Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 31 de 42

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Modernidade Líquida

Os laços humanos no mundo fluido

mesmo tempo. Estão sob pressão o adiamento tanto da chegada da

satisfação quanto o de sua partida.

Esse é, porém, um dos lados da história. Na sociedade dos produtores, o

princípio ético do adiamento da satisfação costumava assegurar a

durabilidade do esforço do trabalho. Na sociedade dos consumidores, por

outro lado, o mesmo princípio pode ainda ser necessário na prática para

assegurar a durabilidade do desejo. Muito mais efêmero e frágil que o

trabalho, e, ao contrário do trabalho, não reforçado por rotinas

institucionalizadas, o desejo não tem chance de sobreviver se a satisfação

for deixada para as calendas gregas. Para se manter vivo e fresco, o desejo

deve ser, algumas vezes, e freqüentemente, satisfeito — ainda que a

satisfação signifique o fim do desejo. A sociedade dominada pela estética

do consumo precisa portanto de um tipo muito especial de satisfação —

semelhante ao pharmakon de Derrida, essa droga curativa que é ao mesmo

tempo um veneno, ou melhor, uma droga que deve ser dosada

cuidadosamente, nunca na dosagem completa — que mata. Uma satisfação

que não é realmente satisfatória, nunca bebida até o fim, sempre

abandonada pela metade…

A procrastinação serve à cultura do consumidor pela sua autonegação.

A fonte do esforço criativo não é mais o desejo induzido de adiar a

satisfação do desejo, mas o desejo induzido de encurtar o adiamento ou

aboli-lo de todo, acompanhado do desejo induzido de encurtar a duração da

satisfação quando ela chega. A cultura em guerra com a procrastinação é

uma novidade na história moderna. Ela não tem lugar para tomar distância,

nem para reflexão, continuidade, tradição — essa Wiederholung

(recapitulação) que, de acordo com Heidegger, era a modalidade do Ser

como o conhecemos.

 

Os laços humanos no mundo fluido

 

Os dois tipos de espaço, ocupados pelas duas categorias de pessoas, são

marcadamente diferentes, mas inter-relacionados; não conversam entre si,

mas estão em constante comunicação; têm muito pouco em comum, mas

simulam semelhança. Os dois espaços são regidos por lógicas drasticamente

diferentes, moldam diferentes experiências de vida, geram itinerários divergentes e narrativas que usam definições distintas, muitas vezes

opostas, de códigos comportamentais semelhantes. E no entanto os dois

espaços se acomodam dentro do mesmo mundo — e o mundo de que ambos

fazem parte é o mundo da vulnerabilidade e da precariedade.

O título de um artigo apresentado em dezembro de 1997 por um dos

analistas mais incisivos de nosso tempo, Pierre Bourdieu, é “Le précarité est

aujourd’hui partout”22. O título diz tudo: precariedade, instabilidade,

vulnerabilidade, é a característica mais difundida das condições de vida

contemporâneas (e também a que se sente mais dolorosamente). Os teóricos

franceses falam de précarité, os alemães, de Unsicherheit e

Risikogesellschaft, os italianos, de incertezza e os ingleses, de insecurity —

mas todos têm em mente o mesmo aspecto da condição humana,

experimentada de várias formas e sob nomes diferentes por todo o globo,

mas sentida como especialmente enervante e deprimente na parte altamente

desenvolvida e próspera do planeta — por ser um fato novo e sem

precedentes. O fenômeno que todos esses conceitos tentam captar e

articular é a experiência combinada da falta de garantias (de posição,

títulos e sobrevivência), da incerteza (em relação à sua continuação e

estabilidade futura) e de insegurança (do corpo, do eu e de suas extensões:

posses, vizinhança, comunidade).

A precariedade é a marca da condição preliminar de todo o resto: a

sobrevivência, e particularmente o tipo mais comum de sobrevivência, a

que é reivindicada em termos de trabalho e emprego. Essa sobrevivência já

se tornou excessivamente frágil, mas se torna mais e mais frágil e menos

confiável a cada ano que passa. Muitas pessoas, quando ouvem as opiniões

contraditórias dos especialistas, mas em geral apenas olhando em volta e

pensando sobre o destino de seus entes próximos e queridos, suspeitam com

boas razões que, por mais admiráveis que sejam as caras e as promessas que

os políticos fazem, o desemprego nos países prósperos tornou-se

“estrutural”: para cada nova vaga há alguns empregos que desapareceram, e

simplesmente não há empregos suficientes para todos. E o progresso

tecnológico — de fato, o próprio esforço de racionalização — tende a

anunciar cada vez menos, e não mais, empregos.

Quão frágeis e incertas se tornaram as vidas daqueles já dispensáveis

como resultado de sua dispensabilidade não é muito difícil de imaginar. A

questão é, porém, que — pelo menos psicologicamente — todos os outros

também são afetados, ainda que por enquanto apenas obliquamente. No mundo do desemprego estrutural ninguém pode se sentir verdadeiramente

seguro. Empregos seguros em empresas seguras parecem parte da nostalgia

dos avós; nem há muitas habilidades e experiências que, uma vez

adquiridas, garantam que o emprego será oferecido e, uma vez oferecido,

será durável. Ninguém pode razoavelmente supor que está garantido contra

a nova rodada de “redução de tamanho”, “agilização” e “racionalização”,

contra mudanças erráticas da demanda do mercado e pressões caprichosas

mas irresistíveis de “competitividade”, “produtividade” e “eficácia”.

