Na hora da virada
Colofon
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
— Feliz Natal, Jay — diz Lena. Tia Pooh só faz o sinal da paz.
— Achei mesmo que Pooh ia aparecer assim que eu começasse o jantar. Por onde você andou?
— Caramba, vocês não podem parar de se meter na minha vida? — reclama tia Pooh.
Jay apoia a mão no quadril e faz aquela cara de fala isso de novo se tiver coragem . Tia Pooh afasta o olhar. Não importa a idade dela, Jay sempre vai ser a irmã mais velha.
Jay suga os dentes.
— Foi o que pensei. Agora tira os sapatos do meu sofá. — Ela bate nos pés da tia Pooh.
— Um dia você vai ter que parar de me tratar como criança.
— Bom, não vai ser hoje!
Lena cobre a boca para segurar uma gargalhada.
— Jay, precisa de ajuda com o jantar?
— Preciso, garota — diz Jay, mas o olhar fulminante está em Pooh. — Vamos lá.
As duas vão para a cozinha.
Tia Pooh começa a botar os pés no sofá de novo, mas Jay grita:
— Eu mandei você tirar os sapatos dos meus móveis!
— Caramba! — Tia Pooh olha para mim. — Como ela faz isso?
Eu dou de ombros.
— É tipo um sexto sentido.
— Com certe... — A corrente do meu pai chama a atenção dela. — Ah, merda! Onde você conseguiu isso?
— Jay me deu. Estava em uma caixa com as coisas dele.
— Nossa. — Tia Pooh segura a corrente entre os dedos. — Ainda está limpinha. Mas você não precisa usar.
Eu franzo a testa.
— Por quê?
— Só confia em mim, tá?
Estou tão cansada dessas respostas que não digo nada.
— Era pra “só confiar em você” quando você me abandonou no estúdio?
— Scrap estava lá, não estava?
— Mas você tinha que estar lá.
— Eu falei, tive uma coisa pra resolver. Scrap disse que você fez a música e que ficou insana. É só isso que importa.
Ela não entende.
Tia Pooh tira os tênis Jordan e coloca as pernas no sofá. Ela esfrega as mãos com avidez.
— Me deixa ouvir. Estou esperando isso desde a semana passada.
— É, foi mesmo sua prioridade. — Pronto, falei.
— Bri, me desculpa, tá? Agora, vamos. Bota a música pra mim.
Eu abro o arquivo da música e jogo meu celular para ela.
Ela pega os fones de ouvido. Sei quando começa; ela dança mesmo deitada no sofá.
— Que gancho — diz ela alto. Ela não deve conseguir se ouvir. — Amei essa porra!
De repente, ela para de dançar. Ela aponta para o celular.
— O que é isso?
— O que é o quê?
Ela tira os fones e olha na direção da cozinha. Jay e Lena estão ocupadas conversando enquanto uma música de Natal R&B toca.
— Que merda é essa que você está dizendo na música? — pergunta tia Pooh em voz baixa. — Você não é dessa vida!
Ela não pode estar falando sério. Malik, tudo bem. Mas a tia Pooh, que anda por aí armada o tempo todo? Que desaparece por dias pra traficar drogas?
— Não, mas você é.
— Isso não tem porra nenhuma a ver comigo, Bri. Isso é você se mostrando como uma pessoa que não é de verdade.
— Eu não disse que era eu! A questão aqui é brincar com o estereótipo.
Ela se senta.
— Você acha que os idiotas nas ruas vão ouvir o “significado mais profundo”? Bri, você não pode sair por aí falando coisas das ruas e não esperar que alguém teste você. E que porra é essa sobre coroa dos Crowns? Você está a fim de ter problema?
— Espera, o quê?
— Você disse que não precisa de cinza pra ser rainha.
— E não preciso mesmo! — Caramba, eu tenho mesmo que explicar? — É meu jeito de dizer que não tenho lados.
— Mas vão interpretar de outra forma! — diz ela.
— Não é problema meu se fizerem isso. É só uma música.
— Não, é uma declaração! — diz tia Pooh. — É isso que você quer que as pessoas pensem sobre você? Que você puxa gatilhos e anda armada? É esse tipo de reputação que você quer?
— É o tipo que você quer?
Silêncio. Silêncio absoluto.
Ela atravessa a sala e fica na minha frente.
— Apaga essa merda — diz ela por entre dentes.
— O quê?
— Apaga — diz ela. — Vamos fazer outra música.
— Ah, desta vez você vai ficar?
— Pode apontar seu dedo pra mim o quanto quiser, mas quem fez merda foi você . — Ela cutuca meu peito. — Você vai gravar versos novos. Simplesmente isso.
Eu cruzo os braços.
— O que você planeja fazer com a nova versão?
— O quê?
Estou com Supreme na cabeça.
— Se você achar boa, o que vai fazer com a música?
— Vamos botar online e ver o que acontece — diz ela.
— Só isso?
— Quando fizer uma música que for realmente boa, você vai estourar — diz ela. — Não preciso saber como.
Eu olho para ela. Ela não pode estar falando sério. Isso não funcionaria nem em um dia bom. Quando sua família está a um contracheque do fundo do poço? Essa merda não funcionaria nem se tivesse asas.
— Não é o bastante pra mim — eu digo. — Você sabe como isso é importante?
— Bri, eu entendo, tá?
— Não entende, não! — Jay e Lena riem de alguma coisa na cozinha. Eu falo mais baixo. — Minha mãe teve que ir pegar comida de caridade, tia Pooh. Você sabe o quanto eu tenho em jogo agora?
— Eu também tenho muito em jogo! Você acha que eu quero ficar no conjunto habitacional? Acha que quero ficar vendendo aquela merda o resto da minha vida? Não, porra! Todo santo dia eu sei que tem uma chance de ser meu último.
— Então para! — Caramba, é tão simples.
— Olha, eu estou fazendo o que tenho que fazer.
Porra nenhuma. Porra. Nenhuma.
— Dar a nossa virada com essa porra de rap — diz ela — é tudo que eu tenho.
— Então aja dessa forma! Não posso ficar esperando que “alguma coisa aconteça”. Preciso de garantias.
— Eu tenho garantias. Vamos botar você de volta no Ringue depois das festas e vamos fazer você ficar famosa.
— Como?
— Só confia em mim! — diz ela.
— Isso não é suficiente!
— Ei — grita Jay. — Tudo bem aí?
— Tudo — diz tia Pooh. Ela me olha. — Apaga essa merda.
Ela vai para a cozinha e brinca com Jay e Lena, como se tudo estivesse bem.
Ah, mas não está. Supreme disse que tenho um sucesso nas mãos. Tia Pooh acha que vou deixar isso escorregar pelos dedos?
