Modernidade Líquida
Capítulo 4. Trabalho
4 • TRABALHO
A Prefeitura de Leeds, cidade em que passei os últimos 30 anos, é um
monumento majestoso às enormes ambições e autoconfiança dos capitães
da Revolução Industrial. Construída em meados do século XIX, grandiosa e
rica, pesada e em pedra, foi feita para durar para sempre, como o Partenon e
os templos egípcios cuja arquitetura imita. Contém, como peça central, uma
enorme sala de assembléias onde os cidadãos deviam se encontrar
regularmente para debater e decidir os próximos passos na direção da maior
glória da cidade e do Império Britânico. Sob o teto desse salão estão
detalhadas em letras douradas e púrpura as regras que devem guiar quem
quer que se junte a essa caminhada. Entre os princípios sacrossantos da
ética burguesa segura e assertiva, como “honestidade é a melhor política”,
“auspicium melioris aevi” ou “lei e ordem”, um preceito chama atenção por
sua firme e segura brevidade: “Para frente”. Ao contrário do visitante
contemporâneo da Prefeitura, os antigos cidadãos que compuseram o
código não terão tido dúvidas sobre seu significado. Seguramente não
sentiram necessidade de perguntar o sentido da idéia de “andar para frente”,
chamada “progresso”. Eles sabiam a diferença entre “para frente” e “para
trás”. E podiam dizer que sabiam porque praticavam a ação que fazia a
diferença: ao lado do “para frente” outro preceito foi pintado em dourado e
púrpura — “labor omnia vincit”. “Para frente” era o destino, o trabalho era
o veículo que os conduziria, e os antigos cidadãos que se encarregaram da
Prefeitura tinham sentimentos suficientemente fortes para persistir na trilha
o tempo necessário para alcançar seu destino.
Em 25 de maio de 1916, Henry Ford dizia ao correspondente da
Chicago Tribune:
A história é mais ou menos uma bobagem. Nós não queremos tradição.
Queremos viver no presente, e a única história digna de interesse é a
história que fazemos hoje.
Ford era famoso por dizer em alto e bom som o que outros pensariam
duas vezes antes de admitir. Progresso? Não se pense nele como “obra da
história”. É obra nossa, de nós, que vivemos no presente. A única história
que conta é a que ainda não está feita, mas está sendo feita neste momento e
se destina a ser feita: é o futuro, do qual outro americano pragmático e
objetivo, Ambrose Bierce, escrevera dez anos antes em seu Devil’s
Dictionary que é “o tempo quando nossos negócios prosperam, nossos
amigos são verdadeiros e nossa felicidade está assegurada”.
A autoconfiança moderna deu um brilho inteiramente novo à eterna
curiosidade humana sobre o futuro. As utopias modernas nunca foram
meras profecias, e menos ainda sonhos inúteis: abertamente ou de modo
encoberto, eram tanto declarações de intenções quanto expressões de fé em
que o que se desejava podia e devia ser realizado. O futuro era visto como
os demais produtos nessa sociedade de produtores: alguma coisa a ser
pensada, projetada e acompanhada em seu processo de produção. O futuro
era a criação do trabalho, e o trabalho era a fonte de toda criação. Ainda em
1967, Daniel Bell escreveu que
toda sociedade hoje está conscientemente comprometida com o
crescimento econômico, com a elevação do padrão de vida de seu povo,
e portanto [o grifo é meu] com o planejamento, direção e controle da
mudança social. O que faz os estudos atuais tão completamente
diferentes dos anteriores é que eles se orientam para propósitos
específicos de política social; e junto com essa nova dimensão são
formulados, autoconscientemente, por uma nova metodologia que
promete oferecer fundamentos mais confiáveis para alternativas e
escolhas realistas …1
Ford teria proclamado triunfante o que Pierre Bourdieu notou
recentemente com tristeza: para dominar o futuro é preciso estar com os pés
firmemente plantados no presente.2 Os que mantêm o presente nas mãos
têm confiança de que serão capazes de forçar o futuro a fazer com que seus
negócios prosperem, e por essa mesma razão podem ignorar o passado;
eles, e somente eles, podem tratar a história passada como “bobagem”, que
se traduz, em termos mais elegantes, como “sem sentido” ou “mistificação”.
Ou, pelo menos, dar ao passado tanta atenção quanto as coisas desse tipo
merecem. O progresso não eleva ou enobrece a história. O “progresso” é uma declaração da crença de que a história não conta e da resolução de