Modernidade Líquida
Ascensão e queda do trabalho
reivindicar privilégio, prestígio ou honra pela importância e benefício
comum gerados pelo trabalho que realizam. Raramente se espera que o
trabalho “enobreça” os que o fazem, fazendo deles “seres humanos
melhores”, e raramente alguém é admirado e elogiado por isso. A pessoa é
medida e avaliada por sua capacidade de entreter e alegrar, satisfazendo não
tanto a vocação ética do produtor e criador quanto as necessidades e desejos
estéticos do consumidor, que procura sensações e coleciona experiências.
Ascensão e queda do trabalho
De acordo com o Dicionário Oxford de inglês o primeiro uso da palavra
“trabalho” (labour) no sentido de “esforço físico dirigido a atender às
necessidades materiais da comunidade” foi registrado em 1776. Um século
depois, veio a significar, além disso, “o corpo geral dos trabalhadores e
operários” que tomam parte na produção, e pouco mais tarde também os
sindicatos e outros corpos que ligavam os dois significados, mantinham
essa ligação e a reformulavam como questão política e instrumento de
poder político. O uso inglês é notável por tornar clara a estrutura da
“trindade do trabalho”: a proximidade (de fato, a convergência semântica
ligada à identidade de destino) entre a significação atribuída ao trabalho
(essa labuta “física e mental”), a autoconstituição dos que trabalham numa
classe e a política fundada nessa autoconstituição — em outras palavras, a
ligação entre definir a labuta física como principal fonte da riqueza e bem-
estar da sociedade, e a autoafirmação do movimento trabalhista.
Ascenderam juntos e juntos caíram.
A maioria dos historiadores econômicos concorda (ver, por exemplo, o
resumo recente de suas descobertas por Paul Bairoch10) que, em termos dos
níveis de riqueza e renda, há pouco que distinga as civilizações no auge de
seus poderes: as riquezas de Roma no século I, da China no XI, da Índia no
XVII, não eram muito diferentes das da Europa no limiar da Revolução
Industrial. Por algumas estimativas, a renda per capita na Europa Ocidental
no século XVIII não era mais que 30% mais alta que a da Índia, África ou
China daquelas épocas. Porém pouco mais de um século foi suficiente para
transformar drasticamente a proporção. Por volta de 1870 a renda per
capita na Europa industrializada era 11 vezes maior que nos países mais pobres do mundo. No curso do século seguinte esse fator quintuplicou,
chegando a 50 em 1995. Como indica o economista da Sorbonne Daniel
Cohen, “arrisco afirmar que o fenômeno da desigualdade entre as nações é
de origem recente; é produto dos últimos dois séculos”.11 E assim também a
idéia do trabalho como fonte da riqueza, e a política surgida dessa
suposição e guiada por ela.
A nova desigualdade global e a nova autoconfiança e sentimento de
superioridade que se seguiram foram espetaculares e sem precedentes:
novas noções, novos quadros cognitivos eram necessários para captá-las e
assimilá-las intelectualmente. Essas noções e quadros foram fornecidos pela
recém-nascida ciência da economia política, que veio a substituir as idéias
fisiocratas e mercantilistas que acompanharam a Europa em seu caminho
para a fase moderna de sua história, até o limiar da Revolução Industrial.
Não “por acaso” essas noções foram cunhadas na Escócia, país ao
mesmo tempo envolvido e separado do curso principal da convulsão
industrial, física e psicologicamente próximo do país que se tornaria o
epicentro da emergente ordem industrial, mas que permaneceria por certo
tempo relativamente imune a seu impacto econômico e cultural. As
tendências em pleno movimento no “centro” são, em regra, mais
prontamente detectadas e mais claramente articuladas em lugares
temporariamente relegados às “margens”. Viver na periferia do centro
civilizacional significa estar suficientemente próximo para ver as coisas
com clareza, mas suficientemente longe para “objetivá-las” e assim moldar
e condensar as percepções em conceitos. Não foi, portanto, “mera
coincidência” que o evangelho tenha vindo da Escócia: a riqueza vem do
trabalho, sua fonte principal, talvez única.
