Modernidade Líquida
Pare de me dizer; mostre-me!
duradouro e garantido contra a decadência é, porém, a proverbial mosca na
sopa. As perdas equivalem aos ganhos. A vida está fadada a navegar entre
os dois, e nenhum marinheiro pode alardear ter encontrado um itinerário
seguro e sem riscos.
O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos
pratos deliciosos que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar
de todos. Os comensais são consumidores, e a mais custosa e irritante das
tarefas que se pode pôr diante de um consumidor é a necessidade de
estabelecer prioridades: a necessidade de dispensar algumas opções
inexploradas e abandoná-las. A infelicidade dos consumidores deriva do
excesso e não da falta de escolha. “Será que utilizei os meios à minha
disposição da melhor maneira possível?” é a pergunta que mais assombra e
causa insônia ao consumidor. Como disse Marina Bianchi num trabalho
coletivo de economistas que tinham em mente os vendedores de bens de
consumo,
no caso do consumidor, a função objetiva … está vazia …
Os fins coerentemente se equivalem aos meios, mas os próprios fins
não são escolhidos racionalmente …
Hipoteticamente, os consumidores, mas não as firmas, não podem
nunca errar, ou ser pegos errando.10
Mas se não se pode errar, também não se pode saber se se está certo. Se
não há movimentos errados, não há nada que permita distinguir um
movimento como melhor, e assim nada que permita reconhecer o
movimento certo entre as várias alternativas — nem antes nem depois de
fazer o movimento. É uma bênção mista que o perigo do erro não esteja nas
cartas — uma alegria duvidosa, certamente, dado que seu preço é a
incerteza perpétua e um desejo que provavelmente nunca será saciado. É
uma boa notícia, uma promessa de permanecer no ramo, para os
vendedores, mas para os compradores é a certeza de que continuarão aflitos.
Pare de me dizer; mostre-me!
O capitalismo pesado, no estilo fordista, era o mundo dos que ditavam as
leis, dos projetistas de rotinas e dos supervisores; o mundo de homens e
mulheres dirigidos por outros, buscando fins determinados por outros, do
modo determinado por outros. Por essa razão era também o mundo das
autoridades: de líderes que sabiam mais e de professores que ensinavam a
proceder melhor.
O capitalismo leve, amigável com o consumidor, não aboliu as
autoridades que ditam leis, nem as tornou dispensáveis. Apenas deu lugar e
permitiu que coexistissem autoridades em número tão grande que nenhuma
poderia se manter por muito tempo e menos ainda atingir a posição de
exclusividade. Ao contrário do erro, a verdade é só uma, e pode ser
reconhecida como verdade (isto é, com o direito de declarar erradas todas as
alternativas a ela mesma) justamente por ser única. Parando para pensar,
“numerosas autoridades” é uma contradição em termos. Quando as
autoridades são muitas, tendem a cancelar-se mutuamente, e a única
autoridade efetiva na área é a que pode escolher entre elas. É por cortesia de
quem escolhe que a autoridade se torna uma autoridade. As autoridades não
mais ordenam; elas se tornam agradáveis a quem escolhe; tentam e
seduzem.
O “líder” foi um produto não-intencional, e um complemento
necessário, do mundo que tinha por objetivo a “boa sociedade”, ou a
sociedade “certa e apropriada”, e procurava manter as alternativas
impróprias à distância. O mundo da “modernidade líquida” não faz nem
uma coisa nem outra. A infame frase de efeito de Margaret Thatcher “não
existe essa coisa de sociedade” é ao mesmo tempo uma reflexão perspicaz
sobre a mudança no caráter do capitalismo, uma declaração de intenções e
uma profecia autocumprida: em seus rastros veio o desmantelamento das
redes normativas e protetoras, que ajudavam o mundo em seu percurso de
tornar-se carne. “Não-sociedade” significa não ter nem utopia nem distopia:
como Peter Drucker, o guru do capitalismo leve, disse, “não mais salvação
pela sociedade” — sugerindo (ainda que por omissão e não por afirmação)
que, por implicação, a responsabilidade pela danação não pode ficar com a
sociedade; a redenção e a condenação são produzidas pelo indivíduo e
somente por ele — o resultado do que o agente livre fez livremente de sua
vida.
