Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 25 de 42

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Modernidade Líquida

Vida instantânea

se cada vez mais irrelevante; o medo de perder o jogo da competição, de ser

ultrapassado, deixado para trás ou excluído dos negócios é suficiente para

manter o jogo da fusão/redução de tamanho. Esse jogo se torna cada vez

mais seu próprio propósito e sua própria recompensa; melhor ainda, o jogo

já não precisa de um propósito, se continuar nele for sua única recompensa.

 

Vida instantânea

 

Richard Sennett foi durante muitos anos um observador regular do encontro

mundial dos poderosos, realizado anualmente em Davos. O tempo e o

dinheiro gastos nas viagens a Davos deram belo retorno; Sennett trouxe de

suas escapadas uma série de percepções sobre os motivos e traços de caráter

que movimentam os principais atores no jogo global de hoje. A julgar por

seu relato,24Sennett ficou particularmente impressionado pela

personalidade, desempenho e pelo credo publicamente articulado de Bill

Gates. Gates, diz Sennett, “parece livre da obsessão de agarrar-se às coisas.

Seus produtos surgem furiosamente para desaparecer tão rápido como

apareceram, enquanto Rockefeller queria possuir oleodutos, prédios,

máquinas ou estradas-de-ferro por longo tempo”. Gates repetidamente

declarou preferir “colocar-se numa rede de possibilidades a paralizar-se

num trabalho particular”. O que mais chamou a atenção de Sennett parece

ter sido o desejo explícito de Gates de “destruir o que fizera diante das

demandas do momento imediato”. Gates parecia um jogador que “floresce

em meio ao deslocamento”. Tinha cuidado em não desenvolver apego (e

especialmente apego sentimental) ou compromisso duradouro com nada,

inclusive suas próprias criações. Não tinha medo de tomar o caminho

errado, pois nenhum caminho o manteria na mesma direção por muito

tempo e porque voltar atrás ou para o outro lado eram opções constante e

instantaneamente disponíveis. Pode-se dizer que, com exceção da crescente

gama de oportunidades acessíveis, nada mais se acumulava ou aumentava

na trilha da vida de Gates; os trilhos continuavam a ser desmontados à

medida que a locomotiva avançava alguns metros; as pegadas eram

apagadas, as coisas eram descartadas tão rapidamente como tinham sido

colhidas — e logo esquecidas.

Anthony Flew cita um dos personagens de Woody Allen: “Eu não quero

a imortalidade por minha obra, eu quero alcançar a imortalidade não

morrendo.”25 Mas o sentido da imortalidade deriva do sentido atribuído à

vida sabidamente mortal; a preferência por “não morrer” não é tanto uma

escolha de outra forma de imortalidade (uma alternativa à “imortalidade

pela obra”), mas uma declaração de despreocupação com a eterna duração

em favor do carpe diem. A indiferença em relação à duração transforma a

imortalidade de uma idéia numa experiência e faz dela um objeto de

consumo imediato: é o modo como se vive o momento que faz desse

momento uma “experiência imortal”. Se a “infinitude” sobrevive à

transmutação, é apenas como medida da profundidade ou intensidade da

Erlebnis. O ilimitado das sensações possíveis ocupa o lugar que era

ocupado nos sonhos pela duração infinita. A instantaneidade (anulação da

resistência do espaço e liquefação da materialidade dos objetos) faz com

que cada momento pareça ter capacidade infinita; e a capacidade infinita

significa que não há limites ao que pode ser extraído de qualquer momento

— por mais breve e “fugaz” que seja.

O “longo prazo”, ainda que continue a ser mencionado, por hábito, é

uma concha vazia sem significado; se o infinito, como o tempo, é

instantâneo, para ser usado no ato e descartado imediatamente, então “mais

tempo” adiciona pouco ao que o momento já ofereceu. Não se ganha muito

com considerações de “longo prazo”. Se a modernidade sólida punha a

duração eterna como principal motivo e princípio da ação, a modernidade

“fluida” não tem função para a duração eterna. O “curto prazo” substituiu o

“longo prazo” e fez da instantaneidade seu ideal último. Ao mesmo tempo

em que promove o tempo ao posto de contêiner de capacidade infinita, a

modernidade fluida dissolve — obscurece e desvaloriza — sua duração.