Como Karl Polanyi viria a sugerir muitos anos depois, atualizando Karl
Marx, que o ponto de partida da “grande transformação” que trouxe à vida a
nova ordem industrial foi a separação dos trabalhadores de suas fontes de
existência. Esse evento momentoso era parte de um processo mais amplo: a
produção e a troca deixaram de se inscrever num modo de vida indivisível,
mais geral e inclusivo, e assim se criaram as condições para que o trabalho
(junto com a terra e o dinheiro) fosse considerado como mera mercadoria e
tratado como tal.12 Podemos dizer que foi a mesma nova desconexão que
liberou os movimentos da força de trabalho e de seus portadores que os
tornou passíveis de serem movidos, e assim serem sujeitos a outros usos
(“melhores” — mais úteis ou lucrativos), recombinados e tornados parte de outros arranjos (“melhores” — mais úteis ou lucrativos). A separação das
atividades produtivas do resto dos objetivos da vida permitiu que o “esforço
físico e mental” se condensasse num fenômeno em si mesmo — uma
“coisa” a ser tratada como todas as coisas, isto é, a ser “manipulada”,
movida, reunida a outras “coisas” ou feita em pedaços.
Se essa desconexão não acontecesse, haveria poucas possibilidades para
a idéia de separar mentalmente o trabalho da “totalidade” a que ele
pertencia “naturalmente” e condensá-lo num objeto autocontido. Na visão
pré-industrial da riqueza, “a terra” era uma totalidade desse tipo — por
inteiro, junto com os que a cultivavam e aravam. A nova ordem industrial e
a rede conceitual que permitiu a proclamação do advento de uma sociedade
diferente — industrial — nasceram na Grã-Bretanha; e esta se destacava
entre seus vizinhos europeus por ter destruído seu campesinato, e com ele a
ligação “natural” entre terra, trabalho humano e riqueza. Os cultivadores da
terra tinham primeiro que ficar ociosos, vagando e “sem senhores”, para
que pudessem ser vistos como portadores de “força de trabalho” pronta para
ser usada; e para que essa força pudesse ser considerada como potencial
“fonte de riqueza” por si mesma.
Essa nova ociosidade e o desenraizamento dos trabalhadores parecia às
testemunhas contemporâneas mais inclinadas à reflexão como emancipação
do trabalho — parte da alegre sensação da libertação das capacidades
humanas em geral das vexatórias e estultificantes limitações paroquiais, e
da inércia da força do hábito e da hereditariedade. Mas a emancipação do
trabalho de suas “limitações naturais” não manteve o trabalho flutuando,
desvinculado e “sem senhores” por muito tempo; nem o tornou autônomo,
autodeterminado e livre para fixar e seguir seus próprios desígnios. O
desmantelado “modo tradicional de vida” de que o trabalho era parte antes
de sua emancipação estava para ser substituído por uma nova ordem; desta
vez, porém, uma ordem pré-projetada, uma ordem “construída”, não mais o
sedimento do vagar sem objetivo do destino e dos azares da história, mas
produto de pensamento e ação racionais. Ao descobrir que o trabalho era a
fonte da riqueza, a razão tinha que buscar, utilizar e explorar essa fonte de
modo mais eficiente que nunca.
Alguns comentadores imbuídos do espírito impetuoso da era moderna
(Karl Marx o mais importante entre eles) viram o passamento da velha
ordem principalmente como resultado de um ataque deliberado: uma
explosão causada por uma bomba plantada pelo capital dedicado a “derreter os sólidos e profanar o sagrado”. Outros, como de Tocqueville, mais cético
e consideravelmente menos entusiástico, viram aquele desaparecimento
como um caso de implosão, e não de explosão: olhando para trás,
perceberam as sementes da destruição no coração do Ancien Régime
(sempre mais fáceis de revelar ou adivinhar retrospectivamente) e viram a
agitação e arrogância dos novos senhores como, basicamente, os últimos
estremecimentos de um moribundo ou não muito mais que a busca vigorosa
e resoluta das mesmas curas milagrosas que a velha ordem testara muito
antes em esforços desesperados e vãos para impedir ou pelo menos adiar
seu próprio desaparecimento. Havia, porém, pouco debate sobre as
perspectivas do novo regime e as intenções dos novos senhores: a velha e já
defunta ordem deveria ser substituída por uma nova ordem, menos
vulnerável e mais viável que sua antecessora. Novos sólidos deveriam ser
concebidos e construídos para encher o vazio deixado pelos derretidos. As
coisas postas para flutuar deveriam ser novamente ancoradas, de modo mais
seguro que antes. Para expressar a mesma intenção no idioma hoje em
moda: o que tinha sido “desacomodado” precisaria ser, mais cedo ou mais
tarde, “reacomodado”.
