Modernidade Líquida
Capitalismo — pesado e leve
de um mundo que fazia de qualquer alternativa algo inimaginável.
O fato de o futuro trazer menos liberdade, mais controle, vigilância e
opressão não estava em discussão. Orwell e Huxley não discordavam
quanto ao destino do mundo; eles apenas viam de modo diferente o
caminho que nos levaria até lá se continuássemos suficientemente
ignorantes, obtusos, plácidos ou indolentes para permitir que as coisas
seguissem sua rota natural.
Em carta de 1769 a Sir Horace Mann, Horace Walpole escrevia que “o
mundo é uma comédia para os que pensam, e uma tragédia para os que
sentem”. Mas os sentidos de “cômico” e “trágico” mudam ao longo do
tempo, e quando Orwell e Huxley esboçaram os contornos do trágico
futuro, ambos sentiram que a tragédia do mundo era seu ostensivo e
incontrolável progresso rumo à separação entre os cada vez mais poderosos
e remotos controladores e o resto, cada vez mais destituído de poder e
controlado. A visão de pesadelo que assombrava os dois escritores era a de
homens e mulheres que não mais controlavam suas próprias vidas. De
modo semelhante a pensadores de outros tempos, Platão e Aristóteles, que
não eram capazes de imaginar uma sociedade boa ou má sem escravos,
Huxley e Orwell não podiam conceber uma sociedade, fosse ela feliz ou
infeliz, sem administradores, projetistas e supervisores que em conjunto
escreviam o roteiro que outros deveriam seguir, ordenavam o desempenho,
punham as falas na boca dos atores e demitiam ou encarceravam quem quer
que improvisasse seus próprios textos. Não podiam imaginar um mundo
sem torres e mesas de controle. Os medos de seu tempo, tanto quanto suas
esperanças e sonhos, giravam em torno de Repartições de Comando
Supremo.
Capitalismo — pesado e leve
Nigel Thrift teria talvez classificado as histórias de Orwell e Huxley como
“discurso de Joshua” e não como “discurso do Gênesis”.1(Discursos, diz
Thrift, são “metalinguagens que ensinam as pessoas a viver como
pessoas”.) “Enquanto no discurso de Joshua a ordem é a regra e a
desordem, uma exceção, no discurso do Gênesis a desordem é a regra e a
ordem, uma exceção.” No discurso de Joshua, o mundo (aqui Thrift cita Keneth Jowitt) é “centralmente organizado, rigidamente delimitado e
histericamente preocupado com fronteiras impenetráveis”.
“Ordem”, permitam-me explicar, significa monotonia, regularidade,
repetição e previsibilidade; dizemos que uma situação está “em ordem” se e
somente se alguns eventos têm maior probabilidade de acontecer do que
suas alternativas, enquanto outros eventos são altamente improváveis ou
estão inteiramente fora de questão. Isso significa que em algum lugar
alguém (um Ser Supremo pessoal ou impessoal) deve interferir nas
probabilidades, manipulá-las e viciar os dados, garantindo que os eventos
não ocorram aleatoriamente.
O mundo ordeiro do discurso de Joshua é um mundo rigidamente
controlado. Tudo nesse mundo serve a algum propósito, mesmo que não
seja claro (por enquanto, para alguns, mas para sempre, para a maioria) qual
é esse propósito. Esse mundo não tem espaço para o que não tiver uso ou
propósito. O não-uso, além disso, seria reconhecido nesse mundo como
propósito legítimo. Para ser reconhecido, deve servir à manutenção e
perpetuação do todo ordenado. É a própria ordem, e somente ela, que não
requer legitimação; ela é, por assim dizer, “seu próprio propósito”. Ela
simplesmente é, e não adianta desejar que não fosse: isso é tudo o que
precisamos ou podemos saber sobre ela. Talvez exista porque Deus a fez
existir em Seu ato de Criação Divina; ou porque criaturas humanas, mas à
imagem de Deus, a fizeram existir em seu trabalho continuado de projetar,
construir e administrar. Em nossos tempos modernos, com Deus em
prolongado afastamento, a tarefa de projetar e servir à ordem cabe aos seres
humanos.