Posso mostrar melhor do que contar.
Vou para o meu quarto, fecho a porta e abro o laptop. Levo dez minutos para subir “Na hora da virada” para o Dat Cloud e vinte segundos para enviar o link para o Supreme.
Ele responde em menos de um minuto.
Deixa comigo, garotinha.
Se prepara.
Você vai explodir.
PARTE DOIS
ERA DE OURO
QUATORZE
Na manhã do primeiro dia depois do recesso de natal, batidas fortes na nossa porta me acordam.
— Quem faz uma coisa dessas! — grita Jay em alguma parte da casa.
— Deve ser Testemunha de Jeová — diz Trey, com voz grogue no quarto dele.
— Numa segunda? — diz Jay. — Ah, não. Se forem eles, vão testemunhar uma coisa e tanto, esperem só.
Opa! Acho que vai ser divertido.
Ela vai até a sala, e está silencioso o bastante para eu ouvir o “Ah, droga!” que ela murmura. A tranca estala e a porta se abre.
— Cadê meu dinheiro?
Merda. É a sra. Lewis, nossa senhoria.
Eu me levanto, com pijama do Homem Aranha furado e tudo (é confortável, tá) e vou até a porta. Trey também se arrastou da cama. Ele tira remela seca dos olhos.
— Sra. Lewis, preciso de mais um pouco de tempo — diz Jay.
Mesmo cedo assim, a sra. Lewis traga um cigarro na nossa varanda. Eu perderia a conta se tentasse listar todas as pintas no rosto dela. Ela tem um black power preto e grisalho que seu irmão, o barbeiro, mantinha ajeitado. Ele se mudou recentemente e agora o black power está descontrolado.
— Mais tempo? Rá! — Parece que tem uma gargalhada entalada na garganta dela. — Você sabe que dia é hoje?
Dia nove. O dia do aluguel foi o do Ano Novo.
— Eu te dei duas semanas para o resto do aluguel do mês passado e ainda estou esperando — diz ela. — Agora, preciso do deste mês também, e você tem a coragem de mendigar...
— Mendigar? — eu repito.
— Espera aí — diz Trey. — Não fala com a minha mãe ass...
— Pessoal! — diz Jay.
Só pra deixar registrado, eu nunca gostei da sra. Lewis. É verdade que a minha casa é tecnicamente dela, mas no que depender de mim, ela pode morrer engasgada no próprio cuspe. Ela está sempre de nariz em pé, agindo como se fosse melhor do que nós porque alugamos a casa dela. Como se ela não morasse no bairro, a duas ruas de nós.
— Sra. Lewis — diz Jay, calmamente. — Vou conseguir seu dinheiro. Mas me faça um enorme favor e me dê um pouco mais de tempo.
A sra. Lewis aponta o cigarro para a cara da Jay.
— Está vendo, é isso que está errado com tantos de vocês, negros. Vocês acham que as pessoas têm que fazer favores pra vocês.
Hum, ela também é negra.
— O que houve? Por acaso você voltou a usar aquelas coisas? Está desperdiçando meu dinheiro com drogas?
— Pode ir parando...
— Brianna! — diz Jay, com rispidez. — Não, eu não voltei a usar drogas, sra. Lewis. Só estou numa situação ruim no momento. Estou implorando, de uma mãe para a outra, para você me dar mais tempo.
A sra. Lewis joga o cigarro no chão da varanda e apaga com a ponta do sapato.
— Tudo bem. Sorte sua que estou protegida.
— Está mesmo? — eu pergunto.
Jay me olha de cara feia.
— É a última vez que vou fazer isso — avisa a sra. Lewis. — Se eu não receber meu dinheiro, vocês vão pra rua.
A sra. Lewis sai batendo os pés e resmungando enquanto desce a escada da varanda.
Jay fecha a porta e apoia a testa nela. Os ombros murcham e ela solta o ar, como se estivesse liberando tudo que gostaria de dizer. Não lutar é mais difícil do que lutar.
— Não se preocupe, mãe — diz Trey. — Vou a um daqueles lugares de empréstimo no meu almoço.
Jay se empertiga.
— Não, amor. Aqueles lugares são armadilhas. É o tipo de dívida impossível de se livrar. Vou dar um jeito.
— E se não der? — eu pergunto. — Se formos despejados, vamos ficar...
Não consigo dizer. Mas as palavras ocupam o ambiente como um cheiro ruim.
Sem-teto. Duas palavras, três sílabas.
O momento é inquieto
Estamos quase sem-teto .
— Vai dar certo — diz Jay. — Não sei como, mas vai.
Parece que ela está falando mais para si mesma do que para nós.
A situação toda me abala. Quando o sr. Watson aperta a buzina do ônibus, eu ainda estou me vestindo. Jay é que me leva para a escola.
Ela bota a mão no apoio de cabeça do meu banco quando dá ré para sair da entrada de casa.
— Não deixe que essa situação te distraia, Bri. Eu falei sério quando disse que vai dar certo.
— Como?
— Não preciso saber como.
Estou cansada de ouvir as pessoas falando isso. Primeiro a tia Pooh, agora Jay. Elas não sabem como vai dar certo, mas esperam que dê, por milagre.
— E se eu arrumar um emprego? — eu pergunto. — Ajudaria.
— Não. A escola é seu trabalho — diz ela. — Tive meu primeiro emprego aos 13 anos, depois que a minha mãe morreu, pra poder ajudar meu pai. Não pude ser adolescente porque estava com a cabeça nas contas. Achei que era adulta. Esse foi um dos motivos pra eu acabar tendo Trey aos 16 anos.
É, minha mãe e meu pai foram aqueles clichês de pais adolescentes. Eram adultos quando eu nasci, mas Trey os fez crescer bem antes disso. Vovô diz que meu pai tinha dois empregos aos 16 anos e ainda assim fazia rap. Ele estava determinado a...
Bom, não terminarmos assim.
— Não quero que você tenha que crescer antes da hora, flor — diz Jay. — Aconteceu comigo e não tenho como voltar atrás. Quero que você aproveite a infância o máximo que puder.
— Prefiro crescer a virar sem-teto.
— Odeio que você tenha que pensar assim — murmura ela. E limpa a garganta. — Mas a responsabilidade é minha. Não sua, nem do Trey. Vou pensar em alguma solução.
Olho para a corrente antiga do meu pai, pendurada no meu pescoço. Eu não devia usar no Garden, é praticamente pedir pra ser assaltada, mas na escola não deve ter problema. Além do mais, todo mundo vai estar exibindo as roupas e sapatos novos que ganhou no Natal. Quero exibir alguma coisa também. Mas, se precisamos pagar o aluguel...
