Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 10 de 42

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Modernidade Líquida

Capitalismo — pesado e leve

de um mundo que fazia de qualquer alternativa algo inimaginável.

O fato de o futuro trazer menos liberdade, mais controle, vigilância e

opressão não estava em discussão. Orwell e Huxley não discordavam

quanto ao destino do mundo; eles apenas viam de modo diferente o

caminho que nos levaria até lá se continuássemos suficientemente

ignorantes, obtusos, plácidos ou indolentes para permitir que as coisas

seguissem sua rota natural.

Em carta de 1769 a Sir Horace Mann, Horace Walpole escrevia que “o

mundo é uma comédia para os que pensam, e uma tragédia para os que

sentem”. Mas os sentidos de “cômico” e “trágico” mudam ao longo do

tempo, e quando Orwell e Huxley esboçaram os contornos do trágico

futuro, ambos sentiram que a tragédia do mundo era seu ostensivo e

incontrolável progresso rumo à separação entre os cada vez mais poderosos

e remotos controladores e o resto, cada vez mais destituído de poder e

controlado. A visão de pesadelo que assombrava os dois escritores era a de

homens e mulheres que não mais controlavam suas próprias vidas. De

modo semelhante a pensadores de outros tempos, Platão e Aristóteles, que

não eram capazes de imaginar uma sociedade boa ou má sem escravos,

Huxley e Orwell não podiam conceber uma sociedade, fosse ela feliz ou

infeliz, sem administradores, projetistas e supervisores que em conjunto

escreviam o roteiro que outros deveriam seguir, ordenavam o desempenho,

punham as falas na boca dos atores e demitiam ou encarceravam quem quer

que improvisasse seus próprios textos. Não podiam imaginar um mundo

sem torres e mesas de controle. Os medos de seu tempo, tanto quanto suas

esperanças e sonhos, giravam em torno de Repartições de Comando

Supremo.

 

Capitalismo — pesado e leve

 

Nigel Thrift teria talvez classificado as histórias de Orwell e Huxley como

“discurso de Joshua” e não como “discurso do Gênesis”.1(Discursos, diz

Thrift, são “metalinguagens que ensinam as pessoas a viver como

pessoas”.) “Enquanto no discurso de Joshua a ordem é a regra e a

desordem, uma exceção, no discurso do Gênesis a desordem é a regra e a

ordem, uma exceção.” No discurso de Joshua, o mundo (aqui Thrift cita Keneth Jowitt) é “centralmente organizado, rigidamente delimitado e

histericamente preocupado com fronteiras impenetráveis”.

“Ordem”, permitam-me explicar, significa monotonia, regularidade,

repetição e previsibilidade; dizemos que uma situação está “em ordem” se e

somente se alguns eventos têm maior probabilidade de acontecer do que

suas alternativas, enquanto outros eventos são altamente improváveis ou

estão inteiramente fora de questão. Isso significa que em algum lugar

alguém (um Ser Supremo pessoal ou impessoal) deve interferir nas

probabilidades, manipulá-las e viciar os dados, garantindo que os eventos

não ocorram aleatoriamente.

O mundo ordeiro do discurso de Joshua é um mundo rigidamente

controlado. Tudo nesse mundo serve a algum propósito, mesmo que não

seja claro (por enquanto, para alguns, mas para sempre, para a maioria) qual

é esse propósito. Esse mundo não tem espaço para o que não tiver uso ou

propósito. O não-uso, além disso, seria reconhecido nesse mundo como

propósito legítimo. Para ser reconhecido, deve servir à manutenção e

perpetuação do todo ordenado. É a própria ordem, e somente ela, que não

requer legitimação; ela é, por assim dizer, “seu próprio propósito”. Ela

simplesmente é, e não adianta desejar que não fosse: isso é tudo o que

precisamos ou podemos saber sobre ela. Talvez exista porque Deus a fez

existir em Seu ato de Criação Divina; ou porque criaturas humanas, mas à

imagem de Deus, a fizeram existir em seu trabalho continuado de projetar,

construir e administrar. Em nossos tempos modernos, com Deus em

prolongado afastamento, a tarefa de projetar e servir à ordem cabe aos seres

humanos.

