Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 40 de 40 · parte 4/9

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Na hora da virada

Colofon

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

— Ele é motorista de caminhão — explica Curtis. — Está sempre na estrada, por isso eu moro com a minha avó.

— Ah, foi mal.

— Tudo bem. Pelo menos ele tem um bom motivo pra não estar presente.

Eu sempre quis perguntar uma coisa, mas não é da minha conta. Só que, como Curtis tocou no assunto, será que teria problema?

— Não precisa responder — eu digo. — De verdade, não precisa. Mas você vê sua mãe?

— Eu ia de duas em duas semanas. Não vou há meses. Mas minha avó vai todos os fins de semana.

— Ah. O que ela fez?

— Esfaqueou um ex-namorado que batia nela. Ela surtou uma noite e deu uma facada quando ele estava dormindo. Mas como ele não estava fazendo nada com ela na hora, não foi legítima defesa. Ela foi presa. Enquanto isso, ele continua solto no Garden, provavelmente batendo na mãe de outra pessoa.

— Caramba. Que horror.

— É o que é.

Estou sendo muito xereta.

— Por que você não vai visitar ela?

— Você ia querer ver a sua mãe se ela tivesse se tornado uma casca de si mesma?

— Eu já vi.

Curtis inclina a cabeça.

— Quando minha mãe usava drogas. Eu vi ela drogada no parque um dia. Ela veio tentar me abraçar. Eu saí correndo gritando.

— Caramba.

— É. — A lembrança ainda é recente. — Mas foi estranho. Por mais assustada que eu tenha ficado, uma parte de mim ficou feliz por ter visto ela. Eu procurava por ela como se estivesse em busca de uma criatura mítica. Acho que mesmo quando ela não estava sendo ela mesma, ainda assim era a minha mãe. Se é que faz sentido.

Curtis apoia a cabeça na janela.

— Faz. Não me entenda mal, eu amo ver a minha mãe, mas odeio não poder salvar ela. É o pior sentimento do mundo.

Quase consigo ouvir a porta do quarto da Jay se fechando.

— Eu entendo. E tenho certeza de que a sua mãe também vai entender.

— Não sei — diz ele. — Estou longe há tanto tempo. Tenho receio de voltar. Eu teria que dizer por que me afastei e isso não ajudaria em nada.

— Duvido que ela se importe, Curtis. Ela só acharia bom você estar lá.

— Pode ser — murmura ele na hora que Zane sobe no ônibus. Curtis acena para ele. — Como você se meteu na minha vida, agora é a minha vez de me meter na sua.

Lá vamos nós. As pessoas adoram me perguntar como é ter Lawless como pai. Elas não percebem que a pergunta deveria ser “Como é ter um pai de quem todo mundo se lembra, menos você?” Eu sempre minto e digo como ele era incrível, apesar de eu nem saber direito.

— Tudo bem, seja sincera comigo. — Curtis se empertiga no banco. — Quem são seus cinco rappers favoritos, vivos ou mortos?

Isso é novidade. E gostei da pergunta. Não é nada contra meu pai, só não estou com vontade de fingir sobre um estranho.

— Que pergunta difícil.

— Ah, não pode ser tão difícil.

— Mas é. Eu tenho duas listas de cinco favoritos. — Eu levanto dois dedos. — Uma dos MTT, os melhores de todos os tempos, e outra do que chamo pretensos MTT.

— Caramba, você leva o hip-hop a sério. Quem são os cinco pretensos MTT?

— Fácil. Sem ordem específica, Remy Ma, Rapsody, Kendrick Lamar, J. Cole e Joyner Lucas.

— Perfeito. E quem são os cinco MTT?

— Bom, um aviso: na verdade, são dez, mas vou dizer só cinco — eu digo, e Curtis ri. — Mais uma vez, sem ordem específica: Biggie, ’Pac, Jean Grae, Lauryn Hill e Rakim.

Ele franze a testa.

— Quem?

— Ah, meu Deus! Você não sabe quem é Rakim?

— Nem Jean Grae — diz ele, e quase tenho um ataque cardíaco. — Mas o nome Rakim é familiar...

— Ele é um dos mais incríveis que já tocou num microfone! — Devo estar falando alto demais. — Como é que você pode dizer que gosta de hip-hop e não conhecer Rakim? É como um cristão que não conhece João Batista. Ou um trekkie que não conhece o Spock. Ou um potterhead que não sabe quem é Dumbledore. Dumbledore, Curtis.

— Tudo bem, tudo bem. Por que ele está entre seus cinco favoritos?

— Ele inventou o flow que a gente conhece — eu digo. — Minha tia me fez ouvir. Juro que ouvir quando ele canta é como ouvir água; ele nunca parece forçado nem picotado. Além do mais, é um mestre de rimas internas, que são rimas no meio de um verso e não no final. Cada rapper talentoso é cria dele. Ponto.

— Caramba, você gosta mesmo disso — comenta Curtis.

— Tenho que gostar. Eu quero estar nos MTT um dia.

Ele sorri.

— E vai estar. — Ele me olha da cabeça aos pés pelo assento e, se eu não soubesse, diria que estava me avaliando. — Você está bonita hoje, aliás.

Ora, ora. Ele estava me avaliando.

— Obrigada.

— Está bonita todos os dias, pra falar a verdade.

Eu levanto as sobrancelhas.

Curtis ri.

— Que foi?

— Você presta atenção em mim assim?

— Presto, sim. Por exemplo, você sempre usa moletons irados, mas não está tentando se esconder nem nada. Só está sendo você. E tem uma covinha bem aqui. — Ele encosta na minha bochecha, bem perto do canto da minha boca. — Aparece quando você ri, mas não quando sorri, como se só quisesse aparecer nas ocasiões especiais. É muito fofo.

Por que minhas bochechas ficaram quentes de repente? O que eu digo? Faço um elogio? Como faço um elogio?

— Seu cabelo é bonito.

Uau, Bri. Você está dizendo que o resto dele não é? Tudo bem, mas o cabelo está perfeito. Ele acertou os contornos nos últimos dois dias, sem dúvida.

Ele passa a mão pela cabeça. Os cachos sumiram e parece que alguém girou as pontas com as mãos.

— Obrigado. Estou pensando em deixar crescer no verão pra fazer dreadlocks ou trancinhas na raiz. Só tenho que encontrar alguém que faça.

— Eu faço — eu digo. — Trancinhas. Mas não sei fazer dreadlocks.

— Não sei se posso confiar em você a ponto de deixar cuidar do meu cabelo.

