Modernidade Líquida
Vida instantânea
se cada vez mais irrelevante; o medo de perder o jogo da competição, de ser
ultrapassado, deixado para trás ou excluído dos negócios é suficiente para
manter o jogo da fusão/redução de tamanho. Esse jogo se torna cada vez
mais seu próprio propósito e sua própria recompensa; melhor ainda, o jogo
já não precisa de um propósito, se continuar nele for sua única recompensa.
Vida instantânea
Richard Sennett foi durante muitos anos um observador regular do encontro
mundial dos poderosos, realizado anualmente em Davos. O tempo e o
dinheiro gastos nas viagens a Davos deram belo retorno; Sennett trouxe de
suas escapadas uma série de percepções sobre os motivos e traços de caráter
que movimentam os principais atores no jogo global de hoje. A julgar por
seu relato,24Sennett ficou particularmente impressionado pela
personalidade, desempenho e pelo credo publicamente articulado de Bill
Gates. Gates, diz Sennett, “parece livre da obsessão de agarrar-se às coisas.
Seus produtos surgem furiosamente para desaparecer tão rápido como
apareceram, enquanto Rockefeller queria possuir oleodutos, prédios,
máquinas ou estradas-de-ferro por longo tempo”. Gates repetidamente
declarou preferir “colocar-se numa rede de possibilidades a paralizar-se
num trabalho particular”. O que mais chamou a atenção de Sennett parece
ter sido o desejo explícito de Gates de “destruir o que fizera diante das
demandas do momento imediato”. Gates parecia um jogador que “floresce
em meio ao deslocamento”. Tinha cuidado em não desenvolver apego (e
especialmente apego sentimental) ou compromisso duradouro com nada,
inclusive suas próprias criações. Não tinha medo de tomar o caminho
errado, pois nenhum caminho o manteria na mesma direção por muito
tempo e porque voltar atrás ou para o outro lado eram opções constante e
instantaneamente disponíveis. Pode-se dizer que, com exceção da crescente
gama de oportunidades acessíveis, nada mais se acumulava ou aumentava
na trilha da vida de Gates; os trilhos continuavam a ser desmontados à
medida que a locomotiva avançava alguns metros; as pegadas eram
apagadas, as coisas eram descartadas tão rapidamente como tinham sido
colhidas — e logo esquecidas.
Anthony Flew cita um dos personagens de Woody Allen: “Eu não quero
a imortalidade por minha obra, eu quero alcançar a imortalidade não
morrendo.”25 Mas o sentido da imortalidade deriva do sentido atribuído à
vida sabidamente mortal; a preferência por “não morrer” não é tanto uma
escolha de outra forma de imortalidade (uma alternativa à “imortalidade
pela obra”), mas uma declaração de despreocupação com a eterna duração
em favor do carpe diem. A indiferença em relação à duração transforma a
imortalidade de uma idéia numa experiência e faz dela um objeto de
consumo imediato: é o modo como se vive o momento que faz desse
momento uma “experiência imortal”. Se a “infinitude” sobrevive à
transmutação, é apenas como medida da profundidade ou intensidade da
Erlebnis. O ilimitado das sensações possíveis ocupa o lugar que era
ocupado nos sonhos pela duração infinita. A instantaneidade (anulação da
resistência do espaço e liquefação da materialidade dos objetos) faz com
que cada momento pareça ter capacidade infinita; e a capacidade infinita
significa que não há limites ao que pode ser extraído de qualquer momento
— por mais breve e “fugaz” que seja.
O “longo prazo”, ainda que continue a ser mencionado, por hábito, é
uma concha vazia sem significado; se o infinito, como o tempo, é
instantâneo, para ser usado no ato e descartado imediatamente, então “mais
tempo” adiciona pouco ao que o momento já ofereceu. Não se ganha muito
com considerações de “longo prazo”. Se a modernidade sólida punha a
duração eterna como principal motivo e princípio da ação, a modernidade
“fluida” não tem função para a duração eterna. O “curto prazo” substituiu o
“longo prazo” e fez da instantaneidade seu ideal último. Ao mesmo tempo
em que promove o tempo ao posto de contêiner de capacidade infinita, a
modernidade fluida dissolve — obscurece e desvaloriza — sua duração.