Não faltam, obviamente, pessoas que afirmam “estar por dentro”, e
muitas delas têm legiões de seguidores prontos a lhes fazer coro. Tais pessoas “por dentro”, mesmo aquelas cujo conhecimento não foi posto
publicamente em dúvida, não são, no entanto, líderes; elas são, no máximo,
conselheiros — e uma diferença crucial entre líderes e conselheiros é que os
primeiros devem ser seguidos e os segundos precisam ser contratados e
podem ser demitidos. Os líderes demandam e esperam disciplina; os
conselheiros podem, na melhor das hipóteses, contar com a boa vontade do
outro de ouvir e prestar atenção. E devem primeiro conquistar essa vontade
bajulando os possíveis ouvintes. Outra diferença crucial entre líderes e
conselheiros é que os primeiros agem como intermediários entre o bem
individual e o “bem de todos”, ou, (como diria C. Wright Mills) entre as
preocupações privadas e as questões públicas. Os conselheiros, ao
contrário, cuidam de nunca pisar fora da área fechada do privado. Doenças
são individuais, assim como a terapia; as preocupações são privadas, assim
como os meios de lutar para resolvê-las. Os conselhos que os conselheiros
oferecem se referem à política-vida, não à Política com P maiúsculo; eles se
referem ao que as pessoas aconselhadas podem fazer elas mesmas e para si
próprias, cada uma para si — não ao que podem realizar em conjunto para
cada uma delas, se unirem forças.
Em um dos maiores sucessos entre os popularíssimos livros de auto-
ajuda (vendeu mais de cinco milhões de cópias desde sua publicação em
1987), Melody Beattie adverte/aconselha seus leitores: “A maneira mais
garantida de enlouquecer é envolver-se com os assuntos de outras pessoas, e
a maneira mais rápida de tornar-se são e feliz é cuidar dos próprios.” O
livro deve seu sucesso instantâneo ao título sugestivo (Codependent no
More), que resume seu conteúdo: tentar resolver os problemas de outras
pessoas nos torna dependentes, e a dependência oferece reféns ao destino
— ou, mais precisamente, a coisas que não dominamos e a pessoas que não
controlamos; portanto, cuidemos de nossos problemas, e apenas de nossos
problemas, com a consciência limpa. Há pouco a ganhar fazendo o trabalho
de outros, e isso desviaria nossa atenção do trabalho que ninguém pode
fazer senão nós mesmos. Tal mensagem soa agradável — como uma
confirmação, uma absolvição e uma luz verde necessária — a todos os que,
sós, são forçados a seguir, a favor ou contra seu próprio juízo, e não sem
dor na consciência, a exortação de Samuel Butler: “No fim, o prazer é
melhor guia que o direito ou o dever.”
“Nós” é o pronome pessoal usado com mais freqüência pelos líderes. Já
os conselheiros têm pouco que fazer com ele: “nós” não é mais que um agregado de “eus”, e o agregado, ao contrário do “grupo” de Émile
Durkheim, não é maior que a soma de suas partes. Ao fim da sessão de
aconselhamento, as pessoas aconselhadas estão tão sós quanto antes. Isso
quando sua solidão não foi reforçada: quando sua impressão de que seriam
abandonadas à sua própria sorte não foi corroborada e transformada em
uma quase certeza. Qualquer que fosse o conteúdo do aconselhamento, este
se referia a coisas que a pessoa aconselhada deveria fazer por si mesma,
aceitando inteira responsabilidade por fazê-las de maneira apropriada, e não
culpando a ninguém pelas conseqüências desagradáveis que só poderiam
ser atribuídas a seu próprio erro ou negligência.
O melhor conselheiro é o que está ciente do fato de que aqueles que
receberão os conselhos querem uma lição-objeto. Desde que a natureza dos
problemas seja tal que eles possam ser enfrentados pelos indivíduos por
conta própria e por esforços individuais, o que as pessoas em busca de
conselho precisam (ou acreditam precisar) é um exemplo de como outros
homens e mulheres, diante de problemas semelhantes, se desincumbem
deles. E elas precisam do exemplo por razões ainda mais essenciais: o
número dos que se sentem “infelizes” é maior que o dos que conseguem
indicar e identificar as causas de sua infelicidade. O sentimento de “estar
infeliz” é muitas vezes difuso e solto; seus contornos são apagados, suas
raízes, espalhadas; precisa tornar-se “tangível” — moldado e nomeado, a
fim de tornar o igualmente vago desejo de felicidade uma tarefa específica.
Olhando para a experiência de outras pessoas, tendo uma idéia de suas
dificuldades e atribulações, esperamos descobrir e localizar os problemas
que causaram nossa própria infelicidade, dar-lhes um nome e, portanto,
saber para onde olhar para encontrar meios de resistir a eles ou resolvê-los.
