Na hora da virada
Colofon
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
Eu me jogo na cama. É sempre estranho estar aqui, não posso mentir. Parece que entrei em uma máquina do tempo. Não só por causa do templo ao Piu-Piu, mas por todas as lembranças que tenho do quarto. Sonny, Malik e eu passamos tanto tempo aqui. Foi onde Trey me apresentou ao Uno. Vovô brincava de boneca comigo aqui.
Mas minha mãe não faz parte de nenhuma dessas lembranças.
Há uma batida na porta e ela aparece, dando uma espiada por trás da porta. Trey está atrás dela.
— Ei. Podemos entrar? — pergunta ela.
Eu me sento.
— Podem, claro...
— Eu não preciso pedir pra entrar nesse quarto — diz Trey. Ele tem a cara de pau de se sentar na minha cama.
— Hum, como é? Ainda é meu quarto.
— Uau — diz a minha mãe, olhando em volta. — O Piu-Piu, é?
Ela nunca tinha entrado ali. Quando só ficava comigo e com Trey nos fins de semana, parava na porta de entrada. Vovó não a deixava entrar.
Mamãe anda pelo quarto. Pega um dos meus Piu-Pius de pelúcia.
— Eu não tinha me dado conta de que nunca tinha entrado aqui. Espera, retiro isso. Eu estive aqui quando era o quarto do seu pai.
— Espera, você está dizendo que vocês dois fizeram sexo no quarto que acabou sendo o quarto da Bri? — pergunta Trey.
É o fim do meu apetite.
— Eca!
— Trey, para! — diz a minha mãe. — Eles devem ter mudado a cama.
Ah, meu Deus, ela acabou de confirmar que eles fizeram sexo ali. Trey cai na cama, gritando de tanto rir.
— Bri ficou com o quarto do sexo!
Eu dou um soco nele.
— Cala a boca!
— Podem parar, vocês dois — diz minha mãe. — Preciso conversar com vocês sobre uma coisa.
— Espera aí, uma coisa de cada vez — diz Trey, se sentando. — O que está rolando entre você e a vovó?
— O que você quer dizer?
— Estamos aqui há quanto tempo? — Trey olha para o relógio. — Há uma hora já e ninguém brigou ainda. Eu nem ouvi comentários maldosos.
— Verdade — eu digo. — Vocês estão tão discretas quanto um dia de verão.
Ah, Deus. Eu falei igual ao vovô.
— Sua avó e eu tivemos uma conversa — alega J... minha mãe. — Só isso.
— Só isso? — diz Trey. — Qualquer conversa entre vocês duas é monumental. Quando isso aconteceu?
— Outro dia. Nós conversamos por algumas horas. Botamos muita coisa pra fora, até coisas bem antigas.
— Jesus foi o mediador dessa conversa? — eu pergunto. — É o único jeito que eu vejo de isso ser possível.
— Rááá — diz Trey.
Mamãe suga os dentes.
— Enfim! Não vou agir como se fôssemos melhores amigas, não mesmo. Aquela mulher ainda sabe me irritar. Mas percebemos que nós duas amamos vocês dois e queremos o melhor pra vocês. Nós estamos dispostas a deixar as diferenças de lado em nome disso.
Trey pega o celular.
— Ah. Isso explica. Acabei de receber uma notificação dizendo que está abaixo de zero no inferno.
Dou uma risada.
— Não perturba, garoto — diz a minha mãe. — Nós também tomamos uma decisão. Seus avós ofereceram de nós três ficarmos aqui até estarmos de pé de novo. Eu aceitei.
— Como é que é? Isso é sério? — eu digo.
— Espera, espera — diz Trey. — A gente vem morar aqui?
Uau. Pela primeira vez, estou descobrindo alguma coisa na mesma hora que ele.
— Olha, a minha entrevista com o dr. Cook pode ou não dar em alguma coisa, mas de qualquer modo isso vai tirar um pouco da pressão — diz minha mãe. — Falei para os seus avós que vou ajudar com as despesas da casa, mas isso significaria bem menos contas com que nos preocupar. Além do mais, a gente está tentando acertar o aluguel há tanto tempo que é quase impossível conseguir botar o pagamento em dia agora.
— Mas estou cuidando de nós — alega Trey.
— Eu estou cuidando de nós — diz ela. — Agradeço por tudo que você faz pra nos manter de pé, querido, de verdade, mas isso é o melhor. Assim, posso voltar aos estudos e me formar. Quando conseguir um emprego, posso juntar dinheiro para uma casa. Também quer dizer que você vai poder fazer mestrado.
Ele balança a cabeça na mesma hora.
— Não. De jeito nenhum.
— Por quê? — eu pergunto.
— A faculdade fica a três horas daqui, Bri.
— Se o problema for Kayla, se ela gostar mesmo de você, vai aceitar, amor — diz a minha mãe. — É melhor que aceite.
— Não é só ela. Não posso deixar você e a Li’l Bit.
— Por quê? — pergunta mamãe.
— Porque não posso.
— Porque você acha que tem que cuidar de nós — conclui a minha mãe por ele. — E não tem. A única pessoa de quem você tem que cuidar é de você mesmo.
Trey solta o ar lentamente.
— Não sei disso não.
Minha mãe vai até ele e levanta o seu queixo.
— Você tem que ir atrás do seu sonho, amor.
Sinto uma dor no peito. Isso é o oposto do que ela me disse no carro quando falou que eu não podia mais fazer rap. Eu até entendo. Fiz uma besteira enorme. Mas o que torna os sonhos do Trey mais importantes do que os meus?
— Você nunca vai saber o que pode se tornar se ficar aqui — continua ela, e eu olho para o tapete. — Eu tenho que poder me gabar do meu filho, o doutor. Não vão poder jogar nada na minha cara.
Trey ri.
— Você vai se gabar com todo mundo, é?
— Todo mundo. — Ela também ri. — Mas primeiro você tem que ir fazer seu mestrado. Depois, doutorado. E não pode ficar aqui pra nenhuma das duas coisas.
Trey geme e limpa o rosto com cansaço.
