Modernidade Líquida
A crítica da política-vida
construção. Era uma época de pranchetas e projetos — não tanto para
mapear o território social como para erguer tal território até o nível de
lucidez e lógica de que só os mapas são capazes. Era uma época que
pretendia impor a razão à realidade por decreto, remanejar as estruturas de
modo a estimular o comportamento racional e a elevar os custos de todo
comportamento contrário à razão tão alto que os impedisse. Em razão do
decreto, negligenciar os legisladores e as agências coercitivas não era,
obviamente, uma opção. A questão da relação com o Estado, fosse
cooperativa ou contestadora, era seu dilema de formação; de fato, uma
questão de vida ou morte.
A crítica da política-vida
Como o Estado não mais promete ou deseja agir como plenipotenciário da
razão e mestre-de-obras da sociedade racional; como as pranchetas nos
escritórios da boa sociedade estão em processo de ser eliminadas; e como a
variada multidão de conselheiros, intérpretes e assessores assume cada vez
mais as tarefas previamente reservadas aos legisladores, não é de
surpreender que os críticos que desejavam ser instrumentais na atividade de
emancipação lamentem sua privação. Não apenas o suposto veículo — e,
simultaneamente, o alvo da luta pela libertação — está se esfacelando; o
dilema central, constitutivo, da teoria crítica, o próprio eixo em torno do
qual girava o discurso crítico, dificilmente sobreviverá ao desaparecimento
do veículo. O discurso crítico, como muitos podem sentir, está a ponto de
ficar sem objeto. E muitos podem agarrar-se — e de fato o fazem —
desesperadamente à estratégia ortodoxa da crítica apenas para confirmar,
inadvertidamente, que o discurso carece, de fato, de um objeto tangível, à
medida que os diagnósticos são cada vez mais desligados das realidades
correntes e as propostas são cada vez mais nebulosas; muitos insistem em
travar velhas batalhas em que ganham competência e preferem isso a uma
mudança do campo de batalha familiar e confiável para um novo território
ainda não inteiramente explorado, de muitas maneiras uma terra incognita.
As perspectivas para uma teoria crítica (para não falar da demanda por
ela) não estão, porém, amarradas às formas de vida hoje em recuo da
mesma maneira que a autoconsciência dos críticos está amarrada às formas, habilidades e programas desenvolvidos no curso do enfrentamento com
elas. Foi só o sentido atribuído à emancipação sob condições passadas e não
mais presentes que ficou obsoleto — não a tarefa da emancipação em si.
Outra coisa está agora em jogo. Há uma nova agenda pública de
emancipação ainda à espera de ser ocupada pela teoria crítica. Essa nova
agenda pública, ainda à espera de sua política pública crítica, está
emergindo junto com a versão “liquefeita” da condição humana moderna —
e em particular na esteira da “individualização” das tarefas da vida que
derivam dessa condição.
Essa nova agenda surge do hiato previamente discutido entre a
individualidade de jure e de facto, ou entre a “liberdade negativa”
legalmente imposta e a ausente — ou, pelo menos, longe de universalmente
disponível — “liberdade positiva”, isto é, a genuine potência da auto-
afirmação. A nova condição não é muito diferente daquela que, segundo a
Bíblia, levou à rebelião dos israelitas e ao êxodo do Egito. “O faraó ordenou
aos inspetores e seus capatazes que deixassem de suprir o povo com a palha
utilizada para fazer tijolos … ‘Que eles vão e colham sua própria palha,
mas cuidem para que atinjam a mesma quota de tijolos de antes.’” Quando
os capatazes argumentaram que não se pode fazer tijolos eficientemente a
menos que a palha seja devidamente fornecida e acusaram o faraó de
ordenar o impossível, ele inverteu a responsabilidade pelo fracasso: “Vocês
são preguiçosos, vocês são preguiçosos.” Hoje não há faraós dando ordens
aos capatazes para que açoitem os displicentes. (Até o açoite se tornou um
trabalho “faça-você-mesmo” e foi substituído pela auto-flagelação). Mas a
tarefa de providenciar a palha foi igualmente abandonada pelas autoridades
do momento, que dizem aos produtores de tijolos que só sua preguiça os
impede de fazer o trabalho adequadamente — e acima de tudo que o façam
para sua própria satisfação.
O trabalho de que os homens estão encarregados hoje é muito
semelhante ao que era desde o começo dos tempos modernos: a
autoconstituir a vida individual e tecer e manter as redes de laços com
outros indivíduos em processo de autoconstituição. Esse trabalho nunca foi
questionado pela teoria crítica. O que estes teóricos criticavam era a
sinceridade e rapidez com que os indivíduos eram libertados para realizar o
trabalho que lhes tinha sido atribuído. A teoria crítica acusava de
duplicidade ou ineficiência aqueles que deveriam ter providenciado as
condições adequadas para a auto-afirmação: havia limitações demais à liberdade de escolha e havia a tendência totalitária intrínseca ao modo como
a sociedade moderna fora estruturada e conduzida — tendência essa que
ameaçava abolir a liberdade de uma vez, substituindo a liberdade de escolha
pela tediosa homogeneidade, imposta ou sub-repticiamente introduzida.
