Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 12 de 42

Páginas do PDF

Modernidade Líquida

Pare de me dizer; mostre-me!

duradouro e garantido contra a decadência é, porém, a proverbial mosca na

sopa. As perdas equivalem aos ganhos. A vida está fadada a navegar entre

os dois, e nenhum marinheiro pode alardear ter encontrado um itinerário

seguro e sem riscos.

O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos

pratos deliciosos que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar

de todos. Os comensais são consumidores, e a mais custosa e irritante das

tarefas que se pode pôr diante de um consumidor é a necessidade de

estabelecer prioridades: a necessidade de dispensar algumas opções

inexploradas e abandoná-las. A infelicidade dos consumidores deriva do

excesso e não da falta de escolha. “Será que utilizei os meios à minha

disposição da melhor maneira possível?” é a pergunta que mais assombra e

causa insônia ao consumidor. Como disse Marina Bianchi num trabalho

coletivo de economistas que tinham em mente os vendedores de bens de

consumo,

 

no caso do consumidor, a função objetiva … está vazia …

Os fins coerentemente se equivalem aos meios, mas os próprios fins

não são escolhidos racionalmente …

Hipoteticamente, os consumidores, mas não as firmas, não podem

nunca errar, ou ser pegos errando.10

 

Mas se não se pode errar, também não se pode saber se se está certo. Se

não há movimentos errados, não há nada que permita distinguir um

movimento como melhor, e assim nada que permita reconhecer o

movimento certo entre as várias alternativas — nem antes nem depois de

fazer o movimento. É uma bênção mista que o perigo do erro não esteja nas

cartas — uma alegria duvidosa, certamente, dado que seu preço é a

incerteza perpétua e um desejo que provavelmente nunca será saciado. É

uma boa notícia, uma promessa de permanecer no ramo, para os

vendedores, mas para os compradores é a certeza de que continuarão aflitos.

 

Pare de me dizer; mostre-me!

O capitalismo pesado, no estilo fordista, era o mundo dos que ditavam as

leis, dos projetistas de rotinas e dos supervisores; o mundo de homens e

mulheres dirigidos por outros, buscando fins determinados por outros, do

modo determinado por outros. Por essa razão era também o mundo das

autoridades: de líderes que sabiam mais e de professores que ensinavam a

proceder melhor.

O capitalismo leve, amigável com o consumidor, não aboliu as

autoridades que ditam leis, nem as tornou dispensáveis. Apenas deu lugar e

permitiu que coexistissem autoridades em número tão grande que nenhuma

poderia se manter por muito tempo e menos ainda atingir a posição de

exclusividade. Ao contrário do erro, a verdade é só uma, e pode ser

reconhecida como verdade (isto é, com o direito de declarar erradas todas as

alternativas a ela mesma) justamente por ser única. Parando para pensar,

“numerosas autoridades” é uma contradição em termos. Quando as

autoridades são muitas, tendem a cancelar-se mutuamente, e a única

autoridade efetiva na área é a que pode escolher entre elas. É por cortesia de

quem escolhe que a autoridade se torna uma autoridade. As autoridades não

mais ordenam; elas se tornam agradáveis a quem escolhe; tentam e

seduzem.

O “líder” foi um produto não-intencional, e um complemento

necessário, do mundo que tinha por objetivo a “boa sociedade”, ou a

sociedade “certa e apropriada”, e procurava manter as alternativas

impróprias à distância. O mundo da “modernidade líquida” não faz nem

uma coisa nem outra. A infame frase de efeito de Margaret Thatcher “não

existe essa coisa de sociedade” é ao mesmo tempo uma reflexão perspicaz

sobre a mudança no caráter do capitalismo, uma declaração de intenções e

uma profecia autocumprida: em seus rastros veio o desmantelamento das

redes normativas e protetoras, que ajudavam o mundo em seu percurso de

tornar-se carne. “Não-sociedade” significa não ter nem utopia nem distopia:

como Peter Drucker, o guru do capitalismo leve, disse, “não mais salvação

pela sociedade” — sugerindo (ainda que por omissão e não por afirmação)

que, por implicação, a responsabilidade pela danação não pode ficar com a

sociedade; a redenção e a condenação são produzidas pelo indivíduo e

somente por ele — o resultado do que o agente livre fez livremente de sua

vida.

