Modernidade Líquida
Os laços humanos no mundo fluido
mesmo tempo. Estão sob pressão o adiamento tanto da chegada da
satisfação quanto o de sua partida.
Esse é, porém, um dos lados da história. Na sociedade dos produtores, o
princípio ético do adiamento da satisfação costumava assegurar a
durabilidade do esforço do trabalho. Na sociedade dos consumidores, por
outro lado, o mesmo princípio pode ainda ser necessário na prática para
assegurar a durabilidade do desejo. Muito mais efêmero e frágil que o
trabalho, e, ao contrário do trabalho, não reforçado por rotinas
institucionalizadas, o desejo não tem chance de sobreviver se a satisfação
for deixada para as calendas gregas. Para se manter vivo e fresco, o desejo
deve ser, algumas vezes, e freqüentemente, satisfeito — ainda que a
satisfação signifique o fim do desejo. A sociedade dominada pela estética
do consumo precisa portanto de um tipo muito especial de satisfação —
semelhante ao pharmakon de Derrida, essa droga curativa que é ao mesmo
tempo um veneno, ou melhor, uma droga que deve ser dosada
cuidadosamente, nunca na dosagem completa — que mata. Uma satisfação
que não é realmente satisfatória, nunca bebida até o fim, sempre
abandonada pela metade…
A procrastinação serve à cultura do consumidor pela sua autonegação.
A fonte do esforço criativo não é mais o desejo induzido de adiar a
satisfação do desejo, mas o desejo induzido de encurtar o adiamento ou
aboli-lo de todo, acompanhado do desejo induzido de encurtar a duração da
satisfação quando ela chega. A cultura em guerra com a procrastinação é
uma novidade na história moderna. Ela não tem lugar para tomar distância,
nem para reflexão, continuidade, tradição — essa Wiederholung
(recapitulação) que, de acordo com Heidegger, era a modalidade do Ser
como o conhecemos.
Os laços humanos no mundo fluido
Os dois tipos de espaço, ocupados pelas duas categorias de pessoas, são
marcadamente diferentes, mas inter-relacionados; não conversam entre si,
mas estão em constante comunicação; têm muito pouco em comum, mas
simulam semelhança. Os dois espaços são regidos por lógicas drasticamente
diferentes, moldam diferentes experiências de vida, geram itinerários divergentes e narrativas que usam definições distintas, muitas vezes
opostas, de códigos comportamentais semelhantes. E no entanto os dois
espaços se acomodam dentro do mesmo mundo — e o mundo de que ambos
fazem parte é o mundo da vulnerabilidade e da precariedade.
O título de um artigo apresentado em dezembro de 1997 por um dos
analistas mais incisivos de nosso tempo, Pierre Bourdieu, é “Le précarité est
aujourd’hui partout”22. O título diz tudo: precariedade, instabilidade,
vulnerabilidade, é a característica mais difundida das condições de vida
contemporâneas (e também a que se sente mais dolorosamente). Os teóricos
franceses falam de précarité, os alemães, de Unsicherheit e
Risikogesellschaft, os italianos, de incertezza e os ingleses, de insecurity —
mas todos têm em mente o mesmo aspecto da condição humana,
experimentada de várias formas e sob nomes diferentes por todo o globo,
mas sentida como especialmente enervante e deprimente na parte altamente
desenvolvida e próspera do planeta — por ser um fato novo e sem
precedentes. O fenômeno que todos esses conceitos tentam captar e
articular é a experiência combinada da falta de garantias (de posição,
títulos e sobrevivência), da incerteza (em relação à sua continuação e
estabilidade futura) e de insegurança (do corpo, do eu e de suas extensões:
posses, vizinhança, comunidade).
A precariedade é a marca da condição preliminar de todo o resto: a
sobrevivência, e particularmente o tipo mais comum de sobrevivência, a
que é reivindicada em termos de trabalho e emprego. Essa sobrevivência já
se tornou excessivamente frágil, mas se torna mais e mais frágil e menos
confiável a cada ano que passa. Muitas pessoas, quando ouvem as opiniões
contraditórias dos especialistas, mas em geral apenas olhando em volta e
pensando sobre o destino de seus entes próximos e queridos, suspeitam com
boas razões que, por mais admiráveis que sejam as caras e as promessas que
os políticos fazem, o desemprego nos países prósperos tornou-se
“estrutural”: para cada nova vaga há alguns empregos que desapareceram, e
simplesmente não há empregos suficientes para todos. E o progresso
tecnológico — de fato, o próprio esforço de racionalização — tende a
anunciar cada vez menos, e não mais, empregos.
Quão frágeis e incertas se tornaram as vidas daqueles já dispensáveis
como resultado de sua dispensabilidade não é muito difícil de imaginar. A
questão é, porém, que — pelo menos psicologicamente — todos os outros
também são afetados, ainda que por enquanto apenas obliquamente. No mundo do desemprego estrutural ninguém pode se sentir verdadeiramente
seguro. Empregos seguros em empresas seguras parecem parte da nostalgia
dos avós; nem há muitas habilidades e experiências que, uma vez
adquiridas, garantam que o emprego será oferecido e, uma vez oferecido,
será durável. Ninguém pode razoavelmente supor que está garantido contra
a nova rodada de “redução de tamanho”, “agilização” e “racionalização”,
contra mudanças erráticas da demanda do mercado e pressões caprichosas
mas irresistíveis de “competitividade”, “produtividade” e “eficácia”.
