Modernidade Líquida
Livre para comprar — ou assim parece
Como observou T.H. Marshall em outro contexto, quando muitas
pessoas correm simultaneamente na mesma direção, é preciso perguntar
duas coisas: atrás de quê e do quê estão correndo? Os consumidores podem
estar correndo atrás de sensações — táteis, visuais ou olfativas —
agradáveis, ou atrás de delícias do paladar prometidas pelos objetos
coloridos e brilhantes expostos nas prateleiras dos supermercados, ou atrás
das sensações mais profundas e reconfortantes prometidas por um
conselheiro especializado. Mas estão também tentando escapar da agonia
chamada insegurança. Querem estar, pelo menos uma vez, livres do medo
do erro, da negligência ou da incompetência. Querem estar, pelo menos
uma vez, seguros, confiantes; e a admirável virtude dos objetos que
encontram quando vão às compras é que eles trazem consigo (ou parecem
por algum tempo) a promessa de segurança.
Ainda que possa ser algo mais, o comprar compulsivo é também um
ritual feito à luz do dia para exorcizar as horrendas aparições da incerteza e
da insegurança que assombram as noites. É, de fato, um ritual diário: os
exorcismos precisam ser repetidos diariamente, porque quase nada é posto
nas prateleiras dos supermercados sem um carimbo como “melhor consumir
antes de”, e porque o tipo de certeza à venda nas lojas pouco adianta para
cortar as raízes da insegurança, que foram o que levou o comprador a visitar
as lojas. O que importa, porém, e permite que o jogo continue — não
obstante a falta de perspectivas —, é a maravilhosa qualidade dos
exorcismos: eles são eficazes e satisfatórios não tanto porque afugentam os
fantasmas (o que raramente fazem), mas pelo próprio fato de serem
realizados. Enquanto a arte de exorcizar estiver viva, os fantasmas não
podem reivindicar a invencibilidade. E, na sociedade dos consumidores
individualizados, tudo o que precisa ser feito precisa ser feito à la “faça-
você-mesmo”. O que mais, além das compras, preenche tão bem os pré-
requisitos desse tipo de exorcismo?
Livre para comprar — ou assim parece
As pessoas de nosso tempo, observou Albert Camus, sofrem por não serem
capazes de possuir o mundo de maneira suficientemente completa:
Exceto por vívidos momentos de realização, toda a realidade para eles é
incompleta. Suas ações lhes escapam na forma de outras ações,
retornam sob aparências inesperadas para julgá-los e desaparecem,
como a água que Tântalo desejava beber, por algum orifício ainda não
descoberto.
Isso é o que cada um de nós sabe por um olhar introspectivo: isso é o
que nossas próprias biografias, quando examinadas em retrospecto, nos
ensinam sobre o mundo em que vivemos. Mas não quando olhamos ao
redor: quanto aos outros que conhecemos, e especialmente pessoas de que
sabemos — “vistas à distância, [sua] existência parece ter uma coerência e
uma unidade que na verdade não pode ter, mas que parece evidente ao
espectador”. Isso é uma ilusão de ótica. A distância (quer dizer, a pobreza
de nosso conhecimento) borra os detalhes e apaga tudo o que não se encaixa
na Gestalt. Ilusão ou não, tendemos a ver as vidas dos outros como obras de
arte. E tendo-as visto assim, lutamos para fazer o mesmo: “Todo o mundo
tenta fazer de sua vida uma obra de arte.”18
Essa obra de arte que queremos moldar a partir do estofo quebradiço da
vida chama-se “identidade”. Quando falamos de identidade há, no fundo de
nossas mentes, uma tênue imagem de harmonia, lógica, consistência: todas
as coisas que parecem — para nosso desespero eterno — faltar tanto e tão
abominavelmente ao fluxo de nossa experiência. A busca da identidade é a
busca incessante de deter ou tornar mais lento o fluxo, de solidificar o
fluido, de dar forma ao disforme. Lutamos para negar, ou pelo menos
encobrir, a terrível fluidez logo abaixo do fino envoltório da forma;
tentamos desviar os olhos de vistas que eles não podem penetrar ou
absorver. Mas as identidades, que não tornam o fluxo mais lento e muito
menos o detêm, são mais parecidas com crostas que vez por outra
endurecem sobre a lava vulcânica e que se fundem e dissolvem novamente
antes de ter tempo de esfriar e fixar-se. Então há necessidade de outra
tentativa, e mais outra — e isso só é possível se nos aferrarmos
desesperadamente a coisas sólidas e tangíveis e, portanto, que prometam ser
duradouras, façam ou não parte de um conjunto, e dêem ou não razões para
que esperemos que permaneçam juntas depois que as juntamos. Nas
palavras de Deleuze e Guattari, “o desejo constantemente une o fluxo
contínuo e objetos parciais que são por natureza fragmentários e
fragmentados”.19
As identidades parecem fixas e sólidas apenas quando vistas de relance,
de fora. A eventual solidez que podem ter quando contempladas de dentro
da própria experiência biográfica parece frágil, vulnerável e constantemente
dilacerada por forças que expõem sua fluidez e por contracorrentes que
ameaçam fazê-la em pedaços e desmanchar qualquer forma que possa ter
adquirido.
