Modernidade Líquida
Nacionalismo, marco 2
palheta da imaginação.
Ser um lar evidente também ajuda. Os que estavam presos dentro de
uma casa comum de alvenaria podiam, vez ou outra, ser assaltados pela
estranha impressão de estar numa prisão e não num porto seguro; a
liberdade da rua acenava de fora, tão inacessível quanto a sonhada
segurança do lar tende a ser hoje. Se a sedutora segurança do lar é, porém,
projetada numa tela suficientemente grande, não sobra “de fora” nada para
estragar a festa. A comunidade ideal é um compleat mappa mundi: um
mundo total, que oferece tudo de que se pode precisar para levar uma vida
significativa e compensadora. Focando o que mais causa dor aos sem teto, o
remédio comunitário da passagem (disfarçada de retorno) para um mundo
total e totalmente consistente aparece como uma solução verdadeiramente
radical de todos os problemas, presentes e futuros; outros cuidados parecem
pequenos e insignificantes, se comparados.
O mundo comunitário está completo porque todo o resto é irrelevante;
mais exatamente, hostil — um ermo repleto de emboscadas e conspirações
e fervilhante de inimigos que brandem o caos como sua arma principal. A
harmonia interior do mundo comunitário brilha e cintila contra a escura e
impenetrável selva que começa do outro lado da estrada. É lá, para esse
ermo, que as pessoas que se juntam no calor da identidade partilhada jogam
(ou esperam banir) os medos que as levaram a procurar o abrigo
comunitário. Nas palavras de Jock Young, “o desejo de demonizar os outros
se baseia nas incertezas ontológicas” dos de dentro.5 Uma “comunidade
includente” seria uma contradição em termos. A fraternidade comunitária
seria incompleta, talvez impensável, ainda que invejável, sem essa
inclinação fratricida inata.
Nacionalismo, marco 2
A comunidade do evangelho comunitário é étnica, ou uma comunidade
imaginada no padrão de uma comunidade étnica. Essa escolha de arquétipo
tem boas razões.
Primeiro, a “etnicidade”, ao contrário de qualquer outro fundamento da
unidade humana, tem a vantagem de “naturalizar a história”, de apresentar o
cultural como um “fato da natureza”, a liberdade como “necessidade compreendida (e aceita)”. Fazer parte de uma etnia estimula à ação:
devemos escolher a lealdade à nossa natureza — devemos tentar, com o
maior esforço e sem descanso, viver à altura do modelo e assim contribuir
para sua preservação. O próprio modelo, contudo, não é uma questão de
escolha, que não se dá entre diferentes referenciais de pertencimento, mas
entre pertencimento e falta de raízes, entre um lar e a falta de um lar, o ser e
o nada. Esse é precisamente o dilema que o evangelho comunitário quer (e
precisa) tornar claro.
Segundo, ao promover o princípio de que a unidade étnica supera todas
as outras lealdades, o Estado-nação foi o único “caso de sucesso” da
comunidade nos tempos modernos, ou, melhor, a única entidade que
apostou no estatuto de comunidade com algum grau de convicção e efeito.
A idéia da etnicidade (e da homogeneidade étnica) como base legítima da
unidade e da auto-afirmação ganhou com isso uma fundamentação
histórica. O comunitarismo contemporâneo naturalmente espera capitalizar
essa tradição; dada a oscilação atual da soberania do Estado e a necessidade
evidente de que alguém carregue a bandeira que parece cair das mãos desse
Estado, a esperança não está de todo perdida. Mas é fácil observar que há
limites para se traçar paralelos entre as realizações do Estado-nação e as
ambições comunitárias. Afinal, o Estado-nação deveu seu sucesso à
supressão de comunidades que se auto-afirmavam; lutou com unhas e
dentes contra o “paroquialismo”, os costumes ou “dialetos” locais,
promovendo uma língua unificada e uma memória histórica às expensas das
tradições comunitárias; quanto mais determinada a Kulturkämpfe iniciada e
supervisionada pelo Estado, maior o sucesso do Estado-nação na produção
de uma “comunidade natural”. Além disso, os Estados-nação
(diferentemente das comunidades hoje projetadas) não se lançaram à tarefa
no escuro e nem pensariam em depender apenas da força da doutrinação.
Seu esforço tinha o poderoso apoio da imposição legal da língua oficial, de
currículos escolares e de um sistema legal unificado, que as comunidades
projetadas não têm e nem estão perto de adquirir.
Bem antes do recente crescimento do comunitarismo, havia argumentos
de que existia uma pedra preciosa sob a carapaça feia e espinhenta da
moderna construção da nação. Isaiah Berlin sugeriu que há aspectos
humanos e elogiáveis na moderna “terra natal”, separados de seu lado cruel
e potencialmente sangrento. A distinção entre patriotismo e nacionalismo é
bastante popular. Em geral, o patriotismo é o membro “positivo” da dupla, deixando o nacionalismo, com suas realidades desagradáveis, como
membro “negativo”: o patriotismo, mais postulado que empiricamente
verificado, é o que o nacionalismo (se amansado, civilizado e eticamente
enobrecido) poderia ser mas não é. O patriotismo é descrito pela negação
dos traços mais rejeitados e vergonhosos do nacionalismo. Leszek
Kolakowski6 sugere que, enquanto o nacionalista quer afirmar a existência
tribal pela agressão e ódio aos outros, acredita que todos os infortúnios de
sua própria nação são resultado de conspirações estrangeiras e se ressente
contra todas as outras nações por não admirarem apropriadamente nem
darem o merecido crédito à sua própria tribo, o patriota destaca-se pela
“benevolente tolerância em relação à variedade cultural e especialmente às
minorias étnicas e religiosas”, assim como por sua disposição de dizer à sua
própria nação coisas que a desagradam e que ela não gostaria de ouvir.