— Tchau, garoto. Eu sei das coisas. A mãe do Sonny é cabeleireira. Ela me ensinou um tempão atrás. Eu fazia nas minhas bonecas.

— Tudo bem, tudo bem. Eu acredito — diz Curtis. Ele se inclina um pouco mais para perto. — Como vai ser? Vou me sentar entre as suas pernas e deixar você trabalhar?

Os cantos da minha boca se curvam.

— É. Mas você tem que me deixar fazer como eu quiser.

— Como você quiser?

— Como eu quiser.

— Tudo bem. E o que você quer?

Eu tento não sorrir demais.

— Você vai ter que esperar pra ver.

Isso é flertar? Acho que é flertar.

Espera. Estou flertando com o Curtis? E estou me sentindo à vontade para flertar com o Curtis?

Em algum momento, o sr. Watson parou na frente das casas do Sonny e do Malik, e eles subiram no ônibus. Sonny está no corredor, as sobrancelhas tão altas quanto dá. Malik está perto de um dos bancos da frente. Hana já está sentada e parece estar falando com ele, mas ele está olhando diretamente para mim. E para o Curtis.

Ele se vira para a frente e se senta.

Sonny se senta lentamente em um banco à nossa frente, olhando para mim o tempo todo. Ele balança as sobrancelhas antes de sumir atrás do banco.

Não vou ouvir o fim disso. Não vou.

O ônibus acaba parando na escola. Deixo Curtis sair antes de mim porque o Sonny está me esperando no banco dele. Ele só me olha com aquelas sobrancelhas erguidas.

— Cala a boca — eu digo quando saio do ônibus.

— Eu não falei nada.

— E nem precisava. Sua cara diz tudo.

— Não, a sua cara diz tudo. — Ele cutuca as minhas bochechas. — Aahhh, olha só, está até ficando vermelha. Mas por causa do Curtis? Sério, Bri?

— Eu mandei calar a boca!

— Ei, não estou criticando. Só peço que vocês batizem seu filho e sua filha em minha homenagem. Sonny e Sonnita.

Não acredito naquela cara de pau.

— Como foi que a gente passou de uma conversa no ônibus a ter dois filhos, Sonny?

— Dois filhos e um cachorro . Um pug que você vai batizar de Sonningham.

— O que tem nessa sua cabeça?

— É melhor do que o que tem na sua e fez você flertar com o Curtis.

Dou um soco no braço dele.

— Quer saber? Vou deixar você e o Rapid batizarem seus filhos com esse nome. Que tal?

Sonny baixa os olhos.

— Hã... eu sumi da vida do Rapid.

— O quê? Por quê?

— Fiz meu simulado do SAT outro dia e não consegui me concentrar naquela porra de tanto pensar nele. Não posso fazer merda agora, Bri.

Ninguém é mais rígido com o Sonny do que o próprio Sonny. Já o testemunhei tendo ataques de pânico por causa das notas e até por causa da sua arte.

— Foi só um simulado, Son’.

— Que reflete como vou me sair em uma prova real — geme ele. — Bri, se eu tirar uma nota baixa naquela porra...

Eu boto a mão na bochecha dele.

— Ei, olha pra mim.

Ele olha. Eu não o deixo afastar o olhar. Já o testemunhei tendo tantos ataques de pânico que consigo identificá-los antes de acontecerem.

— Respira — eu digo para ele.

Sonny respira fundo e solta o ar.

— Não posso fazer besteira.

— E não vai. Foi por isso que você pulou fora?

— Não foi só por isso. Malik e eu estávamos conversando outro dia e pesquisamos mais um pouco. Descobrimos que o endereço de IP do Rapid não é do Garden, mas do subúrbio.

Ele e Malik se encontraram sem mim. Isso ainda me magoa um pouco. Mas tenho que superar.

— O que tem de errado nisso?

— O Rapid me fez pensar que morava no bairro. Todas as fotografias dele são de lá.

— Espera. Ele disse que morava no Garden ou foi você que concluiu que ele morava no Garden?

— Tudo bem, eu concluí. Mas isso só me mostra o quanto não sei sobre ele. — Sonny enfia as mãos nos bolsos. — Não vale a distração.

Mas a mudança na voz dele diz o contrário.

Tem mais pessoas do lado de fora da escola do que o habitual. Mais perto da porta. Tem muita falação. Nós temos que abrir caminho entre as pessoas para tentar ver o que está acontecendo.

— Isso é um absurdo! — alguém grita à frente.

Sonny e eu encontramos Malik e Hana. A altura de Malik o ajuda a ver por cima das pessoas.

— O que está acontecendo? — pergunta Sonny.

O maxilar de Malik trava enquanto ele olha para a escola.

— Eles voltaram.

— Quem? — eu pergunto.

— Long e Tate.

DEZESSETE

 

 

— Como assim? — diz Sonny.

Não é possível.

Fico na ponta dos pés. Long manda um aluno passar pelo detector de metais como se nunca tivesse se afastado e Tate verifica uma mochila ali perto.

Meu corpo todo fica tenso.

A dra. Rhodes disse que haveria uma investigação e que uma ação disciplinar aconteceria se a administração achasse cabível . Long e Tate me jogando no chão devia ser algo “cabível” no que entendem por mau comportamento.

A dra. Rhodes está perto das portas, mandando todo mundo entrar de forma organizada.

— Como eles podem estar de volta? — pergunta Sonny.

— Não houve repercussão suficiente para o que eles fizeram — diz Malik. Ele olha para mim.

Não, ah, não.

— A culpa disso não é minha.

— Eu não disse que era.

— Foi como se tivesse dito!

— Ei! — diz Sonny. — Agora não, tá?

— Nós temos que fazer alguma coisa — diz Hana.

Eu olho ao redor. Metade da escola está do lado de fora, a maioria me olhando.

Se estou com raiva? Duvido que essa seja a palavra. Mas, qualquer coisa que eles queiram que eu faça, não é da minha natureza. Caramba, não sei o que fazer.

Malik é quem mais me encara. Como não digo nem faço nada, ele balança a cabeça. E então abre a boca e começa a gritar:

— Ah, não, nós não vamos...

— Me jogou no chão, cara, maior cagada — grita Curtis, mais alto do que ele. — Me jogou no chão, cara, maior cagada!

Malik tenta puxar um coro acima do dele, mas Curtis fala alto e com raiva e a frase dele se espalha. Uma segunda pessoa grita minha letra. Uma terceira. Uma quarta. Antes que eu perceba, estou ouvindo minha letra vinda de todo mundo, menos de mim.

E de Malik.

— Nós não vamos tolerar esse tipo de linguajar — grita a dra. Rhodes. — Todos os alunos precisam parar...