Como Karl Marx descobriu, as idéias das classes dominantes tendem a
ser as idéias dominantes (proposição que, com nossa nova compreensão da
linguagem e de seu funcionamento, poderíamos considerar pleonástica). Por
pelo menos 200 anos foram os administradores das empresas capitalistas
que dominaram o mundo — isto é, separaram o factível do implausível, o
racional do irracional, o sensato do insano, e de outras formas ainda
determinaram e circunscreveram a gama de alternativas dentro das quais
confinar as trajetórias da vida humana. Era, portanto, sua visão do mundo,
em conjunto com o próprio mundo, formado e reformado à imagem dessa
visão, que alimentava e dava substância ao discurso dominante.
Até recentemente era o discurso de Joshua; agora, e cada vez mais, é o
discurso do Gênesis. Mas ao contrário do que Thrift dá a entender, o encontro de hoje, dentro do mesmo discurso, de empresas e academia, dos
que fazem e os que interpretam o mundo, não é novidade; nem uma
qualidade restrita ao novo capitalismo (“mole”, como o chama Thrift) ávido
de conhecimento. Por alguns séculos, a academia não teve outro mundo
para envolver em suas tramas conceituais, sobre o qual refletir, para
descrever e interpretar, que não aquele sedimentado pela visão e prática
capitalistas. Durante esse período, empresas e academia estavam em
permanente contato, mesmo que — por sua incapacidade de conversar entre
si — tenham dado a impressão de manter distância. E o lugar de encontro
tem sido sempre, como hoje, indicado e fornecido pela primeira.
O mundo que sustentava o discurso de Joshua e lhe dava credibilidade
era o mundo fordista. (O termo “fordismo” foi utilizado pela primeira vez
há muito tempo por Antonio Gramsci e Henri de Man, mas, fiel aos hábitos
da coruja de Minerva de Hegel, foi redescoberto e trazido ao primeiro plano
e ao uso comum apenas quando o sol que brilhava sobre as práticas
fordistas começou a se pôr.) Na descrição retrospectiva de Alain Lipietz, o
fordismo foi, em seu apogeu, um modelo de industrialização, de
acumulação e de regulação:
[uma] combinação de formas de ajuste das expectativas e do
comportamento contraditório dos agentes individuais aos princípios
coletivos do regime de acumulação …
O paradigma industrial incluía o princípio tailorista da
racionalização, juntamente com a constante mecanização. Essa
“racionalização” baseava-se na separação dos aspectos intelectual e
manual do trabalho … o conhecimento social sistematizado a partir de
cima e incorporado ao maquinário pelos projetistas. Quando Taylor e
os engenheiros tailoristas introduziram esses princípios no começo do
século XX, seu objetivo explícito era forçar o controle da
administração sobre os trabalhadores.2
Mas o modelo fordista era mais que isso, um local epistemológico de
construção sobre o qual se erigia toda uma visão de mundo e a partir da
qual ele se sobrepunha majestaticamente à totalidade da experiência vivida.
O modo como os seres humanos entendem o mundo tende a ser sempre
praxeomórfico: é sempre determinado pelo know-how do dia, pelo que as pessoas podem fazer e pelo modo como usualmente o fazem. A fábrica
fordista — com a meticulosa separação entre projeto e execução, iniciativa
e atendimento a comandos, liberdade e obediência, invenção e
determinação, com o estreito entrelaçamento dos opostos dentro de cada
uma das oposições binárias e a suave transmissão de comando do primeiro
elemento de cada par ao segundo — foi sem dúvida a maior realização até
hoje da engenharia social orientada pela ordem. Não surpreende que tenha
estabelecido o quadro metafórico de referência (mesmo que a referência
não fosse citada) para todos os que tentavam compreender como a realidade
humana opera em todos os seus níveis — tanto o societal-global quanto o
da vida individual. Sua presença dissimulada ou aberta é fácil de detectar
em visões aparentemente tão distantes como o “sistema social” parsoniano,
que se auto-reproduz e é dirigido pelo “conjunto central de valores”, e o
“projeto de vida” sartreano, que serve como projeto-guia para o esforço de
construção da identidade do eu.
