Modernidade Líquida
A modernidade como história do tempo
Quando eu era criança (e isso aconteceu em outro tempo e em outro espaço)
não era incomum ouvir a pergunta “Quão longe é daqui até lá?” respondida
por um “Mais ou menos uma hora, ou um pouco menos se você caminhar
rápido”. Num tempo ainda anterior à minha infância, suponho que a
resposta mais comum teria sido “Se você sair agora, estará lá por volta do
meio-dia” ou “Melhor sair agora, se você quiser chegar antes que escureça”.
Hoje em dia, pode-se ouvir ocasionalmente essas respostas. Mas serão
normalmente precedidas por uma solicitação para ser mais específico:
“Você vai de carro ou a pé?”
“Longe” e “tarde”, assim como “perto” e “cedo”, significavam quase a
mesma coisa: exatamente quanto esforço seria necessário para que um ser
humano percorresse uma certa distância — fosse caminhando, semeando ou
arando. Se as pessoas fossem instadas a explicar o que entendiam por
“espaço” e “tempo”, poderiam ter dito que “espaço” é o que se pode
percorrer em certo tempo, e que “tempo” é o que se precisa para percorrê-
lo. Se não fossem muito pressionados, porém, não entrariam no jogo da
definição. E por que deveriam? A maioria das coisas que fazem parte da
vida cotidiana são compreendidas razoavelmente até que se precise defini-
las; e, a menos que solicitados, não precisaríamos defini-las. O modo como
compreendíamos essas coisas que hoje tendemos a chamar de “espaço” e
“tempo” era não apenas satisfatório, mas tão preciso quanto necessário, pois
era o wetware — os humanos, os bois e os cavalos — que fazia o esforço e
punha os limites. Um par de pernas humanas pode ser diferente de outros,
mas a substituição de um par por outro não faria uma diferença
suficientemente grande para requerer outras medidas além da capacidade
dos músculos humanos.
No tempo das Olimpíadas gregas ninguém pensava em registrar os
recordes olímpicos, e menos ainda em quebrá-los. A invenção e
disponibilidade de algo além da força dos músculos humanos ou animais foi
necessária para que essas idéias fossem concebidas e para a decisão de
atribuir importância às diferenças entre as capacidades de movimento dos
indivíduos humanos — e, assim, para que a pré-história do tempo, essa
longa era da prática limitada pelo wetware, terminasse, e a história do
tempo começasse. A história do tempo começou com a modernidade. De fato, a modernidade é, talvez mais que qualquer outra coisa, a história do
tempo: a modernidade é o tempo em que o tempo tem uma história.
Se pesquisarmos em livros de história a razão por que espaço e tempo,
outrora mesclados nos afazeres da vida humana, se separaram e se
afastaram no pensamento e prática dos homens, encontraremos com
freqüência histórias edificantes de descobertas realizadas pelos valentes
cavaleiros da razão — filósofos intrépidos e cientistas corajosos.
Aprendemos sobre astrônomos que mediam distâncias e a velocidade dos
corpos celestes, sobre Newton calculando as relações exatas entre a
aceleração e a distância percorrida pelo “corpo físico” e seus enormes
esforços para expressar tudo isso em números — as mais abstratas e
objetivas de todas as medidas imagináveis; ou sobre Kant, impressionado
por suas realizações a ponto de conceber espaço e tempo como duas
categorias transcendentalmente separadas e mutuamente independentes do
conhecimento humano. E no entanto, por mais justificável que seja a
vocação dos filósofos de pensar sub specie aeternitatis, é sempre um
pedaço do infinito e da eternidade, sua parte finita correntemente ao alcance
da prática humana, que fornece o “campo epistemológico” para a reflexão
filosófica e científica e o material empírico que pode ser trabalhado para
construir verdades eternas; essa limitação, na verdade, separa os grandes
pensadores dos outros que desapareceram na história como fantasistas,
fabricantes de mitos, poetas e outros sonhadores. E assim algo deve ter
acontecido à amplitude e à capacidade de carga da prática humana para que
os soberanos espaço e tempo repentinamente se ponham a encarar, olhos
nos olhos, os filósofos.
Esse “algo” foi, podemos adivinhar, a construção de veículos que
podiam se mover mais rápido que as pernas dos humanos ou dos animais; e
veículos que, em clara oposição aos humanos e aos cavalos, podem ser
tornados mais e mais velozes, de tal modo que atravessar distâncias cada
vez maiores tomará cada vez menos tempo. Quando tais meios de
transporte não-humanos e não-animais apareceram, o tempo necessário para
viajar deixou de ser característica da distância e do inflexível “wetware”;
tornou-se, em vez disso, atributo da técnica de viajar. O tempo se tornou o
problema do “hardware” que os humanos podem inventar, construir,
apropriar, usar e controlar, não do “wetware” impossível de esticar, nem
dos poderes caprichosos e extravagantes do vento e da água, indiferentes à
manipulação humana; por isso mesmo, o tempo se tornou um fator independente das dimensões inertes e imutáveis das massas de terra e dos
mares. O tempo é diferente do espaço porque, ao contrário deste, pode ser
mudado e manipulado; tornou-se um fator de disrupção: o parceiro
dinâmico no casamento tempo-espaço.
Numa declaração famosa, Benjamin Franklin disse que tempo é
dinheiro; pôde dizê-lo porque antes já havia definido o homem como o
“animal que faz ferramentas”. Resumindo a experiência de mais dois
séculos, John Fitzgerald Kennedy advertia seus concidadãos norte-
americanos a usarem o “tempo como uma ferramenta, e não como um
sofá”. O tempo se tornou dinheiro depois de se ter tornado uma ferramenta
(ou arma?) voltada principalmente a vencer a resistência do espaço:
encurtar as distâncias, tornar exeqüível a superação de obstáculos e limites
à ambição humana. Com essa arma, foi possível estabelecer a meta da
conquista do espaço e, com toda seriedade, iniciar sua implementação.
Os reis talvez pudessem viajar mais confortavelmente que seus
prepostos, e os barões mais convenientemente que seus servos; mas, em
princípio, nenhum deles poderia viajar muito mais depressa que qualquer
dos outros. O wetware tornava os humanos semelhantes; o hardware os
tornava diferentes. Essas diferenças (ao contrário das que derivavam da
dissimilitude dos músculos humanos) eram resultados de ações humanas
antes de se transformarem em condições de sua eficácia, e antes que
pudessem ser utilizadas para criar ainda mais diferenças, e diferenças mais
profundas e menos contestáveis do que antes. Com o advento do vapor e do
motor a explosão, a igualdade fundada no wetware chegou ao fim. Algumas
pessoas podiam agora chegar onde queriam muito antes que as outras;
podiam também fugir e evitar serem alcançadas ou detidas. Quem viajasse
mais depressa podia reivindicar mais território — e controlá-lo, mapeá-lo e
supervisioná-lo —, mantendo distância em relação aos competidores e
deixando os intrusos de fora.
Pode-se associar o começo da era moderna a várias facetas das práticas
humanas em mudança, mas a emancipação do tempo em relação ao espaço,
sua subordinação à inventividade e à capacidade técnica humanas e,
portanto, a colocação do tempo contra o espaço como ferramenta da
conquista do espaço e da apropriação de terras não são um momento pior
para começar uma avaliação que qualquer outro ponto de partida. A
modernidade nasceu sob as estrelas da aceleração e da conquista de terras, e
essas estrelas formam uma constelação que contém toda a informação sobre seu caráter, conduta e destino. Para lê-la, basta um sociólogo treinado; não é