— Você não me segura, não, não! — grita Curtis. — Você não me segura, não, não!

Os gritos mudam para essa parte.

Eu ganho atenção. Considerando todos os lugares e momentos em que isso poderia acontecer, é nessa hora. Aquelas palavras nasceram na minha cabeça. Na minha. Foram concebidas dos meus pensamentos e meus sentimentos. Surgiram do meu lápis e foram para o meu bloco. De alguma forma, encontraram o caminho da língua dos meus colegas de escola. Acho que estão falando por eles, claro, mas sei que estão falando por mim.

Isso é suficiente para me fazer dizê-las também.

— Você não me segura, não, não — eu grito. — Você não me segura, não, não!

É difícil dizer que é um protesto. Muitos dos meus colegas que se parecem comigo estão dançando com uma batida que nem está sendo tocada. Estão pulando, saltando, dançando. Dreadlocks e tranças balançam, não ficam paradas. Há sons de afirmação misturados, aumentando a energia. É diferente do que aconteceu no estacionamento do Ringue. Aquilo foi um miniconcerto. Isso é um grito de guerra.

— Você não me segura, não, não! Você não me segura, não, não!

Long e Tate aparecem na porta. Long está com um megafone.

— Todos os alunos, sigam para a aula — diz ele. — Se vocês não forem, podem ser suspensos.

— Vem pra cima de mim e vai levar porrada! — alguém grita.

Isso vira o novo verso, um aviso óbvio.

— Vem pra cima de mim e vai levar porrada! Vem pra cima de mim e vai levar porrada! Vem pra cima de mim e vai levar porrada!

— Este é o aviso final — diz Long. — Se vocês não se dispersarem, vão...

Tudo acontece muito rápido.

Um punho acerta o queixo de Long. O megafone voa da mão dele.

De repente, é como se aquele soco fosse o sinal verde que alguns alunos estavam esperando. Um amontoado de garotos parte para cima de Long e Tate e os derruba no chão. Curtis é um deles. Punhos voam e pés chutam.

— Ah, merda! — diz Sonny.

— A gente tem que sair daqui! — diz Malik.

Ele segura a minha mão, mas eu me solto e vou para a frente.

— Curtis!

Ele para de chutar e se vira na minha direção.

— Polícia! — eu digo.

Essa palavra basta. Aposto tudo que a polícia está a caminho. Curtis corre até mim, e corremos com Sonny, Malik e Hana. Sirenes soam ali perto, e o coro atrás de nós vira uma gritaria.

Nós corremos até não ouvirmos mais nada. Quando paramos, é para recuperar o fôlego.

— Isso é ruim — diz Sonny, inclinado. — Puta merda, isso é ruim.

Malik vai até Curtis e o empurra com tanta força que o boné dele voa.

— O que você estava pensando?

Curtis se segura antes de cair e empurra Malik.

— Cara, tira as mãos de mim!

— Você começou uma baderna! — Malik grita na cara dele. — Tem a mínima noção do que fez?

— Ei! — Eu empurro Malik para longe do Curtis. — Para!

— Ah, você está do lado dele agora? — grita Malik.

— Lado? Do que você está falando?

— Parece que não tem problema porque ele estava cantando a sua música! Não importa o fato de que ele iniciou uma baderna!

— Não é culpa dele terem dado um soco!

— Por que você está ficando do lado dele?

— Malik! — diz Hana.

Sonny se vira para ele.

— Mano, que porra é essa? Relaxa!

Uma viatura da polícia passa em disparada.

— Se nós não sairmos daqui, a próxima viatura pode parar e vir nos questionar — diz Sonny.

O olhar de raiva do Malik está voltado para o Curtis.

— A gente pode ir pra minha casa. Minha mãe já deve estar no trabalho.

Mais uma viatura passa na direção da escola, as luzes piscando.

— Venham — diz Sonny.

Hana puxa a mão do Malik. Essa é a única coisa que o faz parar de olhar para o Curtis de cara feia. Ele deixa que ela o puxe pela calçada.

Em menos de uma hora, quase todos os alunos negros e latinos de Midtown aparecem na casa do Malik.

Ele e Hana convocaram a aliança para uma reunião de emergência. Um após o outro, eles contam detalhes do que aconteceu depois que fugimos. Pelo menos dez viaturas da polícia foram para lá, uma van de noticiário apareceu, e os garotos que partiram para cima do Long e do Tate foram presos. Um deles foi o Zane.

Curtis olha para mim quando nos contam isso. Eu só digo com movimentos labiais: De nada.

Long e Tate foram colocados em ambulâncias. Ninguém sabe como eles estão.

Pais e responsáveis receberam uma mensagem gravada da escola dizendo que houve uma emergência e que eles tinham que buscar os filhos. Jay achou que tinha sido tiroteio e me ligou na mesma hora. Ela se acalmou quando falei que estava bem. Resumi o que aconteceu, principalmente a parte de Long e Tate terem voltado. Ela ficou furiosa, mas não surpresa.

Todo mundo se senta ou fica em pé pela sala do Malik, comendo sanduíches e batata chips e bebendo todos os refrigerantes que a tia ’Chelle tem. Sonny, Curtis e eu abrimos espaço no sofá para mais três pessoas. Hana está na poltrona da tia ’Chelle com uma garota sentada em cada braço.

Malik não consegue ficar parado. Ele anda de um lado para o outro da sala, como fazia quando não se saía bem em uma fase do jogo de videogame.

— Isso não vai nos ajudar com nenhuma das preocupações que tínhamos — diz ele. — Na verdade, vai piorar tudo.

Ele olha para Curtis. Curtis come o sanduíche como se Malik não tivesse dito nada.

— Você não sabe — diz Sonny.

— Não, ele está certo — diz Hana. — É capaz de seguirem o mesmo caminho do Garden. Botarem policiais de verdade como seguranças.

— O quê? — eu digo, e outras pessoas na sala basicamente dizem a mesma coisa.

— Garanto que aqueles dois voltaram porque muitos pais caíram na história da Bri ser “traficante de drogas” — diz Malik. — Eles têm motivo pra acreditar que somos uma ameaça agora. Aposto que vai haver policiais armados na porta.

Desde que aquele garoto foi morto, meu coração dispara sempre que vejo um policial. Eu poderia ser ele, ele poderia ser eu. O acaso é a única coisa que nos separa.

Agora, meu coração pode ter que ficar disparado quase todos os dias.

Curtis se inclina para a frente, os braços cruzados sobre os joelhos.