— Vão ser mais empréstimos estudantis e mais tempo na faculdade.
— Mas vale a pena — diz a minha mãe. — É seu sonho.
Ele assente lentamente e olha para mim. Tento manter o olhar no tapete do Piu-Piu. Não sei se devo sorrir por ele ou chorar por mim.
— Mãe — diz Trey. — Você tem que deixar a Bri ir atrás dos sonhos dela também.
— O que você está dizendo?
— Você disse que ela não pode mais fazer rap. Não vai nem deixar ela se apresentar no Ringue.
— Trey, você sabe muito bem o motivo. Você viu a confusão em que ela se meteu. E Supreme quer que ela saia por aí fazendo papel de trouxa. Eu seria a trouxa se deixasse acontecer. O quê? Pra ela acabar como seu pai?
Eu levanto o rosto.
— Eu não sou ele.
Quatro palavras. Já pensei nelas muitas vezes. Sinceramente, as pessoas agem como se eu fosse mais o meu pai do que eu mesma. Eu tenho as covinhas dele, o sorriso dele, o temperamento dele, a teimosia dele, a habilidade de fazer rap dele. Caramba, até herdei o quarto dele. Mas eu não sou ele. Ponto.
— Bri, nós já discutimos isso.
— Discutimos? Você me mandou. Você quer falar para o Trey ir atrás do sonho dele, mas eu não posso ir atrás do meu?
— O sonho do Trey não vai fazer com que ele morra!
— Nem o meu porque eu sou inteligente demais pra isso!
Ela leva as mãos à boca como se estivesse rezando para o Senhor a impedir de me machucar.
— Brianna...
— Não gosto do que o Supreme quer que eu faça — eu admito. Juro que odiei aquela maldita música. — Mas essa é a única coisa que sei fazer direito. É o que eu quero fazer. Não posso pelo menos ver se consigo?
Ela olha para o teto por muito tempo.
— Mãe, olha — diz Trey. — Eu também não gosto. Mas parece uma grande oportunidade.
— É, de fazer o Supreme ficar rico — diz ela.
— Nós podemos pensar no que fazer com ele e essa coisa de imagem depois — diz Trey. — Mas, caramba. Você quer mesmo que a Bri passe o resto da vida imaginando o que poderia ter acontecido?
Ela bate com o pé no chão. Passa os braços em volta do próprio corpo.
— Seu pai...
— Tomou decisões ruins — diz Trey. — E, sim, a Bri também...
Ele precisava fazer essa observação?
— Mas acredito que ela seja mais inteligente do que isso — diz ele. — Você não?
— Eu sei que ela é.
— Você pode agir como se soubesse, então? — eu pergunto, e minha voz soa muito baixa. — Porque parece que ninguém faz isso por mim.
Uma expressão de surpresa aparece rapidamente nos olhos da minha mãe. Lentamente, é substituída por tristeza e, em pouco tempo, percepção. Ela fecha os olhos e respira fundo.
— Tudo bem. Bri, se você quiser se apresentar no Ringue, você pode. Mas, se fizer papel de idiota, pode acreditar que vou arrancar a alma do seu corpo.
Ah, eu acredito.
— Sim, senhora.
— Que bom — diz ela. — Depois dessa apresentação, Supreme não vai ser mais seu agente. Droga, até eu posso ser sua agente pra que não seja ele.
Ah, meu Deus.
— Hum... tá. Claro.
— Ei! O jantar está pronto e estou com fome — grita o vovô do andar de baixo. — Podem descer!
— Senta esse traseiro aí em algum lugar e silêncio! — diz a vovó.
— Ah, o doce som da disfunção — diz Trey quando sai do meu quarto. — Vamos ter que aguentar isso o tempo todo agora.
— Que o Senhor nos ajude — acrescenta a minha mãe, seguindo-o para fora do quarto.
Fico para trás e olho em volta. Como falei, tenho muitas lembranças boas desse quarto. Mas também acordei ali muitas noites, gritando para a minha mãe não me deixar. A única coisa que as boas lembranças e as ruins têm em comum é que as duas ficam. Acho que é por isso que eu nunca soube bem o que sentia por esse lugar. E até mesmo pela minha mãe.
E, quer saber? Talvez isso não seja problema. Talvez a gente vá ficar bem.
Talvez eu fique bem.
Nós seis nos sentamos à mesa de jantar e passamos pratos e tigelas. Vovó perguntou tudo da vida de Kayla quando Trey estava lá em cima e nos dá todas as informações. Kayla é uma santa por não se importar.
— Ela disse que tem dois irmãos. Um mais velho e um da sua idade, Brianna — diz vovó. — A mãe dela é professora em uma escola particular e o pai é eletricista. Meu bem, peguei o cartão dele. Ele pode consertar a luz na varanda de trás pra nós.
— Nenhum homem vai vir na minha casa consertar nada — diz o vovô. — Eu resolvo.
— Humm. É por isso que está piscando desde sempre — responde vovó. — Trey, você encontrou uma garota inteligente. Ela tem média final alta. Está estudando marketing e também investindo em uma carreira na música paralelamente.
— Olha só — diz a minha mãe. — É possível fazer faculdade e rap.
Eu nem me importo de lançar um olhar a ela.
— É difícil dar conta de tudo — admite Kayla. — Eu trabalho não só pra pagar as contas, mas para custear meus projetos de música. Sou independente.
— Uma mulher independente! — Vovô sorri enquanto abre a lata de refrigerante. — Vá em frente, então!
— Vovô, ela quer dizer independente na música — diz Trey. — Não que seja independente em tudo, mas que não tem uma gravadora cuidando da carreira dela.
— Como o Júnior antes de falecer... Brianna, coloca mais verde nesse prato! — diz vovó.
— Ah, meu Deus — eu digo baixinho. Juro que nunca vou comer verduras e legumes suficientes para satisfazer essa mulher. Além do mais, com o tanto de presunto que ela botou nessas verduras, é difícil dizer que ainda são verduras.
— Ahh, deixa a minha Li’l Bit em paz — diz vovô. Ele aperta os lábios gordurosos na minha bochecha. — Ela é carnívora como o vovô.