Romper os velhos vínculos local/comunal, declarar guerra aos modos
habituais e às leis costumeiras, quebrar e pulverizar les pouvoirs
intermédiaires — o resultado disso tudo foi o delírio intoxicante do “novo
começo”. “Derreter os sólidos” era sentido como derreter minério de ferro
para moldar barras de aço. Realidades derretidas e agora fluidas pareciam
prontas para serem recanalizadas e derramadas em novos moldes, onde
ganhariam uma forma que nunca teriam adquirido se tivessem sido
deixadas correndo nos próprios cursos que tinham cavado. Nenhum
propósito, por mais ambicioso que fosse, parecia exceder a capacidade
humana de pensar, descobrir, inventar, planejar e agir. Se a sociedade feliz
— a sociedade de pessoas felizes — ainda não estava na próxima esquina,
sua chegada iminente já estava prevista nas pranchetas dos homens de
pensamento, e seus contornos esboçados pelos homens de pensamento eram
encarnados nos escritórios e postos de comando dos homens de ação. O
propósito em que tanto os homens de pensamento quanto os de ação
empregavam seu trabalho era a construção da nova ordem. A liberdade
recém-descoberta deveria ser utilizada no esforço de gerar a ordenada rotina
futura. Nada deveria ser deixado em seu curso caprichoso e imprevisível, ao acidente e à contingência; nada deveria ser mantido em sua forma presente,
se essa forma pudesse ser aperfeiçoada e tornada mais útil e eficaz.
Essa nova ordem em que todos os fins presentemente soltos serão
novamente amarrados, enquanto as cargas e destroços de fatalidades
passadas, náufragos abandonados ou à deriva, serão recolocados e fixados
em seus lugares corretos, deveria ser massiva, sólida, feita de pedra ou
armada em aço: destinada a durar. Grande era belo, grande era racional;
“grande” queria dizer poder, ambição e coragem. O local de construção da
nova ordem industrial era repleto de monumentos ao poder e à ambição,
monumentos que, fossem ou não indestrutíveis, deveriam parecê-lo:
fábricas gigantescas lotadas de maquinaria volumosa e multidões de
operadores de máquinas, ou densas redes de canais, pontes e trilhos,
pontuados de majestosas estações dedicadas a emular os antigos templos
erigidos para a adoração da eternidade e para a eterna glória dos adoradores.
O mesmo Henry Ford que declarara que “a história é bobagem”, que
“não queremos tradição” e que “queremos viver no presente e a única
história que importa é a história que fazemos hoje”, um dia dobrou os
salários de seus trabalhadores, explicando que queria que eles comprassem
os carros que produzia. Essa explicação era falsa: os carros comprados
pelos trabalhadores da Ford eram uma fração mínima das vendas totais,
enquanto o aumento dos salários pesava muito nos custos de produção da
empresa. A verdadeira razão para o passo heterodoxo era o desejo de Ford
de deter a mobilidade irritantemente alta do trabalho. Ele queria atar seus
empregados às empresas Ford de uma vez por todas, fazendo com que o
dinheiro gasto em sua preparação e treinamento se pagasse muitas vezes,
por toda a duração da vida útil dos trabalhadores. E para alcançar tal efeito
tinha que imobilizar sua equipe, para mantê-los onde estavam, de
preferência até que sua força de trabalho fosse inteiramente utilizada. Tinha
que torná-los tão dependentes do emprego em sua fábrica e vendendo seu
trabalho a seu dono como ele mesmo dependia de empregá-los e usar seu
trabalho para sua própria riqueza e poder.