— Olha, só sei que estávamos cansados do Long e do Tate nos tratando como merda e se safando disso, e por isso fomos pra cima deles. É simples assim.

Malik bate com o punho na palma da mão.

— Mas tem um jeito de fazer isso! Você acha que é o único cansado? Acha que eu queria ver a minha melhor amiga ser jogada no chão?

Uau. Malik e eu não temos sido melhores nada ultimamente. Para falar a verdade, isso é até pouco. Mas ele basicamente acabou de dizer que tudo isso não importa; ele ainda gosta de mim.

Vejo Hana me olhando. Ela afasta o olhar rapidamente.

— Nós finalmente conseguimos fazer a dra. Rhodes aceitar nos receber e aí isso acontece? — diz Malik. — Ela não vai ouvir porra nenhuma que nós tivermos pra dizer. Não vai. A gente tem que procurar alguém acima dela agora.

— O superintendente? — pergunta Sonny.

— É. Ou o comitê da escola.

— Não, a gente tem que almejar mais alto — diz Hana. Ela olha para mim de novo. — A gente precisa daquele vídeo nos noticiários.

Ela está falando do vídeo do Malik de quando Long e Tate me jogaram no chão como um saco de lixo. Eu balanço a cabeça.

— Não, não vai rolar.

— Bri, para com isso — diz Deon, do ônibus. Uma ou duas pessoas ecoam o que ele diz.

— É o único jeito de as coisas mudarem — diz Hana. — Nós temos que mostrar pras pessoas por que todo mundo ficou aborrecido hoje, Bri.

— Eu já falei, não quero ser garota-propaganda disso.

Hana cruza os braços.

— Por quê?

— Porque ela disse que não — diz Curtis. — Porra, larga do pé dela.

— Só estou dizendo que se fosse comigo e eu soubesse que as coisas mudariam na nossa escola, publicaria o vídeo na mesma hora.

Eu levanto as sobrancelhas.

— Obviamente , eu não sou você.

— O que isso quer dizer?

Estou começando a achar que a questão não é só o incidente da escola.

— Quer dizer o que eu disse. Eu não sou você.

— É, porque se você fosse eu, ia preferir que esse vídeo fosse divulgado em vez de vídeos de você agindo como marginal no Ringue — diz Hana. — Mas esses vídeos não têm problema, né?

Ela não fez isso. Por favor, me diga que ela não fez isso.

Mas fez, porque várias bocas na sala toda se fecharam de repente. Estou bem ciente de que Malik fica quieto enquanto tudo isso acontece.

Eu me sento ereta.

— Primeiro — eu digo, batendo as mãos.

— Ah, merda — murmura Sonny. Ele sabe o que as mãos batendo querem dizer. — Calma aí, Bri.

— Não, quero responder isso. Primeiro, eu não tive controle sobre os vídeos do Ringue serem publicados, queridinha .

Sou toda filha da minha mãe, porque quando ela diz “queridinha”, quer dizer o contrário. Ela também faz a coisa de bater as mãos. Não sei quando eu me tornei ela.

— Segundo — eu digo, batendo as mãos de novo —, por que me defender é agir como marginal? Se você viu os vídeos, sabe que foi isso que eu fiz.

— Só estou dizendo o que as pessoas já estão dizendo sobre...

— Terceiro! — Eu bato as mãos de novo. Vou terminar, porra. — Se eu não quero que o vídeo seja divulgado, eu não quero que o vídeo seja divulgado. Sinceramente, não devo explicação pra você e nem pra ninguém.

— Deve, sim, porque isso afeta a todos nós! — diz ela.

— Ah. Meu. Deus! — Eu bato as mãos a cada palavra. Isso é a única coisa que me segura no sofá. — Mano, fala sério. Fala sério!

Tradução: alguém segura essa garota.

Sonny entende na mesma hora.

— Bri, calma, tá? Olha, talvez ela tenha razão. Se o vídeo fosse divulgado...

Ele também? Eu me levanto do sofá.

— Quer saber? Podem continuar sua reuniãozinha sem mim. Vou embora.

Sonny tenta segurar a minha mão, mas eu me afasto.

— Bri, para com isso. Não faz assim.

Coloco a mochila nas costas e passo por cima das pessoas sentadas no chão.

— Pra mim, já deu. Prefiro não ficar pra parte da reunião em que vão “pular no pescoço da Bri” — eu digo.

— Ninguém está pulando no seu pescoço — diz Malik.

Ah, agora ele fala. Mas não abriu a boca quando a namoradinha resolveu encher meu saco.

— A gente só não entende por que você não quer ajudar — diz Hana. — Essa é sua chance de...

— Eu não quero ser essa pessoa! — eu grito, para que todos me escutem. — Só vão ficar justificando a porra toda! Você não entende?

— Bri...

— Sonny, você sabe que vão! É o que eles fazem. Droga, já estão fazendo isso com os boatos de “traficante”. Se isso for para os noticiários, vão falar nisso todas as vezes que eu for enviada pra direção, em todas as malditas suspensões. Droga, vão usar os vídeos do Ringue. Tudo pra fazer parecer que o que aconteceu não teve problema porque eu não valho nada! Vocês acham que quero ter que aguentar isso?

Eu me esforço para respirar. Eles não entendem. O vídeo não pode ser divulgado. Porque, de repente, mais gente ainda vai tentar justificar o que aconteceu comigo e fazer tanto barulho que posso acabar achando que mereci.

Mas não mereci. Sei que não. Quero continuar sabendo que não mereci.

A sala está borrada, mas pisco para pôr tudo em foco.

— Que se danem vocês — eu resmungo, e jogo o capuz na cabeça.

Eu saio e não olho para trás.

 

Quando chego em casa, Jay está deitada no sofá da sala. O controle remoto está na mão dela, e a música tema de As We Are acaba. Ela é viciada nessa novela.

— Oi, Bookie — diz ela quando se senta. Ela se espreguiça, boceja e revela o buraco enorme na axila da camiseta. Ela diz que é confortável demais e não quer se desfazer dela. Além do mais, tem a capa do primeiro disco do meu pai estampada. — Como foi na casa do Malik?

A resposta mais curta é a melhor resposta.

— Bom. Como foi As We Are ?

— Foi ótima hoje! Jamie finalmente descobriu que o bebê não é dele.

Ela está superanimada. Mas acho que está fingindo por minha causa.

— Opa, é sério? — eu pergunto.

— É! Já estava mais do que na hora.