Como Karl Marx descobriu, as idéias das classes dominantes tendem a

ser as idéias dominantes (proposição que, com nossa nova compreensão da

linguagem e de seu funcionamento, poderíamos considerar pleonástica). Por

pelo menos 200 anos foram os administradores das empresas capitalistas

que dominaram o mundo — isto é, separaram o factível do implausível, o

racional do irracional, o sensato do insano, e de outras formas ainda

determinaram e circunscreveram a gama de alternativas dentro das quais

confinar as trajetórias da vida humana. Era, portanto, sua visão do mundo,

em conjunto com o próprio mundo, formado e reformado à imagem dessa

visão, que alimentava e dava substância ao discurso dominante.

Até recentemente era o discurso de Joshua; agora, e cada vez mais, é o

discurso do Gênesis. Mas ao contrário do que Thrift dá a entender, o encontro de hoje, dentro do mesmo discurso, de empresas e academia, dos

que fazem e os que interpretam o mundo, não é novidade; nem uma

qualidade restrita ao novo capitalismo (“mole”, como o chama Thrift) ávido

de conhecimento. Por alguns séculos, a academia não teve outro mundo

para envolver em suas tramas conceituais, sobre o qual refletir, para

descrever e interpretar, que não aquele sedimentado pela visão e prática

capitalistas. Durante esse período, empresas e academia estavam em

permanente contato, mesmo que — por sua incapacidade de conversar entre

si — tenham dado a impressão de manter distância. E o lugar de encontro

tem sido sempre, como hoje, indicado e fornecido pela primeira.

O mundo que sustentava o discurso de Joshua e lhe dava credibilidade

era o mundo fordista. (O termo “fordismo” foi utilizado pela primeira vez

há muito tempo por Antonio Gramsci e Henri de Man, mas, fiel aos hábitos

da coruja de Minerva de Hegel, foi redescoberto e trazido ao primeiro plano

e ao uso comum apenas quando o sol que brilhava sobre as práticas

fordistas começou a se pôr.) Na descrição retrospectiva de Alain Lipietz, o

fordismo foi, em seu apogeu, um modelo de industrialização, de

acumulação e de regulação:

 

[uma] combinação de formas de ajuste das expectativas e do

comportamento contraditório dos agentes individuais aos princípios

coletivos do regime de acumulação …

O paradigma industrial incluía o princípio tailorista da

racionalização, juntamente com a constante mecanização. Essa

“racionalização” baseava-se na separação dos aspectos intelectual e

manual do trabalho … o conhecimento social sistematizado a partir de

cima e incorporado ao maquinário pelos projetistas. Quando Taylor e

os engenheiros tailoristas introduziram esses princípios no começo do

século XX, seu objetivo explícito era forçar o controle da

administração sobre os trabalhadores.2

 

Mas o modelo fordista era mais que isso, um local epistemológico de

construção sobre o qual se erigia toda uma visão de mundo e a partir da

qual ele se sobrepunha majestaticamente à totalidade da experiência vivida.

O modo como os seres humanos entendem o mundo tende a ser sempre

praxeomórfico: é sempre determinado pelo know-how do dia, pelo que as pessoas podem fazer e pelo modo como usualmente o fazem. A fábrica

fordista — com a meticulosa separação entre projeto e execução, iniciativa

e atendimento a comandos, liberdade e obediência, invenção e

determinação, com o estreito entrelaçamento dos opostos dentro de cada

uma das oposições binárias e a suave transmissão de comando do primeiro

elemento de cada par ao segundo — foi sem dúvida a maior realização até

hoje da engenharia social orientada pela ordem. Não surpreende que tenha

estabelecido o quadro metafórico de referência (mesmo que a referência

não fosse citada) para todos os que tentavam compreender como a realidade

humana opera em todos os seus níveis — tanto o societal-global quanto o

da vida individual. Sua presença dissimulada ou aberta é fácil de detectar

em visões aparentemente tão distantes como o “sistema social” parsoniano,

que se auto-reproduz e é dirigido pelo “conjunto central de valores”, e o

“projeto de vida” sartreano, que serve como projeto-guia para o esforço de

construção da identidade do eu.