— Não, ela é teimosa como o vovô, só isso — diz a vovó.
— Ele não é o único teimoso — resmungo.
— Hahaha! — Vovô ri e estica o punho para mim. Dou um soquinho nele. — Minha garota!
Dou uma risada quando ele beija a minha bochecha de novo. Não muito tempo atrás, minha mãe perguntou quem eu sou. Estou começando a achar que sei.
Sou cabeça-dura (e mesquinha) como a vovó.
Sou criativa como o vovô. Se é assim que podemos chamá-lo, mas, sim, sou isso.
Falo o que penso como a minha mãe. Eu também talvez seja forte como ela.
Eu me importo tanto que chega a doer. Como Trey.
Sou como meu pai em muitas coisas, mesmo não sendo ele.
E apesar de Kayla não ser da família (ainda), talvez ela seja um vislumbre de quem eu poderia ser.
Mesmo não sendo mais nada, eu sou como eles e eles são como eu.
Isso é mais do que suficiente.
TRINTA E QUATRO
Na noite de quinta, Trey me acompanha até o Ringue.
Minha mãe se recusou a ir, então pediu isso a ele. Ela disse que talvez desse na cara do Supreme e que isso não me ajudaria. Além do mais, de acordo com ela, “Nós só precisamos de uma pessoa da família presa”.
É, eu vou encarar. As coisas podem estar parecendo boas, mas quem pode dizer que não vão desmoronar de novo? O que vão pensar de mim se eu abrir mão dessa chance?
Trey abre todas as janelas do Honda e bota “Na hora da virada” para tocar alto conforme andamos pelo Garden. O ar está meio frio, exatamente como no dia em que tia Pooh me levou semanas atrás. A combinação do frio e o calor do aquecimento do Trey é perfeita hoje, como na outra ocasião.
— Você não me segura, dun-dun-dun. — Trey tenta cantar junto. — Você não me segura, não, não. Dun-dun-dun-dun, vai levar porrada.
Ele não nasceu com o gene do rap. Evidentemente.
Sonny e Malik dão risadinhas no banco de trás.
— Isso aí, arrasa, mano — incentiva Sonny. — Arrasa!
— Manda ver, Trey — diz Malik.
Olho para os dois de cara feia. Juro por Deus que, se eles não pararem de encorajar isso, vou matar os dois.
— Eu sei rimar, meu filho! — diz Trey.
Ah, meu Deus, desde quando ele se tornou nova-iorquino? Puxo o capuz por cima dos olhos. Ele está tentando me transmitir energia, eu sei, mas isso? É a pior das confusões.
É o tipo de coisa que a tia Pooh faria. Só que ela cantaria a letra certa.
É estranho ir ao Ringue sem ela. Na verdade, é sempre estranho não tê-la por perto. Não é como quando ela desapareceu e eu ficava preocupada em saber onde ela estava. De alguma forma, saber onde ela está é pior. Se ela estivesse aqui, me diria para relaxar e seguir em frente. É o que estou tentando fazer. É o que tenho que fazer se quero arrasar nessa apresentação e conseguir o contrato.
Trey para com a tentativa pífia de rap quando entramos no Ringue. A noite já caiu, o letreiro na marquise avisa a todos que vai haver “uma apresentação especial da garota do Garden, Bri!”
— Caramba. A gente está andando com uma celebridade, né? — provoca Malik do banco de trás.
— Rá! Só sou famosa no gueto. Estou feliz por vocês terem vindo.
— A gente não podia perder — diz Sonny. — Você sabe que a gente está sempre com você.
— Sei, sim. — Sei disso mesmo que não saiba mais nada sobre nossa amizade.
A “festa” no estacionamento já está acontecendo. Tem música tocando à nossa volta, gente exibindo seus carros. Gritam e assentem para mim no caminho. Um cara diz:
— Continua representando o Garden, Bri!
— Sempre! — eu respondo. — Lado leste!
Isso gera mais amor.
Outra coisa que sou? O Garden. E o Garden sou eu. Vou sempre estar de boa com isso.
— Ei, Bri! — grita uma voz aguda.
Eu me viro. Jojo se aproxima pedalando aquela bicicleta suja. As contas nas tranças dele tilintam.
Que porra é essa?
— O que você está fazendo aqui? — eu pergunto.
Ele para na minha frente. Esse garoto adora me fazer ter ataques cardíacos.
— Eu vim ver você cantar.
— Sozinho? — pergunta Trey.
Jojo olha para o chão enquanto gira a roda da frente para trás e para a frente.
— Eu não estou sozinho. Estou com vocês.
— Jojo, você não devia sair sozinho à noite.
— Eu queria ver você cantar a música nova. Aposto que essa p... música é irada!
Eu suspiro.
— Jojo.
Ele junta as mãos.
— Por favoooor.
Esse garoto. Mas a verdade é que ele está melhor conosco do que sozinho.
— Tudo bem — eu digo, e ele ergue o punho em comemoração. — Mas vamos levar você direto pra casa depois, Jojo. Não estou brincando.
— E você vai me dar o número da sua mãe pra eu poder ligar pra ela — acrescenta Trey. — Alguém precisa saber onde você está.
Jojo desce da bicicleta.
— Cara, vocês estão preocupados por nada! Eu vou aonde quero ir.
Trey passa o braço pelo pescoço dele.
— Então precisamos descobrir por que isso acontece.
Jojo estufa o peito.
— Estou quase crescido.
Nós quatro caímos na gargalhada.
— Querido, sua voz ainda é fina — diz Sonny. — Para de se enganar.
Meu celular vibra no bolso quando estamos indo para o prédio.
É o Curtis. Acho que enlouqueci de vez. Depois do nosso encontro de segunda-feira, coloquei o emoji de corações nos olhos ao lado do nome dele na minha lista de contatos. O garoto levou flores pra mim e um gibi da Tempestade, e como não tivemos tempo para ficar para a sobremesa no restaurante, ele levou um pacotinho de Chips Ahoy para comermos no caminho de volta para a escola. Ele mereceu os olhos de coração. E acabou de enviar mensagens de texto que garantem a permanência deles.
