Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 35 de 42

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Modernidade Líquida

Unidade — pela semelhança ou pela diferença?

“antropoêmica”, de “vomitar” e “cuspir” aqueles que não são “aptos a ser

nós”, seja isolando-os por encarceramento dentro dos muros visíveis dos

guetos ou nos invisíveis (ainda que não menos tangíveis por essa razão)

muros das proibições culturais, seja cercando-os, deportando-os ou

forçando-os a fugir, como na prática que recebe o nome de limpeza étnica.

Seria prudente, no entanto, lembrar que a lógica do pensamento raramente

se impõe à lógica dos atos, e não há uma relação biunívoca entre a retórica

e a prática, e assim cada uma das estratégias pode estar envolvida em

qualquer dessas retóricas.

 

Unidade — pela semelhança ou pela diferença?

 

O “nós” do credo patriótico/nacionalista significa pessoas como nós; “eles”

significa pessoas que são diferentes de nós. Não que “nós” sejamos

idênticos em tudo; há diferenças entre “nós”, ao lado das características

comuns, mas as semelhanças diminuem, tornam difuso e neutralizam seu

impacto. O aspecto em que somos semelhantes é decididamente mais

significativo que o que nos separa; significativo bastante para superar o

impacto das diferenças quando se trata de tomar posição. E não que “eles”

sejam diferentes de nós em tudo; mas eles diferem em um aspecto que é

mais importante que todos os outros, importante o bastante para impedir

uma posição comum e tornar improvável a solidariedade genuína,

independente das semelhanças que existam. É uma situação tipicamente

ou/ou: as fronteiras que “nos” separam “deles” estão claramente traçadas e

são fáceis de ver, uma vez que o certificado de “pertencer” só tem uma

rubrica, e o formulário que aqueles que requerem uma carteira de

identidade devem preencher contém uma só pergunta, que deve ser

respondida “sim ou não”.

Note-se que a questão de qual das diferenças é “crucial” — isto é, qual

delas é o tipo de diferença que importa mais que qualquer semelhança e faz

todas as características comuns parecerem pequenas e insignificantes (a

diferença que torna a divisão que gera hostilidade um caso encerrado antes

mesmo do começo da reunião em que a eventualidade da unidade poderia

ser discutida) — é menor e acima de tudo derivativa, e não constitui o ponto

de partida do argumento. Como explicou Frederick Barth, as fronteiras não reconhecem e registram um estranhamento já existente; elas são traçadas,

como regra, antes que o estranhamento seja produzido. Primeiro há um

conflito, uma tentativa desesperada de separar “nós” e “eles” então os

traços cuidadosamente espiados “neles” são tomados como prova e fonte de

uma estranheza que não admite conciliação. Sendo os seres humanos como

são, criaturas multifacetadas com muitos atributos, não é difícil encontrar

tais traços quando a busca é feita a sério.

O nacionalismo tranca as portas, arranca as aldravas e desliga as

campainhas, declarando que apenas os que estão dentro têm direito de aí

estar e acomodar-se de vez. O patriotismo é, pelo menos aparentemente,

mais tolerante, hospitaleiro e acessível — deixa a questão para os que

pedem admissão. E no entanto o resultado último é, quase sempre,

notavelmente semelhante. Nem o credo patriótico nem o nacionalista

admitem a possibilidade de que as pessoas possam se unir mantendo-se

ligadas às suas diferenças, estimando-as e cultivando-as, ou que sua

unidade, longe de requerer a semelhança ou promovê-la como um valor a

ser ambicionado e buscado, de fato se beneficia da variedade de estilos de

vida, ideais e conhecimento, ao mesmo tempo em que acrescenta força e

substância ao que as faz o que são — e isso significa ao que as faz

diferentes.

Bernard Crick cita da Política de Aristóteles sua idéia de uma “boa

polis”, articulada contra o sonho de Platão de uma verdade, um padrão

unificado de justiça, que subjuga a todos:

 

Há um ponto em que uma polis, ao avançar na unidade, deixa de ser

uma polis; mas de qualquer forma chega quase a perder sua essência, e

assim será uma polis pior. É como se se transformasse a harmonia em

mero uníssono, ou se reduzisse um tema a uma única batida. A verdade

é que a polis é um agregado de muitos membros.

