Modernidade Líquida
Lugares êmicos, lugares fágicos, não-lugares, espaços vazios
Os encontros, inevitáveis num espaço lotado, interferem com o
propósito. Precisam ser breves e superficiais: não mais longos nem mais
profundos do que o ator os deseja. O lugar é protegido contra aqueles que
costumam quebrar essa regra — todo tipo de intrometidos, chatos e outros
que poderiam interferir com o maravilhoso isolamento do consumidor ou
comprador. O templo do consumo bem supervisionado, apropriadamente
vigiado e guardado é uma ilha de ordem, livre de mendigos, desocupados,
assaltantes e traficantes — pelo menos é o que se espera e supõe. As
pessoas não vão para esses templos para conversar ou socializar. Levam
com elas qualquer companhia de que queiram gozar (ou tolerem), como os
caracóis levam suas casas.
Lugares êmicos, lugares fágicos,
não-lugares, espaços vazios
O que quer que possa acontecer dentro do templo do consumo tem pouca ou
nenhuma relação com o ritmo e teor da vida diária que flui “fora dos
portões”. Estar num shopping center se parece com “estar noutro lugar”.7
Idas aos lugares de consumo diferem dos carnavais de Bakhtin, que também
envolvem a experiência de “ser transportado”: idas às compras são
principalmente viagens no espaço, e apenas secundariamente viagens no
tempo.
O carnaval é a mesma cidade transformada, mais exatamente um
intervalo de tempo durante o qual a cidade se transforma antes de cair de
novo em sua rotina. Por um lapso de tempo estritamente definido, mas um
tempo que retorna ciclicamente, o carnaval desvenda o “outro lado” da
realidade diária, um lado constantemente ao alcance, mas normalmente
oculto à vista e impossível de tocar. A lembrança da descoberta e a
esperança de outros relances por vir não permitem que a consciência desse
“outro lado” seja inteiramente suprimida.
Uma ida ao templo do consumo é uma questão inteiramente diferente.
Entrar nessa viagem, mais do que testemunhar a transubstanciação do
mundo familiar, é como ser transportado a um outro mundo. O templo do
consumo (claramente distinto da “loja da esquina” de outrora) pode estar na
cidade (se não construído, simbolicamente, fora dos limites da cidade, à
beira de uma autoestrada), mas não faz parte dela; não é o mundo comum temporariamente transformado, mas um mundo “completamente outro”. O
que o faz “outro” não é a reversão, negação ou suspensão das regras que
governam o cotidiano, como no caso do carnaval, mas a exibição do modo
de ser que o cotidiano impede ou tenta em vão alcançar — e que poucas
pessoas imaginam experimentar nos lugares que habitam normalmente.
A metáfora do “templo” de Ritzer é adequada; os espaços de
compra/consumo são de fato templos para os peregrinos — e
definitivamente não se destinam à celebração das missas negras anuais das
festas carnavalescas nas paróquias. O carnaval mostra que a realidade não é
tão dura quanto parece e que a cidade pode ser transformada; os templos do
consumo não revelam nada da natureza da realidade cotidiana. O templo do
consumo, como o “barco” de Michel Foucault, “é um pedaço flutuante do
espaço, um lugar sem lugar, que existe por si mesmo, que está fechado em
si mesmo e ao mesmo tempo se dá ao infinito do mar”8; pode realizar esse
“dar-se ao infinito” porque se afasta do porto doméstico e se mantém a
distância.
Esse “lugar sem lugar” auto-cercado, diferentemente de todos os lugares
ocupados ou cruzados diariamente, é também um espaço purificado. Não
que tenha sido limpo da variedade e da diferença, que constantemente
ameaçam outros lugares com poluição e confusão e deixam a limpeza e a
transparência fora do alcance dos que os usam; ao contrário, os lugares de
compra/consumo devem muito de sua atração magnética à colorida e
caleidoscópica variedade de sensações em oferta. Mas as diferenças dentro,
ao contrário das diferenças fora, foram amansadas, higienizadas e
garantidas contra ingredientes perigosos — e por isso não são ameaçadoras.
Podem ser aproveitadas sem medo: excluído o risco da aventura, o que
sobra é divertimento puro, sem mistura ou contaminação. Os lugares de
compra/consumo oferecem o que nenhuma “realidade real” externa pode
dar: o equilíbrio quase perfeito entre liberdade e segurança.
