Modernidade Líquida
A teoria crítica revisitada
“Sociedade” sempre manteve uma relação ambígua com a autonomia
individual: era simultaneamente sua inimiga e condição sine qua non. Mas
as proporções de ameaças e oportunidades no que forçosamente continuará
sendo uma relação ambivalente mudaram radicalmente no curso da história
moderna. Embora as razões para examiná-la de perto possam não ter
desaparecido, a sociedade é hoje antes de tudo a condição de que os
indivíduos precisam muito, e que lhes faz falta — em sua luta vã e
frustrante para transformar seu status de jure em genuína autonomia e
capacidade de auto-afirmação.
Esta é, nos termos mais amplos, a situação que hoje se coloca para a
teoria crítica — e, em termos mais gerais, para a crítica social. Ela se reduz
a unir novamente o que a combinação da individualização formal e o
divórcio entre o poder e a política partiram em pedaços. Em outras palavras,
redesenhar e repovoar a hoje quase vazia ágora — o lugar de encontro,
debate e negociação entre o indivíduo e o bem comum, privado e público.
Se o velho objetivo da teoria crítica — a emancipação humana — tem
qualquer significado hoje, ele é o de reconectar as duas faces do abismo que
se abriu entre a realidade do indivíduo de jure e as perspectivas do
indivíduo de facto. E indivíduos que reaprenderam capacidades esquecidas
e reapropriaram ferramentas perdidas da cidadania são os únicos
construtores à altura da tarefa de erigir essa ponte em particular.
A teoria crítica revisitada
A necessidade de pensar é o que nos faz pensar, disse Adorno.12 Sua
Dialética negativa, essa longa e tortuosa exploração dos modos de ser
humano num mundo inóspito à humanidade, acaba com essa frase
contundente, mas em última análise vazia: ao fim de centenas de páginas,
nada foi explicado, nenhum mistério revelado, nenhuma segurança
alcançada. O segredo de ser humano permanece tão impenetrável como no
começo da jornada. Pensar nos faz humanos, mas é por sermos humanos
que pensamos. O pensar não pode ser explicado; mas não precisa de
explicação. O pensar não precisa ser justificado; mas não poderia ser
justificado, ainda que tentássemos.
Essa situação não é, Adorno nos dirá muitas e muitas vezes, nem um
sinal de fraqueza do pensamento, nem marca da vergonha de quem pensa. Talvez seja o contrário. Na pena de Adorno, a triste necessidade se
transforma em privilégio. Quanto menos um pensamento puder ser
explicado em termos familiares, que façam sentido para os homens e
mulheres imersos em sua busca diária da sobrevivência, tanto mais próximo
fica dos padrões da humanidade; quanto menos puder ser justificado em
termos de ganhos e usos tangíveis ou das etiquetas de preço afixadas a ele
no supermercado ou na bolsa de valores, tanto maior seu valor
humanizante. São a busca ativa do valor de mercado e a urgência do
consumo imediato que ameaçam o genuíno valor do pensamento. “Nenhum
pensamento é imune”, escreve Adorno,
à comunicação, e fazê-la no lugar errado e num acordo equivocado é o
suficiente para solapar sua verdade…. Pois o isolamento intelectual
inviolável é agora a única maneira de mostrar algum grau de
solidariedade…. O observador distante está tão envolvido quanto o
participante ativo; a única vantagem do primeiro é a visão desse
envolvimento e a liberdade infinitesimal que reside no conhecimento
enquanto tal.13
Ficará claro que a visão é o começo da liberdade se lembrarmos que
“para um sujeito que age ingenuamente … seu próprio condicionamento é
não-transparente”14 e que a não-transparência do condicionamento é
garantia de ingenuidade perpétua. Assim como o pensamento não precisa de
nada senão de si mesmo para perpetuar-se, também a ingenuidade é auto-
suficiente; enquanto não for perturbada pela visão, manterá intacto seu
próprio condicionamento.