Explicando a fenomenal popularidade do Jane Fonda’s Workout Book
(1981) e a técnica de auto-disciplina que esse livro pôs à disposição de
milhões de mulheres norte-americanas, Hilary Radner observa que
a instrutora se oferece como um exemplo … mais do que como uma
autoridade…
A mulher que se exercita possui seu próprio corpo pela
identificação com uma imagem que não é a sua própria mas a dos
corpos que lhe são oferecidos como exemplo.
Jane Fonda é bastante explícita sobre a essência do que oferece e
bastante direta sobre o tipo de exemplo que seus leitores devem seguir:
“Gosto muito de pensar que meu corpo é produto de mim mesma, é meu
sangue e entranhas. É minha responsabilidade.” 11 A mensagem de Fonda
para toda mulher é que trate seu corpo como sua propriedade (meu sangue,
minhas entranhas), seu próprio produto e, acima de tudo, sua própria
responsabilidade. Para sustentar e reforçar o amour de soi pós-moderno, ela
invoca (ao lado da tendência de consumidora de auto-identificar-se pela
propriedade) a memória do muito pré-pós-moderno — em verdade mais
pré-moderno do que moderno — instinto de artesanato: o produto de meu
trabalho é tão bom quanto (e não melhor que) a habilidade, atenção e
cuidado que ponho em sua produção. Quaisquer que sejam os resultados,
não tenho ninguém mais a quem possa elogiar (ou culpar, se for o caso). O
lado inverso da mensagem também não é ambíguo, ainda que não soletrado
com a mesma clareza: você deve a seu corpo cuidado, e se negligenciar esse
dever, você deve sentir-se culpada e envergonhada. Imperfeições de seu
corpo são sua culpa e vergonha. Mas a redenção do pecado está ao alcance
das mãos da pecadora, e só de suas mãos.
Repito com Hilary Radner: ao dizer tudo isso, Jane Fonda não age como
autoridade (como quem formula a lei, estabelece a norma, prega ou ensina).
Ela se “oferece como exemplo”. Sou famosa e amada; sou um objeto de
desejo e admiração. Por quê? Qualquer que seja a razão, existe porque eu a
fiz existir. Olhem meu corpo: é esguio, flexível, tem boa forma —
perenemente jovem. Você certamente gostaria de ter — de ser — um corpo
como o meu. Meu corpo é meu trabalho; se você se exercitar como eu, você
poderá tê-lo. Se você sonha em “ser como Jane Fonda”, lembre-se que fui
eu, Jane Fonda, que fiz de mim a Jane Fonda desses sonhos.
Ser rica e famosa ajuda, é claro; confere peso à mensagem. Embora
Jane Fonda se esforce para se pôr como exemplo, e não autoridade, seria
tolo negar que, sendo quem é, seu exemplo traz “naturalmente” uma
autoridade que outros exemplos teriam que trabalhar muito para obter. Jane
Fonda é de certa maneira um caso excepcional: ela herdou a condição de
“estar sob os refletores” e atraiu ainda mais refletores sobre suas atividades
muito antes de decidir fazer de seu corpo um exemplo. Em geral, porém,
não podemos estar certos da direção em que funciona a relação causal entre
a disposição de seguir um exemplo e a autoridade da pessoa que serve como
exemplo. Como observou Daniel J. Boorstin — com graça, mas não de brincadeira (em The Image, 1961) —, uma celebridade é uma pessoa
conhecida por ser muito conhecida, e um best-seller é um livro que vende
bem porque está vendendo bem. A autoridade amplia o número de
seguidores, mas, no mundo de fins incertos e cronicamente
subdeterminados, é o número de seguidores que faz — que é — a
autoridade.