Quando eu era mais nova, vovô me deixava assistir a novelas com ele todas as tardes no verão. Ele adora as “histórias”. As We Are era nossa favorita. Eu me sentava no colo dele, o ar-condicionado na janela soprando em nós e minha cabeça apoiada em seu peito enquanto Theresa Brady executava seu plano da vez com maestria. Agora, é uma coisa minha com Jay.

Ela inclina a cabeça e me olha por muito tempo, intensamente.

— Você está bem?

— Estou. — Eu também sei atuar.

— Não se preocupe, vou ligar pra superintendência pra falar disso — diz ela e vai para a cozinha. — Aqueles filhos da mãe não deviam ter voltado. Está com fome? Temos algumas salsichas que sobraram do café. Posso fazer um sanduíche pra você.

— Não, obrigada. Comi na casa do Malik. — Eu me sento no sofá. Agora que As We Are acabou, o noticiário da tarde está começando.

— Nossa história principal: uma movimentação de alunos ficou violenta hoje cedo na Escola de Artes Midtown — diz o apresentador. — Megan Sullivan nos conta mais.

— Aumenta isso, Bri — grita Jay da cozinha.

Eu obedeço. A repórter está na frente da minha escola, que agora está vazia.

— O dia começava na Escola de Artes Midtown — diz Megan Sullivan — quando os alunos se reuniram na porta e se manifestaram.

Eles mostram imagens de celular com cenas do que aconteceu hoje de manhã, com todo mundo na frente do prédio cantarolando “Você não me segura, não, não!”

— Autoridades da escola dizem que havia preocupações entre os alunos em relação a medidas de segurança recentes — diz Sullivan.

Jay chega na porta com o saco de pão de forma na mão, abrindo o arame.

— Medidas de segurança? Você está falando do fato de que aqueles dois voltaram ao trabalho?

— No entanto, o que começou como uma manifestação pacífica ficou logo violenta — diz Sullivan.

Agora, cenas de pessoas gritando, quando socos são dados e Long e Tate somem de vista. O noticiário bota um bipe acima de um “Ah, merda” que a pessoa que estava gravando diz.

— Seguranças foram atacados fisicamente por vários alunos — diz Sullivan. — De acordo com testemunhas, não demorou para a confusão começar.

— Nós estávamos todos do lado de fora, tentando entender o que estava acontecendo — diz uma garota branca. Ela é do departamento de música vocal. — De repente, as pessoas começaram a cantarolar uma música.

Ah. Não.

Outro vídeo de celular é exibido. Nesse, meus colegas cantam minha letra.

— “Vem pra cima de mim e vai levar porrada.”

— A música, chamada “Na hora da virada”, é atribuída a uma rapper local, Bri — diz Megan Sullivan. Eles mostram minha página no Dat Cloud. — A letra, com sua natureza violenta, inclui ataques contra agentes da lei e é sucesso entre os jovens ouvintes.

Quando me dou conta, minha voz está saindo da televisão, com bipes substituindo os palavrões. Mas não é a música toda. Só alguns pedaços.

 

Me jogou no chão, cara, maior ******...

Se eu fizesse o que queria e te desse uma porrada, Sua cara já estaria apodrecida e enterrada.

Os caras confundem mochila com pistola.

Acham que levo cartuchos pra minha escola.

Mas preciso ser sincera, eu te garanto,

Se a polícia me agredir, aqui não vai ter pranto...

 

O saco de pão de forma cai das mãos de Jay. Ela fica olhando para a televisão, paralisada.

— Brianna. — Ela fala meu nome como se fosse a primeira vez. — É você?

DEZOITO

 

Não sai nenhuma palavra da minha boca. Mas a letra que escrevi escapa pela televisão.

— Não me segura, não, não — cantarolam meus colegas de escola. — Não me segura, não, não!

— Enquanto usavam a música para provocar os seguranças da escola — diz Sullivan —, a letra pareceu encorajar os alunos a resolverem a questão com violência, com as próprias mãos.

Espera, o quê?

Não é o fato de que aqueles dois babacas agrediram todos os alunos negros e latinos.

Não é o fato de que quem deu o primeiro soco tomou a decisão sozinho.

É o fato de que estavam recitando uma música ?

— Vários alunos foram presos — continua ela. — Os seguranças foram hospitalizados, mas espera-se que se recuperem integralmente. Os alunos foram enviados para casa, enquanto as autoridades da escola trabalham para determinar a próxima ação. Teremos mais notícias às 18 horas de hoje.

A imagem fica preta. Jay desligou a televisão.

— Você não me respondeu — diz ela. — Era você?

— Não tocaram a música toda! Não é sobre atacar policiais...

— Era. Você?

De alguma forma, ela grita e fala com calma ao mesmo tempo.

Eu engulo em seco.

— Sim... sim, senhora.

Jay leva as mãos ao rosto.

— Ah, Deus.

— Me escuta...

— Brianna, o que você estava pensando? — grita ela. — Por que você diria aquelas coisas?

— Não tocaram a música inteira!

— Tocaram o suficiente! — diz ela. — Onde está a arma sobre a qual você falou, hein? Me mostra. Me conta . Eu preciso ver esses cartuchos que minha filha de 16 anos carrega por aí!

— Eu não carrego! Não foi isso que eu quis dizer! Tiraram de contexto!

— Você disse aquelas coisas. Não tem como fugir...

— Você pode me ouvir pelo menos uma vez? — eu grito.

Jay coloca as mãos na frente da boca como se estivesse rezando.

— Primeiro. Olha. O. Tom — rosna ela. — Segundo: eu estou ouvindo. Ouvi o suficiente pra escutar minha filha cantando rap como uma bandida!

— Não é assim.

— Ah, não? Então por que você não me contou nada sobre essa música antes? Hein, Brianna? De acordo com o noticiário, está bem conhecida. Por que você não falou nada?

Eu abro a boca, mas antes que consiga dizer uma palavra, ela diz:

— Porque você sabia muito bem que estava dizendo coisas que não tinha nada que dizer!

— Não, porque você tiraria conclusões!

— As pessoas só tiram conclusões em cima do que você oferece!

Ela... logo ela disse isso mesmo ?

— Então é por isso que todo mundo te acusa de estar usando drogas? — eu pergunto. — Estão tirando conclusões com base no que você oferece?

Ela não consegue dizer nada sobre isso de primeira.

— Quer saber? — Jay acaba dizendo. — Você tem razão. Você realmente tem razão. As pessoas vão supor coisas sobre você, sobre mim, não importa o que digamos ou façamos. Mas eis a diferença entre nós duas, Brianna. — Ela diminui o espaço entre nós. — Eu não estou dando às pessoas mais motivos para fazerem essas suposições sobre mim. Você me vê andando por aí falando sobre drogas?