Não faltam, obviamente, pessoas que afirmam “estar por dentro”, e

muitas delas têm legiões de seguidores prontos a lhes fazer coro. Tais pessoas “por dentro”, mesmo aquelas cujo conhecimento não foi posto

publicamente em dúvida, não são, no entanto, líderes; elas são, no máximo,

conselheiros — e uma diferença crucial entre líderes e conselheiros é que os

primeiros devem ser seguidos e os segundos precisam ser contratados e

podem ser demitidos. Os líderes demandam e esperam disciplina; os

conselheiros podem, na melhor das hipóteses, contar com a boa vontade do

outro de ouvir e prestar atenção. E devem primeiro conquistar essa vontade

bajulando os possíveis ouvintes. Outra diferença crucial entre líderes e

conselheiros é que os primeiros agem como intermediários entre o bem

individual e o “bem de todos”, ou, (como diria C. Wright Mills) entre as

preocupações privadas e as questões públicas. Os conselheiros, ao

contrário, cuidam de nunca pisar fora da área fechada do privado. Doenças

são individuais, assim como a terapia; as preocupações são privadas, assim

como os meios de lutar para resolvê-las. Os conselhos que os conselheiros

oferecem se referem à política-vida, não à Política com P maiúsculo; eles se

referem ao que as pessoas aconselhadas podem fazer elas mesmas e para si

próprias, cada uma para si — não ao que podem realizar em conjunto para

cada uma delas, se unirem forças.

Em um dos maiores sucessos entre os popularíssimos livros de auto-

ajuda (vendeu mais de cinco milhões de cópias desde sua publicação em

1987), Melody Beattie adverte/aconselha seus leitores: “A maneira mais

garantida de enlouquecer é envolver-se com os assuntos de outras pessoas, e

a maneira mais rápida de tornar-se são e feliz é cuidar dos próprios.” O

livro deve seu sucesso instantâneo ao título sugestivo (Codependent no

More), que resume seu conteúdo: tentar resolver os problemas de outras

pessoas nos torna dependentes, e a dependência oferece reféns ao destino

— ou, mais precisamente, a coisas que não dominamos e a pessoas que não

controlamos; portanto, cuidemos de nossos problemas, e apenas de nossos

problemas, com a consciência limpa. Há pouco a ganhar fazendo o trabalho

de outros, e isso desviaria nossa atenção do trabalho que ninguém pode

fazer senão nós mesmos. Tal mensagem soa agradável — como uma

confirmação, uma absolvição e uma luz verde necessária — a todos os que,

sós, são forçados a seguir, a favor ou contra seu próprio juízo, e não sem

dor na consciência, a exortação de Samuel Butler: “No fim, o prazer é

melhor guia que o direito ou o dever.”

“Nós” é o pronome pessoal usado com mais freqüência pelos líderes. Já

os conselheiros têm pouco que fazer com ele: “nós” não é mais que um agregado de “eus”, e o agregado, ao contrário do “grupo” de Émile

Durkheim, não é maior que a soma de suas partes. Ao fim da sessão de

aconselhamento, as pessoas aconselhadas estão tão sós quanto antes. Isso

quando sua solidão não foi reforçada: quando sua impressão de que seriam

abandonadas à sua própria sorte não foi corroborada e transformada em

uma quase certeza. Qualquer que fosse o conteúdo do aconselhamento, este

se referia a coisas que a pessoa aconselhada deveria fazer por si mesma,

aceitando inteira responsabilidade por fazê-las de maneira apropriada, e não

culpando a ninguém pelas conseqüências desagradáveis que só poderiam

ser atribuídas a seu próprio erro ou negligência.

O melhor conselheiro é o que está ciente do fato de que aqueles que

receberão os conselhos querem uma lição-objeto. Desde que a natureza dos

problemas seja tal que eles possam ser enfrentados pelos indivíduos por

conta própria e por esforços individuais, o que as pessoas em busca de

conselho precisam (ou acreditam precisar) é um exemplo de como outros

homens e mulheres, diante de problemas semelhantes, se desincumbem

deles. E elas precisam do exemplo por razões ainda mais essenciais: o

número dos que se sentem “infelizes” é maior que o dos que conseguem

indicar e identificar as causas de sua infelicidade. O sentimento de “estar

infeliz” é muitas vezes difuso e solto; seus contornos são apagados, suas

raízes, espalhadas; precisa tornar-se “tangível” — moldado e nomeado, a

fim de tornar o igualmente vago desejo de felicidade uma tarefa específica.

Olhando para a experiência de outras pessoas, tendo uma idéia de suas

dificuldades e atribulações, esperamos descobrir e localizar os problemas

que causaram nossa própria infelicidade, dar-lhes um nome e, portanto,

saber para onde olhar para encontrar meios de resistir a eles ou resolvê-los.