O destino do agente livre está cheio de antinomias difíceis de avaliar e
ainda mais difíceis de resolver. Consideremos, por exemplo, a contradição
das identidades autoconstituídas que devem ser suficientemente sólidas para
serem reconhecidas como tais e ao mesmo tempo flexíveis o suficiente para
não impedir a liberdade de movimentos futuros em circunstâncias
constantemente cambiantes e voláteis. Ou a precariedade das parcerias
humanas, agora sobrecarregadas de expectativas maiores que nunca, mas
mal institucionalizadas (se institucionalizadas), e portanto menos resistentes
à carga adicional. Ou o triste compromisso da responsabilidade repossuída,
perigosamente à deriva entre as rochas da indiferença e da coerção. Ou a
fragilidade de toda ação comum, que tem como apoio apenas o entusiasmo
e a dedicação dos atores, mas que precisa de algo mais durável para manter
sua integridade durante o tempo que leva para alcançar seus propósitos. Ou
a notória dificuldade de generalizar as experiências, vividas como
inteiramente pessoais e subjetivas, em problemas que possam ser inscritos
na agenda pública e tornar-se questões de política pública. Esses são apenas
alguns exemplos, que oferecem uma visão justa do tipo de desafio diante
dos críticos que desejam reconectar sua disciplina à agenda da política
pública.
Com boas razões os críticos suspeitavam de que, na versão iluminista
do “déspota esclarecido”, tal como incorporada nas práticas políticas da
modernidade, o que conta é o resultado — a sociedade racionalmente
estruturada e dirigida; suspeitavam de que as vontades, desejos e propósitos
individuais, a vis formandi e a libido formandi individuais, a propensão
poiética a criar novas significações independentes de funções, usos e
propósitos, não eram mais que recursos, ou mesmo obstáculos no caminho.
Contra essa prática, ou sua suposta tendência, os críticos formularam a
visão de uma sociedade que se rebela contra essa perspectiva, de uma
sociedade em que precisamente essas vontades, desejos e propósitos, e sua
satisfação, são o que conta e deve ser honrado — visão de uma sociedade
que, por isso, milita contra todos os esquemas de perfeição impostos aos
desejos (ou que os desconsideram) dos homens e mulheres que são
incluídos sob seu nome genérico. A única “totalidade” reconhecida e aceitável pela maioria dos filósofos da escola crítica era a que poderia
emergir das ações de indivíduos criativos e livres para escolher.
Havia um traço anarquista em toda a teorização crítica: todo poder era
suspeito, via-se o inimigo apenas no lado do poder, e o mesmo inimigo era
acusado de todos os retrocessos e frustrações sofridas pela liberdade
(inclusive pela falta de valor das tropas que deveriam enfrentar
valentemente suas guerras de libertação, como no caso do debate da
“cultura de massas”). Esperava-se que o perigo viesse e os golpes fossem
desferidos do lado “público”, sempre pronto a invadir e colonizar o
“privado”, o “subjetivo”, o “individual”. Muito menos atenção — quase
nenhuma — foi dada aos perigos que se ocultavam no estreitamento e
esvaziamento do espaço público e à possibilidade da invasão inversa: a
colonização da esfera pública pela privada. E no entanto essa eventualidade
subestimada e subdiscutida se tornou hoje o principal obstáculo à
emancipação, que em seu estágio presente só pode ser descrita como a
tarefa de transformar a autonomia individual de jure numa autonomia de
facto.
O poder político implica uma liberdade individual incompleta, mas sua
retirada ou desaparecimento prenuncia a impotência prática da liberdade
legalmente vitoriosa. A história da emancipação moderna desloca-se de um
confronto com o primeiro perigo para um confronto com o segundo. Para
utilizar os termos de Isaiah Berlin, pode-se dizer que, depois da luta
vitoriosa pela “liberdade negativa”, as alavancas necessárias para
transformá-la numa “liberdade positiva” — isto é, a liberdade para
estabelecer a gama de opções e a agenda para a escolha entre elas —
quebraram. O poder político perdeu muito de sua terrível e ameaçadora
potência opressiva — mas também perdeu boa parte de sua potência
capacitadora. A guerra pela emancipação não acabou. Mas, para progredir,
deve agora ressuscitar o que na maior parte de sua história lutou por destruir
e afastar do caminho. A verdadeira libertação requer hoje mais, e não
menos, da “esfera pública” e do “poder público”. Agora é a esfera pública
que precisa desesperadamente de defesa contra o invasor privado — ainda
que, paradoxalmente, não para reduzir, mas para viabilizar a liberdade
individual.
Como sempre, o trabalho do pensamento crítico é trazer à luz os muitos
obstáculos que se amontoam no caminho da emancipação. Dada a natureza
das tarefas de hoje, os principais obstáculos que devem ser examinados urgentemente estão ligados às crescentes dificuldades de traduzir os
problemas privados em questões públicas, de condensar problemas
intrinsecamente privados em interesses públicos que são maiores que a
soma de seus ingredientes individuais, de recoletivizar as utopias
privatizadas da “política-vida” de tal modo que possam assumir novamente
a forma das visões da sociedade “boa” e “justa”. Quando a política pública
abandona suas funções e a “política-vida” assume, os problemas
enfrentados pelos indivíduos de jure em seus esforços para se tornarem
indivíduos de facto passam a ser não-aditivos e não-cumulativos,
destituindo assim a esfera pública de toda substância que não seja a do lugar
em que as aflições individuais são confessadas e expostas publicamente. Do
mesmo modo, a individualização parece ser uma via de mão única, e
também parece destruir, ao avançar, todas as ferramentas que poderiam ser
usadas para implementar seus objetivos de outrora.
Essa tarefa coloca a teoria crítica cara a cara com um novo destinatário.
O espectro do Grande Irmão deixou de perambular pelos sótãos e porões do
mundo quando o déspota esclarecido deixou de habitar as salas de estar e
recepção. Em suas novas versões, moderno-líquidas e drasticamente
encolhidas, ambos encontram abrigo no domínio diminuto, em miniatura,
da políticavida pessoal; é lá que as ameaças e oportunidades da autonomia
individual — essa autonomia que não se pode realizar exceto na sociedade
autônoma — devem ser procuradas e localizadas. A busca de uma vida em
comum alternativa deve começar pelo exame das alternativas de política-
vida.
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