De fato, parecia não existir alternativa à fábrica fordista, nem algum

obstáculo sério a impedir a expansão do modelo fordista até os mais

recônditos recessos e fissuras da sociedade. O debate entre Orwell e

Huxley, assim como o confronto entre socialismo e capitalismo, foi, a esse

respeito, não mais que uma desavença em família. O comunismo, afinal,

desejava apenas livrar o modelo fordista de suas poluições presentes (não

imperfeições) — do maligno caos gerado pelo mercado que se interpunha

no caminho da última e total derrota dos acidentes e da contingência e que

assim limitava o planejamento racional. Nas palavras de Lênin, a visão do

socialismo seria efetivada se os comunistas conseguissem “combinar o

poder soviético e a organização soviética da administração com o último

progresso do capitalismo”,3 com a “organização soviética da administração”

significando, para Lênin, permitir que o “último progresso do capitalismo”

(isto é, como ele insistia em repetir, a “organização científica do trabalho”)

transbordasse de dentro dos muros da fábrica para penetrar e saturar a vida

social como um todo.

O fordismo era a autoconsciência da sociedade moderna em sua fase

“pesada”, “volumosa”, ou “imóvel” e “enraizada”, “sólida”. Nesse estágio

de sua história conjunta, capital, administração e trabalho estavam, para o

bem e para o mal, condenados a ficar juntos por muito tempo, talvez para

sempre — amarrados pela combinação de fábricas enormes, maquinaria

pesada e força de trabalho maciça. Para sobreviver, e principalmente para agir de modo eficiente, tinham que “cavar”, desenhar fronteiras e marcá-las

com trincheiras e arame farpado, ao mesmo tempo em que faziam a

fortaleza suficientemente grande para abrigar todo o necessário para resistir

a um cerco prolongado, talvez sem perspectivas. O capitalismo pesado era

obcecado por volume e tamanho, e, por isso, também por fronteiras,

fazendo-as firmes e impenetráveis. O gênio de Henry Ford foi descobrir o

modo de manter os defensores de sua fortaleza industrial dentro dos muros

— para guardá-los da tentação de desertar ou mudar de lado. Como disse o

economista da Sorbonne Daniel Cohen:

 

Henry Ford decidiu um dia “dobrar” os salários de seus trabalhadores.

A razão (publicamente) declarada, a célebre frase “quero que meus

trabalhadores sejam pagos suficientemente bem para comprar meus

carros” foi, obviamente, uma brincadeira. As compras dos

trabalhadores eram uma fração ínfima de suas vendas, mas os salários

pesavam muito mais em seus custos … A verdadeira razão para o

aumento dos salários foi a formidável rotatividade de força de trabalho

que a Ford enfrentava. Ele decidiu dar o aumento espetacular aos

trabalhadores para fixá-los à linha …4

 

A corrente invisível que prendia os trabalhadores a seus lugares e

impedia sua mobilidade era, nas palavras de Cohen, “o coração do

fordismo”. O rompimento dessa corrente foi também o divisor de águas

decisivo na experiência de vida, e se associa à decadência e extinção

aceleradas do modelo fordista. “Quem começa uma carreira na Microsoft”,

observa Cohen, “não sabe onde ela vai terminar. Começar na Ford ou na

Renault implicava, ao contrário, a quase certeza de que a carreira seguiria

seu curso no mesmo lugar.”

Em seu estágio pesado, o capital estava tão fixado ao solo quanto os

trabalhadores que empregava. Hoje o capital viaja leve — apenas com a

bagagem de mão, que inclui nada mais que pasta, telefone celular e

computador portátil. Pode saltar em quase qualquer ponto do caminho, e

não precisa demorar-se em nenhum lugar além do tempo que durar sua

satisfação. O trabalho, porém, permanece tão imobilizado quanto no

passado — mas o lugar em que ele imaginava estar fixado de uma vez por

todas perdeu sua solidez de outrora; buscando rochas, as âncoras encontram

areias movediças. Alguns dos habitantes do mundo estão em movimento; para os demais, é o mundo que se recusa a ficar parado. O discurso de