Explicando a fenomenal popularidade do Jane Fonda’s Workout Book

(1981) e a técnica de auto-disciplina que esse livro pôs à disposição de

milhões de mulheres norte-americanas, Hilary Radner observa que

 

a instrutora se oferece como um exemplo … mais do que como uma

autoridade…

A mulher que se exercita possui seu próprio corpo pela

identificação com uma imagem que não é a sua própria mas a dos

corpos que lhe são oferecidos como exemplo.

Jane Fonda é bastante explícita sobre a essência do que oferece e

bastante direta sobre o tipo de exemplo que seus leitores devem seguir:

“Gosto muito de pensar que meu corpo é produto de mim mesma, é meu

sangue e entranhas. É minha responsabilidade.” 11 A mensagem de Fonda

para toda mulher é que trate seu corpo como sua propriedade (meu sangue,

minhas entranhas), seu próprio produto e, acima de tudo, sua própria

responsabilidade. Para sustentar e reforçar o amour de soi pós-moderno, ela

invoca (ao lado da tendência de consumidora de auto-identificar-se pela

propriedade) a memória do muito pré-pós-moderno — em verdade mais

pré-moderno do que moderno — instinto de artesanato: o produto de meu

trabalho é tão bom quanto (e não melhor que) a habilidade, atenção e

cuidado que ponho em sua produção. Quaisquer que sejam os resultados,

não tenho ninguém mais a quem possa elogiar (ou culpar, se for o caso). O

lado inverso da mensagem também não é ambíguo, ainda que não soletrado

com a mesma clareza: você deve a seu corpo cuidado, e se negligenciar esse

dever, você deve sentir-se culpada e envergonhada. Imperfeições de seu

corpo são sua culpa e vergonha. Mas a redenção do pecado está ao alcance

das mãos da pecadora, e só de suas mãos.

Repito com Hilary Radner: ao dizer tudo isso, Jane Fonda não age como

autoridade (como quem formula a lei, estabelece a norma, prega ou ensina).

Ela se “oferece como exemplo”. Sou famosa e amada; sou um objeto de

desejo e admiração. Por quê? Qualquer que seja a razão, existe porque eu a

fiz existir. Olhem meu corpo: é esguio, flexível, tem boa forma —

perenemente jovem. Você certamente gostaria de ter — de ser — um corpo

como o meu. Meu corpo é meu trabalho; se você se exercitar como eu, você

poderá tê-lo. Se você sonha em “ser como Jane Fonda”, lembre-se que fui

eu, Jane Fonda, que fiz de mim a Jane Fonda desses sonhos.

Ser rica e famosa ajuda, é claro; confere peso à mensagem. Embora

Jane Fonda se esforce para se pôr como exemplo, e não autoridade, seria

tolo negar que, sendo quem é, seu exemplo traz “naturalmente” uma

autoridade que outros exemplos teriam que trabalhar muito para obter. Jane

Fonda é de certa maneira um caso excepcional: ela herdou a condição de

“estar sob os refletores” e atraiu ainda mais refletores sobre suas atividades

muito antes de decidir fazer de seu corpo um exemplo. Em geral, porém,

não podemos estar certos da direção em que funciona a relação causal entre

a disposição de seguir um exemplo e a autoridade da pessoa que serve como

exemplo. Como observou Daniel J. Boorstin — com graça, mas não de brincadeira (em The Image, 1961) —, uma celebridade é uma pessoa

conhecida por ser muito conhecida, e um best-seller é um livro que vende

bem porque está vendendo bem. A autoridade amplia o número de

seguidores, mas, no mundo de fins incertos e cronicamente

subdeterminados, é o número de seguidores que faz — que é — a

autoridade.