Há 20 anos Michael Thompson publicou um estudo pioneiro do

tortuoso destino histórico da distinção durável/transitório.26 Objetos

“duráveis” se destinam a ser preservados por muito e muito tempo; eles

chegam a incorporar tanto quanto possível a noção abstrata e etérea de

eternidade; de fato, a imagem de eternidade é extrapolada da postulada ou

projetada antigüidade dos “duráveis”. Atribui-se aos objetos duráveis um

valor especial, e eles são cobiçados e estimados por sua associação com a

imortalidade — valor último, “naturalmente” desejado e que não requer

argumentos para ser abraçado. O oposto dos objetos “duráveis” são os

“transitórios”, destinados a serem usados — consumidos — e a desaparecer no processo de seu consumo. Thompson observa que “aquelas pessoas

próximas do topo … podem garantir que seus próprios objetos sejam

sempre duráveis e os dos outros sejam sempre transitórios … Elas não

podem perder.” Thompson supõe que o desejo de “tornar duráveis seus

próprios objetos” é uma constante das “pessoas próximas do topo” talvez o

que as coloque lá seja mesmo essa capacidade de tornar os objetos duráveis,

de acumulá-los, mantê-los e assegurá-los contra roubo e deterioração; mais

ainda: de monopolizá-los.

Esses pensamentos tinham uma aura de verdade (ou pelo menos de

credibilidade) entre as realidades da modernidade sólida. Sugiro, entretanto,

que o advento da modernidade fluida subverteu radicalmente essa

credibilidade. É a capacidade, como a de Bill Gates, de encurtar o espaço de

tempo da durabilidade, de esquecer o “longo prazo”, de enfocar a

manipulação da transitoriedade em vez da durabilidade, de dispor

levemente das coisas para abrir espaço para outras igualmente transitórias e

que deverão ser utilizadas instantaneamente, que é o privilégio dos de cima

e que faz com que estejam por cima. Manter as coisas por longo tempo,

além de seu prazo de “descarte” e além do momento em que seus

“substitutos novos e aperfeiçoados” estiverem em oferta é, ao contrário,

sintoma de privação. Uma vez que a infinidade de possibilidades esvaziou a

infinitude do tempo de seu poder sedutor, a durabilidade perde sua atração e

passa de um recurso a um risco. Talvez seja mais adequado observar que a

própria linha de demarcação entre o “durável” e o “transitório”, outrora

foco de disputa e engenharia, foi substituída pela polícia de fronteiras e por

batalhões de construtores.

A desvalorização da imortalidade não pode senão anunciar uma rebelião

cultural, defensavelmente o marco mais decisivo na história cultural

humana. A passagem do capitalismo pesado ao leve, da modernidade sólida

à fluida, pode vir a ser um ponto de inflexão mais radical e rico que o

advento mesmo do capitalismo e da modernidade, vistos anteriormente

como os marcos cruciais da história humana, pelo menos desde a revolução

neolítica. De fato, em toda a história humana o trabalho da cultura consistiu

em peneirar e sedimentar duras sementes de perpetuidade a partir de

transitórias vidas humanas e de ações humanas fugazes, em invocar a

duração a partir da transitoriedade, a continuidade a partir da

descontinuidade, e em assim transcender os limites impostos pela

mortalidade humana, utilizando homens e mulheres mortais a serviço da espécie humana imortal. A demanda por esse tipo de trabalho está

diminuindo hoje em dia. As conseqüências dessa demanda em queda estão

para ser vistas e são difíceis de visualizar de antemão, pois não há

precedentes a lembrar ou em que se apoiar.

A nova instantaneidade do tempo muda radicalmente a modalidade do

convívio humano — e mais conspicuamente o modo como os humanos

cuidam (ou não cuidam, se for o caso) de seus afazeres coletivos, ou antes o

modo como transformam (ou não transformam, se for o caso) certas

questões em questões coletivas.

A “teoria da escolha pública”, que hoje faz avanços impressionantes na

ciência política, captou corretamente a nova inflexão (ainda que — como

freqüentemente acontece quando novas práticas humanas montam um novo

cenário para a imaginação humana — tenha se apressado em generalizar

desenvolvimentos relativamente recentes como a verdade eterna da

condição humana, supostamente desapercebida ou negligenciada pela

“pesquisa anterior”). Segundo Gordon Tullock, um dos mais importantes

promotores da nova moda teórica, “a nova abordagem começa supondo que

os eleitores são muito parecidos com consumidores e que os políticos são

muito parecidos com homens de negócios”. Cético em relação ao valor da

teoria da “escolha pública”, Leif Lewin comentou, cáustico, que os

pensadores da escola da “escolha pública” “retratam o homem político

como … um homem das cavernas míope”. Lewin pensa que isso está

inteiramente errado. Pode ter sido verdade na época dos trogloditas, “antes

que o homem ‘descobrisse o amanhã’ e aprendesse a fazer cálculos de

longo prazo”, mas não agora, em nossos tempos modernos, quando todos

sabemos, ou pelo menos a maioria, tanto eleitores como políticos, que

“amanhã nos encontraremos novamente” e, portanto, a credibilidade é “o

recurso mais valioso do político”27 (enquanto a atribuição da confiança,

podemos acrescentar, é a arma mais zelosamente utilizada pelo eleitor).