Ainda que a distinção seja boa, e moral e intelectualmente louvável, seu
valor é um tanto enfraquecido pelo fato de que ela não opõe duas opções
passíveis de adesão, mas sim uma idéia nobre e uma realidade ignóbil. A
maioria das pessoas que gostariam que seus entes queridos fossem patriotas
com toda probabilidade denunciariam as características atribuídas à posição
patriótica como evidência de hipocrisia, traição à pátria ou pior. Tais
características — tolerância da diferença, hospitalidade para com as
minorias e coragem de dizer a verdade, ainda que desagradável — são mais
encontráveis em terras onde o “patriotismo” não é um “problema” em
sociedades suficientemente seguras de sua cidadania republicana para não
se preocuparem com o patriotismo enquanto problema, e menos ainda em
vê-lo como tarefa urgente.
Bernard Yack, organizador de Liberalism without Illusions (University
of Chicago Press, 1996), não estava errado quando, em sua polêmica contra
Maurizio Viroli, autor de Love of Country: An Essay on Patriotism and
Nationalism (Oxford University Press, 1995), parafraseou Hobbes,
cunhando um aforismo, “o nacionalismo é o patriotismo indesejado e o
patriotismo, o nacionalismo desejado”.7 De fato, há razões para concluir que
há pouco que distinga nacionalismo de patriotismo, além de nosso
entusiasmo por suas manifestações ou a ausência delas ou o grau de
vergonha ou consciência de culpa com que os admitamos ou neguemos. É
nomeá-los que faz a diferença, e a diferença é principalmente retórica, e
distingue não a substância dos fenômenos mencionados, mas o modo como
falamos sobre sentimentos ou paixões que são essencialmente similares. Contudo são a natureza dos sentimentos e paixões e suas conseqüências
comportamentais e políticas que contam e afetam a qualidade do convívio
humano, e não as palavras que usamos para descrevê-las. Olhando para os
feitos narrados nas histórias patrióticas, Yack conclui que, sempre que
sentimentos patrióticos sublimes “se elevaram ao nível da paixão
compartilhada”, “os patriotas mostraram uma paixão feroz, nunca gentil”, e
que os patriotas podem ter demonstrado ao longo dos séculos “muitas
virtudes úteis e memoráveis, mas a gentileza e a simpatia para com
estranhos nunca foram preeminentes entre elas”.
Não há como negar, contudo, que a diferença na retórica é significante,
nem suas ocasionais e pungentes reverberações pragmáticas. Uma retórica é
feita à imagem do discurso do “ser”, a outra, do “tornar-se”. O
“patriotismo” como um todo é tributário do credo moderno do “inacabado”,
da maleabilidade (mais precisamente, da “reformabilidade”) dos homens:
pode, portanto, declarar em sã consciência (mantendo ou não a promessa na
prática) que o chamado a “cerrar fileiras” é um convite feito e aberto: que
“cerrar fileiras” é uma escolha e que tudo o que se pede é que seja feita a
escolha certa e que se permaneça fiel a ela, para o bem ou para o mal, por
todo o sempre. O “nacionalismo”, por outro lado, é mais como a versão
calvinista da salvação ou a idéia de Santo Agostinho do livre arbítrio:
deposita pouca fé na escolha — você é “um de nós” ou não é, e em
qualquer caso há pouco, talvez nada, que você possa fazer para mudá-lo. Na
narrativa nacionalista, “pertencer” é um destino, não o produto de uma
escolha ou de um projeto de vida. Pode ser uma questão de hereditariedade
biológica, como a hoje fora de moda e abandonada versão racista do
nacionalismo, ou de hereditariedade cultural, como na variante
“culturalista”, hoje em voga — mas em qualquer dos casos a questão foi
decidida bem antes que essa ou outra pessoa começasse a andar e falar, de
modo que a única escolha disponível ao indivíduo é entre abraçar o
veredicto do destino com as duas mãos e de boa fé, ou rebelar-se contra ele
e assim tornar-se um traidor da sua vocação.
Essa diferença entre patriotismo e nacionalismo tende a ultrapassar a
mera retórica e entrar no domínio da prática política. Seguindo a
terminologia de Claude Lévi-Strauss, podemos dizer que a primeira fórmula
é mais capaz de inspirar estratégias “antropofágicas” (“devorar” os
estrangeiros, de modo que sejam assimilados pelo corpo de quem devora e
se tornem idênticos às outras células deste, perdendo sua própria distintividade), enquanto que a segunda se associa mais à estratégia