Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 26 de 42

Páginas do PDF

Modernidade Líquida

Capítulo 4. Trabalho

4 • TRABALHO

 

A Prefeitura de Leeds, cidade em que passei os últimos 30 anos, é um

monumento majestoso às enormes ambições e autoconfiança dos capitães

da Revolução Industrial. Construída em meados do século XIX, grandiosa e

rica, pesada e em pedra, foi feita para durar para sempre, como o Partenon e

os templos egípcios cuja arquitetura imita. Contém, como peça central, uma

enorme sala de assembléias onde os cidadãos deviam se encontrar

regularmente para debater e decidir os próximos passos na direção da maior

glória da cidade e do Império Britânico. Sob o teto desse salão estão

detalhadas em letras douradas e púrpura as regras que devem guiar quem

quer que se junte a essa caminhada. Entre os princípios sacrossantos da

ética burguesa segura e assertiva, como “honestidade é a melhor política”,

“auspicium melioris aevi” ou “lei e ordem”, um preceito chama atenção por

sua firme e segura brevidade: “Para frente”. Ao contrário do visitante

contemporâneo da Prefeitura, os antigos cidadãos que compuseram o

código não terão tido dúvidas sobre seu significado. Seguramente não

sentiram necessidade de perguntar o sentido da idéia de “andar para frente”,

chamada “progresso”. Eles sabiam a diferença entre “para frente” e “para

trás”. E podiam dizer que sabiam porque praticavam a ação que fazia a

diferença: ao lado do “para frente” outro preceito foi pintado em dourado e

púrpura — “labor omnia vincit”. “Para frente” era o destino, o trabalho era

o veículo que os conduziria, e os antigos cidadãos que se encarregaram da

Prefeitura tinham sentimentos suficientemente fortes para persistir na trilha

o tempo necessário para alcançar seu destino.

Em 25 de maio de 1916, Henry Ford dizia ao correspondente da

Chicago Tribune:

 

A história é mais ou menos uma bobagem. Nós não queremos tradição.

Queremos viver no presente, e a única história digna de interesse é a

história que fazemos hoje.

Ford era famoso por dizer em alto e bom som o que outros pensariam

duas vezes antes de admitir. Progresso? Não se pense nele como “obra da

história”. É obra nossa, de nós, que vivemos no presente. A única história

que conta é a que ainda não está feita, mas está sendo feita neste momento e

se destina a ser feita: é o futuro, do qual outro americano pragmático e

objetivo, Ambrose Bierce, escrevera dez anos antes em seu Devil’s

Dictionary que é “o tempo quando nossos negócios prosperam, nossos

amigos são verdadeiros e nossa felicidade está assegurada”.

A autoconfiança moderna deu um brilho inteiramente novo à eterna

curiosidade humana sobre o futuro. As utopias modernas nunca foram

meras profecias, e menos ainda sonhos inúteis: abertamente ou de modo

encoberto, eram tanto declarações de intenções quanto expressões de fé em

que o que se desejava podia e devia ser realizado. O futuro era visto como

os demais produtos nessa sociedade de produtores: alguma coisa a ser

pensada, projetada e acompanhada em seu processo de produção. O futuro

era a criação do trabalho, e o trabalho era a fonte de toda criação. Ainda em

1967, Daniel Bell escreveu que

 

toda sociedade hoje está conscientemente comprometida com o

crescimento econômico, com a elevação do padrão de vida de seu povo,

e portanto [o grifo é meu] com o planejamento, direção e controle da

mudança social. O que faz os estudos atuais tão completamente

diferentes dos anteriores é que eles se orientam para propósitos

específicos de política social; e junto com essa nova dimensão são

formulados, autoconscientemente, por uma nova metodologia que

promete oferecer fundamentos mais confiáveis para alternativas e

escolhas realistas …1

 

Ford teria proclamado triunfante o que Pierre Bourdieu notou

recentemente com tristeza: para dominar o futuro é preciso estar com os pés

firmemente plantados no presente.2 Os que mantêm o presente nas mãos

têm confiança de que serão capazes de forçar o futuro a fazer com que seus

negócios prosperem, e por essa mesma razão podem ignorar o passado;

eles, e somente eles, podem tratar a história passada como “bobagem”, que

se traduz, em termos mais elegantes, como “sem sentido” ou “mistificação”.

Ou, pelo menos, dar ao passado tanta atenção quanto as coisas desse tipo

merecem. O progresso não eleva ou enobrece a história. O “progresso” é uma declaração da crença de que a história não conta e da resolução de