Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 19 de 42

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Modernidade Líquida

Quando estranhos se encontram

institucionalização dos medos urbanos”.

 

Os eleitores e as elites — uma ampla classe média nos Estados Unidos

— poderiam ter enfrentado a escolha de apoiar a política

governamental para eliminar a pobreza, administrar a competição

étnica e integrar a todos em instituições públicas comuns. Escolheram,

em vez disso, comprar proteção, estimulando o crescimento da

indústria da segurança privada.

 

O perigo mais tangível para o que chama de “cultura pública” está, para

Zukin, na “política do medo cotidiano”. O espectro arrepiante e apavorante

das “ruas inseguras” mantém as pessoas longe dos espaços públicos e as

afasta da busca da arte e das habilidades necessárias para compartilhar a

vida pública.

 

“Endurecer” contra o crime construindo mais prisões e impondo a pena

de morte são as respostas mais corriqueiras à política do medo.

“Prendam toda a população”, ouvi um homem dizer no ônibus,

reduzindo a solução a seu ridículo extremo. Outra resposta é a

privatização e militarização do espaço público — fazendo das ruas,

parques e mesmo lojas lugares mais seguros, mas menos livres…3

 

A comunidade definida por suas fronteiras vigiadas de perto e não mais

por seu conteúdo; a “defesa da comunidade” traduzida como o emprego de

guardiões armados para controlar a entrada; assaltante e vagabundo

promovidos à posição de inimigo número um; compartimentação das áreas

públicas em enclaves “defensáveis” com acesso seletivo; separação no lugar

da vida em comum — essas são as principais dimensões da evolução

corrente da vida urbana.

 

Quando estranhos se encontram

 

Na clássica definição de Richard Sennett, uma cidade é “um assentamento

humano em que estranhos têm chance de se encontrar”.4 Isso significa que

estranhos têm chance de se encontrar em sua condição de estranhos, saindo como estranhos do encontro casual que termina de maneira tão abrupta

quanto começou. Os estranhos se encontram numa maneira adequada a

estranhos; um encontro de estranhos é diferente de encontros de parentes,

amigos ou conhecidos — parece, por comparação, um “desencontro”. No

encontro de estranhos não há uma retomada a partir do ponto em que o

último encontro acabou, nem troca de informações sobre as tentativas,

atribulações ou alegrias desse intervalo, nem lembranças compartilhadas:

nada em que se apoiar ou que sirva de guia para o presente encontro. O

encontro de estranhos é um evento sem passado. Freqüentemente é também

um evento sem futuro (o esperado é não tenha futuro), uma história para

“não ser continuada”, uma oportunidade única a ser consumada enquanto

dure e no ato, sem adiamento e sem deixar questões inacabadas para outra

ocasião. Como a aranha cujo mundo inteiro está enfeixado na teia que ela

tece a partir de seu próprio abdome, o único apoio com que estranhos que se

encontram podem contar deverá ser tecido do fio fino e solto de sua

aparência, palavras e gestos. No momento do encontro não há espaço para

tentativa e erro, nem aprendizado a partir dos erros ou expectativa de outra

oportunidade.

O que se segue é que a vida urbana requer um tipo de atividade muito

especial e sofisticada, de fato um grupo de habilidades que Senett listou sob

a rubrica “civilidade”, isto é

 

a atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo,

contudo, que possam estar juntas. Usar uma máscara é a essência da

civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, distante das

circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das

pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros

de serem sobrecarregados com nosso peso.5

 

Segue-se esse objetivo, é claro, esperando reciprocidade. Proteger os

outros contra a indevida sobrecarga refreando-se de interagir com eles só

faz sentido se se espera generosidade semelhante dos outros. A civilidade,

como a linguagem, não pode ser “privada”. Antes de se tornar a arte

individualmente aprendida e privadamente praticada, a civilidade deve ser

uma característica da situação social. É o entorno urbano que deve ser

“civil”, a fim de que seus habitantes possam aprender as difíceis habilidades

da civilidade.

