Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 23 de 42

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Modernidade Líquida

Da modernidade pesada à modernidade leve

preciso um astrólogo imaginativo.

A relação entre tempo e espaço deveria ser de agora em diante

processual, mutável e dinâmica, não predeterminada e estagnada. A

“conquista do espaço” veio a significar máquinas mais velozes. O

movimento acelerado significava maior espaço, e acelerar o movimento era

o único meio de ampliar o espaço. Nessa corrida, a expansão espacial era o

nome do jogo e o espaço, seu objetivo; o espaço era o valor, o tempo, a

ferramenta. Para maximizar o valor, era necessário afiar os instrumentos;

muito da “racionalidade instrumental” que, como Max Weber sugeriu, era o

princípio operativo da civilização moderna, se centrava no desenho de

modos de realizar mais rapidamente as tarefas, eliminando assim o tempo

“improdutivo”, ocioso, vazio e, portanto, desperdiçado; ou, para contar a

mesma história em termos dos efeitos e não dos meios da ação, centrava-se

em preencher o espaço mais densamente de objetos e em ampliar o espaço

que poderia ser assim preenchido num tempo determinado. No limiar da

moderna conquista do espaço, Descartes, olhando à frente, identificava

existência e espacialidade, definindo tudo o que existe materialmente como

res extensa. (Como Rob Shields espirituosamente diz, poder-se-ia

reformular o famoso cogito cartesiano, sem distorcer seu sentido, como

“ocupo espaço, logo existo”).17 Num momento em que essa conquista perde

gás e se encerra, Michel de Certeau — olhando para trás — declara que o

poder diz respeito a território e fronteiras. (Como Tim Cresswell resumiu a

posição de Certeau recentemente, “as armas dos fortes são … classificação,

delineamento, divisão. Os fortes dependem da ‘correção do

mapeamento’”18; note-se que todas as armas arroladas são operações

realizadas sobre o espaço.) Poder-se-ia dizer que a diferença entre os fortes

e os fracos é a diferença entre um território formado como no do mapa —

vigiado de perto e estritamente controlado — e um território aberto à

invasão, ao redesenho das fronteiras e à projeção de novos mapas. Pelo

menos foi isso que se tornou assim e assim permaneceu por boa parte da

história moderna.

 

Da modernidade pesada à modernidade leve Essa parte da história, que agora chega ao fim, poderia ser chamada, na

falta de nome melhor, de era do hardware, ou modernidade pesada — a

modernidade obcecada pelo volume, uma modernidade do tipo “quanto

maior, melhor”, “tamanho é poder, volume é sucesso”. Essa foi a era do

hardware; a época das máquinas pesadas e cada vez mais desajeitadas, dos

muros de fábricas cada vez mais longos guardando fábricas cada vez

maiores que ingerem equipes cada vez maiores, das poderosas locomotivas

e dos gigantescos transatlânticos. A conquista do espaço era o objetivo

supremo — agarrar tudo o que se pudesse manter, e manter-se nele,

marcando-o com todos os sinais tangíveis da posse e tabuletas de “proibida

a entrada”. O território estava entre as mais agudas obsessões modernas e

sua aquisição, entre suas urgências mais prementes — enquanto a

manutenção das fronteiras se tornava um de seus vícios mais ubíquos,

resistentes e inexoráveis.

A modernidade pesada foi a era da conquista territorial. A riqueza e o

poder estavam firmemente enraizadas ou depositadas dentro da terra —

volumosos, fortes e inamovíveis como os leitos de minério de ferro e de

carvão. Os impérios se espalhavam, preenchendo todas as fissuras do globo:

apenas outros impérios de força igual ou superior punham limites à sua

expansão. O que quer que ficasse entre os postos avançados dos domínios

imperiais em competição era visto como terra de ninguém, sem dono e,

portanto, como um espaço vazio — e o espaço vazio era um desafio à ação

e uma censura à preguiça. (A ciência popular da época captou seu clima

com perfeição ao informar aos leigos que “a natureza não tolera o vazio”.)

