Modernidade Líquida
Quando estranhos se encontram
institucionalização dos medos urbanos”.
Os eleitores e as elites — uma ampla classe média nos Estados Unidos
— poderiam ter enfrentado a escolha de apoiar a política
governamental para eliminar a pobreza, administrar a competição
étnica e integrar a todos em instituições públicas comuns. Escolheram,
em vez disso, comprar proteção, estimulando o crescimento da
indústria da segurança privada.
O perigo mais tangível para o que chama de “cultura pública” está, para
Zukin, na “política do medo cotidiano”. O espectro arrepiante e apavorante
das “ruas inseguras” mantém as pessoas longe dos espaços públicos e as
afasta da busca da arte e das habilidades necessárias para compartilhar a
vida pública.
“Endurecer” contra o crime construindo mais prisões e impondo a pena
de morte são as respostas mais corriqueiras à política do medo.
“Prendam toda a população”, ouvi um homem dizer no ônibus,
reduzindo a solução a seu ridículo extremo. Outra resposta é a
privatização e militarização do espaço público — fazendo das ruas,
parques e mesmo lojas lugares mais seguros, mas menos livres…3
A comunidade definida por suas fronteiras vigiadas de perto e não mais
por seu conteúdo; a “defesa da comunidade” traduzida como o emprego de
guardiões armados para controlar a entrada; assaltante e vagabundo
promovidos à posição de inimigo número um; compartimentação das áreas
públicas em enclaves “defensáveis” com acesso seletivo; separação no lugar
da vida em comum — essas são as principais dimensões da evolução
corrente da vida urbana.
Quando estranhos se encontram
Na clássica definição de Richard Sennett, uma cidade é “um assentamento
humano em que estranhos têm chance de se encontrar”.4 Isso significa que
estranhos têm chance de se encontrar em sua condição de estranhos, saindo como estranhos do encontro casual que termina de maneira tão abrupta
quanto começou. Os estranhos se encontram numa maneira adequada a
estranhos; um encontro de estranhos é diferente de encontros de parentes,
amigos ou conhecidos — parece, por comparação, um “desencontro”. No
encontro de estranhos não há uma retomada a partir do ponto em que o
último encontro acabou, nem troca de informações sobre as tentativas,
atribulações ou alegrias desse intervalo, nem lembranças compartilhadas:
nada em que se apoiar ou que sirva de guia para o presente encontro. O
encontro de estranhos é um evento sem passado. Freqüentemente é também
um evento sem futuro (o esperado é não tenha futuro), uma história para
“não ser continuada”, uma oportunidade única a ser consumada enquanto
dure e no ato, sem adiamento e sem deixar questões inacabadas para outra
ocasião. Como a aranha cujo mundo inteiro está enfeixado na teia que ela
tece a partir de seu próprio abdome, o único apoio com que estranhos que se
encontram podem contar deverá ser tecido do fio fino e solto de sua
aparência, palavras e gestos. No momento do encontro não há espaço para
tentativa e erro, nem aprendizado a partir dos erros ou expectativa de outra
oportunidade.
O que se segue é que a vida urbana requer um tipo de atividade muito
especial e sofisticada, de fato um grupo de habilidades que Senett listou sob
a rubrica “civilidade”, isto é
a atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo,
contudo, que possam estar juntas. Usar uma máscara é a essência da
civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, distante das
circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das
pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros
de serem sobrecarregados com nosso peso.5
Segue-se esse objetivo, é claro, esperando reciprocidade. Proteger os
outros contra a indevida sobrecarga refreando-se de interagir com eles só
faz sentido se se espera generosidade semelhante dos outros. A civilidade,
como a linguagem, não pode ser “privada”. Antes de se tornar a arte
individualmente aprendida e privadamente praticada, a civilidade deve ser
uma característica da situação social. É o entorno urbano que deve ser
“civil”, a fim de que seus habitantes possam aprender as difíceis habilidades
da civilidade.
O que significa, então, dizer que o meio urbano é “civil” e, assim,
propício à prática individual da civilidade? Significa, antes e acima de tudo,
a disponibilidade de espaços que as pessoas possam compartilhar como
personae públicas — sem serem instigadas, pressionadas ou induzidas a
tirar as máscaras e “deixar-se ir”, “expressar-se”, confessar seus
sentimentos íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias. Mas
também significa uma cidade que se apresenta a seus residentes como um
bem comum que não pode ser reduzido ao agregado de propósitos
individuais e como uma tarefa compartilhada que não pode ser exaurida por
um grande número de iniciativas individuais, como uma forma de vida com
um vocabulário e lógica próprios e com sua própria agenda, que é (e está
fadada a continuar sendo) maior e mais rica que a mais completa lista de
cuidados e desejos individuais — de tal forma que “vestir uma máscara
pública” é um ato de engajamento e participação, e não um ato de
descompromisso e de retirada do “verdadeiro eu”, deixando de lado o
intercurso e o envolvimento público, manifestando o desejo de ser deixado
só e continuar só.