— Eu...

— Você. Me. Vê. Andando. Por. Aí. Falando. Sobre. Drogas? — Ela bate as mãos a cada palavra.

Eu olho para os sapatos.

— Não, senhora.

— Você me vê agindo como se estivesse usando drogas? Me gabando de drogas? Não! Mas você se mostrou como tudo que as pessoas vão supor sobre você! Você pensou no que isso vai me fazer parecer, como sua mãe?

Ela ainda não está me ouvindo.

— Se você ouvisse a música toda... não é o que fizeram parecer, eu juro. É uma brincadeira sobre as suposições deles sobre mim.

— Você não tem esse luxo, Brianna! Nós não temos! Eles nunca acham que estamos brincando!

A sala fica silenciosa de novo.

Jay fecha os olhos e apoia a testa na mão.

— Meu Deus — murmura ela, como se falar isso fosse acalmá-la. Ela olha para mim. — Não quero mais você fazendo rap.

Dou um passo para trás como se ela tivesse me dado um tapa. A sensação é essa.

— O quê... mas...

— Eu me recuso a ficar de lado deixando você acabar como seu pai, está ouvindo? Olha o que ele ganhou com o “rap de gangue”. Uma bala na cabeça!

Eu sempre ouvi que meu pai se envolveu com as coisas das ruas porque fazia rap sobre as ruas.

— Mas eu não sou assim!

— E nem vou deixar que seja. — Jay balança a cabeça. — Não vou. Não posso . Você vai se concentrar na escola e vai deixar essa confusão pra lá. Eu fui clara?

A única coisa clara é que ela não entende. Não me entende. Isso dói mais do que a notícia.

Mas eu engulo o choro, como os Jacksons fazem, e a encaro.

— Sim, senhora. Está claro.

 

Está tão claro que quando Supreme me manda uma mensagem pedindo um encontro de manhã, nem hesito em aceitar. Ele viu o noticiário e quer falar comigo sobre isso.

Ele também viu que “Na hora da virada” é a música número um no Dat Cloud. O noticiário fez todo mundo procurar e ouvir.

Nós nos encontramos no Fish Hut, um lugar meio velho na Clover. É fácil para mim sair de casa. É sábado e Jay está fazendo a reunião mensal com os viciados em recuperação. Não temos comida suficiente para ela dar para todos, mas todo mundo está falando tanto que parece não importar. Digo para Jay que vou para a casa dos meus avós e ela está tão absorta na conversa que só diz “Tá”.

Em pouco tempo, estou na bicicleta com fones de ouvido, minha mochila e a corrente do meu pai dentro do casaco, a caminho da rua Clover.

Pedalo rápido para não congelar. Vovô diz que o tempo frio é a única coisa que faz o Garden parar. Isso explica por que as ruas estão quase vazias.

Pedalar pela Clover é como pedalar por uma zona de guerra abandonada. O Fish Hut é um dos únicos lugares que restaram. Tia Pooh diz que é porque o sr. Barry, o dono, botou “proprietários negros” nas portas durante as manifestações. É, ela estava lá quando aconteceu. Até participou de saques a lojas e levou duas televisões para casa.

Não tive notícias dela desde o Ringue. Ela não sumiu, nada disso. Jay falou com ela ontem à noite. Tia Pooh só não quer falar comigo.

O Hummer do Supreme está em uma vaga perto da porta do Fish Hut. Eu levo minha bicicleta para dentro. Seria burrice deixar do lado de fora. Eu nunca mais a veria. Além do mais, o sr. Barry não vai reclamar. Na verdade, ele diz “Oi, Li’l Law!” assim que eu entro. Posso fazer muita coisa por causa do meu pai.

O Fish Hut tem paredes de lambris de madeira, como a sala dos meus avós, mas tem uma camada meio escura e oleosa em cima. A vovó nunca deixaria a parede dela ficar assim. Uma televisão pendurada no teto, no canto, sempre exibe um canal de notícias, e o sr. Barry grita com o aparelho. Hoje, ele está atrás do balcão falando:

— Não dá pra acreditar em nada que sai da boca daquele idiota!

Supreme pegou uma mesa no canto. Estou começando a achar que ele nunca tira os óculos de sol. Ele está enchendo o bucho de peixe frito e ovos, o especial de café da manhã do Fish Hut. Quando me vê, ele limpa a boca.

— A celebridade da vez chegou.

Ele aponta para o lugar em frente ao dele. Encosto a bicicleta na parede, e ele faz sinal para o sr. Barry.

— Sr. B! Pode trazer o que ela quiser. Por minha conta.

O sr. Barry anota o pedido no bloco. Eu sempre achei que ele parecia um jovem Papai Noel, com a barba preta densa e o bigode. Está mais grisalho agora.

Escolho camarão e grits , um mingau salgado de milho, e um Sunkist. Nunca é cedo demais para beber Sunkist, suco de laranja com gás. Vou defender isso até morrer.

— Parabéns por ter chegado ao número um no Dat Cloud — diz Supreme depois que o sr. Barry se afasta. — Eu trouxe um presente de parabéns.

Ele tira uma sacola de presente de debaixo da mesa. Não é enorme, mas é bem pesada. Eu preciso pegar com as duas mãos. Dentro tem uma caixa de sapatos cinza-escura com um logotipo de árvore dentro.

Eu olho para Supreme. Ele mostra os dentes dourados.

— Anda — diz ele. — Abre.

Eu tiro a caixa da bolsa. Já sei o que tem dentro, mas meu coração acelera mesmo assim. Abro a tampa e não consigo segurar o “Ah, merda” que sai da minha boca.

Um par de Timberlands novinhos. Não os gastos que havia no centro comunitário, mas novinhos, nunca usados.

— Se o tamanho estiver errado, posso trocar, não tem problema — diz Supreme quando tiro um da caixa.

Passo o dedo na árvore em baixo-relevo na lateral da bota. Meus olhos estão ardendo. Trabalhei meses para comprar um par. Meses. E ainda não tinha conseguido o suficiente quando a dra. Rhodes me suspendeu por vender doces. Foi uma linha de chegada que não consegui alcançar. Mas Supreme está me dando um par como se não fosse nada.

E não acredito que vou dizer o que digo.

— Não posso aceitar.

— Por quê?

Meu avô diz que nunca se aceita presentes grandes que aparentemente não pedem nada em troca porque há uma boa chance de haver algo a ser feito em troca, e que você não vai conseguir pagar.

— Por que você comprou isso pra mim?

— Já falei, foi para te dar parabéns por chegar ao número um — diz ele.