A identidade experimentada, vivida, só pode se manter unida com o
adesivo da fantasia, talvez o sonhar acordado. Mas, dada a teimosa
evidência da experiência biográfica, qualquer adesivo mais forte — uma
substância com maior poder de fixação que a fantasia fácil de dissolver e
limpar — pareceria uma perspectiva tão repugnante quanto a ausência do
sonhar acordado. É precisamente por isso que a moda, como observou Efrat
Tseëlon, é tão adequada: exatamente a coisa certa, nem mais fraca nem mais
forte que as fantasias. A moda oferece “meios de explorar os limites sem
compromisso com a ação, e … sem sofrer as conseqüências”. “Nos contos
de fadas”, lembra Tseëlon, “as roupas de sonho são a chave da verdadeira
identidade da princesa, como a fada-madrinha sabe perfeitamente ao vestir
Cinderela para o baile.”20
Em vista da volatilidade e instabilidade intrínsecas de todas ou quase
todas as identidades, é a capacidade de “ir às compras” no supermercado
das identidades, o grau de liberdade genuína ou supostamente genuína de
selecionar a própria identidade e de mantê-la enquanto desejado, que se
torna o verdadeiro caminho para a realização das fantasias de identidade.
Com essa capacidade, somos livres para fazer e desfazer identidades à
vontade. Ou assim parece.
Numa sociedade de consumo, compartilhar a dependência de
consumidor — a dependência universal das compras — é a condição sine
qua non de toda liberdade individual; acima de tudo da liberdade de ser
diferente, de “ter identidade”. Num arroubo de sinceridade (ao mesmo
tempo em que acena para os clientes sofisticados que sabem como é o
jogo), um comercial de TV mostra uma multidão de mulheres com uma
variedade de penteados e cores de cabelos, enquanto o narrador comenta:
“Todas únicas; todas individuais; todas escolhem X” (X sendo a marca
anunciada de condicionador). O utensílio produzido em massa é a
ferramenta da variedade individual. A identidade — “única” e “individual”
— só pode ser gravada na substância que todo o mundo compra e que só
pode ser encontrada quando se compra. Ganha-se a independência rendendo-se. Quando no filme Elizabeth a rainha da Inglaterra decide
“mudar sua personalidade”, tornar-se a “filha de seu pai” e forçar os
cortesãos a obedecerem a suas ordens, ela o faz mudando o penteado,
cobrindo o rosto com grossa camada de pinturas artesanais e usando uma
tiara também feita por artesãos.
A medida em que essa liberdade fundada na escolha de consumidor,
especialmente a liberdade de auto-identificação pelo uso de objetos
produzidos e comercializados em massa, é genuína ou putativa é uma
questão aberta. Essa liberdade não funciona sem dispositivos e substâncias
disponíveis no mercado. Dado isso, quão ampla é a gama de fantasias e
experimentação dos felizes compradores?
Sua dependência não se limita ao ato da compra. Lembre-se, por
exemplo, o formidável poder que os meios de comunicação de massa
exercem sobre a imaginação popular, coletiva e individual. Imagens
poderosas, “mais reais que a realidade”, em telas ubíquas estabelecem os
padrões da realidade e de sua avaliação, e também a necessidade de tornar
mais palatável a realidade “vivida”. A vida desejada tende a ser a vida
“vista na TV”. A vida na telinha diminui e tira o charme da vida vivida: é a
vida vivida que parece irreal, e continuará a parecer irreal enquanto não for
remodelada na forma de imagens que possam aparecer na tela. (Para
completar a realidade de nossa própria vida, precisamos passá-la para
videotape — essa coisa confortavelmente apagável, sempre pronta para a
substituição das velhas gravações pelas novas). Como diz Christopher
Lasch: “A vida moderna é tão completamente mediada por imagens
eletrônicas que não podemos deixar de responder aos outros como se suas
ações — e as nossas — estivessem sendo gravadas e transmitidas
simultaneamente para uma audiência escondida, ou guardadas para serem
assistidas mais tarde.”21
Em livro posterior,22 Lasch lembra a seus leitores que “o velho sentido
da identidade se refere tanto a pessoas como a coisas. Ambas perderam sua
solidez na sociedade moderna, sua definição e continuidade”. A implicação
é que, nesse universal “desmanchar dos sólidos”, a iniciativa está com as
coisas; e, como as coisas são os ornamentos simbólicos das identidades e as
ferramentas dos esforços de identificação, as pessoas logo as seguem.