— Talvez a gente possa botar no penhor...
— Não vamos abrir mão dessa corrente. — Droga. Ela leu minha mente.
— Mas...
— Algumas coisas valem mais do que dinheiro, florzinha. Seu pai ia querer que você ficasse com isso.
Também acho que ele ia querer isso. Mas também não ia querer que ficássemos sem casa.
Nós paramos em frente à minha escola. Está frio demais para as pessoas ficarem do lado de fora. Mas Sonny está lá. Ele acena para mim da escada. Já tinha me mandado uma mensagem dizendo que precisava falar comigo.
— Tchau — eu digo para Jay, e começo a sair.
— Ei — diz ela. — Posso ganhar um beijo, por acaso?
Nós não costumamos fazer essas coisas, mas acho que é um daqueles dias em que ela precisa mais do que eu. Eu beijo sua bochecha.
— Eu te amo — diz ela.
— Eu também te amo.
Ela dá um beijo rápido na minha têmpora. Estou na metade da escada quando ela abre a janela e grita
— Tenha um bom-dia, Bookie!
Fico paralisada.
Ah, Deus. Ela não fez isso.
Não sei o que quer dizer, mas “Bookie” é o apelido exclusivo da Jay para mim desde que consigo lembrar. É um milagre eu não ter achado que meu nome de verdade fosse “Bookie” quando era pequena, considerando o quanto ela o usava.
As poucas pessoas do lado de fora a ouviram. Jogo o capuz na cabeça e subo a escada correndo.
Sonny dá um sorrisinho.
— Você sabe que sempre vai ser Bookie, né?
— Cala a boca, Sonny Coelhinho. — Esse é o apelido que a mãe usa com ele.
— Vai se danar. — Ele segura meu pingente. — Caramba. Era do tio Law, não era?
— Era. Minha mãe me deu. O que houve? Você disse que precisávamos conversar.
Nós subimos a escada.
— Eu queria saber o que houve com você. Não respondeu às mensagens do Malik durante todo o recesso.
Não respondi. Na verdade, não falo com ele desde que ele me chamou de vendida e me transformou em piada para Hana.
— O que houve, você está de intermediário dele agora? — eu pergunto.
— Infelizmente, sou oficialmente o intermediário. Você ainda está com raiva do que ele disse no Sal’s, é?
Eu devia estar com mais raiva de mim mesma, mas, sim, ainda estou com raiva dele. E magoada. Mas admitir? De jeito nenhum. Seria como admitir que tinha sentimentos idiotas por ele e achava que tínhamos uma chance.
Mas não temos nenhuma agora. De acordo com a mensagem de texto que Sonny me mandou no Ano Novo, Hana e Malik estão juntos.
Problema deles.
— Eu estou ótima. — Digo para Sonny a mesma coisa que digo para mim mesma. — Você ficou mesmo esperando aqui no frio para falar comigo sobre o Malik?
— Rá! De jeito nenhum. Não ligo tanto assim pra vocês.
Eu olho para ele de lado. Ele sorri. Que idiota.
— Mas, de verdade, o que quero falar é o seguinte... — diz ele.
Sonny me mostra o celular. É uma mensagem do Rapid, enviada de manhã cedo, e consiste em uma pergunta simples que não é tão simples.
Quer se encontrar comigo?
Meu queixo cai.
— Sério?
— Sério — diz Sonny.
— Puta merda. — Mas tem um problema. — Por que você não respondeu?
— Não sei — diz ele. — Uma parte de mim está gritando que sim. A outra parte acha que essa porra é boa demais pra ser verdade. E se ele for um homem de 50 anos que mora no porão da mãe e tem um plano malicioso de me matar e deixar as partes do meu corpo espalhadas no quintal, sem ninguém saber até daqui a 20 anos, quando um cachorro de rua acabar farejando meus restos?
Eu o encaro.
— Às vezes os detalhes nos seus exemplos são perturbadores.
— Pode acontecer. O que eu faria se fosse o caso?
— Hum, eu espero que você saia correndo feito um louco antes que ele consiga te matar.
Sonny aperta os lábios.
— Depois disso?
— Chamar a polícia.
— Bri! — diz ele, enquanto eu rio. — Falando sério, ele pode ser uma fraude.
— Pode, sim. — Eu tenho que admitir. A internet é cheia de gente sinistra e mentirosa. E não sei se seria exatamente como o exemplo do Sonny, mas pode ser perigoso.
— Além disso, mais uma vez, isso é uma...
— Distração — eu digo por ele.
— Isso mesmo. Malik está tentando descobrir quem é o Rapid. Dei algumas informações pra ele, e ele já está trabalhando. Fizemos umas pesquisas outro dia.
— Ah. Que legal.
Meu estômago despenca. Sonny contou coisas sobre o Rapid para o Malik que não contou para mim. E eles pesquisaram juntos. Sem mim.
É besteira, mas dói.
Sonny rói a unha já destruída.
— Vou dizer ao Rapid pra esperarmos pra esse encontro. Enquanto isso, Malik e eu vamos continuar pesquisando.
Ele e Malik. A Profaníssima Trindade agora virou uma dupla.
Porra. Por que estou tão sentimental?
— Pode ser a tentativa de algum babaca de me constranger, até onde eu sei — continua Sonny. — Considerando todas as coisas que contei pra ele... Vou fazer papel de bobo.
A vergonha nos olhos dele torna meus sentimentos irrelevantes.
Eu o cutuco de leve.
— Você não é bobo. Ele é bobo se estiver te enganando. Prometo que vou dar uma surra nele se estiver de sacanagem.
— Mesmo que ele seja um cinquentão em um porão?
— Mesmo que ele seja um cinquentão em um porão. Vou arrancar os dedos dele e enfiar pela garganta.
Sonny beija a minha bochecha.
— Obrigado por ser violenta por mim.
— Aahhh, pode contar comigo sempre. Você sabe que vou sempre cuidar desse seu jeitinho perturbador.
— Só é perturbador porque você sabe que pode acontecer.
A segurança é tranquila. Os novos guardas ainda estão aqui. Todo mundo vai mais devagar pelos corredores do que o habitual. Acho que o recesso de inverno nos faz desejar ainda mais o verão.
Sonny me cutuca. À frente, Malik espera no meu armário.
— Vocês dois vão ficar bem? — pergunta Sonny.
— Vamos — eu minto. Na verdade, não sei.
Sonny tem que falar com um dos professores antes da aula, então vai para a ala de artes visuais. Vou até meu armário.
Eu o abro e tiro a mochila.
— Oi.
Malik arregala os olhos de leve.
— Não está mais com raiva de mim?