“Flexibilidade” é a palavra do dia. Ela anuncia empregos sem segurança,

compromissos ou direitos, que oferecem apenas contratos a prazo fixo ou

renováveis, demissão sem aviso prévio e nenhum direito à compensação.

Ninguém pode, portanto, sentir-se insubstituível — nem os já demitidos

nem os que ambicionam o emprego de demitir os outros. Mesmo a posição

mais privilegiada pode acabar sendo apenas temporária e “até disposição

em contrário”.

Na falta de segurança de longo prazo, a “satisfação instantânea” parece

uma estratégia razoável. O que quer que a vida ofereça, que o faça hic et

nunc — no ato. Quem sabe o que o amanhã vai trazer? O adiamento da

satisfação perdeu seu fascínio. É, afinal, altamente incerto que o trabalho e

o esforço investidos hoje venham a contar como recursos quando chegar a

hora da recompensa. Está longe de ser certo, além disso, que os prêmios

que hoje parecem atraentes serão tão desejáveis quando finalmente forem

conquistados. Todos aprendemos com amargas experiências que os prêmios

podem se tornar riscos de uma hora para outra e prêmios resplandecentes

podem se tornar marcas de vergonha. As modas vêm e vão com velocidade

estonteante, todos os objetos de desejo se tornam obsoletos, repugnantes e

de mau-gosto antes que tenhamos tempo de aproveitá-los. Estilos de vida

que são “chiques” hoje serão amanhã alvos do ridículo. Citando Bourdieu

uma vez mais: “Os que deploram o cinismo que marca os homens e

mulheres de nosso tempo não deveriam deixar de relacioná-lo às condições

sociais e econômicas que o favorecem…” Quando Roma pega fogo e há

muito pouco ou nada que se possa fazer para controlar o incêndio, tocar

violino não parece mais bobo nem menos adequado do que fazer qualquer

outra coisa.

Condições econômicas e sociais precárias treinam homens e mulheres

(ou os fazem aprender pelo caminho mais difícil) a perceber o mundo como

um contêiner cheio de objetos descartáveis, objetos para uma só utilização; o mundo inteiro — inclusive outros seres humanos. Além disso, o mundo

parece ser constituído de “caixas pretas”, hermeticamente fechadas, e que

jamais deverão ser abertas pelos usuários, nem consertadas quando

quebram. Os mecânicos de automóveis de hoje não são treinados para

consertar motores quebrados ou danificados, mas apenas para retirar e jogar

fora as peças usadas ou defeituosas e substituí-las por outras novas e

seladas, diretamente da prateleira. Eles não têm a menor idéia da estrutura

interna das “peças sobressalentes” (uma expressão que diz tudo), do modo

misterioso como funcionam; não consideram esse entendimento e a

habilidade que o acompanha como sua responsabilidade ou como parte de

seu campo de competência. Como na oficina mecânica, assim também na

vida em geral: cada “peça” é “sobressalente” e substituível, e assim deve

ser. Por que gastar tempo com consertos que consomem trabalho, se não é

preciso mais que alguns momentos para jogar fora a peça danificada e

colocar outra em seu lugar?

Num mundo em que o futuro é, na melhor das hipóteses, sombrio e

nebuloso, porém mais provavelmente cheio de riscos e perigos, colocar-se

objetivos distantes, abandonar o interesse privado para aumentar o poder do

grupo e sacrificar o presente em nome de uma felicidade futura não

parecem uma proposição atraente, ou mesmo razoável. Qualquer

oportunidade que não for aproveitada aqui e agora é uma oportunidade

perdida; não a aproveitar é assim imperdoável e não há desculpa fácil para

isso, e nem justificativa. Como os compromissos de hoje são obstáculos

para as oportunidades de amanhã, quanto mais forem leves e superficiais,

menor o risco de prejuízos. “Agora” é a palavra-chave da estratégia de vida,

ao que quer que essa estratégia se aplique e independente do que mais possa

sugerir. Num mundo inseguro e imprevisível, o viajante esperto fará o

possível para imitar os felizes globais que viajam leves; e não derramarão

muitas lágrimas ao se livrar de qualquer coisa que atrapalhe os movimentos.

Raramente param por tempo suficiente para imaginar que os laços humanos

não são como peças de automóvel — que raramente vêm prontos, que

tendem a se deteriorar e desintegrar facilmente se ficarem hermeticamente

fechados e que não são fáceis de substituir quando perdem a utilidade.

E assim a política de “precarização” conduzida pelos operadores dos

mercados de trabalho acaba sendo apoiada e reforçada pelas políticas de

vida, sejam elas adotadas deliberadamente ou apenas por falta de

alternativas. Ambas convergem para o mesmo resultado: o enfraquecimento e decomposição dos laços humanos, das comunidades e das parcerias.