— É, mas isso é muito caro...

Supreme ri.

— Muito caro? Só 150. Eu gasto mais do que isso em óculos escuros.

— Ah.

Droga. Queria que 150 dólares fossem um trocado para mim. Merda, devo parecer uma idiota dizendo que isso é um monte de dinheiro. Sem contar o quanto devo parecer pobre.

O sr. B traz minha comida. Fico olhando o prato por muito tempo.

— Não tem problema — diz Supreme. — Eu me lembro que também era dinheiro à beça pra mim. Fique com os sapatos. Juro, não vou pedir nada em troca.

Olho para meu par falso de sapatos. A parte de baixo começou a se separar lentamente do resto da bota. Duvido que dure mais um mês. Talvez nem uma semana.

Resmungo um “obrigada” e coloco os dois sapatos na mochila.

— De nada.

Supreme coloca molho de pimenta no prato.

— Achei que aquela merda no Ringue ia fazer as pessoas falarem. Mas você foi e se superou, não foi, garotinha?

Hum, ele viu o mesmo noticiário que eu?

— Não estão falando sobre mim de um jeito bom.

— Na verdade, essa é a melhor coisa que poderia ter acontecido com você. Publicidade é publicidade, não me importa se é ruim. Fez você ser a número um no Dat Cloud, não fez?

— É, mas nem todo mundo está ouvindo porque gosta. — Pode acreditar, eu caí na besteira de olhar os comentários. — E se as pessoas fizerem muito barulho por causa do que aconteceu na minha escola?

— Ah, então aquela é a sua escola?

Essa foi a única coisa que a reportagem não mencionou. Provavelmente não podem, por motivos legais.

— É. Parte do motivo das pessoas estarem chateadas foi que aconteceu uma coisa comigo.

Ele assente, como se isso fosse tudo o que precisa saber.

— Bom, acho que vão fazer muito barulho por causa da música. As pessoas adoram culpar o hip-hop. Acho que é mais fácil do que enfrentar o problema real, sabe? Mas, pensa, você está com companhias lendárias. Fizeram isso com o N.W.A., fizeram com o Public Enemy. ’Pac. Kendrick. Merda, qualquer um que já disse alguma coisa no microfone foi atacado por causa da forma como disse.

— É mesmo?

— Ah, é. Vocês jovens só não sabem. N.W.A. recebeu cartas do FBI por causa da música “Fuck tha Police”. Um garoto atirou em um policial e estava com uma música do ’Pac tocando no carro. Os políticos culparam a música.

— Porra!

— Pois é — diz Supreme. — Isso não é novidade. Eles amam nos fazer de vilões por falarmos a verdade. — Ele toma um gole de suco de laranja. — Você precisa de um agente de verdade pra que isso não fuja do controle e funcione a seu favor.

Um agente de verdade . A referência à tia Pooh é óbvia.

O sino da porta do restaurante toca. Supreme levanta a mão para chamar a atenção da pessoa.

Dee-Nice se aproxima. As correntes de ouro dele são quase tão compridas quanto os dreadlocks. Ele e Supreme batem mãos e terminam em um abraço lateral.

Supreme estica o pescoço para olhar do lado de fora.

— Estou vendo que você veio de BMW. — Ele cutuca Dee-Nice de leve, que ri. — Já está gastando o dinheiro.

— Eu tinha que mostrar a esses garotos como se faz. — Ele olha para mim. — A princesa do Garden. Finalmente nos conhecemos. Só posso te dar os parabéns, amor. — Ele faz comigo um daqueles apertos de mão de bater a palma na outra que os caras fazem às vezes. — Considerando aquela primeira batalha e a música? Você está arrasando.

Confissão: estou meio sem palavras. Impressionada até. Dee-Nice é uma lenda. O que você diz quando recebe o selo de aprovação de uma lenda?

— Ainda acho ridículo você ter perdido pro Ef-X daquela vez.

Ele e Supreme caem na gargalhada.

— O quê? — diz Dee-Nice.

Eu estudava batalhas bem antes de botar o pé no Ringue.

— Dois anos atrás você batalhou contra Ef-X — eu digo. — Seu flow foi insano. Ainda fico chocada por você ter elaborado aquela rima na hora. Você devia ter ganhado fácil.

— Uau. Estou vendo que você anda prestando atenção.

— Um MC precisa ser aluno antes de ser mestre — eu digo. — É o que minha tia sempre...

Os Timberlands. A aparição de Dee-Nice. Isso é uma armação para me tirar da tia Pooh.

Os sapatos são a isca, como se eu fosse um daqueles peixes gordos que o vovô gosta de pescar no verão, e Dee-Nice é a boia do Supreme. Mandar Dee-Nice falar comigo vai permitir que Supreme saiba se vou morder a isca ou não.

Sinceramente? Nadei para essas águas sabendo que provavelmente seria pescada. Eu sabia qual era o motivo desse encontro com o Supreme assim que ele me escreveu. Não importa que só o fato de eu estar aqui já magoaria a tia Pooh. Não importa o fato de que, se eu aceitar a proposta dele, vou ter que me livrar dela. Não importa que, se ela não for minha agente, provavelmente vai continuar nas ruas. Eu vim mesmo assim.

Que tipo de sobrinha eu sou por isso?

— Olha, sua tia parece boa gente — diz Supreme. — Mas você precisa de mais.

Eu mordo o lábio.

— Supreme...

— Me escuta — diz ele. — A verdade é que você tem uma oportunidade única aqui, Bri. Situações assim, publicidade assim. São coisas que não aparecem com frequência. Você tem que aproveitar. Dee não tinha a atenção que você está recebendo. Olha o que ele conseguiu. Eu também consegui um bom contrato com o trabalho do meu filho... se ele conseguir segurar a onda.

Dee-Nice ri. Estou por fora da piada aqui.

— Ele ainda está dando problema?

Supreme toma mais suco.

— Ele não consegue se concentrar em nada ultimamente. Mas essa é uma discussão pra outro dia.

Dee-Nice assente.

— Mas, quer saber, Bri? Esse cara aqui? — Ele aponta para Supreme. — Mudou a minha vida. Posso cuidar da minha família toda agora.

— De verdade?

— Ah, sim — diz ele. — Eu estava fazendo batalhas no Ringue, torcendo para chegar a alguma coisa algum dia, mas minha família estava passando dificuldade. Supreme apareceu, elaborou um plano, e agora a minha família não tem que se preocupar com nada. Estamos bem.

Bem. Uma palavra, uma sílaba.

 

Se pudesse, daria tudo que o mundo tem

Para deixar a minha família bem.