Qualquer que seja o caso, no par exemplo-autoridade a parte do

exemplo é a mais importante e mais solicitada. As celebridades com

autoridade suficiente para fazer com que o que dizem seja digno de atenção

mesmo antes que o digam são muito poucas para estrelar os inumeráveis

programas de entrevistas da TV (e raramente aparecem nos mais populares

deles, como o de Oprah e o de Trisha), mas isso não impede que esses

programas sejam uma compulsão diária para milhões de homens e mulheres

ávidos por aconselhamento. A autoridade da pessoa que compartilha sua

história de vida pode fazer com que os espectadores observem o exemplo

com atenção e aumenta os índices de audiência. Mas a falta de autoridade

de quem conta sua vida, o fato de ela não ser uma celebridade, sua

anonimidade, pode fazer com que o exemplo seja mais fácil de seguir e

assim ter um potencial adicional próprio. As não-celebridades, os homens e

mulheres “comuns”, “como você e eu”, que aparecem na telinha apenas por

um momento passageiro (não mais do que o necessário para contar a

história e receber o aplauso merecido, assim como alguma crítica por

esconder partes picantes ou gastar tempo demais com as partes

desinteressantes) são tão desvalidas e infelizes quanto os espectadores,

sofrendo o mesmo tipo de golpes e buscando desesperadamente uma saída

honrosa e um caminho promissor para uma vida mais feliz. E assim, o que

elas fizeram eu também posso fazer; talvez até melhor. Posso aprender

alguma coisa útil tanto com suas vitórias quanto com suas derrotas.

Seria arrogante, além de equivocado, condenar ou ridicularizar o vício

dos programas de entrevistas como efeito da eterna avidez humana pela

fofoca e da “curiosidade barata”. Num mundo repleto de meios, mas

notoriamente pouco claro sobre os fins, as lições retiradas dos programas de

entrevistas respondem a uma demanda genuína e têm valor pragmático

inegável, pois já sabemos que depende de nós mesmos fazer (e continuar a

fazer) o melhor possível de nossas vidas; e como também sabemos que

quaisquer recursos requeridos por tal empreendimento só podem ser

procurados e encontrados entre nossas próprias habilidades, coragem e determinação, é vital saber como agem outras pessoas diante de desafios

semelhantes. Podem ter descoberto estratagemas admiráveis que não

percebemos; podem ter explorado partes da questão a que não demos

atenção ou em que não nos aprofundamos o suficiente.

Essa não é, porém, a única vantagem. Como dito acima, nomear o

problema é em si uma tarefa assustadora, e sem esse nome para o

sentimento de inquietação ou infelicidade não há esperança de cura. No

entanto, embora o sofrimento seja pessoal e privado, uma “linguagem

privada” é uma incongruência. O que quer que seja nomeado, inclusive os

sentimentos mais secretos, pessoais e íntimos, só o é propriamente se os

nomes escolhidos forem de domínio público, se pertencerem a uma

linguagem compartilhada e pública e forem compreendidos pelas pessoas

que se comunicam nessa linguagem. Os programas de entrevistas são lições

públicas de uma linguagem ainda-não-nascida-mas-prestes-a-nascer.

Fornecem as palavras que poderão ser utilizadas para “nomear o problema”

— para expressar, em modos publicamente legíveis, o que até agora era

inefável e assim permaneceria sem tais palavras.

Esse é, em si, um ganho da maior importância — mas há ainda outros.

Nos programas de entrevistas, palavras e frases que se referem a

experiências consideradas íntimas e, portanto, inadequadas como tema de

conversa são pronunciadas em público — para aprovação, divertimento e

aplauso universais. Pela mesma razão, os programas de entrevistas

legitimam o discurso público sobre questões privadas. Tornam o indizível

dizível, o vergonhoso, decente, e transformam o feio segredo em questão de

orgulho. Até certo ponto são rituais de exorcismo — e muito eficazes.

Graças aos programas de entrevistas, posso falar de agora em diante

abertamente sobre coisas que eu pensava (equivocadamente, agora vejo)

infames e infamantes e, portanto, destinadas a permanecer secretas e a

serem sofridas em silêncio. Como minha confissão não é mais secreta,

ganho mais que o conforto da absolvição: não preciso mais me sentir

envergonhado ou temeroso de ser desprezado, condenado por impudência

ou relegado ao ostracismo. Essas são, afinal, as coisas de que as pessoas

falam compungidas na presença de milhões de espectadores. Seus

problemas privados, e assim também meus próprios problemas, tão

parecidos aos deles, são adequados para discussão pública. Não que se

tornem questões públicas; entram na discussão precisamente em sua

condição de questões privadas e, por mais que sejam discutidas, como os leopardos, também não mudam suas pintas. Ao contrário, são reafirmadas

como privadas e emergirão da exposição pública reforçadas em seu caráter

privado. Afinal, todos os que falaram concordaram que, na medida em que

foram experimentadas e vividas privadamente, é assim que essas coisas

devem ser confrontadas e resolvidas.