Pego meu livro de História Americana (branca) e coloco na mochila.
— Não. Está tudo bem.
— Não acredito. Você se apega a ressentimentos como os pão-duros se apegam a dinheiro.
Ele anda frequentando a escola de frases do vovô?
— Já falei que está tudo bem.
— Não está, não. Brisa, olha. — Malik segura meu braço. — Me desculpa, tá? É horrível não falar com você.
Na verdade, isso é horrível. O jeito como ele está segurando meu braço, passando o polegar na minha pele. Todas as partes de mim estão cientes de que ele está me tocando.
Não. Apaga isso. O namorado da Hana está tocando em mim.
Eu solto o braço da mão dele.
— Está tudo bem, Malik. Esquece isso.
Porque estou me obrigando a esquecê-lo.
Ele suspira.
— Você pode pelo menos me contar o que está realmente acon...
— Ei! Princesa!
Curtis se aproxima de nós, provavelmente para fazer alguma piada idiota que só o Curtis é capaz de inventar.
— O que foi, Curtis? — pergunto.
O boné e os tênis Jordan estão combinando, como sempre, e parecem novinhos. Devem ter sido presentes de Natal.
— Está se achando agora, é? Eu nem estou com raiva.
— De que você está falando?
— Você ainda não viu o Blackout ? — pergunta ele.
— Blackout ? — diz Malik.
Blackout é o blog de fofoca que adora “falar mal e contar segredos” (palavras deles) sobre as celebridades negras para o público sedento. É ridículo... e viciante. De que outra forma vou saber qual Kardashian engravidou de uma celebridade negra esta semana?
— É. Acabaram de postar a música da Bri — diz Curtis.
Devo ter ouvido errado. Não é possível.
— Como é?
Curtis abre o site no celular.
— Está vendo?
Lá estou eu, na primeira página do Blackout . Postaram uma foto minha no Ringue. A manchete? “Filha adolescente de lenda underground do rap Lawless é só tiro com música nova!”
Um comentário: Por acaso eu não tenho nome? É bem curto, caberia.
Estou disposta a ignorar a baboseira machista por enquanto. Embaixo da foto tem um player com link para “Na hora da virada” direto da minha página do Dat Cloud. De acordo com a contagem de reproduções...
Pu.
Ta.
Merda.
— Vinte mil reproduções! — eu grito. — Eu tive 20 mil reproduções!
Todos os olhos do corredor se voltam para mim. A dra. Rhodes está a poucos metros e me olha por cima dos óculos.
É, falei alto. Não ligo.
— Vinte mil e aumentando — diz Curtis. — Você está nos trends.
— Mas... como... quem...
Supreme. Ele cumpriu a promessa.
Os lábios de Malik se curvam de leve.
— Legal, Bri.
— Legal? — repete Curtis. — Meu amigo, quantas pessoas você conhece no Garden que estão recebendo atenção assim? Isso é incrível, Princesa. Parabéns.
Não sei o que é mais chocante: o fato da minha música estar viralizando ou do Curtis ter me parabenizado.
Curtis balança a mão na minha frente. Bate na minha testa.
— Tem alguém aí...
Eu bato na mão dele.
— Garoto, se você não...
Ele ri.
— Achei por um segundo que você tinha morrido na nossa frente.
— Não. — Mas estou me perguntando se essa é uma experiência extracorpórea. Eu ponho a mão na testa. — Isso é loucura.
— É... — Malik decide não falar mais. — É melhor eu ir pra aula. Parabéns, Bri.
Ele desaparece no corredor.
— Seu amigo é estranho, cara — diz Curtis.
— Por que você está dizendo isso?
— Se eu fosse tão próximo assim de alguém como ele teoricamente é de você, eu estaria surtando pela pessoa agora. Ele nem conseguiu te dar parabéns direito.
Eu mordo o lábio. Também reparei.
— Ele não gosta das coisas que eu falo na música, só isso.
— Qual é o problema do que você diz?
— Eu falo de armas, essas coisas, Curtis. Ele não quer que as pessoas pensem que sou assim.
— Mas vão pensar de qualquer jeito. Se você puder tirar alguma coisa disso, esquece essas besteiras e vai com tudo.
Eu o encaro.
— Uau.
— O que foi?
— Você é mais decente do que eu pensava.
— Você ama me odiar, né? Enfim. — Ele bate de leve com os nós dos dedos no meu braço. — Não vai ficar metida por causa disso. Seu ego já é bem grande.
— Engraçado. Aposto que não podemos dizer o mesmo sobre uma certa parte do seu corpo.
— Ai! — Ele franze a testa. — Espera, você andou pensando nisso, Princesa?
Por que eu achei que ele era fofo mesmo?
— Vai sonhando, meu querido.
— Grossa. Mas estou feliz por você. De verdade, não é mentira.
Eu retorço a boca.
— Ah, sei.
— Não estou mentindo! — diz ele. — Já estava na hora de alguma coisa boa sair do Garden. Se bem que — ele dá de ombros — eu ainda daria uma surra em você em uma batalha.
Eu caio na gargalhada.
— Não mesmo.
— Ah, sim.
— Beleza — eu digo. — Prova.
— Beleza — diz ele.
Ele chega perto, bem perto.
Por que fico olhando para ele?
Por que ele fica me olhando?
— Vai — digo.
— Não — diz ele. — Primeiro as damas.
— Isso é pular fora.
— Ou estou sendo cavalheiro.
Quase sinto as palavras de tão pouco espaço que há entre nós. Meus olhos descem para os lábios dele. Ele os umedece, e aqueles lábios praticamente imploram que eu b...
O sinal toca.
Eu me afasto do Curtis. Que porra é essa?
Ele dá um sorrisinho e sai andando.
— Fica pra próxima, Princesa.
— Você não ganha de mim! — eu grito para ele.
Ele se vira.
— Okay, lady . Entre em formação.
Ele acabou de citar Beyoncé para mim?
Eu mostro o dedo do meio.
Mais ou menos citando Biggie, isso tudo é um sonho.
Não posso andar pela escola sem alguém reparar ou apontar pra mim, e não tem nada a ver com o incidente e nem com os boatos de eu ser traficante. Pessoas que nunca falaram comigo de repente me cumprimentam. A corrente do meu pai me faz ganhar mais olhares. Na aula de Ficção, uma pessoa toca a minha música antes da aula começar. A professora Burns manda a pessoa “desligar essa besteirada”, e estou tão animada que mordo a língua. Digo internamente que a peruca dela é a única besteirada na sala.
Brianna Jackson não vai para a diretoria hoje.
A professora Murray também ouviu a música. Quando entro na aula de Poesia, ela diz:
— Chegou a MC da vez! — Mas acrescenta: — Como hip-hop é poesia, suas notas não podem mais cair.