Dentro de seus templos, os compradores/consumidores podem
encontrar, além disso, o que zelosamente e em vão procuram fora deles: o
sentimento reconfortante de pertencer — a impressão de fazer parte de uma
comunidade. Como sugere Sennett, a ausência de diferença, o sentimento
de que “somos todos semelhantes”, o suposto de que “não é preciso
negociar pois temos a mesma intenção”, é o significado mais profundo da
idéia de “comunidade” e a causa última de sua atração, que cresce
proporcionalmente à pluralidade e multivocalidade da vida. Podemos dizer que “comunidade” é uma versão compacta de estar junto, e de um tipo de
estar junto que quase nunca ocorre na “vida real”: um estar junto de pura
semelhança, do tipo “nós que somos todos o mesmo” um estar junto que
por essa razão é não-problemático e não exige esforço ou vigilância, e está
na verdade pré-determinado; um estar junto que não é uma tarefa, mas “o
dado” e dado muito antes que o esforço de fazê-lo. Nas palavras de Sennett,
imagens de solidariedade comunitária são forjadas para que os homens
possam evitar lidar com outros homens … Por um ato de vontade, uma
mentira se quiserem, o mito da solidariedade comunitária deu a essas
pessoas modernas a possibilidade de ser covardes e esconder-se dos
outros … A imagem da comunidade é purificada de tudo o que pode
implicar um sentimento de diferença, ou conflito, a respeito de o que
“nós” somos. Desse modo, o mito da solidariedade comunitária é um
ritual de purificação.9
O obstáculo, porém, é que “o sentimento de uma identidade comum …
é uma fabricação da experiência”. Se é assim, então quem projetou e quem
supervisiona e dirige os templos do consumo são mestres da falsificação e
da vigarice. Em suas mãos a impressão é tudo: não é necessário fazer mais
perguntas — que, de qualquer forma, não seriam respondidas.
Dentro do templo, a imagem se torna realidade. As multidões que
enchem os corredores dos shopping centers se aproximam tanto quanto é
concebível do ideal imaginário de “comunidade” que não conhece a
diferença (mais exatamente, diferença que conte, diferença que requeira
confronto diante da alteridade do outro, negociação, clarificação e acordo
quanto ao modus vivendi). Por essa razão, essa comunidade não envolve
negociações, nem esforço pela empatia, compreensão e concessões. Todo o
mundo entre as paredes dos shopping centers pode supor com segurança
que aqueles com que trombará ou pelos quais passará nos corredores vieram
com o mesmo propósito, foram seduzidos pelas mesmas atrações
(reconhecendo-as, portanto, como atrações) e são guiados e movidos pelos
mesmos motivos. “Estar dentro” produz uma verdadeira comunidade de
crentes, unificados tanto pelos fins quanto pelos meios, tanto pelos valores
que estimam quanto pela lógica de conduta que seguem. Assim, uma
viagem aos “espaços do consumo” é uma viagem à tão almejada
comunidade que, como a própria experiência de ir às compras, está permanentemente “alhures”. Pelos poucos minutos ou horas que dura nosso
“passeio”, podemos encostar nos ombros de “outros como nós”, fiéis do
mesmo templo; outros cuja alteridade pode ser, pelo menos neste lugar, aqui
e agora, deixada longe da vista, da mente e da consideração. Para todos os
propósitos, o lugar é puro, tão puro quanto os lugares do culto religioso e a
comunidade imaginada (ou postulada).
Claude Lévi-Strauss, o maior antropólogo cultural de nosso tempo,
sugeriu em Tristes trópicos que apenas duas estratégias foram utilizadas na
história humana quando a necessidade de enfrentar a alteridade dos outros
surgiu: uma era a antropoêmica, a outra, a antropofágica.
A primeira estratégia consiste em “vomitar”, cuspir os outros vistos
como incuravelmente estranhos e alheios: impedir o contato físico, o
diálogo, a interação social e todas as variedades de commercium,
comensalidade e connubium. As variantes extremas da estratégia “êmica”
são hoje, como sempre, o encarceramento, a deportação e o assassinato. As
formas elevadas, “refinadas” (modernizadas) da estratégia “êmica” são a
separação espacial, os guetos urbanos, o acesso seletivo a espaços e o
impedimento seletivo a seu uso.
A segunda estratégia consiste numa soi-disant “desalienação” das
substâncias alheias: “ingerir”, “devorar” corpos e espíritos estranhos de
modo a fazê-los, pelo metabolismo, idênticos aos corpos que os ingerem, e
portanto não distinguíveis deles. Essa estratégia também assumiu ampla
gama de formas: do canibalismo à assimilação forçada — cruzadas
culturais, guerras declaradas contra costumes locais, contra calendários,
cultos, dialetos e outros “preconceitos” e “superstições”. Se a primeira
estratégia visava ao exílio ou aniquilação dos “outros”, a segunda visava à
suspensão ou aniquilação de sua alteridade.
A ressonância entre a dicotomia das estratégias de Lévi-Strauss e as
duas categorias de espaços “públicos-mas-não-civis” é impressionante, mas
não surpreendente. A praça La Défense em Paris (juntamente com muitos
outros “espaços interditórios” que, segundo Steven Flusty, ocupam lugar de
destaque entre inovações urbanas correntes)10 é um exemplo arquitetônico
da estratégia “êmica”, enquanto os “espaços de consumo” representam a
“fágica”. Ambas — cada uma à sua maneira — respondem ao mesmo
desafio: a tarefa de enfrentar a chance de encontrar estranhos, característica
constitutiva da vida urbana. Enfrentar essa possibilidade é uma tarefa que
requer medidas “assistidas pelo poder” se os hábitos de civilidade estiverem ausentes ou forem pouco desenvolvidos e não profundamente enraizados.