Para apoiar sua crítica da teoria da “escolha pública”, Lewin cita numerosos

estudos empíricos que mostram que poucos eleitores votam pensando em

seus bolsos, e a maioria deles declara que o que guia seu comportamento

eleitoral é o estado do país como um todo. Isso é, diz Lewin, o que se

poderia esperar; isso é, sugiro eu, o que os eleitores entrevistados acharam

que se esperava que eles dissessem e o que seria adequado. Se

considerarmos a notória disparidade entre o que fazemos e como narramos

nossas ações, não rejeitaríamos de uma vez as afirmações dos teóricos da “escolha pública” (o que é diferente de aceitar sua validade universal e

atemporal). Nesse caso, sua teoria pode ter ganhado percepção ao se livrar

do que foi tomado, acriticamente, como “dado empírico”.

É verdade que “uma vez” os homens das cavernas “descobriram o

amanhã”. Mas a história é tanto um processo de esquecer como de aprender,

e a memória é famosa por sua seletividade. Talvez nos “encontremos

novamente amanhã”. Mas talvez não, ou então o “nós” que nos

encontraremos amanhã não seja o mesmo “nós” de há pouco. Se for esse o

caso, a credibilidade e a atribuição de confiança serão recursos ou riscos?

Lewin lembra a parábola dos caçadores de veados de Rousseau. Antes

que os homens “descobrissem o amanhã” — corre a história — poderia

acontecer que um caçador, em vez de esperar pacientemente que o veado

surgisse da floresta, se distraísse, por causa da fome, com um coelho que

passava, a despeito de que sua cota de carne do veado caçado em conjunto

fosse ser muito maior que o coelho. É verdade. Mas também acontece que

hoje poucas equipes de caça se mantêm unidas pelo tempo que o veado leva

para aparecer, de modo que quem coloca sua fé nos benefícios do

empreendimento conjunto pode sofrer amarga decepção. E também

acontece que, diferentemente dos veados que, para serem alcançados e

capturados, requerem caçadores que cerrem fileiras, mantenham-se ombro a

ombro e ajam solidariamente, os coelhos, adequados ao consumo

individual, são muitos e diferentes, e demandam pouco tempo para serem

caçados, escalpelados e cozidos. Essas são também descobertas — novas

descobertas, talvez tão férteis em conseqüências como uma vez o foi a

“descoberta do amanhã”.

A “escolha racional” na era da instantaneidade significa buscar a

gratificação evitando as conseqüências, e particularmente as

responsabilidades que essas conseqüências podem implicar. Traços duráveis

da gratificação de hoje hipotecam as chances das gratificações de amanhã.

A duração deixa de ser um recurso para tornar-se um risco; o mesmo pode

ser dito de tudo o que é volumoso, sólido e pesado — tudo o que impede ou

restringe o movimento. Gigantescas plantas industriais e corpos volumosos

tiveram seu dia: outrora testemunhavam o poder e a força de seus donos;

hoje anunciam a derrota na próxima rodada de aceleração e assim sinalizam

a impotência. Corpo esguio e adequação ao movimento, roupa leve e tênis,

telefones celulares (inventados para o uso dos nômades que têm que estar

“constantemente em contato”), pertences portáteis ou descartáveis — são os principais objetos culturais da era da instantaneidade. Peso e tamanho, e

acima de tudo a gordura (literal ou metafórica) acusada da expansão de

ambos, compartilham o destino da durabilidade. São os perigos que

devemos temer e contra os quais devemos lutar; melhor ainda, manter

distância.

É difícil conceber uma cultura indiferente à eternidade e que evita a

durabilidade. Também é difícil conceber a moralidade indiferente às

conseqüências das ações humanas e que evita a responsabilidade pelos

efeitos que essas ações podem ter sobre outros. O advento da

instantaneidade conduz a cultura e a ética humanas a um território não-

mapeado e inexplorado, onde a maioria dos hábitos aprendidos para lidar

com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido. Na famosa frase de

Guy Debord, “os homens se parecem mais com seus tempos que com seus

pais”. E os homens e mulheres do presente se distinguem de seus pais

vivendo num presente “que quer esquecer o passado e não parece mais

acreditar no futuro”28. Mas a memória do passado e a confiança no futuro

foram até aqui os dois pilares em que se apoiavam as pontes culturais e

morais entre a transitoriedade e a durabilidade, a mortalidade humana e a

imortalidade das realizações humanas, e também entre assumir a

responsabilidade e viver o momento.

 

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