Enfim...
Ver as reproduções da música aumentarem e meus colegas de escola surtarem me faz pensar que, caramba, todas as coisas com que sonhei podem realmente acontecer. Eu posso fazer sucesso como rapper. Não é um absurdo que minha imaginação inventou. É...
É possível.
QUINZE
Faz pouco mais de duas semanas que o Blackout postou minha música. Os números só aumentam. Estou falando de seguidores, reproduções, tudo. Ontem, fui andando até a casa dos meus avós pra jantar com eles (vovó insistiu) e um carro passou por mim tocando minha música bem alto.
Mas o carro que para na frente da minha casa não está ouvindo a minha música. Tia Pooh espera no Cutlass. Tenho outra batalha no Ringue hoje. Não faço ideia de quem vou enfrentar, mas é isso que torna o Ringue o que é: temos que estar prontos pra tudo.
Jay está na aula e Trey, no trabalho, então eu tranco a casa. Por mais atenção que eu tenha recebido online, acho que nenhum dos dois sabe sobre a música. Além do mais, Jay não usa internet, a não ser que seja pra assistir a alguma coisa no YouTube ou xeretar amigos e familiares no Facebook. Trey acha que as redes sociais promovem insegurança e não usa muito. Por enquanto, está tudo bem.
Scrap está no banco do passageiro da tia Pooh. Ele o puxa para a frente para eu poder entrar atrás.
— Você não me segura na hora da virada. Yeeeeah! — diz ele. — Não consigo tirar isso da cabeça, Li’l Law. É tiro demais.
— Obrigada. Oi, tia.
— E aí — murmura ela, olhando para a frente.
No dia que o Blackout postou “Na hora da virada”, contei tudo pra ela. E não recebi nenhuma resposta até ontem, quando ela me mandou uma mensagem avisando que vinha me buscar para o Ringue hoje.
Acho que ela está chateada porque não apaguei a música, como ela mandou. Mas o que importa se significar que estamos melhorando? Caramba. O objetivo é esse, né?
Scrap me observa.
— Olha só, você está com a corrente do seu pai.
Olho para o pingente de coroa pendurado no cordão de ouro. Usei todos os dias desde que ganhei. Colocá-lo se tornou um hábito, como escovar os dentes.
— Acho que gosto de ter uma parte dele comigo.
— Uau! — diz Scrap, com a mão fechada na frente da boca. — Lembro quando Law comprou isso aí. O bairro inteiro ficou falando. Foi assim que descobrimos que ele tinha chegado lá.
Tia Pooh olha para mim de cara feia pelo retrovisor.
— Não mandei você não usar essa merda?
Com o que ela está preocupada? Alguém me assaltar? É por isso que costumo enfiar pra dentro da blusa no bairro. Mas no Ringue?
— Ninguém vai roubar, tia Pooh. Você sabe como é a segurança.
Ela balança a cabeça.
— Às vezes, não sei por que eu me preocupo com essa cabeça-dura.
Chegamos ao ginásio. Alguns dos carros mais absurdos estão expostos no estacionamento. Tem um carro rebaixado pintado como uma caixa de Froot Loops e uma picape com os maiores pneus que já vi na vida. Passamos por um carro que parece roxo, mas quando a luz do poste o ilumina, vemos que é verde-néon.
Tia Pooh encontra uma vaga e nós três saímos. Tem música tocando para todo lado. As pessoas adoram exibir seus aparelhos de som da mesma forma que gostam de exibir os carros. Talvez até mais. Um carro está com minha voz tocando.
Você não me segura na hora da virada.
— Aííí! — grita um cara dentro do carro e aponta para mim. — Arrasa em nome do Garden, Bri!
Mais pessoas reparam em mim e gritam palavras de carinho e parabéns.
Scrap me cutuca.
— Está vendo? O bairro todo está falando de você.
Tia Pooh enfia um pirulito na boca, em silêncio.
A fila para entrar na arena vai até a calçada, mas, como sempre, vamos direto para a porta. Normalmente, não tem problema, mas um cara diz:
— É melhor vocês irem pro fim da fila!
Nós três nos viramos.
— Com quem você pensa que está falando? — pergunta tia Pooh.
— Com uma vadia qualquer — diz o cara. Ele tem a boca cheia de prata e usa uma camisa cinza de beisebol. Todos os caras em volta dele estão de cinza. Crowns.
— É melhor você pensar direito no que fala, amigão — avisa Scrap.
— Qual é, neg... — Os olhos do Crown vão direto para a corrente do meu pai. — Ah, merda. — Ele curva os lábios. — Olha só o que temos aqui.
Os amigos dele também reparam. Seus olhos se iluminam e de repente viro um pedaço de carne jogado em uma toca de leões famintos.
— Você é a filha daquele arruaceiro do Lawless, não é? — pergunta o instigador.
Tia Pooh parte para cima dele, mas Scrap segura a blusa dela.
— O que você disse do meu irmão?
Cunhado . Mas, se perguntarem para a tia Pooh, ela vai dizer que é apenas um detalhe.
— Tia. — Minha voz está tremendo. — Vamos entrar, tá?
— É, tia, entra — debocha o Crown. Ele me olha de novo. — Foi você que fez aquela música, não foi?
De repente, não consigo falar.
— E se for? — pergunta tia Pooh.
O Crown esfrega o queixo.
— Ela disse umas coisas reais da rua na música. Tem um verso que deixou a gente bolado. Uma parte que fala de não precisar de cinza pra ser rainha. Que porra isso quer dizer?
— Quer dizer o que ela quiser — diz tia Pooh. — Ela não é de lado nenhum, então qual é o problema?
— A gente ficou se sentindo meio estranho — diz o Crown. — É melhor ela tomar cuidado. Não vai querer acabar como o pai.
— O que você está dizendo? — Tia Pooh vai para cima dele.
Ele vai para cima dela.
Surgem gritos de “Ah, merda!” e berros. Celulares são virados para nós.
Tia Pooh leva a mão à cintura.
O Crown leva a mão à dele.
Estou paralisada.
— Ei! Parem agora! — grita Frank, o leão de chácara.
Ele e Reggie se aproximam correndo. Reggie empurra a tia Pooh para trás e Frank empurra o Crown.
— Não, cara, não — diz Frank. — Não vai rolar essa merda aqui. Vocês vão ter que ir embora.
— Esses idiotas é que começaram! — diz tia Pooh. — A gente só estava tentando entrar pra minha sobrinha participar da batalha.
— Não quero saber — diz Reggie. — Nós não toleramos essa merda da rua, Pooh. Você sabe. Vocês vão ter que ir embora.