Muitos pensadores influentes (sendo Jürgen Habermas o mais

importante deles) advertem sobre a possibilidade de que a “esfera privada”

seja invadida, conquistada e colonizada pela “pública”. Voltando à memória

recente da era que inspirou as distopias como as de Huxley ou de Orwell,

pode-se compreender tal temor. As premonições parecem, no entanto, surgir

da leitura do que acontece diante de nossos olhos com as lentes erradas. De

fato, a tendência oposta à advertência é a que parece estar se operando — a

colonização da esfera pública por questões anteriormente classificadas

como privadas e inadequadas à exposição pública.

O que está ocorrendo não é simplesmente outra renegociação da

fronteira notoriamente móvel entre o privado e o público. O que parece

estar em jogo é uma redefinição da esfera pública como um palco em que

dramas privados são encenados, publicamente expostos e publicamente

assistidos. A definição corrente de “interesse público”, promovida pela

mídia e amplamente aceita por quase todos os setores da sociedade, é o

dever de encenar tais dramas em público e o direito do público de assistir à

encenação. As condições sociais que fazem com que tal desenvolvimento

não seja surpreendente e pareça mesmo “natural” devem ficar evidentes à

luz do argumento precedente; mas as conseqüências desse desenvolvimento

ainda não foram inteiramente exploradas. Podem ter maior alcance do que

em geral se aceita.

A conseqüência que pode ser considerada mais interessante é o

desaparecimento da “política como a conhecemos” — da Política com P

maiúsculo, a atividade encarregada de traduzir problemas privados em

questões públicas (e vice-versa). É o esforço dessa tradução que hoje está se

detendo. Os problemas privados não se tornam questões públicas pelo fato

de serem ventilados em público; mesmo sob o olhar público não deixam de

ser privados, e o que parece resultar de sua transferência para a cena pública

é a expulsão de todos os outros problemas “não-privados” da agenda

pública. O que cada vez mais é percebido como “questões públicas” são os

problemas privados de figuras públicas. A tradicional questão da política

democrática — quão útil ou prejudicial para o bem-estar de seus súditos/eleitores é o modo como as figuras públicas exercitam seus deveres

públicos — foi pelo ralo, sinalizando para que o interesse público na boa

sociedade, na justiça pública ou na responsabilidade coletiva pelo bem-estar

individual a siga no caminho do esquecimento.

Atingido por uma série de “escândalos” (isto é, exposição pública de

frouxidão moral nas vidas privadas de figuras públicas), Tony Blair (no

Guardian de 11.1.1999) se queixava de que “a política se reduziu a uma

coluna de mexericos” e conclamava a audiência a enfrentar a alternativa:

“Ou teremos a pauta de notícias dominada pelo escândalo, pelo mexerico e

pela trivialidade, ou pelas coisas que realmente importam.”12 Tais palavras

não podem senão surpreender, vindo, como vêm, de um político que

consulta diariamente “grupos focais” na esperança de ser regularmente

informado sobre os sentimentos da base e “as coisas que realmente

importam” na opinião de seus eleitores, e cujo modo de manejar as coisas

que realmente importam para as condições em que seus eleitores vivem é

ela mesma um fator importante no tipo de vida responsável pela “redução

da política a uma coluna de mexericos” que ele lamenta.

As condições de vida em questão levam os homens e mulheres a buscar

exemplos, e não líderes. Levam-nos a esperar que as pessoas sob os

refletores — todas e qualquer uma delas — mostrem como “as coisas que

importam” (agora confinadas a suas próprias quatro paredes e aí trancadas)

são feitas. Afinal, eles ouvem diariamente que o que está errado em suas

vidas provêm de seus próprios erros, foi sua própria culpa e deve ser

consertado com suas próprias ferramentas e por seus próprios esforços. Não

é, portanto, por acaso que supõem que a maior utilidade (talvez a única) das

pessoas que alegam “estar por dentro” é mostrar-lhes como manejar as

ferramentas e fazer o esforço. Ouviram repetidamente dessas “pessoas por

dentro” que ninguém mais faria o que eles mesmos deveriam fazer, cada um

por si. Por que, então, alguém ficaria intrigado se o que atrai a atenção e

provoca o interesse de tantos homens e mulheres é o que os políticos (e

outras celebridades) fazem em privado? Ninguém entre os “grandes e

poderosos”, nem mesmo a “opinião pública” ofendida, propôs o

impeachment de Bill Clinton por ter abolido a previdência enquanto

“questão federal” — e, portanto, em termos práticos, anulado a promessa

coletiva e o dever de proteger os indivíduos contra os movimentos do

destino, notórios por seu hábito desagradável de administrar

individualmente seus golpes.