Qualquer que seja o caso, no par exemplo-autoridade a parte do
exemplo é a mais importante e mais solicitada. As celebridades com
autoridade suficiente para fazer com que o que dizem seja digno de atenção
mesmo antes que o digam são muito poucas para estrelar os inumeráveis
programas de entrevistas da TV (e raramente aparecem nos mais populares
deles, como o de Oprah e o de Trisha), mas isso não impede que esses
programas sejam uma compulsão diária para milhões de homens e mulheres
ávidos por aconselhamento. A autoridade da pessoa que compartilha sua
história de vida pode fazer com que os espectadores observem o exemplo
com atenção e aumenta os índices de audiência. Mas a falta de autoridade
de quem conta sua vida, o fato de ela não ser uma celebridade, sua
anonimidade, pode fazer com que o exemplo seja mais fácil de seguir e
assim ter um potencial adicional próprio. As não-celebridades, os homens e
mulheres “comuns”, “como você e eu”, que aparecem na telinha apenas por
um momento passageiro (não mais do que o necessário para contar a
história e receber o aplauso merecido, assim como alguma crítica por
esconder partes picantes ou gastar tempo demais com as partes
desinteressantes) são tão desvalidas e infelizes quanto os espectadores,
sofrendo o mesmo tipo de golpes e buscando desesperadamente uma saída
honrosa e um caminho promissor para uma vida mais feliz. E assim, o que
elas fizeram eu também posso fazer; talvez até melhor. Posso aprender
alguma coisa útil tanto com suas vitórias quanto com suas derrotas.
Seria arrogante, além de equivocado, condenar ou ridicularizar o vício
dos programas de entrevistas como efeito da eterna avidez humana pela
fofoca e da “curiosidade barata”. Num mundo repleto de meios, mas
notoriamente pouco claro sobre os fins, as lições retiradas dos programas de
entrevistas respondem a uma demanda genuína e têm valor pragmático
inegável, pois já sabemos que depende de nós mesmos fazer (e continuar a
fazer) o melhor possível de nossas vidas; e como também sabemos que
quaisquer recursos requeridos por tal empreendimento só podem ser
procurados e encontrados entre nossas próprias habilidades, coragem e determinação, é vital saber como agem outras pessoas diante de desafios
semelhantes. Podem ter descoberto estratagemas admiráveis que não
percebemos; podem ter explorado partes da questão a que não demos
atenção ou em que não nos aprofundamos o suficiente.
Essa não é, porém, a única vantagem. Como dito acima, nomear o
problema é em si uma tarefa assustadora, e sem esse nome para o
sentimento de inquietação ou infelicidade não há esperança de cura. No
entanto, embora o sofrimento seja pessoal e privado, uma “linguagem
privada” é uma incongruência. O que quer que seja nomeado, inclusive os
sentimentos mais secretos, pessoais e íntimos, só o é propriamente se os
nomes escolhidos forem de domínio público, se pertencerem a uma
linguagem compartilhada e pública e forem compreendidos pelas pessoas
que se comunicam nessa linguagem. Os programas de entrevistas são lições
públicas de uma linguagem ainda-não-nascida-mas-prestes-a-nascer.
Fornecem as palavras que poderão ser utilizadas para “nomear o problema”
— para expressar, em modos publicamente legíveis, o que até agora era
inefável e assim permaneceria sem tais palavras.
Esse é, em si, um ganho da maior importância — mas há ainda outros.
Nos programas de entrevistas, palavras e frases que se referem a
experiências consideradas íntimas e, portanto, inadequadas como tema de
conversa são pronunciadas em público — para aprovação, divertimento e
aplauso universais. Pela mesma razão, os programas de entrevistas
legitimam o discurso público sobre questões privadas. Tornam o indizível
dizível, o vergonhoso, decente, e transformam o feio segredo em questão de
orgulho. Até certo ponto são rituais de exorcismo — e muito eficazes.
Graças aos programas de entrevistas, posso falar de agora em diante
abertamente sobre coisas que eu pensava (equivocadamente, agora vejo)
infames e infamantes e, portanto, destinadas a permanecer secretas e a
serem sofridas em silêncio. Como minha confissão não é mais secreta,
ganho mais que o conforto da absolvição: não preciso mais me sentir
envergonhado ou temeroso de ser desprezado, condenado por impudência
ou relegado ao ostracismo. Essas são, afinal, as coisas de que as pessoas
falam compungidas na presença de milhões de espectadores. Seus
problemas privados, e assim também meus próprios problemas, tão
parecidos aos deles, são adequados para discussão pública. Não que se
tornem questões públicas; entram na discussão precisamente em sua
condição de questões privadas e, por mais que sejam discutidas, como os leopardos, também não mudam suas pintas. Ao contrário, são reafirmadas
como privadas e emergirão da exposição pública reforçadas em seu caráter
privado. Afinal, todos os que falaram concordaram que, na medida em que
foram experimentadas e vividas privadamente, é assim que essas coisas
devem ser confrontadas e resolvidas.