 

Em seu comentário, Crick avança na idéia de um tipo de unidade que

nem o patriotismo nem o nacionalismo estão dispostos a admitir e com

freqüência rejeitarão ativamente: um tipo de unidade que supõe que a

sociedade civilizada é inerentemente pluralista, que viver em conjunto em

tal sociedade significa negociação e conciliação de interesses “naturalmente

diferentes” e que “é normalmente melhor conciliar interesses diferentes que

coagir e oprimir perpetuamente”8: em outras palavras, que o pluralismo da moderna sociedade civilizada não é simplesmente um “fato bruto” que pode

não ser desejado ou mesmo detestado mas que nem por isso desaparece,

mas uma coisa boa e uma circunstância afortunada, pois oferece benefícios

muito maiores que os desconfortos e inconveniências que produz, amplia os

horizontes da humanidade e multiplica as oportunidades de uma vida

melhor que a que qualquer das alternativas pode oferecer. Podemos dizer

que em rigorosa oposição tanto à fé patriótica quanto à nacionalista, o tipo

mais promissor de unidade é a que é alcançada, e realcançada a cada dia,

pelo confronto, debate, negociação e compromisso entre valores,

preferências e caminhos escolhidos para a vida e a autoidentificação de

muitos e diferentes membros da polis, mas sempre autodeterminados.

Esse é, essencialmente, o modelo republicano de unidade, de uma

unidade emergente que é uma realização conjunta de agentes engajados na

busca de auto-identificação; uma unidade que é um resultado, e não uma

condição dada a priori, da vida compartilhada; uma unidade erguida pela

negociação e reconciliação, e não pela negação, sufocação ou supressão das

diferenças.

Essa, quero propor, é a única variante da unidade (a única forma de estar

juntos) compatível com as condições da modernidade líquida, variante

plausível e realista. Uma vez que as crenças, valores e estilos foram

“privatizados” — descontextualizados ou “desacomodados”, com lugares

de reacomodação que mais lembram quartos de motel que um lar próprio e

permanente —, as identidades não podem deixar de parecer frágeis e

temporárias, e despidas de todas as defesas exceto a habilidade e

determinação dos agentes que se aferram a elas e as protegem da erosão. A

volatilidade das identidades, por assim dizer, encara os habitantes da

modernidade líquida. E assim também faz a escolha que se segue

logicamente: aprender a difícil arte de viver com a diferença ou produzir

condições tais que façam desnecessário esse aprendizado. Como disse

recentemente Alain Touraine, o presente estado da sociedade assinala “o

fim da definição do ser humano como um ser social, definido por seu lugar

na sociedade, que determina seu comportamento ou ação”, e assim a defesa,

pelos atores sociais, de sua “especificidade cultural e psicológica” só pode

ser conduzida com “consciência de que o princípio de sua combinação pode

ser encontrado dentro do indivíduo, e não mais em instituições sociais ou

princípios universais”.9

As notícias da condição sobre as quais os teóricos teorizam e os

filósofos filosofam são diariamente marteladas pelas forças conjuntas das

artes populares, quer apareçam com seu nome de ficção, quer disfarçadas de

“histórias verdadeiras”. Como os que assistiram ao filme Elizabeth foram

informados, mesmo ser a rainha da Inglaterra é uma questão de auto-

afirmação e de autocriação; ser uma filha de Henrique VIII demanda muita

iniciativa individual, apoiada em astúcia e determinação. Para forçar os

briguentos e recalcitrantes cortesãos a se ajoelharem e fazer reverência e,

mais que isso, a ouvir e obedecer, ela precisou comprar muita maquilagem

para o rosto e mudar seu estilo de cabelo, enfeites e o restante da aparência.

Não há afirmação que não seja auto-afirmação, nem identidade que não seja

construída.