“Flexibilidade” é a palavra do dia. Ela anuncia empregos sem segurança,
compromissos ou direitos, que oferecem apenas contratos a prazo fixo ou
renováveis, demissão sem aviso prévio e nenhum direito à compensação.
Ninguém pode, portanto, sentir-se insubstituível — nem os já demitidos
nem os que ambicionam o emprego de demitir os outros. Mesmo a posição
mais privilegiada pode acabar sendo apenas temporária e “até disposição
em contrário”.
Na falta de segurança de longo prazo, a “satisfação instantânea” parece
uma estratégia razoável. O que quer que a vida ofereça, que o faça hic et
nunc — no ato. Quem sabe o que o amanhã vai trazer? O adiamento da
satisfação perdeu seu fascínio. É, afinal, altamente incerto que o trabalho e
o esforço investidos hoje venham a contar como recursos quando chegar a
hora da recompensa. Está longe de ser certo, além disso, que os prêmios
que hoje parecem atraentes serão tão desejáveis quando finalmente forem
conquistados. Todos aprendemos com amargas experiências que os prêmios
podem se tornar riscos de uma hora para outra e prêmios resplandecentes
podem se tornar marcas de vergonha. As modas vêm e vão com velocidade
estonteante, todos os objetos de desejo se tornam obsoletos, repugnantes e
de mau-gosto antes que tenhamos tempo de aproveitá-los. Estilos de vida
que são “chiques” hoje serão amanhã alvos do ridículo. Citando Bourdieu
uma vez mais: “Os que deploram o cinismo que marca os homens e
mulheres de nosso tempo não deveriam deixar de relacioná-lo às condições
sociais e econômicas que o favorecem…” Quando Roma pega fogo e há
muito pouco ou nada que se possa fazer para controlar o incêndio, tocar
violino não parece mais bobo nem menos adequado do que fazer qualquer
outra coisa.
Condições econômicas e sociais precárias treinam homens e mulheres
(ou os fazem aprender pelo caminho mais difícil) a perceber o mundo como
um contêiner cheio de objetos descartáveis, objetos para uma só utilização; o mundo inteiro — inclusive outros seres humanos. Além disso, o mundo
parece ser constituído de “caixas pretas”, hermeticamente fechadas, e que
jamais deverão ser abertas pelos usuários, nem consertadas quando
quebram. Os mecânicos de automóveis de hoje não são treinados para
consertar motores quebrados ou danificados, mas apenas para retirar e jogar
fora as peças usadas ou defeituosas e substituí-las por outras novas e
seladas, diretamente da prateleira. Eles não têm a menor idéia da estrutura
interna das “peças sobressalentes” (uma expressão que diz tudo), do modo
misterioso como funcionam; não consideram esse entendimento e a
habilidade que o acompanha como sua responsabilidade ou como parte de
seu campo de competência. Como na oficina mecânica, assim também na
vida em geral: cada “peça” é “sobressalente” e substituível, e assim deve
ser. Por que gastar tempo com consertos que consomem trabalho, se não é
preciso mais que alguns momentos para jogar fora a peça danificada e
colocar outra em seu lugar?
Num mundo em que o futuro é, na melhor das hipóteses, sombrio e
nebuloso, porém mais provavelmente cheio de riscos e perigos, colocar-se
objetivos distantes, abandonar o interesse privado para aumentar o poder do
grupo e sacrificar o presente em nome de uma felicidade futura não
parecem uma proposição atraente, ou mesmo razoável. Qualquer
oportunidade que não for aproveitada aqui e agora é uma oportunidade
perdida; não a aproveitar é assim imperdoável e não há desculpa fácil para
isso, e nem justificativa. Como os compromissos de hoje são obstáculos
para as oportunidades de amanhã, quanto mais forem leves e superficiais,
menor o risco de prejuízos. “Agora” é a palavra-chave da estratégia de vida,
ao que quer que essa estratégia se aplique e independente do que mais possa
sugerir. Num mundo inseguro e imprevisível, o viajante esperto fará o
possível para imitar os felizes globais que viajam leves; e não derramarão
muitas lágrimas ao se livrar de qualquer coisa que atrapalhe os movimentos.
Raramente param por tempo suficiente para imaginar que os laços humanos
não são como peças de automóvel — que raramente vêm prontos, que
tendem a se deteriorar e desintegrar facilmente se ficarem hermeticamente
fechados e que não são fáceis de substituir quando perdem a utilidade.
E assim a política de “precarização” conduzida pelos operadores dos
mercados de trabalho acaba sendo apoiada e reforçada pelas políticas de
vida, sejam elas adotadas deliberadamente ou apenas por falta de
alternativas. Ambas convergem para o mesmo resultado: o enfraquecimento e decomposição dos laços humanos, das comunidades e das parcerias.