Ford expressava em voz alta os pensamentos que outros acalentavam
mas só se permitiam murmurar; ou, melhor, pensou o que outros na mesma
situação sentiam, mas eram incapazes de expressar em palavras. O
empréstimo do nome de Ford para o modelo universal das intenções e
práticas típicas da modernidade sólida ou do capitalismo pesado é
apropriado. O modelo de Henry Ford de uma ordem nova e racional criou o padrão para a tendência universal de seu tempo: e era um ideal que todos ou
pelo menos a maioria dos outros empresários lutavam, com graus variados
de sucesso, para alcançar. O ideal era o de atar capital e trabalho numa
união que — como um casamento divino — nenhum poder humano
poderia, ou tentaria, desatar.
A modernidade sólida era, de fato, também o tempo do capitalismo
pesado — do engajamento entre capital e trabalho fortificado pela
mutualidade de sua dependência. Os trabalhadores dependiam do emprego
para sua sobrevivência; o capital dependia de empregá-los para sua
reprodução e crescimento. Seu lugar de encontro tinha endereço fixo;
nenhum dos dois poderia mudar-se com facilidade para outra parte — os
muros da grande fábrica abrigavam e mantinham os parceiros numa prisão
compartilhada. Capital e trabalhadores estavam unidos, pode-se dizer, na
riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte os separasse. A
fábrica era seu habitat comum — simultaneamente o campo de batalha para
a guerra de trincheiras e lar natural para esperanças e sonhos.
O que pôs capital e trabalho face a face e os atou foi a transação de
compra e venda; e assim, a fim de permanecerem vivos, cada um tinha que
se manter em forma para essa transação: os donos do capital tinham que ser
capazes de continuar comprando trabalho, e os donos do trabalho tinham
que permanecer alertas, saudáveis, fortes e suficientemente atraentes para
não afastar os compradores e não sobrecarregá-los com os custos totais de
sua condição. Cada lado tinha “interesses investidos” em manter o outro
lado em forma. Não surpreende que a “remercantilização” do capital e do
trabalho tenha se convertido na principal função e ocupação da política e da
suprema agência política, o Estado. O Estado era o encarregado de que os
capitalistas se mantivessem aptos a comprar trabalho e a poder arcar com
seus preços correntes. Os desempregados eram inteira e verdadeiramente o
“exército reserva de trabalho”, e tinham que ser mantidos em Estado de
prontidão, caso fossem chamados de volta à ativa. O Estado de bem-estar,
um Estado dedicado a fazer justamente isso, estava, por essa razão,
genuinamente “além da esquerda e da direita”, esteio sem o qual nem
capital nem trabalho poderiam manter-se vivos e saudáveis, quanto mais
crescer.
Algumas pessoas viam o Estado de bem-estar como uma medida
temporária, que sairia de cena quando a segurança coletiva contra o
infortúnio tivesse dado aos segurados audácia e recursos suficientes para desenvolver plenamente seu potencial e reunir a coragem para assumir
riscos — e assim permitir-lhes “firmar-se sobre seus próprios pés”.
Observadores mais céticos viam o Estado de bem-estar como um
dispositivo sanitário coletivamente financiado e administrado — uma
operação de limpeza e saúde que teria que funcionar enquanto a empresa
capitalista continuasse a gerar detritos sociais que não tinha nem intenção
nem recursos de reciclar (isto é, por muito tempo ainda). Havia um
consenso geral, contudo, de que o Estado de bem-estar era um dispositivo
destinado a atacar as anomalias, impedir afastamentos da norma e diluir as
conseqüências das rupturas desta, se estas ainda assim acontecessem. A
própria norma, quase nunca posta em questão, era o mútuo engajamento
direto, face a face, de capital e trabalho, e a resolução de todas as questões
sociais importantes e constrangedoras no marco desse engajamento.
Quem, como jovem aprendiz, tivesse seu primeiro emprego na Ford,
poderia ter certeza de terminar sua vida profissional no mesmo lugar. Os
horizontes temporais do capitalismo pesado eram de longo prazo. Para os
trabalhadores, os horizontes eram desenhados pela perspectiva de emprego
por toda a vida dentro de uma empresa que poderia ou não ser imortal, mas
cuja vida seria, de qualquer maneira, muito mais longa que a deles mesmos.