 

Engulo em seco com a garganta apertada e olho para Supreme.

— Se eu trabalhar com você, você pode garantir que a minha família vai ficar bem?

— Vou garantir que você e sua família fiquem bem — diz ele. — Você tem a minha palavra.

Ele estica a mão para mim.

É uma traição com a tia Pooh, mas é um caminho para a minha mãe e para o Trey. Eu aperto a mão dele.

— A gente vai receber uma grana! — Supreme praticamente grita. — Você não vai se arrepender, garotinha, juro que não. Mas uma coisa de cada vez, eu tenho que ir falar com a sua mãe. Nós três vamos nos sentar e...

Se minha vida fosse um programa de comédia, seria nesse momento que entraria o som de disco arranhado.

— Você, hã... você tem que falar com a Jay?

Supreme solta uma gargalhada insegura, como se dessa vez ele estivesse por fora da piada.

— Claro. Tem algum problema?

Problemas demais para citar. Eu coço a nuca.

— Isso pode não ser uma boa ideia agora.

— Tudo bem — diz ele lentamente, esperando que eu explique mais. Mas isso é tudo o que tenho para dizer. — Vou ter que falar com ela alguma hora. Você sabe disso, né?

Infelizmente. E ela acabaria com isso tudo num piscar de olhos.

Mas essa situação é como quando ela faz coisas de que eu não gosto e diz que é “para o meu próprio bem”. Isso é para o bem dela. Estou disposta a fazer qualquer coisa para impedir que aquela tristeza nos olhos dela se torne permanente.

— Me deixa falar com ela primeiro — eu minto para Supreme.

— Tudo bem. — Ele sorri. — Vamos trabalhar pra ganhar dinheiro, então.

DEZENOVE

 

Quando chego em casa, todos os viciados em recuperação foram embora e Jay está colocando latas no armário da cozinha. Tem sacolas cobrindo a mesa.

Tiro a mochila e a coloco no chão da cozinha.

— Como você conseguiu tudo...

— Garota, se você não botar essa mochila no seu quarto, eu juro que... — diz Jay.

Caramba, ela nem está me olhando! Sua visão periférica é o diabo.

Jogo a mochila no meu quarto. Devia ter feito isso de cara. Os Timberlands que Supreme me deu estão dentro. Ninguém tem tempo para o interrogatório que vai rolar quando Jay os vir.

Supreme falou durante horas sobre todos os planos que tem para mim. Ele quer que eu dê algumas entrevistas para falar sobre a situação, quer que eu faça uma música com Dee-Nice e uma com Miles. Quer que eu faça uma demo. Disse que vai pagar pelo tempo de estúdio e pela batida.

É difícil me animar sabendo que vou ter que dizer para a tia Pooh que basicamente vou abandoná-la e sabendo que não posso contar para a minha mãe ainda. Tenho que esperar que algumas coisas aconteçam primeiro. Tipo, ter um contrato de sete dígitos na mão e dizer: “Olha o que eu consegui!” Não tem como ela dizer não para isso.

Tudo bem, tem cem formas de ela dizer não, mas vou tentar um sim.

Ela está na frente do freezer quando volto para a cozinha. Coloca um pacote de frango dentro, ao lado dos legumes congelados que já guardou.

Eu olho em uma das sacolas. Tem biscoitos, pão, batata chips, suco.

— Tia Pooh trouxe tudo isso?

— Não, eu comprei — diz Jay.

— Como?

Ela fica com a cabeça na frente do freezer enquanto coloca outro pacote de carne congelada dentro.

— Recebi meu cartão EBT pelo correio hoje.

EBT? O cartão do benefício social?

— Mas você disse que não ia...

— A gente pode dizer muita coisa antes que algo aconteça — diz ela. — Nunca se sabe realmente o que se vai ou não fazer até estar passando por algo. Nós precisávamos de comida. A assistência social podia nos ajudar a ter comida.

— Mas achei que você tivesse dito que não dão isso para universitários se eles não tiverem emprego.

— Eu larguei a faculdade.

Ela fala de forma casual, como se eu tivesse perguntado sobre o tempo.

— O quê? — Falo tão alto que a xereta da sra. Gladys na casa ao lado deve ter ouvido. — Mas você estava tão perto de terminar! Você não pode largar a faculdade por causa de comida!

Jay me contorna para tirar uma caixa de cereal da sacola.

— Eu posso largar pra garantir que você e seu irmão não passem fome.

Isso...

Isso dói.

Isso dói fisicamente, porra. Sinto no peito, eu juro. Queima e dói ao mesmo tempo.

— Você não devia ter que fazer isso.

Ela vem até mim, mas observo o brilho de sol entrando pela janela e iluminando o piso. Vovô dizia: procure os pontos de luz. Sei que ele não quis dizer literalmente, mas é isso que eu tenho.

— Ei, olha pra mim — diz Jay. Ela segura meu queixo para garantir que eu vá olhar. — Está tudo bem. Isso é temporário, tá?

— Mas ser assistente social é seu sonho. E você precisa de um diploma pra isso.

— Você e seu irmão são meu primeiro sonho. O outro pode esperar que eu tenha certeza de que vocês estejam bem. É isso que os pais fazem às vezes.

— Você não devia ter que fazer isso — eu digo.

— Mas eu quero.

Isso torna tudo mais difícil. Ter que fazer é uma responsabilidade. Querer fazer é amor.

Ela bota a mão na minha bochecha.

— Eu ouvi sua música.

— Ouviu?

— Aham. Tenho que admitir que é contagiante. E também é brilhante, srta. Brilhante Bri. — Ela sorri e passa o polegar pela minha bochecha. — Eu entendo.

Duas palavras, mas que parecem tão boas quanto um abraço.

— É mesmo?

— É. Mas você entende o que eu quis dizer, não entende?

— Entendo. Você não quer que as pessoas façam suposições sobre mim.

— Exatamente. Nós temos que nos preparar, florzinha. Aquela notícia pode ser só o começo. Preciso que você fique na sua até tudo isso passar.

— O quê? Eu não posso sair? Nem ir pra escola? — Por mim, não tem problema nenhum.

— Garota! — Ela bate de leve no meu braço. Dou uma risada. — Não quero dizer tão na sua. Você ainda vai à escola, então nem vem. O que eu quero dizer é... — Ela faz uma pausa e procura palavras. — O que eu quero dizer é pra você não provocar. Não reagir a nada, não fazer nada. Só... aja como se estivessem falando de outra pessoa. Não vai pro Twitrer nem nada pra fazer comentários.

Continuar: parte 5 de 9