Arrasa hoje, Princesa.
Eu queria poder estar aí.
Mas acho que não conseguiria prestar atenção na música. Eu não conseguiria tirar os olhos de você.
Brega? Sim. Mas arranca um sorriso de mim. Antes que eu possa responder, ele acrescenta:
Eu também ia ficar olhando pra sua bunda, mas você sabe que eu não deveria admitir isso.
Dou um sorrisinho e pergunto:
Por que está admitindo agora, então?
A resposta dele?
Porque aposto que fez você sorrir.
Só por causa disso, vou acrescentar um segundo emoji de corações nos olhos ao lado do nome dele.
Vamos para o começo da fila, como costumamos fazer. Batem no meu ombro, na minha mão, no meu punho e balançam a cabeça para mim no caminho. Sinto-me mesmo a princesa do Garden.
Mas tem uma gangue de caras de cinza que me olha como se eu fosse qualquer coisa, menos uma princesa.
Tem uns cinco ou seis Crowns na fila. Um repara em mim e cutuca o outro, e logo todos estão me encarando. Eu engulo em seco e sigo em frente. É meio parecido com um cachorro: você não pode deixar que ele sinta seu medo, senão está ferrada.
Trey toca no meu ombro. Ele sabe o que aconteceu.
— Só segue em frente — sussurra ele.
— Olha quem voltou — diz Reggie, o leão-de-chácara corpulento, quando chegamos na porta. — Eu soube que você vai dar um show pra nós hoje.
— Esse é o plano — eu digo.
— Ainda carregando a tocha do Law, né? — diz Frank, o mais alto, enquanto passa o detector de metais pelo nosso corpo.
— Que nada. Eu tenho minha própria tocha. Acho que é o que meu pai gostaria.
Frank assente.
— Acho que você está certa nisso.
Reggie faz sinal para entrarmos e aponta para o meu moletom do Pantera Negra .
— Wakanda pra sempre. — Ele cruza os braços sobre o peito.
Olha só ele, acertando uma frase de filme.
Frank e Reggie deixam que Jojo guarde a bicicleta com eles. Estamos quase entrando quando uma voz grave diz:
— Por que eles estão furando fila?
Nem preciso olhar. Sei que é um Crown. Eles devem estar se coçando para terem um motivo de começar uma confusão.
— Cara, relaxa — diz Frank. — A Li’l Law vai se apresentar hoje.
— Estou cagando para o que essa vaca vai fazer — diz um Crown de gorro cinza. — Eles podem entrar no fim da fila.
— Espera aí — diz Trey. — Quem...
Jojo vai para cima do Crown.
— Com quem você pensa que está falando?
Eu pego a gola dele antes que ele possa chegar mais perto.
— Jojo, não!
— Cara, segura essa onda infantil! — diz o Crown de gorro. Ele me olha. — Sabe, a gente achou que tinha botado você no seu lugar por causa daquela merda que você cantou, mas parece que não. Sua titia devia ter atirado pra matar quando teve a oportunidade. Agora ela só arrumou problema pra você.
A essa altura, não sei como ainda estou de pé.
— Tenta só pra ver! — diz Jojo. — Vou acabar com a sua raça!
Os Crowns caem na gargalhada.
Mas estou enjoada. O garotinho está falando sério.
Malik segura o braço do Jojo.
— Vem — diz ele, e puxa Jojo junto.
Ele e Sonny ficam de olho nos Crowns enquanto entram no prédio.
Trey está ao meu lado, encarando cada um deles. Ele me leva para dentro.
Cada centímetro do meu corpo está tenso até as portas do ginásio de boxe se fecharem atrás de nós.
Trey também respira fundo.
— Você está bem? — pergunta ele.
Não, mas faço que sim porque é o que devo fazer.
— Olha, a gente pode ir pra casa, tá? — diz ele. — Não vale isso tudo.
— Eu estou bem.
Ele suspira.
— Bri...
— Eles calaram o papai, Trey. Não posso deixar que me calem também.
Ele quer discutir. Vejo nos olhos dele.
— Olha, eles não podem fazer nada aqui dentro hoje — eu digo. — Reggie e Frank não deixam que armas passem pelas portas. Eu tenho que fazer isso.
Ele morde o lábio.
— E depois? Isso não vai simplesmente passar, Bri.
— Vou pensar em alguma coisa — eu digo. — Mas, por favor. Eu tenho que ficar.
Ele solta um suspiro profundo.
— Tudo bem. A decisão é sua.
Ele estica o punho para mim. Bato nele.
Não sei como as pessoas da fila vão entrar; o local já está lotado. Estou falando de abarrotado mesmo. Aquele babaca do Hype toca Lil Wayne no meio da falação.
Demoro um segundo para encontrar Supreme. Ele está perto do ringue de boxe. Eu levanto a mão para chamar a atenção dele. Ele repara e se aproxima.
— Você está na boa com isso também? — sussurra Trey.
Ele pode ter tomado o lugar da mamãe para ela não pular em cima do Supreme, mas sei que Trey também não gosta muito dele. “Você está na boa” quer dizer “Quer que eu dê um jeito nesse cara ou não?”
— Estou na boa — eu digo.
— A superstar chegou! — anuncia Supreme. Deixo que ele me dê um abraço rápido. — E estou vendo que você trouxe sua galera junto, hein? Trey, garoto, não te vejo desde que você era pequeno como esse aqui. — Ele estica a mão e mexe no cabelo de Jojo.
Jojo desvia da mão dele.
— Eu não sou pequeno!
Supreme ri.
— Foi mal, cara. Foi mal.
— Então você é o Supreme? — pergunta Sonny.
Os olhos dele estão quase apertados para o pai do Miles. Percebo que ele está se segurando muito para não dizer o que tem em mente. Mas, pelo que Sonny me contou, Miles ainda não está pronto para contar ao pai sobre eles.
— O próprio — diz Supreme, e se vira para mim. — Consegui um lugar na frente para o James. Também consegui uma salinha verde nos fundos pra você fazer sua grande entrada mais tarde.