Muitos pensadores influentes (sendo Jürgen Habermas o mais
importante deles) advertem sobre a possibilidade de que a “esfera privada”
seja invadida, conquistada e colonizada pela “pública”. Voltando à memória
recente da era que inspirou as distopias como as de Huxley ou de Orwell,
pode-se compreender tal temor. As premonições parecem, no entanto, surgir
da leitura do que acontece diante de nossos olhos com as lentes erradas. De
fato, a tendência oposta à advertência é a que parece estar se operando — a
colonização da esfera pública por questões anteriormente classificadas
como privadas e inadequadas à exposição pública.
O que está ocorrendo não é simplesmente outra renegociação da
fronteira notoriamente móvel entre o privado e o público. O que parece
estar em jogo é uma redefinição da esfera pública como um palco em que
dramas privados são encenados, publicamente expostos e publicamente
assistidos. A definição corrente de “interesse público”, promovida pela
mídia e amplamente aceita por quase todos os setores da sociedade, é o
dever de encenar tais dramas em público e o direito do público de assistir à
encenação. As condições sociais que fazem com que tal desenvolvimento
não seja surpreendente e pareça mesmo “natural” devem ficar evidentes à
luz do argumento precedente; mas as conseqüências desse desenvolvimento
ainda não foram inteiramente exploradas. Podem ter maior alcance do que
em geral se aceita.
A conseqüência que pode ser considerada mais interessante é o
desaparecimento da “política como a conhecemos” — da Política com P
maiúsculo, a atividade encarregada de traduzir problemas privados em
questões públicas (e vice-versa). É o esforço dessa tradução que hoje está se
detendo. Os problemas privados não se tornam questões públicas pelo fato
de serem ventilados em público; mesmo sob o olhar público não deixam de
ser privados, e o que parece resultar de sua transferência para a cena pública
é a expulsão de todos os outros problemas “não-privados” da agenda
pública. O que cada vez mais é percebido como “questões públicas” são os
problemas privados de figuras públicas. A tradicional questão da política
democrática — quão útil ou prejudicial para o bem-estar de seus súditos/eleitores é o modo como as figuras públicas exercitam seus deveres
públicos — foi pelo ralo, sinalizando para que o interesse público na boa
sociedade, na justiça pública ou na responsabilidade coletiva pelo bem-estar
individual a siga no caminho do esquecimento.
Atingido por uma série de “escândalos” (isto é, exposição pública de
frouxidão moral nas vidas privadas de figuras públicas), Tony Blair (no
Guardian de 11.1.1999) se queixava de que “a política se reduziu a uma
coluna de mexericos” e conclamava a audiência a enfrentar a alternativa:
“Ou teremos a pauta de notícias dominada pelo escândalo, pelo mexerico e
pela trivialidade, ou pelas coisas que realmente importam.”12 Tais palavras
não podem senão surpreender, vindo, como vêm, de um político que
consulta diariamente “grupos focais” na esperança de ser regularmente
informado sobre os sentimentos da base e “as coisas que realmente
importam” na opinião de seus eleitores, e cujo modo de manejar as coisas
que realmente importam para as condições em que seus eleitores vivem é
ela mesma um fator importante no tipo de vida responsável pela “redução
da política a uma coluna de mexericos” que ele lamenta.
As condições de vida em questão levam os homens e mulheres a buscar
exemplos, e não líderes. Levam-nos a esperar que as pessoas sob os
refletores — todas e qualquer uma delas — mostrem como “as coisas que
importam” (agora confinadas a suas próprias quatro paredes e aí trancadas)
são feitas. Afinal, eles ouvem diariamente que o que está errado em suas
vidas provêm de seus próprios erros, foi sua própria culpa e deve ser
consertado com suas próprias ferramentas e por seus próprios esforços. Não
é, portanto, por acaso que supõem que a maior utilidade (talvez a única) das
pessoas que alegam “estar por dentro” é mostrar-lhes como manejar as
ferramentas e fazer o esforço. Ouviram repetidamente dessas “pessoas por
dentro” que ninguém mais faria o que eles mesmos deveriam fazer, cada um
por si. Por que, então, alguém ficaria intrigado se o que atrai a atenção e
provoca o interesse de tantos homens e mulheres é o que os políticos (e
outras celebridades) fazem em privado? Ninguém entre os “grandes e
poderosos”, nem mesmo a “opinião pública” ofendida, propôs o
impeachment de Bill Clinton por ter abolido a previdência enquanto
“questão federal” — e, portanto, em termos práticos, anulado a promessa
coletiva e o dever de proteger os indivíduos contra os movimentos do
destino, notórios por seu hábito desagradável de administrar
individualmente seus golpes.