O que significa, então, dizer que o meio urbano é “civil” e, assim,

propício à prática individual da civilidade? Significa, antes e acima de tudo,

a disponibilidade de espaços que as pessoas possam compartilhar como

personae públicas — sem serem instigadas, pressionadas ou induzidas a

tirar as máscaras e “deixar-se ir”, “expressar-se”, confessar seus

sentimentos íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias. Mas

também significa uma cidade que se apresenta a seus residentes como um

bem comum que não pode ser reduzido ao agregado de propósitos

individuais e como uma tarefa compartilhada que não pode ser exaurida por

um grande número de iniciativas individuais, como uma forma de vida com

um vocabulário e lógica próprios e com sua própria agenda, que é (e está

fadada a continuar sendo) maior e mais rica que a mais completa lista de

cuidados e desejos individuais — de tal forma que “vestir uma máscara

pública” é um ato de engajamento e participação, e não um ato de

descompromisso e de retirada do “verdadeiro eu”, deixando de lado o

intercurso e o envolvimento público, manifestando o desejo de ser deixado

só e continuar só.

Há muitos lugares nas cidades contemporâneas a que cabe o nome de

“espaços públicos”. São de muitos tipos e tamanhos, mas a maioria deles

faz parte de uma de duas grandes categorias. Cada categoria se afasta do

modelo ideal do espaço civil em duas direções opostas mas

complementares.

A praça La Défense, em Paris, um enorme quadrilátero na margem

direita do Sena, concebida, comissionada e construída por François

Mitterrand (como monumento duradouro de sua presidência, em que o

esplendor e grandeza do cargo foram cuidadosamente separados das

fraquezas e falhas pessoais de seu ocupante), incorpora todos os traços da

primeira das duas categorias do espaço público urbano, que não é, no

entanto — enfaticamente não é —, “civil”. O que chama a atenção do

visitante de La Défense é antes e acima de tudo falta de hospitalidade da

praça: tudo o que se vê inspira respeito e ao mesmo tempo desencoraja a

permanência. Os edifícios fantásticos que circundam a praça enorme e vazia

são para serem admirados, e não visitados; cobertos de cima a baixo de

vidro refletivo, parecem não ter janelas ou portas que se abram na direção

da praça; engenhosamente dão as costas à praça diante da qual se erguem.

São imponentes e inacessíveis aos olhos — imponentes porque inacessíveis,

estas duas qualidades que se complementam e reforçam mutuamente. Essas fortalezas/conventos hermeticamente fechadas estão na praça, mas não

fazem parte dela — e induzem quem quer que esteja perdido na vastidão do

espaço a seguir seu exemplo e sentimento. Nada alivia ou interrompe o

uniforme e monótono vazio da praça. Não há bancos para descansar, nem

árvores sob cuja sombra esconder-se do sol escaldante. (Há, é certo, um

grupo de bancos geometricamente dispostos no lado mais afastado da praça;

eles se situam numa plataforma um metro acima do chão da praça — uma

plataforma como um palco, o que faria do ato de sentar-se e descansar um

espetáculo para todos os outros passantes que, diferentemente dos sentados,

têm o que fazer ali). De tempos em tempos, com a regularidade dos horários

do metrô, esses outros — filas de pedestres, como formigas apressadas —

emergem de debaixo da terra, estiram-se sobre o pavimento de pedras que

separa a saída do metrô de um dos brilhantes monstros que cercam (sitiam)

a praça e desaparecem rapidamente da vista. E a praça fica novamente vazia

— até a chegada do próximo trem.

A segunda categoria de espaço público mas não civil se destina a servir

aos consumidores, ou melhor, a transformar o habitante da cidade em

consumidor. Nas palavras de Liisa Uusitalo, “os consumidores

freqüentemente compartilham espaços físicos de consumo, como salas de

concertos ou exibições, pontos turísticos, áreas de esportes, shopping

centers e cafés, sem ter qualquer interação social real”.6 Esses lugares

encorajam a ação e não a interação. Compartilhar o espaço físico com

outros atores que realizam atividade similar dá importância à ação, carimba-

a com a “aprovação do número” e assim corrobora seu sentido e a justifica

sem necessidade de mais razões. Qualquer interação dos atores os afastaria

das ações em que estão individualmente envolvidos e constituiria prejuízo,

e não vantagem, para eles. Não acrescentaria nada aos prazeres de comprar

e desviaria corpo e mente da tarefa.

A tarefa é o consumo, e o consumo é um passatempo absoluta e

exclusivamente individual, uma série de sensações que só podem ser

experimentadas — vividas — subjetivamente. As multidões que enchem os

interiores dos “templos do consumo” de George Ritzer são ajuntamentos,

não congregações; conjuntos, não esquadrões; agregados, não totalidades.

Por mais cheios que possam estar, os lugares de consumo coletivo não têm

nada de “coletivo”. Para utilizar a memorável expressão de Althusser, quem

quer que entre em tais espaços é “interpelado” enquanto indivíduo,

chamado a suspender ou romper os laços e descartar as lealdades.