— A gente vai com você — diz Malik, olhando para Supreme. Ele também não gostou muito do sujeito.
— Podem ir. Vou levar esse candidatinho a gângster para procurar um bom lugar — diz Trey. — Vem, Jojo. A gente precisa ter uma conversinha. Como não se expor, curso básico.
Eu vejo os dois desaparecerem na multidão.
Supreme segura meu ombro.
— Você está pronta para o contrato?
Eu achava que estava. Mas, como tia Pooh diria, tenho que resolver isso. Eu engulo em seco.
— Estou. Vamos lá.
Malik, Sonny e eu seguimos Supreme para a parte dos fundos. As paredes dos corredores estão cobertas de lendas do hip-hop. Parece que estão olhando cada passo que eu dou.
Supreme me leva para a “sala verde”; era um depósito. É pequenininha, com umas cadeiras e uma geladeira, mas é um lugar tranquilo, longe do caos.
Supreme sai para eu me concentrar. Além do mais, ele quer fazer companhia para o James na frente.
Eu me sento em uma das cadeiras. Sonny e Malik se sentam nas outras duas. Eu respiro fundo e solto o ar.
— Sinto muito por aqueles Crowns — diz Malik.
— A culpa é minha e da tia Pooh.
— Isso tudo por causa de uma letra de música? — pergunta Sonny.
Eu faço que sim.
— Que besteira — diz Sonny.
— Mas Jojo estava pronto pra entrar em guerra por você — diz Malik, dando um sorrisinho.
Sonny ri.
— Como se ele realmente fosse fazer alguma coisa. — Ele se serve de batata frita do cesto que tem na mesa de centro. — Eu sei que você não está levando o garotinho a sério, Bri.
— Isso mesmo. A gente também fingia ser de gangue quando era menor — Malik acrescenta.
Nós tivemos uma fase. Eu via a tia Pooh fazer tantos sinais dos Garden Disciples que achei que também podia. Até desenhei o símbolo dos GDs nos meus cadernos.
Mas eu não andava por aí dizendo para as pessoas que ia acabar com a raça delas.
Há uma batida na porta.
— Entra — diz Sonny com a boca cheia de batata.
Dentre todas as pessoas no mundo, é o Scrap quem espia dentro da sala verde.
— Ei, Bri? Tem um minuto?
Eu me empertigo.
— Tenho. O que você está fazendo aqui?
Scrap cumprimenta Malik e Sonny com a cabeça rapidamente.
— Tive que vir ver minha nova rapper favorita se apresentar. Além do mais, eu sou o motivo de você estar aqui hoje, sabia?
Eu levanto as sobrancelhas.
— Não, eu não sabia.
— Fui eu quem falei pra você fazer uma música de arrasar! — diz Scrap. — Eu falei que tinha que ser grudenta. Eu sei, eu sei. Eu sou um gênio, né?
Em que planeta?
— Hum... é. Claro.
— Só me manda um alô do palco e pronto — pede ele. — Tem uma pessoa que quer falar com você.
Ele me entrega o celular.
Não tem como ser quem eu acho que é.
— Alô.
— Está vendo, eu nem fiquei longe muito tempo e você já está falando diferente — diz tia Pooh. — Como é que você vai ser uma estrela hoje se fala assim, toda melosa?
— Não acredito. — Dou uma gargalhada e ela também. Eu quase tinha esquecido como era a gargalhada dela. — Caramba. Que saudade.
— Eu também estou com saudade — diz ela. — Olha, eu não tenho muito tempo, mas tinha que falar com você. Scrap me contou que você vai cantar hoje. Vai lá e arrasa, tá? Se engasgar de novo, vou aparecer aí pra te dar uma surra. Eu juro pela minha mãe.
Esse é o jeito dela de dizer “Eu te amo”. Não conto para ela sobre os Crowns. Ela não precisa disso agora.
— Não se preocupe. Está no papo.
— Você sabe que posso sair daqui mais cedo do que imaginamos, né? — diz ela. — Meu advogado acha que consegue pena mínima. Principalmente porque não tenho histórico de crimes violentos.
Que eles saibam. Mas, ei, tudo bem.
— Que ótimo.
Supreme volta. Ele parece encarar Scrap. Scrap o olha de cima a baixo como quem diz “Algum problema aqui?”
Supreme se vira para mim e aponta para o relógio.
— Tenho que ir — eu digo para tia Pooh.
— Tudo bem. Arrasa — diz tia Pooh. — O céu é o limite, estrela.
— Vamos ver os otários lá do alto — eu termino para ela. — Eu te amo.
— Sua brega, eu também te amo. Agora vai lá fazer seu trabalho.
Meus olhos estão ardendo quando entrego o celular para Scrap.
— Obrigada.
— Não foi nada — diz ele. — Arrasa. Pela Pooh.
Malik, Sonny e eu seguimos Supreme pelo corredor. Supreme passa o braço em volta de mim e me puxa para perto.
— Olha só você, andando com GDs — sussurra ele. — Está tentando deixar tudo autêntico como eu sugeri, é?
Eu me afasto dele.
— Não, eu não faço isso.
Nós entramos no ginásio e uma agitação de sons e luz nos atinge. Mal tem espaço para as pessoas se mexerem, mas mesmo assim a plateia abre caminho para nosso grupo. Supreme me leva na direção do ringue de boxe. Como na fila, as pessoas batem na minha mão ou nas minhas costas enquanto ando. Qualquer coisa para tocar em mim, como se fosse o jeito deles de me desejarem boa sorte.
— Beleza, pessoal. Ela começou aqui no Ringue — diz Hype para a plateia quando me aproximo. — Desde então, está chegando perto da virada, trocadilho proposital.
Ele é muito mais ridículo do que eu tinha percebido.
— E está aqui para apresentar o novo single, faz barulho para Bri!
Eu estico o punho para Sonny e Malik. Eles batem os deles no meu e batemos as mãos. Ainda somos a Profaníssima Trindade.
— Bam! — nós dizemos.
— Não engasga desta vez — acrescenta Sonny. — A gente não quer ter que deserdar você.