Ei, calma. Todo mundo?
— Mas eu vou participar da batalha hoje.
— Não vai mais — diz Frank. — Você conhece as regras, Bri. Se você ou a sua equipe — ele aponta para Scrap e para a minha tia — trouxerem essa baboseira de gangue pra cá, vocês têm que ir embora. É simples.
— Mas eu não fiz nada!
— São as regras — diz Reggie. — Todos vocês, pra fora. Agora.
Os Crowns falam palavrões, mas vão embora. Há sussurros por toda fila.
— Parem com isso, pessoal — eu digo para Frank e Reggie. — Por favor. Me deixem entrar.
— Lamento, Bri — diz Frank. — Você vai ter que ir embora.
— Regras são regras — diz Reggie.
— Mas eu não fiz porra nenhuma! Vocês estão me expulsando por causa do que minha equipe fez? Isso é absurdo!
— São as regras — alega Frank.
— Que se fodam as regras!
Eu falo sem pensar? O tempo todo. Meu temperamento vai de zero a cem em segundos? Claro. Mas, pelo jeito como as pessoas resmungam, elas parecem concordar.
— Não, Bri. Você tem que ir. — Reggie faz sinal na direção da rua. — Agora.
— Por quê? — eu grito enquanto a multidão faz mais barulho. Desta vez, Scrap segura a minha blusa. — Por quê?
— Porque a gente mandou! — diz Frank para mim e para as pessoas.
Mas ninguém quer saber. Alguém começa a tocar “Na hora da virada” no carro e todo mundo perde a cabeça.
Quer saber? Que se foda.
— Vem pra cima de mim e vai levar porrada — eu digo.
— Minha galera tem mais fogo que uma fornalha — as pessoas cantam em seguida.
— Silenciador é tudo, não escutam o que a gente fala — eu digo.
— E ainda jogam assassinato na nossa cara! — canta a galera.
Quando chega o gancho? Ah, meu Deus. Quase todo mundo canta junto. As pessoas quicam e gritam comigo. É um miniconcerto ali no estacionamento.
Frank e Reggie balançam a cabeça e voltam para a porta. Mostro o dedo do meio para os dois. Alguém grita:
— Vocês são uns filhos da puta!
Recebo palavras de incentivo de todas as direções. Se meu pai é o rei do Garden, eu sou a princesa.
Mas tia Pooh me olha de cara feia. Ela sai andando para o estacionamento.
Que porra é essa? Eu seguro o braço dela.
— Qual é seu problema?
— Você é meu problema!
Dou um passo para trás.
— Como é?
— Eu mandei você não publicar aquela maldita música! — grita ela, com cuspe voando da boca. — Agora a gente não pode voltar aqui!
— Espera aí, você está culpando a minha música ? Eu não te mandei se meter com aqueles Crowns!
— Ah, então a culpa é minha? — berra ela.
— Era você que ia puxar a arma pra eles!
— É, pra proteger você! — grita tia Pooh. — Cara, esquece. Enfia essa bunda burra no carro.
Eu a vejo sair andando. Ela não viu como todo mundo ama a música? Mas está com raiva de mim porque uns Crowns ficaram aborrecidos por causa de um verso?
Como eu posso ser a burra nessa história?
Tia Pooh me olha.
— Vem!
Com ela me tratando assim?
— Não. Pode deixar. Que imagem eu vou passar se andar de carro com alguém que me chama de burra quando não fiz nada de errado?
Tia Pooh olha para o céu. Levanta as mãos.
— Tudo bem! Faz o que você quiser.
— Acho que não é uma boa ideia... — Scrap começa a dizer.
Tia Pooh sai batendo os pés na direção do carro.
— Deixa a burra ficar! Essa merda toda subiu à cabeça dela.
Scrap olha dela para mim, mas vai atrás dela. Eles entram no carro e tia Pooh vai embora.
Sinceramente? Acho que eu não devia ficar lá sozinha. Não fui eu que quase me meti numa briga com aqueles Crowns, mas nunca se sabe o que um membro de gangue vai fazer quando está daquele jeito. Tenho que ficar de cabeça baixa, olhos abertos e ouvidos alertas. Tenho que ir para casa.
Eu vou para a calçada.
— Ei! Li’l Law!
Eu me viro. Supreme se aproxima. Ele está de óculos escuros, apesar de estar tudo um breu.
— Precisa de carona? — pergunta ele.
Supreme dirige um Hummer preto com grade dourada na frente. Milez está no banco do passageiro. Supreme abre a porta do lado do motorista e estala os dedos para o filho.
— Ei, pula pra trás. Quero a Bri na frente.
— Por que ela não pode...
— Garoto, eu mandei você ir pra trás!
Milez solta o cinto de segurança e vai para trás, resmungando baixinho.
— Se tiver alguma coisa para dizer, melhor falar alto! — reclama Supreme.
Nossa. Que constrangedor. Parece quando a tia ’Chelle ou a tia Gina dão bronca no Malik e no Sonny quando estou na casa deles. Não sei se é melhor sair, ficar ou agir como se nada tivesse acontecido.
Eu ajo como se nada tivesse acontecido. Esse é o carro mais caro em que já andei. O painel do Supreme parece coisa da Millennium Falcon, com tantas telas e botões. Os assentos são de couro branco e, segundos depois de ele ligar o carro, o meu parece estar torrando.
Supreme parece olhar para o filho pelo retrovisor.
— Você poderia pelo menos falar com as pessoas.
Milez suspira e estica a mão para mim.
— Miles, sem o z . Peço desculpas pelas coisas que falei sobre seu pai na nossa batalha.
Ele parece... diferente. Parece quando vou com a minha avó a um dos supermercados melhores no subúrbio e ela me manda “falar como se fosse ajuizada”. Ela não quer que as pessoas pensem que somos “que nem aqueles ratos do gueto que frequentam seu estabelecimento”. Trey chama de mudança de código.
Miles fala como se não fosse mudança de código para ele. Parece como ele fala naturalmente, como se seu lugar fosse no subúrbio. Quer dizer, ele é do subúrbio, mas no Ringue algumas semanas atrás, ele falou como alguém do gueto.
Eu aperto a mão dele.
— Tudo bem. Sem ressentimentos agora.
— Agora ?
— Ei, você devia saber que houve algum. Foi por isso que pediu desculpas, não foi?
— Na mosca — diz ele. — Não foi pessoal. É que eu não estava preparado pra você cair em cima como fez.
— O que foi? Ficou surpreso de uma garota ter te vencido?
— Não, não teve nada a ver com você ser garota — diz ele. — Acredite, minhas listas estão cheias de Nicki e Cardi.