Há 20 anos Michael Thompson publicou um estudo pioneiro do
tortuoso destino histórico da distinção durável/transitório.26 Objetos
“duráveis” se destinam a ser preservados por muito e muito tempo; eles
chegam a incorporar tanto quanto possível a noção abstrata e etérea de
eternidade; de fato, a imagem de eternidade é extrapolada da postulada ou
projetada antigüidade dos “duráveis”. Atribui-se aos objetos duráveis um
valor especial, e eles são cobiçados e estimados por sua associação com a
imortalidade — valor último, “naturalmente” desejado e que não requer
argumentos para ser abraçado. O oposto dos objetos “duráveis” são os
“transitórios”, destinados a serem usados — consumidos — e a desaparecer no processo de seu consumo. Thompson observa que “aquelas pessoas
próximas do topo … podem garantir que seus próprios objetos sejam
sempre duráveis e os dos outros sejam sempre transitórios … Elas não
podem perder.” Thompson supõe que o desejo de “tornar duráveis seus
próprios objetos” é uma constante das “pessoas próximas do topo” talvez o
que as coloque lá seja mesmo essa capacidade de tornar os objetos duráveis,
de acumulá-los, mantê-los e assegurá-los contra roubo e deterioração; mais
ainda: de monopolizá-los.
Esses pensamentos tinham uma aura de verdade (ou pelo menos de
credibilidade) entre as realidades da modernidade sólida. Sugiro, entretanto,
que o advento da modernidade fluida subverteu radicalmente essa
credibilidade. É a capacidade, como a de Bill Gates, de encurtar o espaço de
tempo da durabilidade, de esquecer o “longo prazo”, de enfocar a
manipulação da transitoriedade em vez da durabilidade, de dispor
levemente das coisas para abrir espaço para outras igualmente transitórias e
que deverão ser utilizadas instantaneamente, que é o privilégio dos de cima
e que faz com que estejam por cima. Manter as coisas por longo tempo,
além de seu prazo de “descarte” e além do momento em que seus
“substitutos novos e aperfeiçoados” estiverem em oferta é, ao contrário,
sintoma de privação. Uma vez que a infinidade de possibilidades esvaziou a
infinitude do tempo de seu poder sedutor, a durabilidade perde sua atração e
passa de um recurso a um risco. Talvez seja mais adequado observar que a
própria linha de demarcação entre o “durável” e o “transitório”, outrora
foco de disputa e engenharia, foi substituída pela polícia de fronteiras e por
batalhões de construtores.
A desvalorização da imortalidade não pode senão anunciar uma rebelião
cultural, defensavelmente o marco mais decisivo na história cultural
humana. A passagem do capitalismo pesado ao leve, da modernidade sólida
à fluida, pode vir a ser um ponto de inflexão mais radical e rico que o
advento mesmo do capitalismo e da modernidade, vistos anteriormente
como os marcos cruciais da história humana, pelo menos desde a revolução
neolítica. De fato, em toda a história humana o trabalho da cultura consistiu
em peneirar e sedimentar duras sementes de perpetuidade a partir de
transitórias vidas humanas e de ações humanas fugazes, em invocar a
duração a partir da transitoriedade, a continuidade a partir da
descontinuidade, e em assim transcender os limites impostos pela
mortalidade humana, utilizando homens e mulheres mortais a serviço da espécie humana imortal. A demanda por esse tipo de trabalho está
diminuindo hoje em dia. As conseqüências dessa demanda em queda estão
para ser vistas e são difíceis de visualizar de antemão, pois não há
precedentes a lembrar ou em que se apoiar.
A nova instantaneidade do tempo muda radicalmente a modalidade do
convívio humano — e mais conspicuamente o modo como os humanos
cuidam (ou não cuidam, se for o caso) de seus afazeres coletivos, ou antes o
modo como transformam (ou não transformam, se for o caso) certas
questões em questões coletivas.
A “teoria da escolha pública”, que hoje faz avanços impressionantes na
ciência política, captou corretamente a nova inflexão (ainda que — como
freqüentemente acontece quando novas práticas humanas montam um novo
cenário para a imaginação humana — tenha se apressado em generalizar
desenvolvimentos relativamente recentes como a verdade eterna da
condição humana, supostamente desapercebida ou negligenciada pela
“pesquisa anterior”). Segundo Gordon Tullock, um dos mais importantes
promotores da nova moda teórica, “a nova abordagem começa supondo que
os eleitores são muito parecidos com consumidores e que os políticos são
muito parecidos com homens de negócios”. Cético em relação ao valor da
teoria da “escolha pública”, Leif Lewin comentou, cáustico, que os
pensadores da escola da “escolha pública” “retratam o homem político
como … um homem das cavernas míope”. Lewin pensa que isso está
inteiramente errado. Pode ter sido verdade na época dos trogloditas, “antes
que o homem ‘descobrisse o amanhã’ e aprendesse a fazer cálculos de
longo prazo”, mas não agora, em nossos tempos modernos, quando todos
sabemos, ou pelo menos a maioria, tanto eleitores como políticos, que
“amanhã nos encontraremos novamente” e, portanto, a credibilidade é “o
recurso mais valioso do político”27 (enquanto a atribuição da confiança,
podemos acrescentar, é a arma mais zelosamente utilizada pelo eleitor).