Eu repuxo os lábios. Ele sorri.
Supreme levanta as cordas para eu poder entrar no Ringue e me dá um microfone. O holofote aponta para mim, como tantas semanas atrás. Os gritos são ensurdecedores.
Eu aperto os olhos e observo a plateia. Meu irmão, Jojo e Kayla estão bem ao lado do Ringue. Sonny e Malik se juntam a eles. James e Supreme estão ao lado. Scrap conseguiu um lugar não muito longe. Bem atrás dele, uma coisa brilha.
Uma boca cheia de dentes de prata sorri para mim. O Crown de gorro cinza está segurando a corrente do meu pai e faz uma cara de beijo para mim. Os amigos dele riem.
Scrap acompanha meu olhar. Não o escuto, mas leio seus lábios. “Ah, porra.”
Ele me olha e faz silenciosamente uma pergunta mortal: “Quer que eu cuide disso?”
— Entããão... você não vai se apresentar nem nada? — pergunta Hype. Eu tinha esquecido que ele estava aqui. Merda, esqueci onde estava. — Não me diga que vai engasgar de novo. Vou ter que chamar você de Engasgada.
Ele toca um som de tambor. Quem disse para esse cara que ele era engraçado?
O Crown segura a corrente mais alto para eu ver. Os amigos dele morrem de rir.
Scrap pergunta de novo em silêncio: “Quer que eu cuide disso?”
— Vocês querem ouvir a música, não querem? — grita Hype para a plateia. A resposta é sim. — Vamos lá, então!
A batida começa.
Eu tenho que entrar direto no gancho e depois cantar os versos que Dee-Nice escreveu. Supreme e James me observam com expressões divertidas e parece que sou o bicho de estimação deles, prestes a fazer um truque.
Animal. Rima com punhal, rival, imoral. Boçal.
Boçais. Boçais de gangue, como os Crowns me encarando e os GDs de Maple Grove aos quais Scrap pertence. Jojo quer ser como eles. Se eu cantar essa música, vou lhes dar mais munição. Também vou estar fazendo exatamente o que Hype me acusou de fazer: cantar uma letra que não é minha composição.
Composição. Imitação.
Durante muito tempo, as pessoas agiram como se eu fosse imitação do meu pai. Supreme também age como se eu fosse uma marionete. Mas meu irmão me chamou de presente. Minha mãe me chama de milagre. Mesmo que eu não seja mais nada, ainda sou filha dela e irmã fedelha do Trey.
Fedelha. Muitas palavras podem rimar com ela se enunciada de um certo jeito. Até algo como “espelho”.
Espelho. Talvez eu seja isso para o Jojo.
Mas a imagem que ele tem está distorcida. Ele entendeu minha letra do jeito errado, como Emily e como os Crowns. Estão todos enganados.
Enganados. Despertados.
Talvez seja hora de despertar todo mundo.
— Parem a música — eu digo no microfone.
A batida para. Há sussurros e murmúrios.
Supreme franze a testa. Ouço James perguntar:
— O que está acontecendo?
Ignoro os dois.
— Eu tinha que vir aqui cantar uma música nova, mas prefiro fazer uma que venha do meu coração. Tudo bem por vocês?
A resposta é siiiiim de tão alto que eles gritam.
— Oh-oh, está na hora do freestyle! — diz Hype. — Precisa de batida?
— Não, valeu, Hypescroto.
Todo mundo ri disso.
Eu fecho os olhos. Há muitas palavras esperando dentro de mim. Palavras que espero que Jojo ouça e entenda.
Eu levanto o microfone e as despejo.
Não aceito ser imoral, não aceito ser animal, Não vou dar exemplo para um garoto querer ser boçal. Não aceito cantar aqui essa outra composição.
Não aceito ser boneca, nem ser uma imitação.
Sou muito mais do que isso. Sou filha, sou irmã, Sou a esperança de um fedelho e também sou um espelho. Sou um gênio, uma estrela, isso tudo, visceral,
Mas não me chame de vendida e nem de marginal. No Garden tem gente passando fome, são corações sem nome, Que se foda o sistema. Sua opinião só mostra seu problema. Querem que a garota preta só cante sobre tiro e treta, Pra encher seus bolsos de dinheiro e me sujarem primeiro. Só que eles só faturam se seguirmos o modelo
Como verdade, a nossa imagem. Não é só rap, é o mundo inteiro. Eles culpam o hip-hop. Mas a gente fala do que vê Relato o que vejo mas eu não preciso ser.
Quando falo em ser rainha minha coroa é no meu coração Não tem a ver com gangue e lamento a confusão. Retaliação é a segregação na comunidade, acorda, meu irmão. Não vão me calar e não vão me impedir de sonhar, É só admitir que você fala Bri se for brilhar.
E ninguém nesse mundo vai conseguir me comprar.
Há uma explosão de gritos.
— Bri! Bri! Bri! — eles gritam, e meu nome sacode o local. — Bri! Bri! Bri!
Quem não está gritando? Os Crowns. Supreme e James também não. James está indo para a porta, balançando a cabeça. Supreme corre atrás dele. Ele olha para mim e, apesar de não conseguir ver os olhos dele, leio sua expressão com clareza: Acabou.
Abaixo o microfone até a lateral do corpo. Quando eu era pequena, parava na frente de espelhos com escovas de cabelo na mão imaginando multidões gritando meu nome. Mas acho que não conseguiria imaginar isso . Essa sensação. Pela primeira vez na vida, sei exatamente onde eu deveria estar. Estou fazendo o que deveria fazer. Porra, o que nasci pra fazer. A plateia poderia estar em silêncio, mas eu ainda saberia disso.
Quando tia Pooh me apresentou ao hip-hop, Nas me disse que o mundo era meu e eu acreditei que era possível. Agora, aqui nesse palco, eu sei que é.
EPÍLOGO
Todas as palavras no papel estão borradas, eu juro. Eu olho para o celular.
— Há quanto tempo estamos fazendo isso?
Curtis também olha para o celular.
— Só duas horas, Princesa.