“Não perturbado”: em verdade, a chegada da visão quase nunca é bem-
vinda para aqueles que se acostumaram a viver sem ela como doce
perspectiva da liberdade. A inocência da ingenuidade faz com que até
mesmo a condição mais turbulenta e traiçoeira pareça familiar e, portanto,
segura, e qualquer visão de seus precários andaimes é um prodígio de falta
de confiança, dúvida e insegurança que poucos receberiam
esperançosamente. Parece que, para Adorno, essa ampla rejeição da visão é
positiva, embora não anuncie um caminho fácil. A falta de liberdade do
ingênuo é a liberdade da pessoa que pensa. Ela torna o “isolamento
inviolável” mais fácil. “Aquele que põe à venda algo que ninguém quer
comprar representa, mesmo contra sua vontade, a liberdade em relação à
troca.”15 Há apenas um passo que leva dessa idéia a outra: a do exílio como
condição arquetípica da liberdade em relação à troca. Os produtos que o
exílio oferece são tais que ninguém teria qualquer inclinação de comprá-los.
“Todo intelectual emigrado está, sem exceção, mutilado”, escreveu Adorno
em seu próprio exílio nos Estados Unidos. “Ele vive num ambiente que
permanecerá incompreensível”. Não surpreende que ele esteja protegido
contra o risco de produzir qualquer coisa de valor no mercado local.
Portanto, “se na Europa o gesto esotérico era freqüentemente apenas um
pretexto para o mais cego auto-interesse, o conceito de austeridade parece,
no exílio, o mais aceitável dos salva-vidas”16. O exílio é para o pensador o
que o lar é para o ingênuo; é no exílio que o distanciamento, modo de vida
habitual da pessoa que pensa, adquire valor de sobrevivência.
Ao lerem a edição dos Upanishads de Deussen, Adorno e Horkheimer
comentam amargamente que os sistemas teóricos e práticos dessas pessoas
que buscam da união entre a verdade, a beleza e a justiça, esses “estranhos à
história”, “não são muito rigorosos e centrados; distinguem-se dos sistemas
acabados por um elemento de anarquia. Atribuem maior importância à idéia
e ao indivíduo que à administração e ao coletivo. Portanto, despertam
ódio”17. Para que as idéias tenham sucesso, para que atinjam a imaginação
dos habitantes da caverna, o elegante ritual védico deverá superar as vagas
meditações dos Upanishads; os frios e bem-comportados estóicos deverão
substituir os impetuosos e arrogantes cínicos; e o absolutamente prático São
Paulo deverá substituir o estranhamente pouco prático São João Batista. A
grande questão, porém, é se o poder emancipatório dessas idéias pode
sobreviver a seu sucesso mundano. A resposta de Adorno a tal questão
recende a melancolia: “A história das antigas religiões e escolas, como a
dos partidos e revoluções modernas, nos ensina que o preço da
sobrevivência é o envolvimento prático, a transformação das idéias em
dominação”18.
Nesta última frase, o principal dilema estratégico que assombrava o
fundador e mais notório escritor da “escola crítica” original encontra sua
mais vívida expressão: quem quer que pense e se aflija está condenado a
navegar entre o Sila do pensamento limpo mas impotente e o Caribdis da
tentativa eficaz mas poluída pela dominação. Tertium non datur. Nem a
aposta na prática nem a recusa a ela constituem boa solução. A primeira
tende, inevitavelmente, a transformar-se em dominação — com todo seu
séquito de horrores: novas limitações à liberdade, a pragmática utilitária dos efeitos tendo precedência sobre os princípios éticos das razões e a diluição e
subseqüente distorção das ambições da liberdade. A segunda pode talvez
satisfazer o desejo narcisístico da pureza intocada, mas manteria o
pensamento ineficaz e, no limite, estéril: a filosofia, como Ludwig
Witgenstein observou com tristeza, deixaria tudo como era; o pensamento
nascido da revolta contra a inumanidade da condição humana faria pouco
ou nada para tornar mais humana essa condição. O dilema entre vita
contemplativa e vita activa se resume a uma escolha entre duas perspectivas
igualmente pouco atraentes. Quanto mais os valores preservados no
pensamento forem protegidos da poluição, menos significativos serão para
a vida daqueles a quem devem servir. Quanto maiores seus efeitos nessa
vida, menos essa vida reformada fará lembrar os valores que induziram e
inspiraram a reforma.
