Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 22 de 42

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Modernidade Líquida

A modernidade como história do tempo

 

Quando eu era criança (e isso aconteceu em outro tempo e em outro espaço)

não era incomum ouvir a pergunta “Quão longe é daqui até lá?” respondida

por um “Mais ou menos uma hora, ou um pouco menos se você caminhar

rápido”. Num tempo ainda anterior à minha infância, suponho que a

resposta mais comum teria sido “Se você sair agora, estará lá por volta do

meio-dia” ou “Melhor sair agora, se você quiser chegar antes que escureça”.

Hoje em dia, pode-se ouvir ocasionalmente essas respostas. Mas serão

normalmente precedidas por uma solicitação para ser mais específico:

“Você vai de carro ou a pé?”

“Longe” e “tarde”, assim como “perto” e “cedo”, significavam quase a

mesma coisa: exatamente quanto esforço seria necessário para que um ser

humano percorresse uma certa distância — fosse caminhando, semeando ou

arando. Se as pessoas fossem instadas a explicar o que entendiam por

“espaço” e “tempo”, poderiam ter dito que “espaço” é o que se pode

percorrer em certo tempo, e que “tempo” é o que se precisa para percorrê-

lo. Se não fossem muito pressionados, porém, não entrariam no jogo da

definição. E por que deveriam? A maioria das coisas que fazem parte da

vida cotidiana são compreendidas razoavelmente até que se precise defini-

las; e, a menos que solicitados, não precisaríamos defini-las. O modo como

compreendíamos essas coisas que hoje tendemos a chamar de “espaço” e

“tempo” era não apenas satisfatório, mas tão preciso quanto necessário, pois

era o wetware — os humanos, os bois e os cavalos — que fazia o esforço e

punha os limites. Um par de pernas humanas pode ser diferente de outros,

mas a substituição de um par por outro não faria uma diferença

suficientemente grande para requerer outras medidas além da capacidade

dos músculos humanos.

No tempo das Olimpíadas gregas ninguém pensava em registrar os

recordes olímpicos, e menos ainda em quebrá-los. A invenção e

disponibilidade de algo além da força dos músculos humanos ou animais foi

necessária para que essas idéias fossem concebidas e para a decisão de

atribuir importância às diferenças entre as capacidades de movimento dos

indivíduos humanos — e, assim, para que a pré-história do tempo, essa

longa era da prática limitada pelo wetware, terminasse, e a história do

tempo começasse. A história do tempo começou com a modernidade. De fato, a modernidade é, talvez mais que qualquer outra coisa, a história do

tempo: a modernidade é o tempo em que o tempo tem uma história.

Se pesquisarmos em livros de história a razão por que espaço e tempo,

outrora mesclados nos afazeres da vida humana, se separaram e se

afastaram no pensamento e prática dos homens, encontraremos com

freqüência histórias edificantes de descobertas realizadas pelos valentes

cavaleiros da razão — filósofos intrépidos e cientistas corajosos.

Aprendemos sobre astrônomos que mediam distâncias e a velocidade dos

corpos celestes, sobre Newton calculando as relações exatas entre a

aceleração e a distância percorrida pelo “corpo físico” e seus enormes

esforços para expressar tudo isso em números — as mais abstratas e

objetivas de todas as medidas imagináveis; ou sobre Kant, impressionado

por suas realizações a ponto de conceber espaço e tempo como duas

categorias transcendentalmente separadas e mutuamente independentes do

conhecimento humano. E no entanto, por mais justificável que seja a

vocação dos filósofos de pensar sub specie aeternitatis, é sempre um

pedaço do infinito e da eternidade, sua parte finita correntemente ao alcance

da prática humana, que fornece o “campo epistemológico” para a reflexão

filosófica e científica e o material empírico que pode ser trabalhado para

construir verdades eternas; essa limitação, na verdade, separa os grandes

pensadores dos outros que desapareceram na história como fantasistas,

fabricantes de mitos, poetas e outros sonhadores. E assim algo deve ter

acontecido à amplitude e à capacidade de carga da prática humana para que

os soberanos espaço e tempo repentinamente se ponham a encarar, olhos

nos olhos, os filósofos.

Esse “algo” foi, podemos adivinhar, a construção de veículos que

podiam se mover mais rápido que as pernas dos humanos ou dos animais; e

veículos que, em clara oposição aos humanos e aos cavalos, podem ser

tornados mais e mais velozes, de tal modo que atravessar distâncias cada

vez maiores tomará cada vez menos tempo. Quando tais meios de

transporte não-humanos e não-animais apareceram, o tempo necessário para

viajar deixou de ser característica da distância e do inflexível “wetware”;

tornou-se, em vez disso, atributo da técnica de viajar. O tempo se tornou o

problema do “hardware” que os humanos podem inventar, construir,

apropriar, usar e controlar, não do “wetware” impossível de esticar, nem

dos poderes caprichosos e extravagantes do vento e da água, indiferentes à

manipulação humana; por isso mesmo, o tempo se tornou um fator independente das dimensões inertes e imutáveis das massas de terra e dos

mares. O tempo é diferente do espaço porque, ao contrário deste, pode ser

mudado e manipulado; tornou-se um fator de disrupção: o parceiro

dinâmico no casamento tempo-espaço.

Numa declaração famosa, Benjamin Franklin disse que tempo é

dinheiro; pôde dizê-lo porque antes já havia definido o homem como o

“animal que faz ferramentas”. Resumindo a experiência de mais dois

séculos, John Fitzgerald Kennedy advertia seus concidadãos norte-

americanos a usarem o “tempo como uma ferramenta, e não como um

sofá”. O tempo se tornou dinheiro depois de se ter tornado uma ferramenta

(ou arma?) voltada principalmente a vencer a resistência do espaço:

encurtar as distâncias, tornar exeqüível a superação de obstáculos e limites

à ambição humana. Com essa arma, foi possível estabelecer a meta da

conquista do espaço e, com toda seriedade, iniciar sua implementação.

Os reis talvez pudessem viajar mais confortavelmente que seus

prepostos, e os barões mais convenientemente que seus servos; mas, em

princípio, nenhum deles poderia viajar muito mais depressa que qualquer

dos outros. O wetware tornava os humanos semelhantes; o hardware os

tornava diferentes. Essas diferenças (ao contrário das que derivavam da

dissimilitude dos músculos humanos) eram resultados de ações humanas

antes de se transformarem em condições de sua eficácia, e antes que

pudessem ser utilizadas para criar ainda mais diferenças, e diferenças mais

profundas e menos contestáveis do que antes. Com o advento do vapor e do

motor a explosão, a igualdade fundada no wetware chegou ao fim. Algumas

pessoas podiam agora chegar onde queriam muito antes que as outras;

podiam também fugir e evitar serem alcançadas ou detidas. Quem viajasse

mais depressa podia reivindicar mais território — e controlá-lo, mapeá-lo e

supervisioná-lo —, mantendo distância em relação aos competidores e

deixando os intrusos de fora.

Pode-se associar o começo da era moderna a várias facetas das práticas

humanas em mudança, mas a emancipação do tempo em relação ao espaço,

sua subordinação à inventividade e à capacidade técnica humanas e,

portanto, a colocação do tempo contra o espaço como ferramenta da

conquista do espaço e da apropriação de terras não são um momento pior

para começar uma avaliação que qualquer outro ponto de partida. A

modernidade nasceu sob as estrelas da aceleração e da conquista de terras, e

essas estrelas formam uma constelação que contém toda a informação sobre seu caráter, conduta e destino. Para lê-la, basta um sociólogo treinado; não é