— Só? — eu digo, gemendo.
Nossos livros preparatórios para o ACT e nossos laptops estão à nossa volta no chão do meu quarto. Vamos fazer mais um simulado amanhã. A prova de verdade é em pouco mais de um mês. Curtis veio todos os dias para estudarmos juntos. Acho que estou pronta, apesar de nosso estudo sempre acabar virando outra coisa.
É por esse motivo que eu digo:
— A gente precisa parar um pouco.
— Ah, precisa?
— Precisa — eu digo.
— Vou tentar adivinhar: o que você quer fazer é isto?
Ele está sorridente quando rouba um beijo rápido. Um beijo vira dois, dois viram três e três viram uma pegação no chão do meu quarto/templo ao Piu-Piu. Minha mãe, Trey e eu estamos morando com meus avós há menos de uma semana e ainda não tive tempo para redecorar o ambiente.
— Ei, ei! — grita Trey da porta. Curtis e eu nos separamos muito rápido. — Isso não é estudar!
Eu me deito de costas e resmungo.
— Agora, estou ansiosa para o dia em que você vai embora fazer mestrado.
— Infelizmente pra você, vai ter que me aguentar mais uns dois meses — diz ele e olha para Curtis. — Mano, é melhor você tomar cuidado. Sou capaz de dirigir três horas pra acabar com a raça de alguém.
Curtis levanta as mãos com inocência.
— Foi mal.
— Aham — diz Trey. — Estou de olho, Curtis.
Dou um suspiro.
— Você não precisa ir buscar o Jojo?
Trey vai levar Jojo a um jogo de basquete do Markham State. Jojo não para de falar nisso há uma semana, parece que é um jogo da NBA. Coitado, não percebe que o Markham não joga porra nenhuma.
— Estou indo. — Ele chuta a minha porta. — Mas deixa essa porra de porta aberta. Não quero saber de ser chamado de “tio Trey”. Eu devia contar para o vovô que vocês estão aqui trocando bactérias.
Ele segue pelo corredor. Curtis espera alguns segundos para se inclinar e me beijar.
— Bactérias, é?
Mas logo somos interrompidos de novo. Minha mãe limpa a garganta alto.
— Isso não é estudar.
— Foi o que eu disse — grita Trey de onde está.
Curtis fica com uma expressão ridiculamente tímida e, ah, meu Deus, quase não aguento.
— Desculpa, sra. Jackson.
Ela suga os dentes.
— Aham. Bri, qual você prefere?
Ela mostra duas roupas. Uma é composta de uma saia-lápis azul-marinho com blazer combinando que a tia Gina comprou para ela. A outra é um terno cinza que a tia ’Chelle comprou.
— São tão parecidos... tem mesmo importância?
— Sim, tem importância — diz ela. — Preciso estar com a aparência certa no primeiro dia.
Ela começa a trabalhar no distrito escolar na segunda-feira, como secretária do dr. Cook. Uma das primeiras coisas que ele quer que ela faça é marcar reuniões mensais com a aliança Negros e Latinos de Midtown, para poder saber se as coisas estão tranquilas. A outra questão é procurar uma nova empresa de segurança para o distrito.
— Como assim, você não vai com o que a vovó comprou? — eu pergunto.
Minha mãe aperta os lábios. Minha avó comprou um terno com estampa florida. É berrante. É ousado. Pode cegar alguém que olhe por tempo demais.
— Vou guardar pra igreja — mente ela. — Agora, vamos lá. Me ajuda a escolher.
— O azul-marinho — eu digo. — Tem cara de “eu quero estar aqui, vim trabalhar, mas ainda tenho estilo e posso pisar em quem me irritar”.
Ela estala os dedos e aponta para mim.
— É disso que estou falando. Obrigada, flor. Podem voltar a estudar... estudar! — acrescenta ela, erguendo as sobrancelhas. — Curtis, você pode ficar pra jantar. Vou fazer gumbo.
Sim, a vovó está deixando que ela use a cozinha. Não, não sei onde os alienígenas colocaram a vovó de verdade e nem se um dia ela vai voltar.
— Obrigado, sra. Jackson — diz Curtis.
Meu celular vibra no chão e o rosto sorridente do Sonny aparece na minha tela. Aperto o botão do viva-voz.
— E aí, Sonny Coelhinho?
— Cala a boca, Bookie.
— Oi, Bri — grita Miles do fundo.
— Oi, Miles.
— É melhor vocês estarem com um adulto supervisionando aí, hein! — grita a minha mãe.
— Relaxa, tia Jay. Não está rolando nada — diz Sonny. — Bri, você tem que entrar no Twitter. Aconteceu uma coisa surreal.
— Hã? — eu digo.
— É sério, Bri. Entra no Twitter.
Curtis pega o celular. Eu digito o endereço no meu laptop.
— Pra quê? — eu pergunto.
— Você não vai acreditar em quem postou seu freestyle daquela noite — diz ele.
— O que você...
Minhas notificações estão em 99+, como se o Twitter não conseguisse mais acompanhar. Tem um tuíte que as pessoas ficam curtindo e retuitando. Eu clico e observo. Olho para a foto de perfil e para o nome também.
Minha mãe se aproxima e olha comigo.
— Ah, meu Deus — diz ela.
— Essa garota é o futuro do hip-hop. — Curtis lê o tuíte em voz alta. — @LawlessBri, nós temos que fazer uma música juntos. Vamos fazer acontecer!
Foi tuitado por...
Ah, meu Deus.
— Caramba, Princesa — diz Curtis. — Essa porra pode mudar a sua vida!
Minha mãe olha de lado para ele.
— Bri, você quer, flor?
Eu olho para o tuíte. É uma coisa incrível. Pode ser a chance de que preciso.
— Quero — eu digo e olho para a minha mãe. — Desde que eu possa fazer do meu jeito.
AGRADECIMENTOS
Como na última vez, isto aqui provavelmente vai parecer o discurso de um rapper ao vencer uma premiação, mas, ei, é apropriado para este livro, não é? Primeiro, tenho que agradecer ao Senhor e Salvador Jesus Cristo. Foi uma jornada e tanto e eu não teria ido tão longe sem você. Obrigada por me carregar e cuidar de mim. O que você quiser continuar a fazer por mim, eu receberei.
