Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman · Capítulo 34 de 42

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Modernidade Líquida

Nacionalismo, marco 2

palheta da imaginação.

Ser um lar evidente também ajuda. Os que estavam presos dentro de

uma casa comum de alvenaria podiam, vez ou outra, ser assaltados pela

estranha impressão de estar numa prisão e não num porto seguro; a

liberdade da rua acenava de fora, tão inacessível quanto a sonhada

segurança do lar tende a ser hoje. Se a sedutora segurança do lar é, porém,

projetada numa tela suficientemente grande, não sobra “de fora” nada para

estragar a festa. A comunidade ideal é um compleat mappa mundi: um

mundo total, que oferece tudo de que se pode precisar para levar uma vida

significativa e compensadora. Focando o que mais causa dor aos sem teto, o

remédio comunitário da passagem (disfarçada de retorno) para um mundo

total e totalmente consistente aparece como uma solução verdadeiramente

radical de todos os problemas, presentes e futuros; outros cuidados parecem

pequenos e insignificantes, se comparados.

O mundo comunitário está completo porque todo o resto é irrelevante;

mais exatamente, hostil — um ermo repleto de emboscadas e conspirações

e fervilhante de inimigos que brandem o caos como sua arma principal. A

harmonia interior do mundo comunitário brilha e cintila contra a escura e

impenetrável selva que começa do outro lado da estrada. É lá, para esse

ermo, que as pessoas que se juntam no calor da identidade partilhada jogam

(ou esperam banir) os medos que as levaram a procurar o abrigo

comunitário. Nas palavras de Jock Young, “o desejo de demonizar os outros

se baseia nas incertezas ontológicas” dos de dentro.5 Uma “comunidade

includente” seria uma contradição em termos. A fraternidade comunitária

seria incompleta, talvez impensável, ainda que invejável, sem essa

inclinação fratricida inata.

 

Nacionalismo, marco 2

 

A comunidade do evangelho comunitário é étnica, ou uma comunidade

imaginada no padrão de uma comunidade étnica. Essa escolha de arquétipo

tem boas razões.

Primeiro, a “etnicidade”, ao contrário de qualquer outro fundamento da

unidade humana, tem a vantagem de “naturalizar a história”, de apresentar o

cultural como um “fato da natureza”, a liberdade como “necessidade compreendida (e aceita)”. Fazer parte de uma etnia estimula à ação:

devemos escolher a lealdade à nossa natureza — devemos tentar, com o

maior esforço e sem descanso, viver à altura do modelo e assim contribuir

para sua preservação. O próprio modelo, contudo, não é uma questão de

escolha, que não se dá entre diferentes referenciais de pertencimento, mas

entre pertencimento e falta de raízes, entre um lar e a falta de um lar, o ser e

o nada. Esse é precisamente o dilema que o evangelho comunitário quer (e

precisa) tornar claro.

Segundo, ao promover o princípio de que a unidade étnica supera todas

as outras lealdades, o Estado-nação foi o único “caso de sucesso” da

comunidade nos tempos modernos, ou, melhor, a única entidade que

apostou no estatuto de comunidade com algum grau de convicção e efeito.

A idéia da etnicidade (e da homogeneidade étnica) como base legítima da

unidade e da auto-afirmação ganhou com isso uma fundamentação

histórica. O comunitarismo contemporâneo naturalmente espera capitalizar

essa tradição; dada a oscilação atual da soberania do Estado e a necessidade

evidente de que alguém carregue a bandeira que parece cair das mãos desse

Estado, a esperança não está de todo perdida. Mas é fácil observar que há

limites para se traçar paralelos entre as realizações do Estado-nação e as

ambições comunitárias. Afinal, o Estado-nação deveu seu sucesso à

supressão de comunidades que se auto-afirmavam; lutou com unhas e

dentes contra o “paroquialismo”, os costumes ou “dialetos” locais,

promovendo uma língua unificada e uma memória histórica às expensas das

tradições comunitárias; quanto mais determinada a Kulturkämpfe iniciada e

supervisionada pelo Estado, maior o sucesso do Estado-nação na produção

de uma “comunidade natural”. Além disso, os Estados-nação

(diferentemente das comunidades hoje projetadas) não se lançaram à tarefa

no escuro e nem pensariam em depender apenas da força da doutrinação.

Seu esforço tinha o poderoso apoio da imposição legal da língua oficial, de

currículos escolares e de um sistema legal unificado, que as comunidades

projetadas não têm e nem estão perto de adquirir.

Bem antes do recente crescimento do comunitarismo, havia argumentos

de que existia uma pedra preciosa sob a carapaça feia e espinhenta da

moderna construção da nação. Isaiah Berlin sugeriu que há aspectos

humanos e elogiáveis na moderna “terra natal”, separados de seu lado cruel

e potencialmente sangrento. A distinção entre patriotismo e nacionalismo é

bastante popular. Em geral, o patriotismo é o membro “positivo” da dupla, deixando o nacionalismo, com suas realidades desagradáveis, como

membro “negativo”: o patriotismo, mais postulado que empiricamente

verificado, é o que o nacionalismo (se amansado, civilizado e eticamente

enobrecido) poderia ser mas não é. O patriotismo é descrito pela negação

dos traços mais rejeitados e vergonhosos do nacionalismo. Leszek

Kolakowski6 sugere que, enquanto o nacionalista quer afirmar a existência

tribal pela agressão e ódio aos outros, acredita que todos os infortúnios de

sua própria nação são resultado de conspirações estrangeiras e se ressente

contra todas as outras nações por não admirarem apropriadamente nem

darem o merecido crédito à sua própria tribo, o patriota destaca-se pela

“benevolente tolerância em relação à variedade cultural e especialmente às

minorias étnicas e religiosas”, assim como por sua disposição de dizer à sua

própria nação coisas que a desagradam e que ela não gostaria de ouvir.