Os dois tipos de espaços urbanos “públicos-mas-não-civis” derivam da
evidente falta de habilidades da civilidade; ambos lidam com as
conseqüências potencialmente prejudiciais dessa falta não pela promoção
do estudo e aquisição das habilidades que faltam, mas tornando sua posse
irrelevante e desnecessária para a prática da arte do viver urbano.
É preciso acrescentar às duas respostas descritas uma terceira, cada vez
mais comum. Ela é o que Georges Benko, seguindo Marc Augé, chama de
“não-lugares” (ou, alternativamente, segundo Garreau, “cidades-de-lugar-
nenhum”).11 “Não-lugares” partilham certas características com nossa
primeira categoria de lugares ostensivamente públicos mas enfaticamente
não-civis: desencorajam a idéia de “estabelecer-se”, tornando a colonização
ou domesticação do espaço quase impossível. Ao contrário de La Défense,
porém, espaço cujo único destino é ser atravessado e deixado para trás o
mais rapidamente possível, ou dos espaços “interditórios” cuja principal
função consiste em impedir o acesso e que são desenhados para serem
circundados, e não atravessados, os não-lugares aceitam a inevitabilidade de
uma adiada passagem, às vezes muito longa, de estranhos, e fazem o que
podem para que sua presença seja “meramente física” e socialmente pouco
diferente, e preferivelmente indistinguível da ausência, para cancelar,
nivelar ou zerar, esvaziar as idiossincráticas subjetividades de seus
“passantes”. Os residentes temporários dos não-lugares são possivelmente
diferentes, cada variedade com seus próprios hábitos e expectativas; e o
truque é fazer com que isso seja irrelevante durante sua estadia. Quaisquer
que sejam suas outras diferenças, deverão seguir os mesmos padrões de
conduta: e as pistas que disparam o padrão uniforme de conduta devem ser
legíveis por todos eles, independente das línguas que prefiram ou que
costumem utilizar em seus afazeres diários. O que quer que aconteça nesses
“não-lugares”, todos devem sentir-se como se estivessem em casa, mas
ninguém deve se comportar como se verdadeiramente em casa. Um não-
lugar “é um espaço destituído das expressões simbólicas de identidade,
relações e história: exemplos incluem aeroportos, auto-estradas, anônimos
quartos de hotel, transporte público … Jamais na história do mundo os não-
lugares ocuparam tanto espaço”.
Os não-lugares não requerem domínio da sofisticada e difícil arte da
civilidade, uma vez que reduzem o comportamento em público a preceitos
simples e fáceis de aprender. Por causa dessa simplificação, também não são escolas de civilidade. E, como hoje “ocupam tanto espaço”, como
colonizam fatias cada vez maiores do espaço público e as reformulam à sua
semelhança, as ocasiões de aprendizado são cada vez mais escassas e
ocorrem a intervalos cada vez maiores.
As diferenças podem ser expelidas, engolidas, mantidas à parte, e há
lugares que se especializam em cada caso. Mas as diferenças também
podem ser tornadas invisíveis, ou melhor, impedidas de serem percebidas.
Esse é o caso dos “espaços vazios”. Como propõem Jerzy Kociatkiewicz e
Monika Kostera, que cunharam o termo, os espaços vazios são
lugares a que não se atribui significado. Não precisam ser delimitados
fisicamente por cercas ou barreiras. Não são lugares proibidos, mas
espaços vazios, inacessíveis porque invisíveis.
Se … o fazer sentido é um ato de padronização, compreensão,
superação da surpresa e criação de significado, nossa experiência dos
espaços vazios não inclui o fazer sentido.12
Os espaços vazios são antes de mais nada vazios de significado. Não
que sejam sem significado porque são vazios: é porque não têm significado,
nem se acredita que possam tê-lo, que são vistos como vazios (melhor seria
dizer não-vistos). Nesses lugares que resistem ao significado, a questão de
negociar diferenças nunca surge: não há com quem negociá-la. O modo
como os espaços vazios lidam com a diferença é radical numa medida que
outros tipos de lugares projetados para repelir ou atenuar o impacto de
estranhos não podem acompanhar.
Os espaços vazios que Kociatkiewicz e Kostera listam são lugares não-
colonizados e lugares que nem os projetistas nem os gerentes dos usuários
superficiais reservam para colonização. Eles são, podemos dizer, lugares
que “sobram” depois da reestruturação de espaços realmente importantes:
devem sua presença fantasmagórica à falta de superposição entre a
elegância da estrutura e a confusão do mundo (qualquer mundo, inclusive o
mundo desenhado propositalmente), notório por fugir a classificações
cabais. Mas a família dos espaços vazios não se limita às sobras dos
projetos arquitetônicos e às margens negligenciadas das visões do urbanista.
Muitos espaços vazios são, de fato, não apenas resíduos inevitáveis, mas ingredientes necessários de outro processo: o de mapear o espaço partilhado