Para os capitalistas, a “fortuna familiar”, destinada a durar além da vida de
qualquer dos membros da família, era sinônimo das fábricas que herdaram,
construíram ou pretendiam acrescentar ao patrimônio familiar.
Para resumir: a mentalidade de “longo prazo” constituía uma
expectativa nascida da experiência, e da repetida corroboração dessa
experiência, de que os destinos das pessoas que compram trabalho e das
pessoas que o vendem estão inseparavelmente entrelaçados por muito
tempo ainda — em termos práticos, para sempre — e que, portanto, a
construção de um modo de convivência suportável corresponde tanto aos
“interesses de todos” quanto à negociação das regras de convívio de
vizinhança entre os proprietários de casas num mesmo loteamento. Essa
experiência levou muitas décadas, talvez mais de um século, para se firmar.
Surgiu ao final do longo e tortuoso processo de “solidificação”. Como
sugeriu Richard Sennett em seu estudo recente, foi só depois da Segunda
Guerra que a desordem original da era capitalista veio a ser substituída, pelo
menos nas economias mais avançadas, por “sindicatos fortes, garantidores
do Estado de bem-estar, e corporações de larga escala”, que se combinaram
para produzir uma era de “estabilidade relativa”.13
A “estabilidade relativa” em questão recobre com certeza o conflito
perpétuo. De fato, tornou esse conflito possível e, num sentido paradoxal,
bem observado em seu tempo por Lewis Coser, “funcional”: para o bem ou
para o mal, os antagonistas estavam unidos por dependência mútua. O
confronto, testes de força e a barganha que se seguiam reforçavam a
unidade das partes em conflito precisamente porque nenhuma delas podia
continuar sozinha e ambos os lados sabiam que sua sobrevivência dependia
de encontrar soluções que todos considerassem aceitáveis. Enquanto se
supôs que a companhia mútua duraria, as regras dessa união foram objeto
de intensas negociações, às vezes com acrimônia e confrontações, outras
com tréguas e concessões. Os sindicatos recriaram a impotência dos
trabalhadores individuais na forma do poder de barganha coletivo e lutaram
com sucesso intermitente para transformar os regulamentos incapacitadores
em direitos dos trabalhadores e reformulá-los como limitações impostas à
liberdade de manobra dos empregadores. Enquanto se manteve a mútua
dependência, mesmo as jornadas impessoais odiadas com todas as forças
pelos artesãos reunidos nas antigas fábricas capitalistas (e que causavam
resistência, o que E.P. Thompson documentou vividamente), e ainda mais
suas últimas versões “novas e aperfeiçoadas” na forma das infames
medições de tempo de Frederic Taylor, esses atos, nas palavras de Sennett,
“de repressão e dominação praticados pela gerência em benefício do
crescimento da gigantesca organização industrial” “tinham se tornado uma
arena em que os trabalhadores podiam afirmar suas próprias demandas, uma
arena que dava poder”. Sennett conclui: “A rotina pode diminuir, mas pode
também proteger; a rotina pode decompor o trabalho, mas pode também
compor uma vida.”14
Essa situação mudou, e o ingrediente crucial da mudança múltipla é a
nova mentalidade de “curto prazo”, que substituiu a de “longo prazo”.
Casamentos “até que a morte nos separe” estão decididamente fora de moda
e se tornaram uma raridade: os parceiros não esperam mais viver muito
tempo juntos. De acordo com o último cálculo, um jovem americano com
nível médio de educação espera mudar de emprego 11 vezes durante sua
vida de trabalho — e o ritmo e freqüência da mudança deverão continuar
crescendo antes que a vida de trabalho dessa geração acabe. “Flexibilidade”
é o slogan do dia, e quando aplicado ao mercado de trabalho augura um fim
do “emprego como o conhecemos”, anunciando em seu lugar o advento do
trabalho por contratos de curto prazo, ou sem contratos, posições sem cobertura previdenciária, mas com cláusulas “até nova ordem”. A vida de