Tudo se resume, com certeza, à força do agente em questão. As armas

de defesa não estão disponíveis de maneira uniforme para todos, e é

razoável que indivíduos mais fracos e mal armados procurem a força do

número para compensar sua impotência individual. Dada a variada

amplitude do hiato universalmente experimentado entre a condição do

“indivíduo de jure” e a possibilidade de obter o status de “indivíduo de

facto”, o mesmo ambiente moderno fluido pode favorecer uma diversidade

de estratégias de sobrevivência. O “nós”, como insiste Richard Sennett, “é

hoje um ato de autoproteção. O desejo de comunidade é defensivo …

Certamente é quase uma lei universal que o “nós” pode ser usado como

defesa contra a confusão e o deslocamento”. Mas — e este é um “mas”

crucial — quando o desejo de comunidade “se expressa como rejeição dos

imigrantes e outros estranhos”, é porque

 

a política atual baseada no desejo de refúgio tem por alvo os fracos, que

viajam nos circuitos do mercado global de trabalho, e não os fortes, as

instituições que mobilizam os trabalhadores pobres ou fazem uso de sua

privação relativa. Os programadores da IBM … Num modo importante,

conseguiram transcender esse sentido defensivo da comunidade quando

deixaram de culpar seus colegas indianos e seu presidente judeu.10

 

“Num modo importante”, talvez — mas só em um, não necessariamente

o mais significativo. O impulso de retirar-se da complexidade eivada de

riscos para o abrigo da uniformidade é universal; o que difere são os modos

de agir a partir desse impulso, e esses modos tendem a diferir em proporção direta aos meios e recursos de que os atores dispõem. Os mais bem

aquinhoados, como os programadores da IBM, confortáveis em seu enclave

ciberespacial mas muito menos imunes aos azares do destino no setor físico

do mundo social, mais difícil de “virtualizar,” podem arcar com os custos

de fossos e pontes levadiças high-tech para manter o perigo à distância. Guy

Nafilyah, dirigente de uma companhia imobiliária líder na França, observou

que “os franceses estão inquietos, têm medo dos vizinhos, com exceção dos

que se parecem com eles”. Jacques Patigny, presidente da Associação

Nacional dos Locadores de Imóveis, concorda, e vê o futuro no

“fechamento periférico e filtro seletivo” das áreas residenciais com o uso de

cartões magnéticos e guardas. O futuro pertence a “arquipélagos de ilhas

situadas ao longo dos eixos de comunicação”. As áreas residenciais

verdadeiramente extraterritoriais, isoladas e cercadas, equipadas com

intricados sistemas de intercomunicação, ubíquas câmeras de vídeo para

vigilância e guardas fortemente armados em rondas 24 horas por dia se

espalham ao redor de Toulouse, como fizeram há algum tempo nos EUA e

como fazem em números crescentes em toda a parte próspera do mundo que

se globaliza rapidamente.11 Os enclaves fortemente guardados têm uma

semelhança notável com os guetos étnicos dos pobres. Diferem, entretanto,

num aspecto importante: foram livremente escolhidos como um privilégio

pelo qual deve-se pagar um alto preço. E os seguranças que guardam o

acesso foram empregados e portam suas armas legalmente.

Richard Sennett faz uma interpretação sociopsicológica da tendência:

 

A imagem da comunidade é purificada de tudo o que pode trazer uma

sensação de diferença, que dirá conflito, a quem somos “nós”. Desse

modo, o mito da solidariedade comunitária é um ritual de purificação

… O que distingue esse compartilhamento mítico nas comunidades é

que as pessoas sentem que pertencem umas às outras, e ficam juntas,

porque são as mesmas … O sentimento de “nós”, que expressa o desejo

de semelhança, é um modo de evitar olhar mais profundamente nos

olhos dos outros.12

 

Como muitas outras iniciativas dos poderes públicos, o sonho de pureza

foi, na era da modernidade líquida, desregulamentado e privatizado; agir

sobre esse sonho foi deixado para a iniciativa privada — local, de grupos. A

proteção da segurança pessoal é agora uma questão de cada um, e as autoridades e a polícia local estão à mão para ajudar com conselhos,