Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 6 de 42

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Modernidade Líquida

O compromisso da teoria crítica na sociedade dos indivíduos

A individualização chegou para ficar; toda elaboração sobre os meios de

enfrentar seu impacto sobre o modo como levamos nossas vidas deve partir

do reconhecimento desse fato. A individualização traz para um número

sempre crescente de pessoas uma liberdade sem precedentes de

experimentar — mas (timeo danaos et dona ferentes…) traz junto a tarefa

também sem precedentes de enfrentar as conseqüências. O abismo que se

abre entre o direito à auto-afirmação e a capacidade de controlar as

situações sociais que podem tornar essa auto-afirmação algo factível ou

irrealista parece ser a principal contradição da modernidade fluida —

contradição que, por tentativa e erro, reflexão crítica e experimentação

corajosa, precisamos aprender a manejar coletivamente.

 

O compromisso da teoria crítica

na sociedade dos indivíduos

 

O impulso modernizante, em qualquer de suas formas, significa a crítica

compulsiva da realidade. A privatização do impulso significa a compulsiva

auto-crítica nascida da desafeição perpétua: ser um indivíduo de jure

significa não ter ninguém a quem culpar pela própria miséria, significa não

procurar as causas das próprias derrotas senão na própria indolência e

preguiça, e não procurar outro remédio senão tentar com mais e mais

determinação.

Viver diariamente com o risco da auto-reprovação e do autodesprezo

não é fácil. Com os olhos postos em seu próprio desempenho — e portanto

desviados do espaço social onde as contradições da existência individual

são coletivamente produzidas —, os homens e mulheres são naturalmente

tentados a reduzir a complexidade de sua situação a fim de tornarem as

causas do sofrimento inteligíveis e, assim, tratáveis. Não que considerem as

“soluções biográficas” onerosas e embaraçosas; simplesmente não há

“soluções biográficas para contradições sistêmicas” eficazes, e assim a

escassez de soluções possíveis à disposição precisa ser compensada por

soluções imaginárias. No entanto — imaginárias ou genuínas —, todas as

“soluções”, para parecerem razoáveis e viáveis, devem ser acompanhadas

pela “individualização” das tarefas e responsabilidades. Há, então, demanda

por cabides individuais onde os indivíduos atemorizados possam pendurar

coletiva, ainda que brevemente, seus temores individuais. Nosso tempo é propício aos bodes expiatórios — sejam eles políticos que fazem de suas

vidas privadas uma confusão, criminosos que se esgueiram nas ruas e nos

bairros perigosos ou “estrangeiros entre nós”. O nosso é um tempo de

cadeados, cercas de arame farpado, ronda dos bairros e vigilantes; e

também de jornalistas de tablóides “investigativos” que pescam

conspirações para povoar de fantasmas o espaço público funestamente

vazio de atores, conspirações suficientemente ferozes para liberar boa parte

dos medos e ódios reprimidos em nome de novas causas plausíveis para o

“pânico moral”.

Repito: há um grande e crescente abismo entre a condição de indivíduos

de jure e suas chances de se tornar indivíduos de facto — isto é, de ganhar

controle sobre seus destinos e tomar as decisões que em verdade desejam. É

desse abismo que emanam os eflúvios mais venenosos que contaminam as

vidas dos indivíduos contemporâneos. Esse abismo não pode ser transposto

apenas por esforços individuais: não pelos meios e recursos disponíveis

dentro da política-vida auto-administrada. Transpor o abismo é a tarefa da

Política com P maiúsculo. Pode-se supor que o abismo em questão emergiu

e cresceu precisamente por causa do esvaziamento do espaço público, e

particularmente da ágora, aquele lugar intermediário, público/privado, onde

a política-vida encontra a Política com P maiúsculo, onde os problemas

privados são traduzidos para a linguagem das questões públicas e soluções

públicas para os problemas privados são buscadas, negociadas e acordadas.

A mesa foi virada, por assim dizer: a tarefa da teoria crítica foi

invertida. Essa tarefa costumava ser a defesa da autonomia privada contra

as tropas avançadas da “esfera pública”, soçobrando sob o domínio

opressivo do Estado onipotente e impessoal e de seus muitos tentáculos

burocráticos ou réplicas em escala menor. Hoje a tarefa é defender o

evanescente domínio público, ou, antes, reequipar e repovoar o espaço

público que se esvazia rapidamente devido à deserção de ambos os lados: a

retirada do “cidadão interessado” e a fuga do poder real para um território

que, por tudo que as instituições democráticas existentes são capazes de

realizar, só pode ser descrito como um “espaço cósmico”.

Não é mais verdade que o “público” tente colonizar o “privado”. O que

se dá é o contrário: é o privado que coloniza o espaço público, espremendo

e expulsando o que quer que não possa ser expresso inteiramente, sem

deixar resíduos, no vernáculo dos cuidados, angústias e iniciativas privadas.

Repetidamente informado de que é o senhor de seu próprio destino, o indivíduo não tem razão de atribuir “relevância tópica” (o termo é de Alfred

Schütz) ao que quer que resista a ser engolfado no eu e trabalhado com os

recursos do eu; mas ter essa razão e agir sobre ela é precisamente a marca

registrada do cidadão.

Para o indivíduo, o espaço público não é muito mais que uma tela

gigante em que as aflições privadas são projetadas sem cessar, sem

deixarem de ser privadas ou adquirirem novas qualidades coletivas no

processo da ampliação: o espaço público é onde se faz a confissão dos

segredos e intimidades privadas. Os indivíduos retornam de suas excursões

diárias ao espaço “público” reforçados em sua individualidade de jure e

tranqüilizados de que o modo solitário como levam sua vida é o mesmo de

todos os outros “indivíduos como eles”, enquanto — também como eles —

dão seus próprios tropeços e sofrem suas (talvez transitórias) derrotas no

processo.

Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado, das

assembléias e dos parlamentos, dos governos locais e nacionais, para além

do alcance do controle dos cidadãos, para a extraterritorialidade das redes

eletrônicas. Os princípios estratégicos favoritos dos poderes existentes hoje

em dia são fuga, evitação e descompromisso, e sua condição ideal é a

invisibilidade. Tentativas de prever seus movimentos e as conseqüências

não-previstas de seus movimentos (sem falar dos esforços para deter ou

impedir os mais indesejáveis entre eles) têm uma eficácia prática

semelhante à da “Liga para Impedir Mudanças Meteorológicas”.

E assim o espaço público está cada vez mais vazio de questões públicas.

Ele deixa de desempenhar sua antiga função de lugar de encontro e diálogo

sobre problemas privados e questões públicas. Na ponta da corda que sofre

as pressões individualizantes, os indivíduos estão sendo, gradual mas

consistentemente, despidos da armadura protetora da cidadania e

expropriados de suas capacidades e interesses de cidadãos. Nessas

circunstâncias, a perspectiva de que o indivíduo de jure venha a se tornar

algum dia indivíduo de facto (aquele que controla os recursos

indispensáveis à genuína autodeterminação) parece cada vez mais remota.

O indivíduo de jure não pode se tornar indivíduo de facto sem antes

tornar-se cidadão. Não há indivíduos autônomos sem uma sociedade

autônoma, e a autonomia da sociedade requer uma autoconstituição

deliberada e perpétua, algo que só pode ser uma realização compartilhada

de seus membros.