Para apoiar sua crítica da teoria da “escolha pública”, Lewin cita numerosos
estudos empíricos que mostram que poucos eleitores votam pensando em
seus bolsos, e a maioria deles declara que o que guia seu comportamento
eleitoral é o estado do país como um todo. Isso é, diz Lewin, o que se
poderia esperar; isso é, sugiro eu, o que os eleitores entrevistados acharam
que se esperava que eles dissessem e o que seria adequado. Se
considerarmos a notória disparidade entre o que fazemos e como narramos
nossas ações, não rejeitaríamos de uma vez as afirmações dos teóricos da “escolha pública” (o que é diferente de aceitar sua validade universal e
atemporal). Nesse caso, sua teoria pode ter ganhado percepção ao se livrar
do que foi tomado, acriticamente, como “dado empírico”.
É verdade que “uma vez” os homens das cavernas “descobriram o
amanhã”. Mas a história é tanto um processo de esquecer como de aprender,
e a memória é famosa por sua seletividade. Talvez nos “encontremos
novamente amanhã”. Mas talvez não, ou então o “nós” que nos
encontraremos amanhã não seja o mesmo “nós” de há pouco. Se for esse o
caso, a credibilidade e a atribuição de confiança serão recursos ou riscos?
Lewin lembra a parábola dos caçadores de veados de Rousseau. Antes
que os homens “descobrissem o amanhã” — corre a história — poderia
acontecer que um caçador, em vez de esperar pacientemente que o veado
surgisse da floresta, se distraísse, por causa da fome, com um coelho que
passava, a despeito de que sua cota de carne do veado caçado em conjunto
fosse ser muito maior que o coelho. É verdade. Mas também acontece que
hoje poucas equipes de caça se mantêm unidas pelo tempo que o veado leva
para aparecer, de modo que quem coloca sua fé nos benefícios do
empreendimento conjunto pode sofrer amarga decepção. E também
acontece que, diferentemente dos veados que, para serem alcançados e
capturados, requerem caçadores que cerrem fileiras, mantenham-se ombro a
ombro e ajam solidariamente, os coelhos, adequados ao consumo
individual, são muitos e diferentes, e demandam pouco tempo para serem
caçados, escalpelados e cozidos. Essas são também descobertas — novas
descobertas, talvez tão férteis em conseqüências como uma vez o foi a
“descoberta do amanhã”.
A “escolha racional” na era da instantaneidade significa buscar a
gratificação evitando as conseqüências, e particularmente as
responsabilidades que essas conseqüências podem implicar. Traços duráveis
da gratificação de hoje hipotecam as chances das gratificações de amanhã.
A duração deixa de ser um recurso para tornar-se um risco; o mesmo pode
ser dito de tudo o que é volumoso, sólido e pesado — tudo o que impede ou
restringe o movimento. Gigantescas plantas industriais e corpos volumosos
tiveram seu dia: outrora testemunhavam o poder e a força de seus donos;
hoje anunciam a derrota na próxima rodada de aceleração e assim sinalizam
a impotência. Corpo esguio e adequação ao movimento, roupa leve e tênis,
telefones celulares (inventados para o uso dos nômades que têm que estar
“constantemente em contato”), pertences portáteis ou descartáveis — são os principais objetos culturais da era da instantaneidade. Peso e tamanho, e
acima de tudo a gordura (literal ou metafórica) acusada da expansão de
ambos, compartilham o destino da durabilidade. São os perigos que
devemos temer e contra os quais devemos lutar; melhor ainda, manter
distância.
É difícil conceber uma cultura indiferente à eternidade e que evita a
durabilidade. Também é difícil conceber a moralidade indiferente às
conseqüências das ações humanas e que evita a responsabilidade pelos
efeitos que essas ações podem ter sobre outros. O advento da
instantaneidade conduz a cultura e a ética humanas a um território não-
mapeado e inexplorado, onde a maioria dos hábitos aprendidos para lidar
com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido. Na famosa frase de
Guy Debord, “os homens se parecem mais com seus tempos que com seus
pais”. E os homens e mulheres do presente se distinguem de seus pais
vivendo num presente “que quer esquecer o passado e não parece mais
acreditar no futuro”28. Mas a memória do passado e a confiança no futuro
foram até aqui os dois pilares em que se apoiavam as pontes culturais e
morais entre a transitoriedade e a durabilidade, a mortalidade humana e a
imortalidade das realizações humanas, e também entre assumir a
responsabilidade e viver o momento.
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