De fato, parecia não existir alternativa à fábrica fordista, nem algum
obstáculo sério a impedir a expansão do modelo fordista até os mais
recônditos recessos e fissuras da sociedade. O debate entre Orwell e
Huxley, assim como o confronto entre socialismo e capitalismo, foi, a esse
respeito, não mais que uma desavença em família. O comunismo, afinal,
desejava apenas livrar o modelo fordista de suas poluições presentes (não
imperfeições) — do maligno caos gerado pelo mercado que se interpunha
no caminho da última e total derrota dos acidentes e da contingência e que
assim limitava o planejamento racional. Nas palavras de Lênin, a visão do
socialismo seria efetivada se os comunistas conseguissem “combinar o
poder soviético e a organização soviética da administração com o último
progresso do capitalismo”,3 com a “organização soviética da administração”
significando, para Lênin, permitir que o “último progresso do capitalismo”
(isto é, como ele insistia em repetir, a “organização científica do trabalho”)
transbordasse de dentro dos muros da fábrica para penetrar e saturar a vida
social como um todo.
O fordismo era a autoconsciência da sociedade moderna em sua fase
“pesada”, “volumosa”, ou “imóvel” e “enraizada”, “sólida”. Nesse estágio
de sua história conjunta, capital, administração e trabalho estavam, para o
bem e para o mal, condenados a ficar juntos por muito tempo, talvez para
sempre — amarrados pela combinação de fábricas enormes, maquinaria
pesada e força de trabalho maciça. Para sobreviver, e principalmente para agir de modo eficiente, tinham que “cavar”, desenhar fronteiras e marcá-las
com trincheiras e arame farpado, ao mesmo tempo em que faziam a
fortaleza suficientemente grande para abrigar todo o necessário para resistir
a um cerco prolongado, talvez sem perspectivas. O capitalismo pesado era
obcecado por volume e tamanho, e, por isso, também por fronteiras,
fazendo-as firmes e impenetráveis. O gênio de Henry Ford foi descobrir o
modo de manter os defensores de sua fortaleza industrial dentro dos muros
— para guardá-los da tentação de desertar ou mudar de lado. Como disse o
economista da Sorbonne Daniel Cohen:
Henry Ford decidiu um dia “dobrar” os salários de seus trabalhadores.
A razão (publicamente) declarada, a célebre frase “quero que meus
trabalhadores sejam pagos suficientemente bem para comprar meus
carros” foi, obviamente, uma brincadeira. As compras dos
trabalhadores eram uma fração ínfima de suas vendas, mas os salários
pesavam muito mais em seus custos … A verdadeira razão para o
aumento dos salários foi a formidável rotatividade de força de trabalho
que a Ford enfrentava. Ele decidiu dar o aumento espetacular aos
trabalhadores para fixá-los à linha …4
A corrente invisível que prendia os trabalhadores a seus lugares e
impedia sua mobilidade era, nas palavras de Cohen, “o coração do
fordismo”. O rompimento dessa corrente foi também o divisor de águas
decisivo na experiência de vida, e se associa à decadência e extinção
aceleradas do modelo fordista. “Quem começa uma carreira na Microsoft”,
observa Cohen, “não sabe onde ela vai terminar. Começar na Ford ou na
Renault implicava, ao contrário, a quase certeza de que a carreira seguiria
seu curso no mesmo lugar.”
Em seu estágio pesado, o capital estava tão fixado ao solo quanto os
trabalhadores que empregava. Hoje o capital viaja leve — apenas com a
bagagem de mão, que inclui nada mais que pasta, telefone celular e
computador portátil. Pode saltar em quase qualquer ponto do caminho, e
não precisa demorar-se em nenhum lugar além do tempo que durar sua
satisfação. O trabalho, porém, permanece tão imobilizado quanto no
passado — mas o lugar em que ele imaginava estar fixado de uma vez por
todas perdeu sua solidez de outrora; buscando rochas, as âncoras encontram
areias movediças. Alguns dos habitantes do mundo estão em movimento; para os demais, é o mundo que se recusa a ficar parado. O discurso de