À minha editora incrível, maravilhosa, fenomenal Donna Bray. Não há adjetivos suficientes para descrever alguém tão fenomenal quanto você. A jornada não foi fácil e eu não teria sobrevivido sem o seu apoio. Obrigada por estar comigo a cada passo e por acreditar em mim como você acredita. Além disso, obrigada por ser tão paciente haha. Nós conseguimos!
Brooks Sherman, também conhecido como melhor agente literário que um autor poderia desejar. Obrigada por me fazer seguir em frente e por sempre estar ao meu lado. Mais ainda, obrigada por saber que eu chegaria até aqui com este livro, mesmo eu não sabendo que conseguiria. Sou eternamente grata por chamar você de agente e amigo.
Mary Pender Coplan, você é um anjo, uma salvadora e ainda não sei o que fiz para merecer uma agente cinematográfica tão incrível. Do fundo do coração, obrigada. Agradeço a Akhil Hedge, um anjo de assistente, e a Nancy Taylor, a antiga anjo assistente. Obrigada a todos da UTA.
A todas as pessoas da Balzer + Bray/HarperCollins. Sinto-me a autora mais sortuda do mundo com vocês todos ao meu lado. Seu amor, seu apoio e sua dedicação não passam despercebidos. Nunca vou agradecer o suficiente. Um agradecimento especial para Suzanne Murphy, Alessandra Balzer, Olivia Russo, Tiara Kittrell, Alison Donalty, Jenna Stempel-Lobell, Anjola Coker, Nellie Kurtzman, Bess Braswwell, Ebony LaDelle, Patty Rosati, Rebecca McGuire, John Weiss, Mark Rifkin, Dana Hayward, Emily Rader, Ronnie Ambrose, Erica Ferguson, Megan Gendell, Andrea Pappenheimer, Kerry Moynagh, Kathy Faber e Jen Wygand.
Minha maravilhosa família editorial do Reino Unido, a Walker Books, também conhecida como as líderes de torcida do outro lado da poça, principalmente Annalie Grainger e Rosi Crawley. Obrigada por sempre me darem um lar longe de casa.
Meus editores internacionais, obrigada por apostarem em mim e nas minhas histórias.
À minha família Janklow & Nesbit, obrigada por todo o amor e apoio. Um agradecimento especial a Wendi Gu. Obrigada também a Stephanie Koven e a todos na Cullen Stanley International.
Molly Ker Hawn, o fato de você ter me apresentado à beterraba assada foi suficiente para garantir minha gratidão eterna, mas obrigada também por seu amor, apoio e por ser poderosa o tempo todo.
Marina Addison, não sei mesmo o que eu faria sem você como assistente. Obrigada por aguentar todo o caos.
David Lavin, Charles Yao e todos da Lavin Agency, obrigada por acreditarem em mim, me apoiarem e investirem em mim.
Aos amigos: Becky Albertalli, Adam Silvera, Nic Stone, Justin Reynolds, Dhonielle Clayton, Sabaa Tahir, Julie Murphy, Rose Brock, Tiffany Jackson, Ashley Woodfolk, Jason Reynolds, Sarah Cannon, Dede Nesbitt, Leatrice McKinney, Camryn Garrett, Adrianne Russell, Cara Davis, Justina Ireland, Heidi Heilig, Kosoko Jackson, Zoraida Córdova, Nicola Yoon, Ellen Oh. Cada um de vocês teve participação no nascimento deste livro só por existirem. Obrigada.
À minha família do filme O ódio que você semeia — George, Marcia e Chase Tillman, Shamell Bell, Bob Teitel, Marty Bowen, Wyck Godfrey, Tim Bourne, John Fischer, Jay Marcus, Isaac Klausner, Elizabeth Gabler, Erin Siminoff, Molly Saffron, todo mundo de Temple Hill, State Streek e Fox 2000 e todo o elenco e equipe, obrigada por transformarem um dos meus sonhos em realidade. Amandla, obrigada por ser a melhor Starr que eu poderia desejar e mais do que tudo por ser você. É uma honra chamá-la de maninha. Common, obrigada pela inspiração e pelo encorajamento.
A todos os meus familiares e amigos, obrigada por saberem que ainda sou a Angie. Não se chateiem de seus nomes não estarem aqui. Vocês são muitos para que eu os liste, mas saibam que os admiro e amo.
À minha mãe, Julia. Obrigada por ser quem é e por sempre fazer com que eu soubesse quem sou. Eu te amo.
Ao hip-hop. Obrigada por ser minha voz, por me dar voz e por me mostrar eu mesma. O mundo costuma criticá-lo e, às vezes, com razão. Ora, às vezes eu sou uma das maiores críticas. Mas faço isso de uma posição de amor. Já vi do que você é capaz; você consegue, você vai e você já mudou o mundo. Nunca vou desistir de você. Sempre vou estar ao seu lado. Continue incendiando cérebros e fazendo barulho.
E, finalmente, para as rosas do concreto nos verdadeiros Gardens do mundo: mesmo quando duvidarem de vocês, mesmo quando tentarem silenciá-los, nunca se calem. Ninguém pode deter vocês, então procurem sua hora da virada.
Na hora da virada
Wikipédia da autora:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Angie_Thomas
Site da autora:
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determinada a salvar, a antiga assassina, conhecida como
Celaena Sardothien, colocará a própria segurança em
risco para proteger os seus. Mais que nunca, Aelin
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Nesryn, única mulher na Guarda Real e sua nova capitã,
depois de Chaol ter sido nomeado Mão do Rei. Mas, com
a guerra se aproximando de Dorian e com Aelin lutando
por seu trono de direito, Chaol pode ser uma peça-chave
para a sobrevivência dos dois jovens monarcas,
convencendo outros governantes a se aliarem a eles. O
que Chaol e Nesryn descobrem em Antica, no entanto,
vai mudar os dois — e ser mais vital para salvar Erilea do
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