Referindo-se ao famoso estudo de Emma Rothschild sobre a indústria
automobilística, Lasch sugere que
as inovações de Alfred Sloan no marketing — a mudança anual de
modelos, o constante aperfeiçoamento do produto, o esforço de associá-
lo ao status social, a deliberada estimulação de um apetite ilimitado
pela mudança — constituíram uma contrapartida necessária à inovação
de Henry Ford na produção … Ambas tendiam a desencorajar a
iniciativa e o pensamento independente e a fazer com que os indivíduos
desconfiassem de seu próprio julgamento, mesmo em questões de
gosto. Parecia que suas próprias preferências não-tuteladas poderiam se
atrasar em relação à moda e também precisavam ser periodicamente
aperfeiçoadas.
Alfred Sloan era um pioneiro do que mais tarde se tornaria uma
tendência universal. A produção de mercadorias como um todo substitui
hoje “o mundo dos objetos duráveis” pelos “produtos perecíveis projetados
para a obsolescência imediata”. As conseqüências dessa substituição foram
sagazmente descritas por Jeremy Seabrook:
O capitalismo não entregou os bens às pessoas; as pessoas foram
crescentemente entregues aos bens; o que quer dizer que o próprio
caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado, de tal
forma que elas se agrupam aproximadamente … com as mercadorias,
experiências e sensações … cuja venda é o que dá forma e significado a
suas vidas.23
Num mundo em que coisas deliberadamente instáveis são a matéria-
prima das identidades, que são necessariamente instáveis, é preciso estar
constantemente em alerta; mas acima de tudo é preciso manter a própria
flexibilidade e a velocidade de reajuste em relação aos padrões cambiantes
do mundo “lá fora”. Como observou recentemente Thomas Mathiesen, a
poderosa metáfora do Panóptico de Bentham e de Foucault não dá conta
dos modos em que o poder opera. Mudamo-nos agora, sugere Mathiesen, de
uma sociedade do estilo Panóptico para uma sociedade do estilo sinóptico:
as mesas foram viradas e agora são muitos que observam poucos.24 Os
espetáculos tomam o lugar da supervisão sem perder o poder disciplinador
do antecessor. A obediência aos padrões (uma maleável e estranhamente
ajustável obediência a padrões eminentemente flexíveis, acrescento) tende a
ser alcançada hoje em dia pela tentação e pela sedução e não mais pela coerção — e aparece sob o disfarce do livre-arbítrio, em vez de revelar-se
como força externa.
Essas verdades devem ser reafirmadas mais e mais, pois o cadáver do
“conceito romântico do eu”, adivinhando uma profunda essência íntima que
se esconde por trás das aparências externas e superficiais, hoje em dia tende
a ser artificialmente reanimado pelos esforços conjuntos do que Paul
Atkinson e David Silverman apropriadamente denominaram de “sociedade
da entrevista” (“apoiada, em todos os seus aspectos, em entrevistas face a
face para revelar o eu pessoal e privado do sujeito”) e de grande parte da
pesquisa social de hoje (que visa a “chegar à verdade subjetiva do eu”
provocando e então dissecando as narrativas pessoais na esperança de nelas
encontrar uma revelação da verdade íntima). Atkinson e Silverman
contestam essa prática:
Nas ciências sociais não revelamos eus coletando narrativas, mas
criamos o eu pela narrativa do trabalho biográfico …
O desejo de revelação e revelações do desejo dão a aparência de
autenticidade mesmo quando a própria possibilidade de autenticidade
está em questão.25
A possibilidade em questão é, de fato, bastante questionável.
Numerosos estudos mostram que as narrativas pessoais são meramente
ensaios de retórica pública montados pelos meios públicos de comunicação
para “representar verdades subjetivas”. Mas a não-autenticidade do eu
supostamente autêntico está inteiramente disfarçada pelos espetáculos de
sinceridade — os rituais públicos de perguntas pessoais e confissões
públicas de que os programas de entrevistas são o exemplo mais
preeminente, ainda que não o único. Ostensivamente, os espetáculos
existem para dar vazão à agitação dos “eus íntimos” que lutam para se
expor; de fato, são os veículos da versão da sociedade do consumo de uma
“educação sentimental”: expõem e carimbam com a aceitação pública o
anseio por Estados emotivos e suas expressões com os quais serão tecidas
as “identidades inteiramente pessoais”.