Compromissos do tipo “até que a morte nos separe” se transformam em
contratos do tipo “enquanto durar a satisfação”, temporais e transitórios por
definição, por projeto e por impacto pragmático — e assim passíveis de
ruptura unilateral, sempre que um dos parceiros perceba melhores
oportunidades e maior valor fora da parceria do que em tentar salvá-la a
qualquer — incalculável — custo.
Em outras palavras, laços e parcerias tendem a ser vistos e tratados
como coisas destinadas a serem consumidas, e não produzidas; estão
sujeitas aos mesmos critérios de avaliação de todos os outros objetos de
consumo. No mercado de consumo, os produtos duráveis são em geral
oferecidos por um “período de teste” a devolução do dinheiro é prometida
se o comprador estiver menos que totalmente satisfeito. Se o participante
numa parceria é “concebido” em tais termos, então não é mais tarefa para
ambos os parceiros “fazer com que a relação funcione”, “na riqueza e na
pobreza”, na saúde e na doença, trabalhar a favor nos bons e maus
momentos, repensar, se necessário, as próprias preferências, conceder e
fazer sacrifícios em favor da uma união duradoura. É, em vez disso, uma
questão de obter satisfação de um produto pronto para o consumo; se o
prazer obtido não corresponder ao padrão prometido e esperado, ou se a
novidade se acabar junto com o gozo, pode-se entrar com a ação de
divórcio, com base nos direitos do consumidor. Não há qualquer razão para
ficar com um produto inferior ou envelhecido em vez de procurar outro
“novo e aperfeiçoado” nas lojas.
O que se segue é que a suposta transitoriedade das parcerias tende a se
tornar uma profecia autocumprida. Se o laço humano, como todos os outros
objetos de consumo, não é alguma coisa a ser trabalhada com grande
esforço e sacrifício ocasional, mas algo de que se espera satisfação
imediata, instantânea, no momento da compra — e algo que se rejeita se
não satisfizer, a ser usada apenas enquanto continuar a satisfazer (e nem um
minuto além disso) —, então não faz sentido “jogar dinheiro bom em cima
de dinheiro ruim”, tentar cada vez mais, e menos ainda sofrer com o
desconforto e o embaraço para salvar a parceria. Mesmo um pequeno
problema pode causar a ruptura da parceria; desacordos triviais se tornam
conflitos amargos, pequenos atritos são tomados como sinais de
incompatibilidade essencial e irreparável. Como o sociólogo norte-
americano W.I. Thomas teria dito, se tivesse testemunhado essa situação: se as pessoas supõem que seus compromissos são temporários e até segunda
ordem, esses compromissos tendem a se tornar temporários em
conseqüência das próprias ações dessas pessoas.
A precariedade da existência social inspira uma percepção do mundo
em volta como um agregado de produtos para consumo imediato. Mas a
percepção do mundo, com seus habitantes, como um conjunto de itens de
consumo, faz da negociação de laços humanos duradouros algo
excessivamente difícil. Pessoas inseguras tendem a ser irritáveis; são
também intolerantes com qualquer coisa que funcione como obstáculo a
seus desejos; e como muitos desses desejos serão de qualquer forma
frustrados, não há escassez de coisas e pessoas que sirvam de objeto a essa
intolerância. Se a satisfação instantânea é a única maneira de sufocar o
sentimento de insegurança (sem jamais saciar a sede de segurança e
certeza), não há razão evidente para ser tolerante em relação a alguma coisa
ou pessoa que não tenha óbvia relevância para a busca da satisfação, e
menos ainda em relação a alguma coisa ou pessoa complicada ou relutante
em trazer a satisfação que se busca.
Há ainda outra ligação entre a “consumização” de um mundo precário e
a desintegração dos laços humanos. Ao contrário da produção, o consumo é
uma atividade solitária, irremediavelmente solitária, mesmo nos momentos
em que se realiza na companhia de outros. Esforços produtivos (em geral de
longo prazo) requerem cooperação mesmo quando apenas demandam a
adição de força muscular bruta: se carregar um pesado tronco de um lugar
para outro requer uma hora a oito homens, não se segue que um homem o
possa fazer em oito (ou qualquer número de) horas. No caso de tarefas mais
complexas que envolvem a divisão do trabalho e demandam diversas
habilidades especializadas que não se encontram em uma só pessoa, a
necessidade de cooperação é ainda mais óbvia; sem ela, o produto não teria
chance de surgir. É a cooperação que transforma os esforços diversos e
dispersos em esforços produtivos. No caso do consumo, porém, a
cooperação não só é desnecessária como é inteiramente supérflua. O que é
consumido o é individualmente, mesmo que num saguão repleto. Num
toque de seu gênio versátil, Luis Buñuel (em O fantasma da liberdade)
mostra o ato de comer, esse ato prototípico de gregariedade e sociabilidade,
como a mais solitária e secreta de todas as atividades, zelosamente
protegida da curiosidade dos outros.