Ainda menos suportável era a idéia dos “espaços em branco” do globo:

ilhas e arquipélagos desconhecidos, massas de terra à espera de descoberta

e colonização, os interiores intocados dos continentes, os “corações das

trevas” clamando por luz. Intrépidos exploradores eram os heróis das novas

versões modernas das “histórias de marinheiros” de Walter Benjamin, dos

sonhos da infância e da nostalgia adulta; entusiasticamente aplaudidos na

partida e aclamados com honrarias na chegada, eles andaram, de expedição

em expedição, por selvas, savanas e o gelo eterno em busca da cordilheira,

lago ou planalto ainda não-cartografado. Também o paraíso moderno, como

o Shangri-La de James Hilton, estava “lá fora”, num lugar ainda “não

descoberto”, escondido e inacessível, um pouco além de não-passadas e

não-passáveis massas de montanhas ou desertos mortais, ao fim de uma

trilha ainda não marcada. A aventura e a felicidade, a riqueza e o poder eram conceitos geográficos ou “propriedades territoriais” — atados a seus

lugares, inamovíveis e intransferíveis. Isso exigia muros impenetráveis e

postos avançados rigorosos, guardas de fronteiras em permanente vigília e

localização secreta. (Um dos segredos mais bem guardados da Segunda

Grande Guerra, a base aérea norte-americana a partir da qual seria desferido

o mortal ataque sobre Tóquio em 1942, era apelidada “Shangri-la”.)

Riqueza e poder que dependem do tamanho e qualidade do hardware

tendem a ser lentas, resistentes e complicadas de mover. Elas são

“encorpadas” e fixas, feitas de aço e concreto e medidas por seu volume e

peso. Crescem expandindo o lugar que ocupam e protegem-se protegendo

esse lugar: o lugar é simultaneamente seu viveiro, sua fortaleza e sua prisão.

Daniel Bell descreveu uma das mais poderosas, invejadas e emuladas

dessas prisões/fortalezas/viveiros: a planta “Willow Run” da General

Motors em Michigan.19 O lugar ocupado pelas instalações era de um

quilômetro por 400 metros. Todo o material necessário para a produção de

carros era reunido sob um único e gigantesco teto, numa única e monstruosa

jaula. A lógica do poder e a lógica do controle estavam fundadas na estrita

separação entre o “dentro” e o “fora” e numa vigilante defesa da fronteira

entre eles. As duas lógicas, reunidas em uma, estavam incorporadas na

lógica do tamanho, organizada em torno de um preceito: maior significa

mais eficiente. Na versão pesada da modernidade, o progresso significava

tamanho crescente e expansão espacial.

Era a rotinização do tempo que mantinha o lugar como um todo

compacto e sujeito a uma lógica homogênea. (Bell invocava a principal

ferramenta de rotinização ao chamar esse tempo de “métrico”.)

Na conquista do espaço, o tempo tinha que ser flexível e maleável, e

acima de tudo tinha que poder encolher pela crescente capacidade de

“devorar espaço” de cada unidade: dar a volta ao mundo em 80 dias era um

sonho atraente, mas ser capaz de fazê-lo em oito dias era infinitamente mais

atraente. Voar sobre o Canal da Mancha e depois sobre o Atlântico eram os

marcos pelos quais se media o progresso. Quando, porém, chegava o

momento da fortificação do espaço conquistado, de sua colonização e

domesticação, fazia-se necessário um tempo rígido, uniforme e inflexível: o

tipo de tempo que pudesse ser cortado em fatias de espessura semelhante e

passível de ser arranjado em seqüências monótonas e inalteráveis. O espaço

só era “possuído” quando controlado — e controle significava antes e acima

de tudo “amansar o tempo”, neutralizando seu dinamismo interno: simplificando, a uniformidade e coordenação do tempo. Era maravilhoso e

excitante alcançar as nascentes do Nilo antes que outros exploradores as

alcançassem, mas um trem adiantado ou peças de automóveis que

chegassem à linha de montagem antes das outras eram os pesadelos mais

assustadores da modernidade pesada.

O tempo rotinizado se juntava aos altos muros de tijolos arrematados

por arame farpado ou cacos de vidro e portões bem-guardados para proteger

o lugar contra intrusos; também impedia que os de dentro saíssem à

vontade. A “fábrica fordista”, o modelo mais cobiçado e avidamente

seguido da racionalidade planejada no tempo da modernidade pesada, era o

lugar do encontro face a face, mas também do voto de “até que a morte nos

separe” entre o capital e o trabalho. Esse casamento era de conveniência e

necessidade — raramente de amor —, mas era para durar “para sempre” (o

que quer que isso significasse em termos da vida individual), e com

freqüência durava. Era essencialmente monogâmico — e para ambas as

partes. O divórcio estava fora de questão. Para o bem ou para o mal, as

partes unidas no casamento deveriam permanecer unidas; uma não poderia

sobreviver sem a outra.