— Uau, você é uma das raras pessoas que amam as duas?
Eu também sou. Elas podem ter uma rusga, mas não é porque elas não se gostam que não posso gostar das duas. Além do mais, me recuso a “escolher” entre duas mulheres. Já somos tão poucas no hip-hop.
— Ah, sou. — Miles chega um pouco mais para a frente. — Mas vamos falar a verdade. Li’l Kim é a abelha rainha.
— Hum, claro.
Jay é doida por Li’l Kim. Eu cresci ouvindo. Kim me ensinou que, além de as garotas serem capazes de fazer rap, elas também podem ficar em pé de igualdade com os garotos.
— O cover de Hard Core por si só é icônico — diz Miles. — De um ponto de vista visual, a estética...
— Garoto — diz Supreme.
Apesar de ele só dizer isso, Miles chega para trás e começa a mexer no celular em silêncio, como se não estivéssemos tendo uma conversa. Estranho.
— Pra onde vamos, Bri? — pergunta Supreme.
Dou meu endereço e ele o coloca no GPS. Ele sai dirigindo.
— O que aconteceu com você e a sua tia lá? — pergunta ele.
— Você viu?
— Vi. Vi o minishow que você deu também. Você sabe puxar uma galera. A fama viral está te tratando bem?
Eu encosto a cabeça. Caramba. Até o apoio de cabeça está aquecido.
— É surreal. Não tenho como agradecer pelo que você fez.
— Nem precisa — diz ele. — Se não fosse seu pai, eu não teria uma carreira. É o mínimo que eu poderia fazer. E qual é o plano agora? Você tem que aproveitar o momento.
— Eu sei. Era por isso que eu estava no Ringue.
— Ah, aquilo? Não é o suficiente — diz Supreme. — Se bem que o que aconteceu hoje vai fazer as pessoas falarem. Todos os celulares do estacionamento estavam apontados pra vocês. Já vejo as manchetes: “Rapper do gueto tem confronto típico do gueto.” — Ele ri.
— Espera. Eu só estava falando...
— Calma, garotinha. Eu sei — diz Supreme. — Mas vão falar mesmo assim. É o que fazem. A chave é você desempenhar o papel, seja qual for.
Estou confusa.
— Desempenhar o papel?
— Desempenhar o papel — repete ele. — Olha pra mim. Eu vou a reuniões com os executivos, certo? Com ternos caros que mando fazer, sapatos de marca que custam o que minha mãe ganhava em um ano. Eles ainda me veem como um negro do gueto. Mas, adivinha? Eu não saio de lá como um negro pobre , pode apostar. Porque eu desempenho o papel que eles acham que é o meu. É assim que fazemos esse jogo funcionar a nosso favor. Usando o que eles pensam de nós como vantagem. Sabe quem são os maiores consumidores de hip-hop?
— Garotos brancos dos subúrbios — responde Miles secamente, como se já tivesse ouvido isso.
— Exatamente! Garotos brancos dos subúrbios — diz Supreme. — Sabe o que os garotos brancos dos subúrbios amam? Ouvir as merdas que assustam os pais deles. Se você assustar os pais deles, eles procuram você como as mariposas procuram a luz. Os vídeos de hoje vão deixá-los morrendo de medo. Espera só, seus números só vão aumentar.
Faz sentido que os garotos brancos dos subúrbios amem o vídeo. Mas Long e Tate me chamaram de “marginal”, e não consigo me livrar dessa palavra. Agora, as pessoas vão me chamar de gueto? Uma palavra. Duas sílabas.
Só porque não me submeto
Vão achar que sou do gueto .
— Não quero que as pessoas pensem que é isso que eu sou — eu digo para Supreme.
— Como falei, não importa — diz ele. — Deixe que te chamem do que quiserem, garotinha. É só cuidar pra que paguem por isso. Você está recebendo, não está?
Recebendo?
— Por quê? — eu pergunto.
— Alguém devia estar marcando apresentações pra você — diz ele. — Botando versos seus em músicas de outros artistas. Sua tia não está cuidando disso?
Não sei. Tia Pooh nunca falou de coisas assim.
— Olha só, não quero me meter em coisas da família — diz Supreme —, mas você tem certeza de que ela é a melhor pessoa pra ser sua agente?
— Ela está nisso desde o começo — eu digo para ele e para mim. — Quando ninguém ligava para o fato de eu querer fazer rap, tia Pooh me deu força.
— Ah, você é leal. Respeito isso. Ela é GD, não é?
Pouco depois que meu pai morreu, tia Pooh começou a usar verde o tempo todo.
— É. Durante a maior parte da minha vida.
— Isso é uma distração do pior tipo — diz ele. — Conheço muita gente que iria longe se tivesse deixado as ruas para trás. Mas é como meu pai dizia: “Nunca se afogue enquanto tenta salvar alguém que não quer ser salvo.”
Não, ele entendeu errado. Tia Pooh não é uma causa perdida. Sim, ela tem seus momentos e fica muito envolvida com as coisas da rua, mas quando eu fizer sucesso, ela vai abrir mão de tudo.
Eu acho.
Eu espero.
DEZESSEIS
Supreme estava certo. Um monte de gente postou vídeos do que aconteceu no Ringue ontem à noite e muitas outras pessoas ouviram minha música. Minhas reproduções só estão aumentando.
Também tem muita gente que acha que sou alguém que não sou. Já fui chamada de gueto, de perua, de rata sem educação. Tudo isso. Não sei se estou mais irritada ou magoada. Não posso nem me defender e perder a calma sem alguém falar mal de mim.
Então, sim, Supreme estava certo. Fico pensando se também estava certo sobre a tia Pooh.
Eu nem devia pensar assim. Ela é minha tia. Está do meu lado desde o início. Mas também não faz ideia do que está fazendo. Não falou nada sobre marcar shows ou de parcerias com outros artistas. Nada sobre como me fazer receber grana. Ela ainda está chateada por eu ter disponibilizado a música online.
Mas ela é minha tia. Não posso abandoná-la. Pelo menos é o que digo para mim mesma enquanto cutuco a salsicha que tem no meu prato.
Jay coloca uma panqueca ao lado.
— Foi o restinho de farinha. Pooh falou em trazer mais umas compras no fim da semana. Eu quase disse não, mas...
Nossa geladeira e nossos armários estão quase vazios. Esse é outro motivo para eu não poder abandonar a tia Pooh. Ela sempre cuida para que eu tenha comida.
Trey mistura creme no café. Ele está com uma camisa de botão e uma gravata em volta do pescoço. Ele tem uma entrevista de emprego hoje.
— Pooh e seu dinheiro do tráfico de drogas salvando o dia.