O tormento de Adorno tem uma longa história, chegando à questão de
Platão sobre a sabedoria e a possibilidade do “retorno à caverna”. Essa
questão surgiu a partir da invocação de Platão aos filósofos para que
abandonassem a caverna escura do quotidiano e — em nome da pureza do
pensamento — recusassem qualquer intercâmbio com os habitantes da
caverna enquanto durasse sua jornada no iluminado mundo exterior das
idéias claras e lúcidas. O problema era se, na volta, os filósofos quereriam
compartilhar os troféus da jornada com os de dentro da caverna e — caso o
quisessem — se os outros os ouviriam e lhes dariam crédito. Fiel às idéias
de seu tempo, Platão esperava que o provável desencontro na comunicação
resultasse na morte dos portadores das notícias…
A versão de Adorno do problema de Platão tomou forma no mundo pós-
iluminista, quando queimar hereges e dar cicuta aos arautos de uma vida
mais nobre estavam definitivamente fora de moda. Nesse novo mundo, os
habitantes da caverna, reencarnados como Bürger, não exibiam mais o
entusiasmo pela verdade e pelos valores mais altos dos originais de Platão;
esperava-se que opusessem firme e feroz resistência a uma mensagem
fadada a perturbar a tranqüilidade de sua rotina diária. Fiel às novas idéias,
porém, o resultado da ruptura na comunicação aparecia de forma diferente.
A união entre conhecimento e poder, mera fantasia nos tempos de Platão,
tornou-se um postulado rotineiro e quase axiomático da filosofia e uma
afirmação comum e diariamente repetida da política. De algo pelo quê se
poderia morrer, a verdade tornou-se algo que oferecia boas razões pelas
quais se poderia matar. (Foi um pouco das duas coisas todo o tempo, mas as proporções na mistura mudaram drasticamente). Era portanto natural e
razoável esperar, nos tempos de Adorno, que os rejeitados apóstolos das
boas notícias recorressem à força sempre que pudessem; e buscassem a
dominação para quebrar a resistência e compelir, impelir ou subornar seus
opositores a seguir a rota que relutavam a encetar. Ao velho dilema —
como encontrar as palavras adequadas aos ouvidos não-iniciados sem
comprometer a essência da mensagem; como expressar a verdade numa
forma fácil de compreender e suficientemente atraente para que sua
compreensão pudesse ser desejada sem deturpar ou diluir seu conteúdo —,
a esse dilema veio somar-se uma nova dificuldade, particularmente dura e
angustiante no caso de uma mensagem com ambições emancipadoras e
libertadoras: como evitar, ou ao menos limitar, o impacto corruptor do
poder e da dominação, vistos agora como principal veículo portador da
mensagem aos recalcitrantes e indiferentes? As duas angústias se
entrelaçam, às vezes se fundem — como na áspera, ainda que inconclusiva,
disputa entre Leo Strauss e Alexandre Kojève.
“A filosofia”, insiste Strauss, é a busca da “ordem eterna e imutável na
qual a história acontece e que permanece inalterada pela história”. O que é
eterno e imutável é também universal; embora a aceitação universal dessa
ordem eterna e imutável possa ser atingida somente com base no
conhecimento genuíno ou na sabedoria — não através da reconciliação ou
do acordo entre opiniões.
O acordo fundado na opinião não pode nunca se tornar um acordo
universal. Toda fé que pretende a universalidade, isto é, a aceitação
universal, necessariamente provoca uma contra-fé com a mesma
pretensão. A difusão entre os não-iniciados do conhecimento genuíno
adquirido pelos sábios não serviria para nada, pois pela difusão ou
diluição o conhecimento inevitavelmente se transforma em opinião,
preconceito ou mera crença.
Tanto para Strauss quanto para Kojève, essa diferença entre o saber e a
“mera crença”, bem como a dificuldade de comunicação entre elas,
apontava imediata e automaticamente para a questão do poder e da política.
Os dois polemistas viam a incompatibilidade entre os dois tipos de
conhecimento como a questão da direção, da coerção e do engajamento
político dos “portadores do saber”, como o problema da relação entre a filosofia e o Estado, considerado o lugar e foco por excelência da política.
O problema se reduz a uma escolha entre o envolvimento político e o
radical distanciamento da prática política, e ao cálculo cuidadoso dos
ganhos, riscos e prejuízos potenciais de cada uma dessas posições.