Compromissos do tipo “até que a morte nos separe” se transformam em

contratos do tipo “enquanto durar a satisfação”, temporais e transitórios por

definição, por projeto e por impacto pragmático — e assim passíveis de

ruptura unilateral, sempre que um dos parceiros perceba melhores

oportunidades e maior valor fora da parceria do que em tentar salvá-la a

qualquer — incalculável — custo.

Em outras palavras, laços e parcerias tendem a ser vistos e tratados

como coisas destinadas a serem consumidas, e não produzidas; estão

sujeitas aos mesmos critérios de avaliação de todos os outros objetos de

consumo. No mercado de consumo, os produtos duráveis são em geral

oferecidos por um “período de teste” a devolução do dinheiro é prometida

se o comprador estiver menos que totalmente satisfeito. Se o participante

numa parceria é “concebido” em tais termos, então não é mais tarefa para

ambos os parceiros “fazer com que a relação funcione”, “na riqueza e na

pobreza”, na saúde e na doença, trabalhar a favor nos bons e maus

momentos, repensar, se necessário, as próprias preferências, conceder e

fazer sacrifícios em favor da uma união duradoura. É, em vez disso, uma

questão de obter satisfação de um produto pronto para o consumo; se o

prazer obtido não corresponder ao padrão prometido e esperado, ou se a

novidade se acabar junto com o gozo, pode-se entrar com a ação de

divórcio, com base nos direitos do consumidor. Não há qualquer razão para

ficar com um produto inferior ou envelhecido em vez de procurar outro

“novo e aperfeiçoado” nas lojas.

O que se segue é que a suposta transitoriedade das parcerias tende a se

tornar uma profecia autocumprida. Se o laço humano, como todos os outros

objetos de consumo, não é alguma coisa a ser trabalhada com grande

esforço e sacrifício ocasional, mas algo de que se espera satisfação

imediata, instantânea, no momento da compra — e algo que se rejeita se

não satisfizer, a ser usada apenas enquanto continuar a satisfazer (e nem um

minuto além disso) —, então não faz sentido “jogar dinheiro bom em cima

de dinheiro ruim”, tentar cada vez mais, e menos ainda sofrer com o

desconforto e o embaraço para salvar a parceria. Mesmo um pequeno

problema pode causar a ruptura da parceria; desacordos triviais se tornam

conflitos amargos, pequenos atritos são tomados como sinais de

incompatibilidade essencial e irreparável. Como o sociólogo norte-

americano W.I. Thomas teria dito, se tivesse testemunhado essa situação: se as pessoas supõem que seus compromissos são temporários e até segunda

ordem, esses compromissos tendem a se tornar temporários em

conseqüência das próprias ações dessas pessoas.

A precariedade da existência social inspira uma percepção do mundo

em volta como um agregado de produtos para consumo imediato. Mas a

percepção do mundo, com seus habitantes, como um conjunto de itens de

consumo, faz da negociação de laços humanos duradouros algo

excessivamente difícil. Pessoas inseguras tendem a ser irritáveis; são

também intolerantes com qualquer coisa que funcione como obstáculo a

seus desejos; e como muitos desses desejos serão de qualquer forma

frustrados, não há escassez de coisas e pessoas que sirvam de objeto a essa

intolerância. Se a satisfação instantânea é a única maneira de sufocar o

sentimento de insegurança (sem jamais saciar a sede de segurança e

certeza), não há razão evidente para ser tolerante em relação a alguma coisa

ou pessoa que não tenha óbvia relevância para a busca da satisfação, e

menos ainda em relação a alguma coisa ou pessoa complicada ou relutante

em trazer a satisfação que se busca.

Há ainda outra ligação entre a “consumização” de um mundo precário e

a desintegração dos laços humanos. Ao contrário da produção, o consumo é

uma atividade solitária, irremediavelmente solitária, mesmo nos momentos

em que se realiza na companhia de outros. Esforços produtivos (em geral de

longo prazo) requerem cooperação mesmo quando apenas demandam a

adição de força muscular bruta: se carregar um pesado tronco de um lugar

para outro requer uma hora a oito homens, não se segue que um homem o

possa fazer em oito (ou qualquer número de) horas. No caso de tarefas mais

complexas que envolvem a divisão do trabalho e demandam diversas

habilidades especializadas que não se encontram em uma só pessoa, a

necessidade de cooperação é ainda mais óbvia; sem ela, o produto não teria

chance de surgir. É a cooperação que transforma os esforços diversos e

dispersos em esforços produtivos. No caso do consumo, porém, a

cooperação não só é desnecessária como é inteiramente supérflua. O que é

consumido o é individualmente, mesmo que num saguão repleto. Num

toque de seu gênio versátil, Luis Buñuel (em O fantasma da liberdade)

mostra o ato de comer, esse ato prototípico de gregariedade e sociabilidade,

como a mais solitária e secreta de todas as atividades, zelosamente

protegida da curiosidade dos outros.