Como disse recentemente Harvie Ferguson, com sua maneira inimitável,
no mundo pós-moderno todas as distinções se tornam fluidas, os limites
se dissolvem, e tudo pode muito bem parecer seu contrário; a ironia se
torna a sensação perpétua de que as coisas poderiam ser um tanto
diferentes, ainda que nunca fundamental ou radicalmente diferentes.
Em tal mundo, o cuidado com a identidade tende a adquirir um brilho
inteiramente novo:
A “idade da ironia” foi substituída pela “idade do glamour”, em que a
aparência é consagrada como única realidade …
A modernidade, assim, muda de um período do eu “autêntico” para
um período do eu “irônico” e para uma cultura contemporânea do que
poderia ser chamado de eu “associativo” — um “afrouxamento”
contínuo dos laços entre a alma “interior” e a forma “exterior” da
relação social … As identidades são assim oscilações contínuas …26
Isso é o que a condição presente parece quando posta sob o microscópio
dos analistas culturais. O retrato da inautenticidade publicamente produzida
pode ser verdadeiro; os argumentos que apóiam sua verdade são
irresistíveis. Mas não é a verdade desse retrato que determina o impacto dos
“espetáculos de sinceridade”. O que importa é como se sente a necessidade
planejada da construção e reconstrução da identidade, como ela é percebida
“de dentro”, como ela é “vivida”. Seja genuíno ou putativo aos olhos do
analista, o status frouxo, “associativo”, da identidade, a oportunidade de “ir
às compras”, de escolher e descartar o “verdadeiro eu”, de “estar em
movimento”, veio a significar liberdade na sociedade do consumo atual. A
escolha do consumidor é hoje um valor em si mesma; a ação de escolher é
mais importante que a coisa escolhida, e as situações são elogiadas ou
censuradas, aproveitadas ou ressentidas, dependendo da gama de escolhas
que exibem.
A vida de quem escolhe será sempre uma bênção mista, porém, mesmo
se (ou talvez porque) a gama de escolhas for ampla e o volume das
experiências possíveis parecer infinito. Essa vida está assolada pelos riscos:
a incerteza está destinada a ser para sempre a desagradável mosca na sopa
da livre escolha. Além disso (e a adição é importante) o equilíbrio entre a
alegria e a tristeza do viciado depende de fatores outros que a mera gama de escolhas à disposição. Nem todas elas são realistas; e a proporção de
escolhas realistas não é função do número de itens à disposição, mas do
volume de recursos à disposição de quem escolhe.
Quando os recursos são abundantes pode-se sempre esperar, certo ou
errado, estar “por cima” ou “à frente” das coisas, ser capaz de alcançar os
alvos que se movem com rapidez; pode-se mesmo estar inclinado a
subestimar os riscos e a insegurança e supor que a profusão de escolhas
compensa de sobra o desconforto de viver no escuro, de nunca estar seguro
sobre quando e onde termina a luta, se é que termina. É a própria corrida
que entusiasma, e, por mais cansativa que seja, a pista é um lugar mais
agradável que a linha de chegada. É a essa situação que se aplica o velho
provérbio segundo o qual “viajar com esperança é melhor do que chegar”.
A chegada, o fim definitivo de toda escolha, parece muito mais tediosa e
consideravelmente mais assustadora do que a perspectiva de que as
escolhas de amanhã anulem as de hoje. Só o desejar é desejável — quase
nunca sua satisfação.
Esperar-se-ia que o entusiasmo pela corrida diminuísse com a força dos
músculos — que o amor pelo risco e a aventura se apagaria com a
diminuição dos recursos e com a chance de escolher uma opção
verdadeiramente desejável cada vez mais nebulosa. Essa expectativa está
fadada a ser refutada, porém, porque os corredores são muitos e diferentes,
mas a pista é a mesma para todos. Como diz Jeremy Seabrook,
os pobres não vivem numa cultura separada da dos ricos. Eles devem
viver no mesmo mundo que foi planejado em proveito daqueles que
têm dinheiro. E sua pobreza é agravada pelo crescimento econômico,
da mesma forma que é intensificada pela recessão e pelo não-
crescimento.27
Numa sociedade sinóptica de viciados em comprar/assistir, os pobres
não podem desviar os olhos; não há mais para onde olhar. Quanto maior a
liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das
vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais
irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento
fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolha parecem ter os ricos, tanto
mais a vida sem escolha parece insuportável para todos.