Modernidade Líquida
O compromisso da teoria crítica na sociedade dos indivíduos
A individualização chegou para ficar; toda elaboração sobre os meios de
enfrentar seu impacto sobre o modo como levamos nossas vidas deve partir
do reconhecimento desse fato. A individualização traz para um número
sempre crescente de pessoas uma liberdade sem precedentes de
experimentar — mas (timeo danaos et dona ferentes…) traz junto a tarefa
também sem precedentes de enfrentar as conseqüências. O abismo que se
abre entre o direito à auto-afirmação e a capacidade de controlar as
situações sociais que podem tornar essa auto-afirmação algo factível ou
irrealista parece ser a principal contradição da modernidade fluida —
contradição que, por tentativa e erro, reflexão crítica e experimentação
corajosa, precisamos aprender a manejar coletivamente.
O compromisso da teoria crítica
na sociedade dos indivíduos
O impulso modernizante, em qualquer de suas formas, significa a crítica
compulsiva da realidade. A privatização do impulso significa a compulsiva
auto-crítica nascida da desafeição perpétua: ser um indivíduo de jure
significa não ter ninguém a quem culpar pela própria miséria, significa não
procurar as causas das próprias derrotas senão na própria indolência e
preguiça, e não procurar outro remédio senão tentar com mais e mais
determinação.
Viver diariamente com o risco da auto-reprovação e do autodesprezo
não é fácil. Com os olhos postos em seu próprio desempenho — e portanto
desviados do espaço social onde as contradições da existência individual
são coletivamente produzidas —, os homens e mulheres são naturalmente
tentados a reduzir a complexidade de sua situação a fim de tornarem as
causas do sofrimento inteligíveis e, assim, tratáveis. Não que considerem as
“soluções biográficas” onerosas e embaraçosas; simplesmente não há
“soluções biográficas para contradições sistêmicas” eficazes, e assim a
escassez de soluções possíveis à disposição precisa ser compensada por
soluções imaginárias. No entanto — imaginárias ou genuínas —, todas as
“soluções”, para parecerem razoáveis e viáveis, devem ser acompanhadas
pela “individualização” das tarefas e responsabilidades. Há, então, demanda
por cabides individuais onde os indivíduos atemorizados possam pendurar
coletiva, ainda que brevemente, seus temores individuais. Nosso tempo é propício aos bodes expiatórios — sejam eles políticos que fazem de suas
vidas privadas uma confusão, criminosos que se esgueiram nas ruas e nos
bairros perigosos ou “estrangeiros entre nós”. O nosso é um tempo de
cadeados, cercas de arame farpado, ronda dos bairros e vigilantes; e
também de jornalistas de tablóides “investigativos” que pescam
conspirações para povoar de fantasmas o espaço público funestamente
vazio de atores, conspirações suficientemente ferozes para liberar boa parte
dos medos e ódios reprimidos em nome de novas causas plausíveis para o
“pânico moral”.
Repito: há um grande e crescente abismo entre a condição de indivíduos
de jure e suas chances de se tornar indivíduos de facto — isto é, de ganhar
controle sobre seus destinos e tomar as decisões que em verdade desejam. É
desse abismo que emanam os eflúvios mais venenosos que contaminam as
vidas dos indivíduos contemporâneos. Esse abismo não pode ser transposto
apenas por esforços individuais: não pelos meios e recursos disponíveis
dentro da política-vida auto-administrada. Transpor o abismo é a tarefa da
Política com P maiúsculo. Pode-se supor que o abismo em questão emergiu
e cresceu precisamente por causa do esvaziamento do espaço público, e
particularmente da ágora, aquele lugar intermediário, público/privado, onde
a política-vida encontra a Política com P maiúsculo, onde os problemas
privados são traduzidos para a linguagem das questões públicas e soluções
públicas para os problemas privados são buscadas, negociadas e acordadas.
A mesa foi virada, por assim dizer: a tarefa da teoria crítica foi
invertida. Essa tarefa costumava ser a defesa da autonomia privada contra
as tropas avançadas da “esfera pública”, soçobrando sob o domínio
opressivo do Estado onipotente e impessoal e de seus muitos tentáculos
burocráticos ou réplicas em escala menor. Hoje a tarefa é defender o
evanescente domínio público, ou, antes, reequipar e repovoar o espaço
público que se esvazia rapidamente devido à deserção de ambos os lados: a
retirada do “cidadão interessado” e a fuga do poder real para um território
que, por tudo que as instituições democráticas existentes são capazes de
realizar, só pode ser descrito como um “espaço cósmico”.
Não é mais verdade que o “público” tente colonizar o “privado”. O que
se dá é o contrário: é o privado que coloniza o espaço público, espremendo
e expulsando o que quer que não possa ser expresso inteiramente, sem
deixar resíduos, no vernáculo dos cuidados, angústias e iniciativas privadas.
Repetidamente informado de que é o senhor de seu próprio destino, o indivíduo não tem razão de atribuir “relevância tópica” (o termo é de Alfred
Schütz) ao que quer que resista a ser engolfado no eu e trabalhado com os
recursos do eu; mas ter essa razão e agir sobre ela é precisamente a marca
registrada do cidadão.
Para o indivíduo, o espaço público não é muito mais que uma tela
gigante em que as aflições privadas são projetadas sem cessar, sem
deixarem de ser privadas ou adquirirem novas qualidades coletivas no
processo da ampliação: o espaço público é onde se faz a confissão dos
segredos e intimidades privadas. Os indivíduos retornam de suas excursões
diárias ao espaço “público” reforçados em sua individualidade de jure e
tranqüilizados de que o modo solitário como levam sua vida é o mesmo de
todos os outros “indivíduos como eles”, enquanto — também como eles —
dão seus próprios tropeços e sofrem suas (talvez transitórias) derrotas no
processo.
Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado, das
assembléias e dos parlamentos, dos governos locais e nacionais, para além
do alcance do controle dos cidadãos, para a extraterritorialidade das redes
eletrônicas. Os princípios estratégicos favoritos dos poderes existentes hoje
em dia são fuga, evitação e descompromisso, e sua condição ideal é a
invisibilidade. Tentativas de prever seus movimentos e as conseqüências
não-previstas de seus movimentos (sem falar dos esforços para deter ou
impedir os mais indesejáveis entre eles) têm uma eficácia prática
semelhante à da “Liga para Impedir Mudanças Meteorológicas”.
E assim o espaço público está cada vez mais vazio de questões públicas.
Ele deixa de desempenhar sua antiga função de lugar de encontro e diálogo
sobre problemas privados e questões públicas. Na ponta da corda que sofre
as pressões individualizantes, os indivíduos estão sendo, gradual mas
consistentemente, despidos da armadura protetora da cidadania e
expropriados de suas capacidades e interesses de cidadãos. Nessas
circunstâncias, a perspectiva de que o indivíduo de jure venha a se tornar
algum dia indivíduo de facto (aquele que controla os recursos
indispensáveis à genuína autodeterminação) parece cada vez mais remota.
O indivíduo de jure não pode se tornar indivíduo de facto sem antes
tornar-se cidadão. Não há indivíduos autônomos sem uma sociedade
autônoma, e a autonomia da sociedade requer uma autoconstituição
deliberada e perpétua, algo que só pode ser uma realização compartilhada
de seus membros.