Dado que a ordem eterna, a questão com que os filósofos
verdadeiramente se ocupam, não é “afetada pela história”, de que maneira o
comércio pode, com os administradores da história, os poderes do
momento, auxiliar a causa da filosofia? Para Strauss, tratava-se de uma
questão retórica, pois “não há como” seria a única resposta razoável e auto-
evidente. A verdade da filosofia pode, de fato, não ser afetada pela história,
respondia Kojève, mas daí não decorre que se possa evitar a história: o
objetivo dessa verdade é entrar na história para reformá-la — e assim a
tarefa prática do comércio com os detentores do poder, os guardiões que
vigiam essa entrada e controlam o tráfego, permanece como parte integrante
e vital dos afazeres da filosofia. A história é a realização da filosofia; a
verdade da filosofia encontra seu teste e confirmação últimos em sua
aceitação e reconhecimento, tornando-se, nas palavras dos filósofos, a carne
da polis. O reconhecimento é o telos e verificação última da filosofia; e
assim o objeto da ação dos filósofos não são apenas os próprios filósofos,
seu pensamento, o “fazer interno” do filosofar, mas o mundo enquanto tal,
e, por fim, a harmonia entre os dois, ou, antes, o refazer o mundo à imagem
da verdade cujos guardiões são os filósofos. “Não ter intercâmbio” com a
política não é, portanto, uma resposta; cheira a traição não só ao “mundo
que aí está”, mas também à própria filosofia.
Não há como evitar o problema da “ponte política” para o mundo. E
como essa ponte não pode senão ser controlada pelos servidores do Estado,
a questão de como usá-los para suavizar a passagem da filosofia ao mundo
não desaparecerá e terá de ser enfrentada. E tampouco há como evitar o fato
duro de que — pelo menos no começo, enquanto a distância entre a verdade
da filosofia e a realidade do mundo não for preenchida — o Estado seja
tirânico. A tirania (Kojève é inflexível quanto à possibilidade de essa forma
de governo ser definida em termos moralmente neutros) ocorre quando
uma fração dos cidadãos (pouco importa que sejam minoria ou maioria)
impõe a todos os outros cidadãos suas idéias e ações, que são guiadas
por uma autoridade que essa fração reconhece espontaneamente, mas
que não conseguiu fazer que os outros reconheçam; e quando essa
fração as impõe aos outros sem “chegar a acordo” com eles, sem tentar
chegar a algum “compromisso” com eles e sem considerar suas idéias e
desejos (determinados por outra autoridade, que esses outros
reconhecem espontaneamente).
Como é essa desconsideração das idéias e desejos dos “outros” que faz
a tirania tirânica, a tarefa consiste em romper a corrente cismogenética
(como diria Gregory Bateson) da negligência arrogante, de um lado, e do
dissenso mudo, de outro, e encontrar algum terreno em que ambos possam
se encontrar para uma conversação frutífera. Esse terreno (e aqui Kojève e
Strauss concordam) só pode ser oferecido pela verdade da filosofia, que se
ocupa — necessariamente — das coisas eternas e válidas absoluta e
universalmente. (Todos os outros terrenos, oferecidos pelas “meras
crenças”, só poderão servir como campos de batalha, e nunca como salas de
conferência). Kojève acreditava que isso é possível, mas Strauss não: “Não
acredito na possibilidade de uma conversação entre Sócrates e o povo”.
Quem quer que se envolva em tal conversação não é um filósofo, mas
“algum tipo de retórico” preocupado não tanto em construir o caminho pelo
qual a verdade pode chegar ao povo quanto em obter a obediência ao que
quer que os poderes precisem ou desejem estabelecer. Os filósofos pouco
podem fazer além de aconselhar os retóricos, e a probabilidade de seu
sucesso está fadada a ser mínima. As chances de a filosofia e a sociedade
virem a se reconciliar e a se tornar uma só são mínimas.19
Strauss e Kojève concordavam que o elo entre os valores universais e a
realidade da vida social historicamente constituída é a política; escrevendo
de dentro da modernidade pesada, tinham como ponto pacífico que a
política se imbrica nas ações do Estado. E assim se seguia sem maiores
discussões que o problema diante dos filósofos era o de uma simples
escolha entre “pegar ou largar”: seja utilizando esse elo, a despeito de todos
os riscos que uma tentativa de utilizá-lo deve necessariamente envolver,
seja (em nome da pureza de pensamento) mantendo-se longe dele e
cuidando da distância em relação ao poder e seus detentores. A escolha se
dava, em outras palavras, entre a verdade fadada à impotência e a potência
fadada a ser infiel à verdade.
A modernidade pesada era, afinal, a época de moldar a realidade como
na arquitetura ou na jardinagem; a realidade adequada aos veredictos da
razão deveria ser “construída” sob estrito controle de qualidade e conforme rígidas regras de procedimento, e mais que tudo projetada antes da