Ainda que a distinção seja boa, e moral e intelectualmente louvável, seu

valor é um tanto enfraquecido pelo fato de que ela não opõe duas opções

passíveis de adesão, mas sim uma idéia nobre e uma realidade ignóbil. A

maioria das pessoas que gostariam que seus entes queridos fossem patriotas

com toda probabilidade denunciariam as características atribuídas à posição

patriótica como evidência de hipocrisia, traição à pátria ou pior. Tais

características — tolerância da diferença, hospitalidade para com as

minorias e coragem de dizer a verdade, ainda que desagradável — são mais

encontráveis em terras onde o “patriotismo” não é um “problema” em

sociedades suficientemente seguras de sua cidadania republicana para não

se preocuparem com o patriotismo enquanto problema, e menos ainda em

vê-lo como tarefa urgente.

Bernard Yack, organizador de Liberalism without Illusions (University

of Chicago Press, 1996), não estava errado quando, em sua polêmica contra

Maurizio Viroli, autor de Love of Country: An Essay on Patriotism and

Nationalism (Oxford University Press, 1995), parafraseou Hobbes,

cunhando um aforismo, “o nacionalismo é o patriotismo indesejado e o

patriotismo, o nacionalismo desejado”.7 De fato, há razões para concluir que

há pouco que distinga nacionalismo de patriotismo, além de nosso

entusiasmo por suas manifestações ou a ausência delas ou o grau de

vergonha ou consciência de culpa com que os admitamos ou neguemos. É

nomeá-los que faz a diferença, e a diferença é principalmente retórica, e

distingue não a substância dos fenômenos mencionados, mas o modo como

falamos sobre sentimentos ou paixões que são essencialmente similares. Contudo são a natureza dos sentimentos e paixões e suas conseqüências

comportamentais e políticas que contam e afetam a qualidade do convívio

humano, e não as palavras que usamos para descrevê-las. Olhando para os

feitos narrados nas histórias patrióticas, Yack conclui que, sempre que

sentimentos patrióticos sublimes “se elevaram ao nível da paixão

compartilhada”, “os patriotas mostraram uma paixão feroz, nunca gentil”, e

que os patriotas podem ter demonstrado ao longo dos séculos “muitas

virtudes úteis e memoráveis, mas a gentileza e a simpatia para com

estranhos nunca foram preeminentes entre elas”.

Não há como negar, contudo, que a diferença na retórica é significante,

nem suas ocasionais e pungentes reverberações pragmáticas. Uma retórica é

feita à imagem do discurso do “ser”, a outra, do “tornar-se”. O

“patriotismo” como um todo é tributário do credo moderno do “inacabado”,

da maleabilidade (mais precisamente, da “reformabilidade”) dos homens:

pode, portanto, declarar em sã consciência (mantendo ou não a promessa na

prática) que o chamado a “cerrar fileiras” é um convite feito e aberto: que

“cerrar fileiras” é uma escolha e que tudo o que se pede é que seja feita a

escolha certa e que se permaneça fiel a ela, para o bem ou para o mal, por

todo o sempre. O “nacionalismo”, por outro lado, é mais como a versão

calvinista da salvação ou a idéia de Santo Agostinho do livre arbítrio:

deposita pouca fé na escolha — você é “um de nós” ou não é, e em

qualquer caso há pouco, talvez nada, que você possa fazer para mudá-lo. Na

narrativa nacionalista, “pertencer” é um destino, não o produto de uma

escolha ou de um projeto de vida. Pode ser uma questão de hereditariedade

biológica, como a hoje fora de moda e abandonada versão racista do

nacionalismo, ou de hereditariedade cultural, como na variante

“culturalista”, hoje em voga — mas em qualquer dos casos a questão foi

decidida bem antes que essa ou outra pessoa começasse a andar e falar, de

modo que a única escolha disponível ao indivíduo é entre abraçar o

veredicto do destino com as duas mãos e de boa fé, ou rebelar-se contra ele

e assim tornar-se um traidor da sua vocação.

Essa diferença entre patriotismo e nacionalismo tende a ultrapassar a

mera retórica e entrar no domínio da prática política. Seguindo a

terminologia de Claude Lévi-Strauss, podemos dizer que a primeira fórmula

é mais capaz de inspirar estratégias “antropofágicas” (“devorar” os

estrangeiros, de modo que sejam assimilados pelo corpo de quem devora e

se tornem idênticos às outras células deste, perdendo sua própria distintividade), enquanto que a segunda se associa mais à estratégia