivas
contemporâneas são feitas sob medida para os tempos líquidos modernos
mesmo que sua disseminação possa ser projetada territorialmente; elas são
extraterritoriais (e tendem a obter sucesso mais espetacular quanto mais
livres forem das limitações territoriais) — precisamente como as
identidades que invocam e mantêm precariamente vivas no breve intervalo
entre a explosão e a extinção. Sua natureza “explosiva” combina bem com
as identidades da era moderna líquida: de modo semelhante a tais
identidades, as comunidades em questão tendem a ser voláteis, transitórias e
voltadas ao “aspecto único” ou “propósito único”. Sua duração é curta,
embora cheia de som e fúria. Extraem poder não de sua possível duração
mas, paradoxalmente, de sua precariedade e de seu futuro incerto, da vigilância e investimento emocional que sua frágil existência demanda a
gritos.
O termo “cloakroom community” capta bem alguns de seus traços
característicos. Os freqüentadores de um espetáculo se vestem para a
ocasião, obedecendo a um código distinto do que seguem diariamente — o
ato que simultaneamente separa a visita como uma “ocasião especial” e faz
com que os freqüentadores pareçam, enquanto durar o evento, mais
uniformes do que na vida fora do teatro. É a apresentação noturna que leva
todos ao lugar — por diferentes que sejam seus interesses e passatempos
durante o dia. Antes de entrar no auditório, deixam os sobretudos ou capas
que vestiram nas ruas no cloakroom da casa de espetáculos (contando o
número de cabides usados pode-se julgar quão cheia está a casa e quão
garantido está o futuro imediato da produção). Durante a apresentação,
todos os olhos estão no palco; e também a atenção de todos. Alegria e
tristeza, risos e silêncios, ondas de aplauso, gritos de aprovação e
exclamações de surpresa são sincronizados — como se cuidadosamente
planejados e dirigidos. Depois que as cortinas se fecham, porém, os
espectadores recolhem seus pertences do cloakroom e, ao vestirem suas
roupas de rua outra vez, retornam a seus papéis mundanos, ordinários e
diferentes, dissolvendo-se poucos momentos depois na variada multidão
que enche as ruas da cidade e da qual haviam emergido algumas horas
antes.
Cloakroom communities precisam de um espetáculo que apele a
interesses semelhantes em indivíduos diferentes e que os reúna durante um
certo tempo em que outros interesses — que os separam em vez de uni-los
— são temporariamente postos de lado, deixados em fogo brando ou
inteiramente silenciados. Os espetáculos enquanto ocasiões para a breve
existência de cloakroom communities não fundem e misturam cuidados
individuais em “interesses de grupo” adicionadas, as preocupações em
questão não adquirem uma nova qualidade, e a ilusão de compartilhar que o
espetáculo pode gerar não dura muito mais que a excitação da performance.
Os espetáculos passaram a substituir a “causa comum” da era da
modernidade sólida, do hardware — o que faz diferença para a natureza das
identidades ao novo estilo e leva a dar sentido às tensões emocionais e
traumas geradores de agressividade que de tempos em tempos as
acompanham.
“Comunidades de carnaval” parece ser outro nome adequado para as
comunidades em discussão. Tais comunidades, afinal, dão um alívio
temporário às agonias de solitárias lutas cotidianas, à cansativa condição de
indivíduos de jure persuadidos ou forçados a puxar a si mesmos pelos
próprios cabelos. Comunidades explosivas são eventos que quebram a
monotonia da solidão cotidiana, e como todos os eventos de carnaval
liberam a pressão e permitem que os foliões suportem melhor a rotina a que
devem retornar no momento em que a brincadeira terminar. E, como a
filosofia, nas melancólicas meditações de Wittgenstein, “deixam tudo como
estava” (sem contar os feridos e as cicatrizes morais dos que escaparam ao
destino de “baixas marginais”).
“Cloakroom” ou “de carnaval”, as comunidades explosivas são uma
característica tão indispensável da paisagem da modernidade líquida quanto
o pleito essencialmente solitário dos indivíduos de jure em seus ardentes
(embora vãos) esforços de elevar-se a indivíduos de facto. Os espetáculos e
cabides no cloakroom e as folias carnavalescas que atraem multidões são
muitos e variados, para todos os tipos de gostos. O admirável mundo novo
de Huxley tomou emprestado ao 1984 de Orwell o estratagema dos “cinco
minutos de ódio (coletivizado)”, complementando-o esperta e
engenhosamente com o expediente dos “cinco minutos de adoração
(coletivizada)”. A cada dia, as manchetes de primeira página da imprensa e
dos cinco primeiros minutos da TV acenam com novas bandeiras sob as
quais reunir-se e marchar ombro (virtual) a ombro (virtual). Oferecem um
“objetivo comum” (virtual) em torno do qual comunidades virtuais podem
se entrelaçar, alternadamente atraídas e repelidas pelas sensações
sincronizadas de pânico (às vezes moral, mas geralmente imoral ou amoral)
e êxtase.
Um efeito das cloakroom communities/comunidades de carnaval é que
elas eficazmente impedem a condensação de comunidades “genuínas” (isto
é, compreensivas e duradouras), que imitam e prometem replicar ou fazer
surgir do nada. Espalham em vez de condensar a energia dos impulsos de
sociabilidade, e assim contribuem para a perpetuação da solidão que busca
desesperadamente redenção nas raras e intermitentes realizações coletivas
orquestradas e harmoniosas.
Longe de ser uma cura para o sofrimento nascido do abismo não-
transposto e aparentemente intransponível entre o destino do indivíduo de jure e o do indivíduo de facto, são os sintomas e às vezes fatores causais da
desordem social específica da condição de modernidade líquida.
a Literalmente, “comunidades de guarda-casacos”, em alusão aos locais onde, em museus e teatros, deixam-se capas e casacos, que são retirados à saída. (N.T.)
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