É meio injusto. Aqui está meu irmão, fazendo tudo certo e não dá em nada. Enquanto isso, tia Pooh está fazendo tudo o que nos disseram para não fazer, mas é ela quem nos alimenta quando precisamos.
Mas é assim que as coisas são. Os traficantes do meu bairro não estão com dificuldades. Todo o resto está.
Jay aperta o ombro de Trey.
— Amor, você está tentando. Você faz tanta coisa aqui. Mais do que deveria.
Ela fica quieta e quase se desconecta, mas tenta se recuperar com um sorriso.
— Tenho a sensação de que a entrevista de hoje vai dar certo. Eu também andei procurando programas de mestrado online pra você.
— Mãe, já falei, não vou fazer mestrado agora.
— Amor, você devia pelo menos se candidatar a alguns. Pra ver o que acontece.
— Eu já fiz isso — diz ele. — E entrei.
Eu paro de olhar a salsicha.
— É sério?
— É. Eu me candidatei antes de começar no Sal’s. Recebi recentemente duas cartas de aceitação, mas a faculdade mais próxima fica a três horas daqui. Não posso ir para tão longe e...
Ele não termina, mas não precisa. Ele tem que ficar e nos ajudar.
Jay pisca várias vezes.
— Você não me contou que foi aceito.
— Não é nada de mais, mãe. Estou onde quero estar. Juro.
Trey bebendo café é o único som por um tempo.
Jay coloca o prato de panquecas na mesa.
— Podem comer o que ainda tem.
— Mãe...
— Boa sorte com a entrevista, amor.
Ela vai para o quarto e fecha a porta.
Meu coração está na garganta. Não me lembro de muita coisa de quando ela ficou doente, mas lembro que ela sempre ia para o quarto. Passava horas lá, me deixando sozinha com Trey como...
— Ela não está usando drogas — diz Trey.
Às vezes parece que nós pensamos as mesmas coisas ao mesmo tempo.
— Tem certeza?
— Ela não vai fazer isso com ela mesma de novo, Bri. Só precisa de... espaço. Os pais nunca querem desmoronar na frente dos filhos.
— Ah.
Trey apoia a testa na mão.
— Droga, eu não devia ter dito nada.
É difícil saber o que dizer para ele.
— Parabéns por ter entrado...
— Obrigado. Foi burrice me candidatar, na verdade. Acho que eu só estava curioso.
— Ou queria muito ir.
— Em algum momento, vou querer — admite ele. — Mas não agora.
Se as coisas forem como eu quero, ele vai em breve.
— Não se preocupe. Você vai entrar antes que perceba.
— Porque vai chegar sua hora da virada, né?
— Hã, o quê?
— Eu sei sobre a sua música, Bri. Também sei que você foi banida do Ringue ontem à noite.
— Eu... como você...
— Não uso muito as redes sociais, mas não moro embaixo de uma pedra. Metade dos meus colegas de trabalho me enviou links perguntando se era minha irmã colando com os GDs no Jimmy. Kayla me mandou uma mensagem logo em seguida.
— Quem... ah, Ms. Tique. — Droga, tenho que respeitar mais a mana e me lembrar do nome dela de verdade. — Trey, eu posso explicar.
— Eu mandei você não andar com essa turma da Pooh — diz ele. — Não mandei? Você tem sorte de não ter acontecido nada.
— Ela só estava me protegendo.
— Não, ela estava sendo esquentadinha, como sempre. Do tipo que atira primeiro e pergunta depois, por trás das grades. Não ajuda você ter se exibido.
Ele sabe me fazer sentir péssima.
— Eu só estava me defendendo.
— Tem um jeito de fazer isso, Bri. Você sabe. Mas enfim, eu ouvi sua música e admito que você tem uns versos irados nela.
Meus lábios se curvam um pouco.
— Mas — diz ele, de uma forma que me manda arrancar o sorriso da cara —, apesar de eu entender a música, agora as pessoas vão acreditar em tudo que você diz nela. E vamos ser sinceros: você não tem a menor ideia sobre metade das coisas que usou na letra. Cartuchos? — Trey retorce a boca. — Você nem sabe direito o que é um cartucho.
— Sei, sim! — É o negocinho que entra naquele trocinho da arma.
— Claro que sabe. Além do mais, isso é uma distração de tantas formas — diz ele. — Se você se dedicasse dessa forma à escola, sabe o quanto iria longe?
Não tão longe quanto essa música pode me levar.
— Essa é nossa rota de fuga, Trey.
Ele revira os olhos.
— Bri, isso é muito improvável. Olha, se você quiser ser rapper, tudo bem. Eu acho que você pode fazer coisa melhor, mas é seu sonho. Não vou atrapalhar. No entanto, mesmo que sua música faça sucesso, não é a loteria. Não quer dizer que você vai ficar rica de repente.
— Mas posso estar a caminho.
— É, mas a que custo? — pergunta ele.
Trey se afasta da mesa e beija o alto da minha cabeça antes de sair.
Só tem duas pessoas no ônibus quando subo: Deon e Curtis.
— Bri, você foi mesmo expulsa do Ringue? — pergunta Deon assim que entro.
— Ora, bom dia pra você também, Deon — eu digo, com sorriso falso e tudo. — Estou ótima, e você?
Curtis cai na gargalhada.
— Mas, falando sério — diz Deon quando me sento no lugar de sempre. Curtis por acaso está no da frente. — Você foi mesmo banida?
Parece que eu não disse nada.
— D, você viu o vídeo e sabe a resposta — diz Curtis. — Dá um tempo.
— Cara, tem gente que acha que foi encenação — diz Deon. — Mas não foi, né, Bri? Você anda mesmo com os GDs, é? Você entrou pra gangue ou é só afiliada?
— Quer saber? Aqui. — Curtis joga uma garrafa de água para o fundo do ônibus. — Pra matar essa sede de fofocas aí.
Dou uma risada. Desde que ele falou comigo como um ser humano decente na igreja, meu nível de tolerância para o Curtis está bem maior. Eu até dou risada de algumas das piadas dele. É estranho. E nunca achei que fosse dizer isso, mas...
— Obrigada, Curtis.
— Não foi nada. Vou mandar a conta do meu trabalho de guarda-costas.
Eu reviro os olhos.
— Tchau, Curtis.
Ele ri.
— Muquirana. Tudo bem.
— Beleza — eu digo. — O que você está fazendo no ônibus tão cedo? Normalmente é um dos últimos a entrar.
— Passei a noite na casa do meu pai.
Tenho quase certeza de que meu rosto diz o que eu não digo. Eu não tinha ideia de que ele tinha pai. Espera, quer dizer, claro que ele tem pai. Eu não sabia que ele tinha um pai presente.