Há muitos lugares nas cidades contemporâneas a que cabe o nome de
“espaços públicos”. São de muitos tipos e tamanhos, mas a maioria deles
faz parte de uma de duas grandes categorias. Cada categoria se afasta do
modelo ideal do espaço civil em duas direções opostas mas
complementares.
A praça La Défense, em Paris, um enorme quadrilátero na margem
direita do Sena, concebida, comissionada e construída por François
Mitterrand (como monumento duradouro de sua presidência, em que o
esplendor e grandeza do cargo foram cuidadosamente separados das
fraquezas e falhas pessoais de seu ocupante), incorpora todos os traços da
primeira das duas categorias do espaço público urbano, que não é, no
entanto — enfaticamente não é —, “civil”. O que chama a atenção do
visitante de La Défense é antes e acima de tudo falta de hospitalidade da
praça: tudo o que se vê inspira respeito e ao mesmo tempo desencoraja a
permanência. Os edifícios fantásticos que circundam a praça enorme e vazia
são para serem admirados, e não visitados; cobertos de cima a baixo de
vidro refletivo, parecem não ter janelas ou portas que se abram na direção
da praça; engenhosamente dão as costas à praça diante da qual se erguem.
São imponentes e inacessíveis aos olhos — imponentes porque inacessíveis,
estas duas qualidades que se complementam e reforçam mutuamente. Essas fortalezas/conventos hermeticamente fechadas estão na praça, mas não
fazem parte dela — e induzem quem quer que esteja perdido na vastidão do
espaço a seguir seu exemplo e sentimento. Nada alivia ou interrompe o
uniforme e monótono vazio da praça. Não há bancos para descansar, nem
árvores sob cuja sombra esconder-se do sol escaldante. (Há, é certo, um
grupo de bancos geometricamente dispostos no lado mais afastado da praça;
eles se situam numa plataforma um metro acima do chão da praça — uma
plataforma como um palco, o que faria do ato de sentar-se e descansar um
espetáculo para todos os outros passantes que, diferentemente dos sentados,
têm o que fazer ali). De tempos em tempos, com a regularidade dos horários
do metrô, esses outros — filas de pedestres, como formigas apressadas —
emergem de debaixo da terra, estiram-se sobre o pavimento de pedras que
separa a saída do metrô de um dos brilhantes monstros que cercam (sitiam)
a praça e desaparecem rapidamente da vista. E a praça fica novamente vazia
— até a chegada do próximo trem.
A segunda categoria de espaço público mas não civil se destina a servir
aos consumidores, ou melhor, a transformar o habitante da cidade em
consumidor. Nas palavras de Liisa Uusitalo, “os consumidores
freqüentemente compartilham espaços físicos de consumo, como salas de
concertos ou exibições, pontos turísticos, áreas de esportes, shopping
centers e cafés, sem ter qualquer interação social real”.6 Esses lugares
encorajam a ação e não a interação. Compartilhar o espaço físico com
outros atores que realizam atividade similar dá importância à ação, carimba-
a com a “aprovação do número” e assim corrobora seu sentido e a justifica
sem necessidade de mais razões. Qualquer interação dos atores os afastaria
das ações em que estão individualmente envolvidos e constituiria prejuízo,
e não vantagem, para eles. Não acrescentaria nada aos prazeres de comprar
e desviaria corpo e mente da tarefa.
A tarefa é o consumo, e o consumo é um passatempo absoluta e
exclusivamente individual, uma série de sensações que só podem ser
experimentadas — vividas — subjetivamente. As multidões que enchem os
interiores dos “templos do consumo” de George Ritzer são ajuntamentos,
não congregações; conjuntos, não esquadrões; agregados, não totalidades.
Por mais cheios que possam estar, os lugares de consumo coletivo não têm
nada de “coletivo”. Para utilizar a memorável expressão de Althusser, quem
quer que entre em tais espaços é “interpelado” enquanto indivíduo,
chamado a suspender ou romper os laços e descartar as lealdades.