O tempo rotinizado prendia o trabalho ao solo, enquanto a massa dos

prédios da fábrica, o peso do maquinário e o trabalho permanentemente

atado acorrentavam o capital. Nem o capital nem o trabalho estavam

ansiosos para mudar, e nem seriam capazes disso. Como qualquer outro

casamento que não contasse com a válvula de escape do divórcio sem dor, a

história dessa convivência era cheia de som e fúria, varrida por irrupções de

inimizade e marcada por uma guerra de trincheiras ligeiramente menos

dramática, mas mais constante e persistente, dia sim, dia não. Em nenhum

momento, porém, os plebeus pensaram em abandonar a cidade; os patrícios

tampouco eram livres para fazê-lo. E nem era necessária a oratória de

Menenius Agrippa para manter a ambos em seus lugares. A própria

intensidade e perpetuidade do conflito era viva evidência do destino

comum. O tempo congelado da rotina de fábrica, junto com os tijolos e

argamassa das paredes, imobilizava o capital tão eficientemente quanto o

trabalho que este empregava. Tudo isso mudou, no entanto, com o advento

do capitalismo de software e da modernidade “leve”. O economista da

Sorbonne Daniel Cohen resume: “Quem começa uma carreira na Microsoft

não tem a mínima idéia de onde ela terminará. Quem começava na Ford ou

na Renault podia estar quase certo de terminar no mesmo lugar.”20

Não estou certo de que seja legítimo utilizar o termo “carreira” para os

dois casos, como Cohen faz. “Carreira” evoca uma trajetória estabelecida,

não muito diferente do processo da “tenure” (estabilidade) das

universidades norte-americanas, com uma seqüência de estágios

estabelecida de antemão e marcada por condições de entrada e regras de

admissão razoavelmente claras. As “carreiras” tendem a ser feitas por

pressões coordenadas de espaço e tempo. O que quer que aconteça aos

empregados da Microsoft ou seus incontáveis admiradores e imitadores —

onde tudo o que ocupa os gerentes são “formas organizacionais mais soltas

e por isso mais adequadas ao fluxo” e onde a organização de negócios é

cada vez mais vista como uma tentativa permanente, não-conclusiva, “de

formar uma ilha de adaptabilidade superior” num mundo percebido como

“múltiplo, complexo e rápido e, portanto, como ‘ambíguo’, ‘vago’ ou

‘plástico’”21 — milita contra estruturas duráveis, e notadamente contra

estruturas que envolvem uma expectativa proporcional à duração

costumeira da vida útil. Em tais condições a idéia de uma “carreira” parece

nebulosa e inteiramente fora de lugar.

Essa é, contudo, uma mera questão terminológica. Seja como for, a

questão principal é que a comparação de Cohen capta sem erro o divisor de

águas na história moderna do tempo e alude ao impacto que essa mudança

começa a ter na condição da existência humana. A mudança em questão é a

nova irrelevância do espaço, disfarçada de aniquilação do tempo. No

universo de software da viagem à velocidade da luz, o espaço pode ser

atravessado, literalmente, em “tempo nenhum” cancela-se a diferença entre

“longe” e “aqui”. O espaço não impõe mais limites à ação e seus efeitos, e

conta pouco, ou nem conta. Perdeu seu “valor estratégico”, diriam os

especialistas militares.

Todos os valores, observou Simmel, são “valiosos” na medida em que

devem ser conquistados “pela superação de outros valores” é o “desvio da

busca por certas coisas” que nos faz “vê-las como valiosas”. Sem usar essas

palavras, Simmel conta a história do “fetichismo do valor”: as coisas,

escreveu, “valem exatamente o que custam” e essa circunstância parece

perversamente “significar que elas custam o que valem”. São os obstáculos

que precisam ser superados no caminho que leva à sua apropriação, “a

tensão da luta por elas”, que as fazem valiosas.22 Se tempo nenhum precisa

ser perdido ou superado — “sacrificado” — para chegar mesmo aos lugares

mais remotos, os lugares são destituídos de valor, no sentido posto por Simmel. Quando as distâncias podem ser percorridas (e assim as partes do